emilio fraia

11 HQs para ler no Dia do Quadrinho Nacional

Hoje é o Dia do Quadrinho Nacional! Para comemorar a data, listamos algumas dicas de HQs brasileiras para você ler e conhecer nossos autores. Confira!

1) Cachalotede Daniel Galera e Rafael Coutinho

CACHALOTE

Somando mais de trezentas páginas, as seis tramas de Cachalote são amarradas por temas e subtextos recorrentes, tais como o confronto dos personagens com acontecimentos drásticos ou misteriosos que transformam suas vidas, a conciliação da vida com a arte e a tentativa de preservar o afeto e o amor em relacionamentos ameaçados por circunstâncias adversas. Entre as histórias, há um escultor que recebe um inusitado convite para protagonizar um filme cujo roteiro parece estranhamente inspirado em sua vida privada, e uma velha senhora grávida e solitária vaga por sua mansão e tem encontros oníricos com uma baleia cachalote na piscina de sua casa.

2) Vida e obra de Terêncio Hortode André Dahmer

terencio

Começando a publicar suas tirinhas na internet, André Dahmer reúne em Vida e obra de Terêncio Horto as histórias de um escritor eternamente frustrado, tão ambicioso quanto amargurado. Terêncio passa os dias em frente a uma máquina de escrever, seja redigindo suas memórias, seja dando vida a personagens cínicos, desiludidos e de um pessimismo assombroso. É a partir desse esqueleto enganosamente simples que Dahmer vai dar vazão a impressões sobre literatura, pintura, música e, por que não?, sobre a vida em geral.

3) Campo em branco, de Emilio Fraia e DW Ribatski

campo

Numa trama sobre família e memória, o escritor Emilio Fraia e o quadrinista DW Ribatski tratam com suspense e humor, doçura e medo, a jornada de dois irmãos que se reencontram numa cidade estrangeira com a ideia de, aparentemente, refazer uma viagem da infância, quando visitaram com um tio uma cidade nas montanhas. A arte vibrante de Ribatski e os temas enigmáticos de Fraia combinam-se num road movie às avessas, onde a viagem só começa quando podemos reconstruí-la, desmontá-la, inventá-la.

4) Có! & Birds, de Gustavo Duarte

co

Gustavo Duarte teve passagem por vários jornais e revistas como cartunista, e com Có! & Birds despontou nos quadrinhos. As histórias de Gustavo, construídas inteiramente sem diálogos, são um primor do traço, da energia cinética e do humor torto e deslavado. Có! & Birds reúne pela primeira vez as aventuras do fazendeiro em guerra com os ETs que querem roubar seus porcos e a trágica história dos pássaros que tentaram enganar a morte.

5) Deus, essa gostosa, de Rafael Campos Rocha

deus

Nesta HQ, Deus assume a forma que, segundo consta, é a sua preferida: a de uma mulher negra, proprietária de um sex-shop, ligada nos movimentos mais exóticos (e esotéricos) do assim chamado amor carnal. Em Deus, essa gostosa, primeira graphic novel do artista plástico e quadrinista Rafael Campos Rocha, o leitor acompanhará sete dias na vida dessa Criadora incomum, fã de futebol e cerveja, amiga de Karl Marx e do Diabo em pessoa.

6) Diomedesde Lourenço Mutarelli

Diomedes

Esta é uma história policial de Mutarelli. Seu protagonista não é um tipo durão, envolvido com perigosas intrigas e belas mulheres. É um delegado aposentado, gordo e sedentário, em busca de uns trocados para completar o orçamento. Nunca resolveu um caso, e passa a maior parte do tempo bebendo e fumando em seu escritório imundo. No entanto, ao partir no encalço do há muito desaparecido mágico Enigmo, seu cotidiano ordinário fica para trás. Em busca da sorte grande e metido em circunstâncias cada vez mais desfavoráveis em seu caminho repleto de figuras bizarras, Diomedes será obrigado a usar todo o talento que jamais imaginou possuir para desvendar o “Enigma de Enigmo”.

7) Guadalupe, de Angélica Freitas e Odyr

guadalupe

Às vésperas de completar trinta anos, tudo o que Guadalupe quer é esquecer seu trabalho no sebo de Minerva, seu tio travesti. É ela quem pilota um furgão velho pela Cidade do México, apanhando coleções de livros que Minerva arremata por poucos pesos de famílias enlutadas. Mas um telefonema muda seus planos. No meio do pior engarrafamento do ano, fica sabendo que a avó, Elvira, morreu ao chocar sua scooter com uma banca de tacos sobre duas rodas. Como Guadalupe tem o furgão, ela é a única que pode cumprir o último desejo da avó: um enterro com banda de música em Oaxaca, onde nasceu. Guadalupe embarca com Minerva e sua inseparável poodle, mais o caixão, rumo à cidade. No caminho, contrariando a opinião de Guadalupe, Minerva dá carona a um exótico rapaz, que se diz guatemalteco, e os problemas começam.

8) Muchachade Laerte

Muchacha

Publicado originalmente na Folha de S.Paulo, Muchacha é, nas palavras do autor, o primeiro “graphic-folhetim” de sua carreira. Tendo como mote os bastidores de um programa de tevê, Laerte, ao mesmo tempo que cria uma elaborada e divertida revisão dos seriados de aventura da década de 1950, também faz uma espécie de resgate afetivo de suas memórias de infância.

9) A máquina de Goldberg, de Vanessa Barbara e Fido Nesti

goldberg

A máquina de Goldberg se passa num acampamento de férias onde Getúlio, um garoto punk e asmático, cumpre pena por ser antissocial na escola. Em meio à perversidade dos colegas e à temida hora da ginástica, ele conhece o zelador Leopoldo, um velho melancólico com uma obsessão: construir geringonças. Juntos, arquitetam uma ambiciosa vingança que une as fugas de Bach às variações de Rube Goldberg, numa engenharia absurda que vai se expandindo até derrubar todas as peças do dominó, instaurando o terror no coração da Montanha Feliz.

10) Memória de elefante, de Caeto

elefante

Tudo parecia ir bem para o quadrinista até que seus projetos caem por terra antes que possam alçar voos mais altos: suas HQs não chegam ao grande público, sua música não é comercial o suficiente para fazer sucesso e seus quadros são vendidos a conta-gotas. Em Memória de elefante, Caeto faz uma reconstrução prodigiosa de sua memória, narrando a agitada vida noturna paulistana, as aventuras sexuais, o calvário familiar, a passividade da mãe, a agonia do pai, vítima do vírus HIV, e a contribuição fundamental de cada uma das pessoas que o acompanharam em sua jornada desesperada rumo à redenção.

11) Toda Rê Bordosa, de Angeli

rebordosa

Mais de dez anos após o tenebroso assassinato, Angeli, um dos principais nomes do quadrinho brasileiro, ainda é cobrado por fãs por ter, literalmente, apagado Rê Bordosa. Surgida nas páginas da Folha de S.Paulo em 1984, Rê Bordosa extrapolou sua própria tira e tornou-se uma das mais conhecidas personagens da HQ nacional. Dotada de um humor ácido e de um cinismo incontornável, Rê Bordosa viveu porres homéricos, ressacas épicas e amores tão duradouros quanto uma tira de jornal. Reunidas pela primeira vez num álbum de luxo e restauradas digitalmente a partir dos originais do autor, as tiras de Toda Rê Bordosa trazem de volta à vida a musa do quadrinho brasileiro.

Novos colunistas no Blog da Companhia!

É com alegria que anunciamos que teremos novos colunistas aqui no Blog da Companhia das Letras!

Emilio Fraia, que lançou recentemente a graphic novel Campo em branco em parceria com DW Ribatski, escreverá mensalmente às terças-feiras, juntando-se a Carol Bensimon e Joca Reiners Terron. Ele foi um dos escritores brasileiros selecionados pela Granta e já escreveu dois posts aqui, “Um relato sobre o diário escrito quando eu tinha nove anos durante seis meses em 1992” e “United Colors of Branco”. Sua estreia como colunista será no dia 20.

Já nesta semana teremos a estreia de Paulo Scott, vencedor do Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional 2012 com o livro Habitante irreal. Ele alternará às sextas-feiras com Tony Bellotto, Leandro Sarmatz e Vanessa Ferrari. Ele já havia escrito o post “Uma procura” para nós, e em junho lançou o romance Ithaca Road pela coleção Amores Expressos.

Andréa del Fuego também estreará como colunista em breve. Seu primeiro romance, Os malaquias (Língua Geral, 2010), foi ganhador do Prêmio Saramago de literatura. Ela já escreveu no blog o post “Dos órgãos para os dedos”, e no começo deste mês lançou o livro As miniaturas.

Semana cento e cinquenta e nove

Os lançamentos desta semana são:

Campo em branco, de Emilio Fraia e DW Ribatski
Dois irmãos separados pelo tempo e pelo espaço, se reencontram numa cidade estrangeira. Não sabemos ao certo onde estão, tampouco conhecemos os caminhos que os fizeram chegar ali. Lucio, o mais novo, tenta entender o que o mais velho, Mirko, quer com ele. A ideia é refazer uma viagem da infância de ambos, quando visitaram com um tio uma cidade nas montanhas. Narrado por Lucio, o episódio se mescla a lembranças e, principalmente, a tudo aquilo que ele não consegue lembrar ou compreender — as imagens evocadas parecem escapar, como a dor fantasma de um braço amputado. Numa trama sobre família e memória, o escritor Emilio Fraia e o quadrinista DW Ribatski criam uma narrativa de estranhamento, cujo centro parece nunca se revelar. A arte vibrante de Ribatski e os temas enigmáticos de Fraia combinam-se num road movie às avessas, em que a viagem só começa quando podemos reconstruí-la, desmontá-la, inventá-la.

A mão invisível, de Adam Smith (Trad. Paulo Geiger)
Originalmente publicado em 1776, mesmo ano da Declaração da Independência dos Estados Unidos, A riqueza das nações é o texto mais influente do filósofo e economista escocês Adam Smith (1723-1790), autor central do liberalismo e um dos fundadores da economia política. Nesta seleção extraída de seu opus magnum, Smith investiga a natureza das trocas financeiras e comerciais responsáveis pelo enriquecimento dos indivíduos e dos Estados, bem como os ganhos revolucionários proporcionados pela divisão do trabalho na produção de manufaturas. Escrito na aurora da era industrial, o livro aponta para a existência de uma “mão invisível” — espécie de força autorreguladora intrínseca aos agentes do sistema capitalista — que garantiria o funcionamento equilibrado dos mercados de dinheiro, bens e serviços.

Boa-noite, girafa, de David Grossman (Trad. George Schlesinger)
Às vezes ficamos tanto tempo no banho que saímos meio transformados. O pai da Ruth, por exemplo, certa noite tira uma grande girafa japonesa da banheira. Mas ela está rindo e aquela voz não parece de girafa. Para se certificar, ele vai checando parte por parte do corpinho escondido embaixo da toalha… Nesta narrativa despretensiosa e acolhedora sobre uma brincadeira que todos os pequenos gostam de fazer, o premiado autor David Grossman diverte adultos e crianças. Certa vez, sobre suas histórias infantis, ele disse que seu objetivo era “escrever textos em que as crianças se sentissem em casa” — e foi exatamente isso que fez em Boa-noite, girafa.

Editora Paralela

O fator Scarpetta, de Patricia Cornwell (Trad. Renata Guerra)
Falta uma semana para o Natal. A economia americana do pós­-crise custa a se recuperar. Diante de um cenário tão desalentador, a dra. Kay Scarpetta resolve oferecer seus serviços pro bono ao Instituto Médico Legal de Nova York. Mas sua crescente exposição na mídia parece antecipar uma série de eventos inesperados e perturbadores. Ao vivo na CNN, ela é questionada sobre o estranho caso de Hannah Starr, uma bela milionária desaparecida desde a véspera do Dia de Ação de Graças. Durante a mesma transmissão, Scarpetta recebe uma ligação de uma antiga paciente psiquiátrica de Benton Wesley, que parece estar obcecada pelo casal. No mesmo dia, ao voltar para casa depois do programa, um pacote suspeito — possivelmente contendo uma bomba — é deixado aos cuidados seus. Rapidamente, a suposta ameaça à vida de Scarpetta a envolve numa rede surreal de acontecimentos em que se encontram um famoso ator acusado de um crime sexual inacreditável e o desaparecimento de uma ricaça que parece partilhar um passado secreto com Lucy, a sobrinha preferida de Kay. Complicando ainda mais a trama, o produtor de Scarpetta na CNN tenta persuadi-la a estrear um programa de TV chamado “O fator Scarpetta”. Diante de tantos acontecimentos bizarros, ela teme que sua fama resulte na ilusão de que ela realmente tem um “fator especial”, uma habilidade mística que a auxilia na resolução dos casos.

Editora Seguinte

Laços de sangue, de Richelle Mead (Trad. Ana Ban)
O trabalho de Sidney Sage não é nada fácil: ela e seus colegas alquimistas são os únicos a saber que vampiros existem para além das telas de cinema — e são uma ameaça real à humanidade. Para manter a ordem, eles devem impedir que esse segredo vaze e que os mortais se aproximem desses seres perigosíssimos. Agora a paz que os alquimistas vêm garantindo há tempos está prestes a desabar, e Sydney terá de proteger a princesa vampira Jill Dragomir, ou uma guerra pelo trono eclodirá no mundo dos vampiros e trará consequências avassaladoras para os homens. No entanto, defender alguém que até então era alvo de seu desprezo será mais difícil do que Sydney imaginava…
Na série Bloodlines há personagens antigos da Academia de Vampiros e outras caras novas. Desta vez, o cenário é o mundo dos humanos, onde os riscos são ainda maiores e todos estão em busca de sangue.

United Colors of Branco

Por Emilio Fraia

Na próxima quinta, dia 20, o DW Ribatski e eu lançamos nossa graphic novel, Campo em branco. Além de ser uma história sobre dois irmãos que se reencontram e decidem refazer uma viagem de infância (com toques de montanhismo, corridas de cachorro, física quântica e um carro chamado Urso), é também uma história sobre o branco. No quesito cor, um verde-limão poderia ser mais empolgante, é bem verdade. Todavia, durante o processo acabamos meio que obcecados por esta que é a cor da falta, daquilo que não se diz ou não se entende, da ambiguidade e da incompletude, da bolinha de pingue-pongue e do silêncio.

Escrever (ler) um livro é diferente de fazer (ver) um filme que é diferente de encenar (assistir a) uma peça. A máquina da graphic novel também tem seus parafusos próprios. Nela, para além do enredo, o que se quer dizer está no traço, nos enquadramentos, no tamanho e na disposição dos quadros (que puxa o leitor de um desenho a outro), no processo de virar páginas, na interação das cores. E nos espaços em branco — há uma sintaxe muito particular, e é ela que vai determinar o ritmo, o foco narrativo, o tom e produzir significados e dialogar com a trama.

Nos últimos anos passei a colecionar cenas e histórias em que a cor branca cumpre alguma função ou simplesmente aparece de um jeito bonito. Em determinado momento, fui cair (perdão) n’A pista de gelo, do Roberto Bolaño. É uma espécie de falso livro policial, que se passa num verão em Z, pequeno balneário fictício na costa catalã. O romance é narrado por três personagens, alternadamente, como se prestassem depoimento à polícia: o que está em jogo é um assassinato, ocorrido numa pista de gelo.

Plasticamente, nada parece melhor para um assassinato do que uma pista de gelo — o designer japonês Kenya Hara em seu interessantíssimo livro White escreveu que “o círculo vermelho da bandeira japonesa fica brilhante como o sol não pelo vermelho do círculo, mas por ter o fundo branco”. Sangue, gelo. É o tipo de coisa que Hitchcock aprovaria.

Quando encontra o cadáver, o narrador de Bolaño fica arruinado, suando frio. O que se segue é uma cena de cromatismo intenso, que mistura branco e os pantones 485 M e 304 U: “O sangue, de diversos pontos do corpo caído, havia escorrido em todas as direções, formando desenhos e figuras geométricas que à primeira vista tomei por sombras. Em alguns setores, o fio de sangue quase chegava à beira da pista. Ajoelhado, talvez por sentir náuseas e vontade de vomitar, contemplei como o gelo endurecido começava a absorver a totalidade da carnificina”.

O que acontece é que Enric Rosquelles, um dos narradores, braço direito da prefeita da cidadezinha, se apaixona por uma patinadora, a bela Nuria Martí. Pouco depois de se conhecerem, Nuria sofre um duro golpe: perde sua bolsa da Federação Espanhola de Patinação. A história maltrata demais o coração de Rosquelles. Sem o dinheiro, ela tem que viver permanentemente em Z, longe das viagens e dos treinos (no máximo ir, de trem, uma vez por semana, à pista de patinação de Barcelona).

Rosquelles arma então um plano megalomaníaco: com verba da prefeitura, aciona operários e constrói uma pista de gelo clandestina nos fundos de um palácio público abandonado. Bolaño observa a existência de um gerador que trabalha a toda potência e, num dos cantos da pista, um feixe de fios elétricos coloridos que some debaixo da “camada branco-azulada” em que a magnética Nuria passa a treinar e fazer suas piruetas.

O sangue mancha o branco. Mas é o branco da pista, em pleno verão da costa catalã, a verdadeira mancha aqui. Há suor, mosquitos, mato crescendo. O branco é um branco artificial, uma pequena ilha em meio a uma escuridão de personagens à deriva e sonhos mortos.

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“O secreto argumento desse romance é o medo e a vilificação do branco”, escreveu Borges, em seu ensaio “A arte narrativa e a magia”, sobre o único romance de Edgar Allan Poe, A narrativa de A. Gordon Pym.

Poe é mais cruel que Bolaño. No livro, o narrador, um jovem bem-nascido, chega ao limite da fome e da privação a bordo de um baleeiro, numa viagem ao extremo sul do continente. É encontrado, na parte final do romance, “no imenso e desolador oceano Antártico, numa latitude de mais de 84º, numa canoa frágil e sem provisão além de três tartarugas”.

Poe vai nos mostrar que o terror é a cor branca. O segredo que se intui, em meio ao longo inverno polar, é que o branco se relaciona a uma força selvagem, arcana e recôndita que no fundo nunca poderá ser explicada. “Mas eis que em nosso caminho ergueu-se uma figura humana velada, bem maior em suas dimensões que qualquer habitante da terra. E a cor da pele da figura era da perfeita brancura da neve”, escreve.

O romance é de 1838. O que faz pensar na história do explorador inglês Ernest Shackleton. Em agosto de 1914,  Shackleton e sua tripulação partiram do hemisfério norte com a intenção de serem os primeiros a atravessar a Antártida: em 18 de janeiro de 1915, a apenas 160 quilômetros de seu objetivo, o seu navio, o Endurance, ficou preso entre as placas de gelo no mar de Weddell.

A agonia durou nove meses. Junto à tripulação (homens recrutados a partir de um anúncio publicado num jornal britânico — “procura-se homens para uma viagem perigosa. Soldo baixo. Frio extremo. Longos meses de completa escuridão. Perigo constante. Não se garante retorno com vida. Honra e reconhecimento em caso de êxito”), estava um fotógrafo, Frank Hurley. As imagens noturnas feitas por Hurley são brutais: o barco preso no oceano de gelo; tudo branco, muito branco.

Existem muitos outros livros brancos. Alguns deles são brancos sem nem mesmo fazer referência ao branco — A consciência de Zeno, por exemplo. Porque às vezes, quando pensamos em cenas e histórias, elas têm uma cor. Guerra e paz é vermelho. O grande Gatsby é azul. Ulysses é verde-catarro. Espero que minha próxima fase cromática seja mais colorida. Talvez ir em busca do grande romance fúcsia de nosso tempo.

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Emilio Fraia nasceu em São Paulo, em 1982, é editor, jornalista e escritor. É autor da graphic novel Campo em branco (Quadrinhos na Cia., 2013, em parceria com DW Ribatski) e do romance O verão do Chibo (Objetiva/Alfaguara, 2008, com Vanessa Barbara). Foi repórter das revistas Trip e piauí e é colaborador da editora Cosac Naify, onde edita livros de ficção contemporânea, e da revista Bravo!
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Evento de lançamento de Campo em branco:

Quinta-feira, 20 de junho, às 19h30:
Sessão de autógrafos com Emilio Fraia e DW Ribatski e exposição de originais. Compre a HQ no local e ganhe um pôster exclusivo.
Local: Espaço Revista Cult – Rua Inácio Pereira da Rocha, 400 – Pinheiros – São Paulo, SP

Um relato sobre o diário escrito quando eu tinha nove anos durante seis meses em 1992

Por Emilio Fraia

Quando tinha nove anos, durante seis meses, mantive um diário. Escrevia todos os dias. É uma agendinha velha, preta e com adesivos de marcas de surfwear na capa (Hang Loose, Sea Club e Ocean Pacific). Cada entrada possuía doze linhas, que eu preenchia inteiramente, o que pensando agora devia fazer apenas para não deixar espaço vazio.

O caderninho ficava na casa dos meus pais, num armário abarrotado de pastas. Nunca dei muita bola para ele, até ler aquele que se tornaria o meu conto favorito da Lydia Davis.

Em 2009, a Farrar, Straus & Giroux publicou uma edição com os contos reunidos da autora norte-americana, um volume de capa salmão, 733 páginas e 197 histórias. O conto chama-se “We Miss You: A Study of Get-Well Letters from a Class of Fourth-Graders” (“Saudades: um estudo de cartas escritas por alunos de uma classe do quarto ano primário desejando melhoras a um colega”, que integra Tipos de perturbação, primeiro livro da autora publicado no Brasil, com tradução da destemida Branca Vianna).

O relato é exatamente o que diz o título: uma dissecação linguística e sociológica de vinte e sete cartas que alunos de uma classe do quarto ano escreveram para um coleguinha, Stephen, enquanto este se recuperava no hospital. Em dezembro de 1950, Stephen teve uma grave osteomielite (espécie de inflamação óssea, causada por uma bactéria) e foi internado. Após as férias de fim de ano, as aulas recomeçaram e a professora pediu, como tarefa de classe, que cada um dos alunos lhe escrevesse uma carta.

Como em praticamente todos os contos de Tchekhov, a tensão aqui não está dirigida para o desfecho. Logo no início, o narrador de Lydia diz, sem alarde: “Após algumas semanas de muita preocupação por parte de médicos, família e amigos, Stephen se recuperou, graças em parte a […]”. Já sabemos, portanto, que nada de pior vai acontecer, que Stephen saiu dessa, que não precisamos passar a história tensos torcendo pela sua melhora.

A linguagem do conto é clara, direta, o que contribui para o efeito maravilhoso de relatório. No mais, nada acontece — ou pelo menos não aparentemente. O narrador descreve a escola (um edifício grande, de tijolinhos, com salas de aula bem iluminadas), fala sobre a aparência geral das cartas (a maioria das crianças usa papel tipo carta, apenas quatro optam pelo tamanho ofício), analisa a caligrafia dos alunos (a letra cursiva “é consistente, toca na linha inferior e tem espaçamento regular”) e a extensão dos textos (“variam de três a oito linhas e de duas a oito frases”).

Seus comentários abrangem estilo, coerência, uso de verbos, conjunções e metáforas, além de categorizar tipos de saudações e expressões de simpatia — “volte logo/ queria que você estivesse aqui” aparece dezessete vezes.

À medida que as cartas vão sendo esmiuçadas, detalhes do cotidiano das crianças, de sua personalidade, seu estado de espírito e a relação delas com Stephen são revelados.

Algumas crianças falam do clima e de seus animais de estimação, outras relatam brincadeiras na neve e o que ganharam de presente no Natal. Cynthia, por exemplo, escreve: “Fui brincar de trenó uma vez e foi divertido. Fiz bonecos de neve mas eles caíram todos”. Joseph abre seu texto com uma expressão de empatia generosa: “Sei como você se sente”. E completa, de maneira 100% coerente: “Vou ganhar um casaco novo com capuz”.

Através desses fragmentos (e suas elipses), Lydia Davis apresenta essa pequena comunidade de crianças de nove anos, confrontada com a morte, a possibilidade da perda e o tédio. Ao terminar a leitura, a pergunta parece ser: quem é o narrador do conto? Por que ele está analisando essas cartas? É alguém que em posse de cartas antigas tenta descobrir ou lembrar algo de sua infância ou de algum irmão ou amigo? Não há nenhuma evidência de que o narrador seja homem ou mulher, mas talvez pelo fato da autora ser mulher, leio sempre como se fosse uma narradora.

Há uma frase de Tchekhov que poderia se passar por uma frase de Lydia: “mandem-me que escreva sobre esta garrafa, e sairá um conto intitulado ‘Uma garrafa’”.

É nas coisas e episódios pequenos, triviais e aparentemente sem importância que recai o interesse da autora, que na semana passada ganhou o prestigioso Man Booker Prize — o que podemos entender como a vitória cabal das garrafas, dos diários escritos aos nove anos, das cartas dos amigos de Stephen, das histórias sem desfecho nem fábula e, sobretudo, de uma outra frase de Tchekhov (que poderia se passar por uma frase de Lydia): “nada de pensamento: as imagens vivas e verdadeiras criam pensamentos, e um pensamento jamais criará uma imagem”.

Quando li “Saudades: um estudo de cartas escritas por alunos de uma classe do quarto ano primário desejando melhoras a um colega”, pensei que o conto talvez tivesse me ensinado a ler o meu diariozinho — prestando atenção nas lacunas, no que não está lá. Por que meu amigo voltou chorando da diretoria? Por que não gostei das pinturas? Que pinturas eram aquelas? Em que praia estávamos?

Num levantamento rápido, praticamente todas as entradas começam com “Hoje acordei/ Levantei/ Tomei café” e terminam com “vi televisão e fui dormir/ tomei banho, jantei e dormi”. As ações mais recorrentes são: jogar videogame, nadar, ver filmes, jogar bola e gravar programas de tevê. A conjunção mais comum é a inexpressiva aditiva “e”. Quase não há vírgulas nem pontos. Há, todavia, momentos de superação, como em 15 de janeiro: “hoje levantei notei que meu dente estava mole mas não liguei”.

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Emilio Fraia nasceu em 1982, é editor, jornalista e escritor. É autor da graphic novel Campo em branco (Quadrinhos na Cia., em parceria com DW Ribatski, que será lançada em junho) e do romance O verão do Chibo (Objetiva/Alfaguara, 2008, com Vanessa Barbara). Foi repórter das revistas Trip e piauí e é colaborador da editora Cosac Naify e da revista Bravo!
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