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Conheça nossos autores confirmados na Flip 2016

De 29 de junho a 3 de julho acontece a 14ª Festa Literária Internacional de Paraty. Em 2016, o tradicional evento literário de Paraty, no Rio de Janeiro, homenageia a poeta Ana Cristina Cesar, que teve toda a sua obra publicada pela Companhia das Letras em PoéticaNeste ano, onze autores do Grupo Companhia das Letras estão confirmados na programação principal da Flip, e mais cinco autores na Flipinha. Conheça!

Svetlana Aleksiévitch

Escritora Svetlana Alexijevich

O primeiro nome confirmado em 2016 foi o da Nobel de Literatura Svetlana Aleksiévitch. O primeiro livro da jornalista bielorussa publicado no Brasil é Vozes de Tchernóbil, que chegou às livrarias na última semana. No livro, Svetlana reúne relatos de viúvas, trabalhadores, soldados, bombeiros, médicos e cientistas que vivenciaram e sobreviveram ao desastre de Tchernóbil. O livro não só mostra a destruição que o acidente nuclear causou, mas apresenta também as consequências desse desastre na vida daquelas pessoas comuns. Em junho, lançaremos também A guerra não tem rosto de mulher, a história de soldadas soviéticas que lutaram durante a Segunda Guerra.

Svetlana participa da Flip no sábado, dia 2 de julho, às 17h15.

Misha Glenny

MishaGlenny - © Ivan Gouveia

Misha Glenny é um renomado jornalista e historiador britânico, trabalhou como correspondente do diário inglês The Guardian e da emissora BBC na Europa Central. Cobriu o colapso do comunismo nos países que pertenciam ao Pacto de Varsóvia e as guerras que despedaçaram a ex-Iugoslávia. Em junho, lança no Brasil o livro O dono do morro, que conta a história de Antônio Francisco Bonfim Lopes, um jovem pai trabalhador, que se transformou em Nem, o líder do tráfico de drogas na Rocinha. A partir de uma série de entrevistas na prisão de segurança máxima onde o criminoso cumpre sentença, Misha Glenny narra a ascensão e a queda do traficante, assim como a tragédia de uma cidade. Misha Glenny também publicou pela Companhia das Letras os livros McMáfia, sobre o crime organizado na globalização, e Mercado sombrioem que fala dos crimes na internet.

Misha Glenny divide a mesa “Os olhos da rua” com o jornalista Caco Barcellos na quinta-feira, dia 30 de junho, às 15h.

Karl Ove Knausgård

Karl Ove Knausgard 2012_Maria Teresa Slanzi

Karl Ove Knausgård nasceu em Oslo em 1968 e é considerado o mais importante escritor norueguês de sua geração. Conquistou leitores do mundo todo com a série Minha luta, livros híbridos entre a ficção e a memória, em que o autor explora, com pleno domínio da atividade narrativa, as possibilidades da ficção contemporânea. No Brasil, os três primeiros títulos da série já foram lançados — A morte do pai, Um outro amor A ilha da infância. Em junho chega às livrarias Uma temporada no escuro, quarto livro da série que será centrado na juventude do escritor.
O encontro com Knausgård acontece na sexta-feira, 1º de julho, às 17h15.

Marcílio França Castro

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De Belo Horizonte, Marcílio França Castro é mestre em teoria literária pela UFMG, publicou A casa dos outros e Breve cartografia de lugares sem nenhum interesse, pelo qual recebeu o Prêmio Literário Biblioteca Nacional. Pela Companhia das Letras, publica em maio Histórias naturais, livro que exibe um fantástico domínio técnico, um olhar original sobre as relações humanas e um ponto de vista singular para tratar a matéria imaginativa em contos sobre as estranhezas que compõem a vida cotidiana.

Marcílio França Castro divide a mesa “Histórias naturais” com Álvaro Enrigue na quinta-feira, 30 de junho, às 17h15.

Bill Clegg

Bill Clegg © Brigitte Lacombe

Bill Clegg é agente literário em Nova York. Sua estreia como autor foi com Retrato de um viciado quando jovem, livro em que narra sua experiência como usuário de crack. O livro recebeu elogios de diversos críticos e de escritores como Michael Cunningham e Irvine Welsh, e ganhou uma sequência em Noventa dias, que aborda sua reabilitação. Em maio, lança no Brasil Você já teve uma família?, seu primeiro romance, com personagens que procuram conforto nos lugares mais improváveis para superar suas tragédias pessoais.

Bill Clegg participa da mesa “Na pior em Nova York e Edimburgo” com Irvine Welsh na quinta-feira, 30 de junho, às 21h30.

Tati Bernardi

Retrato Tati Bernardi para Companhia das Letras, Janeiro de 2016.

Tati Bernardi já conquistou uma legião de leitores com a sua coluna na Folha de S. Paulo. Além da sua coluna, também é autora da Rede Globo e roteirista de cinema. Em fevereiro deste ano, lançou Depois a louca sou eu, um relato bem-humorado e escrachado que relembra suas histórias de pânico e ansiedade. As primeiras crises de pânico, a mania de fazer listas, o medo de viajar de avião, os remédios tarja-preta estão neste livro, onde tudo aparece sob o filtro de uma cabeça fervilhante de pensamentos, mãos trêmulas, falta de ar, taquicardia e, sobretudo, humor.

Tati Bernardi divide a mesa “Mixórdia de temáticas” com Ricardo Araújo Pereira no domingo, 3 de julho, às 12h.

Armando Freitas Filho

Armando Freitas Filho -® Bel Pedrosa

O poeta Armando Freitas Filho nasceu no Rio de Janeiro em 1940. Foi pesquisador na Fundação Casa de Rui Barbosa, secretário da Câmara de Artes no Conselho Federal de Cultura, assessor do Instituto Nacional do Livro no Rio de Janeiro, pesquisador na Fundação Biblioteca Nacional, assessor no gabinete da presidência da Funarte. É autor de Palavra, Dual, À mão livre, 3×4 (Prêmio Jabuti de Poesia, 1986), De cor, Números anônimos, Fio terra (Prêmio Alphonsus de Guimaraens da Biblioteca Nacional, 2000), entre outros livros. Reuniu sua obra poética em Máquina de escrever (2003). Pela Companhia das Letras, publicou os livros Dever, Lar, Raro mar. Em junho, lança Rol. 

Armando Freitas Filho participa da mesa de abertura da Flip na quarta-feira, dia 29 de junho, com Walter Carvalho.

Valeria Luiselli

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Valeria Luiselli nasceu na Cidade do México, em 1983. É colaboradora da revista Letras Libres e seus textos já foram publicados nos jornais The New York Times e Reforma. Ela vive atualmente entre o México e Nova York, onde faz um doutorado na Universidade Columbia. No Brasil, publicou pela Alfaguara Rostos na multidão, um romance multifacetado e emocionante sobre uma jovem mãe de duas crianças pequenas que tenta escrever um romance sobre sua juventude em Nova York e a obsessão que tem por um excêntrico e obscuro poeta mexicano. Em junho, a Alfaguara lança seu novo romance, A história dos meus dentes.

Valeria Luiselli participa da mesa “A história da minha morte” com J. P. Cuenca, na sexta-feira, 1º de julho, às 12h.

Álvaro Enrigue

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Álvaro Enrigue nasceu em Guadalajara, México, em 1969. Tem sido considerado um dos mais imaginativos e poderosos ficcionistas da literatura de língua espanhola. Publicou contos e romances, mas foi a partir de Morte súbita que se tornou um autor mundialmente reconhecido. O romance chega às livrarias brasileiras em maio, uma narrativa alucinante e vertiginosa que começa em uma partida de tênis e se transforma numa história alternativa da humanidade.

Álvaro Enrigue divide a mesa “Histórias naturais” com Marcílio França Castro na quinta-feira, 30 de junho, às 17h15.

Vilma Arêas

Vilma Areas©Lucila Wroblewski

Fluminense, Vilma Arêas estreou na ficção com Partidas (contos, Francisco Alves, 1976). Aos trancos e relâmpagos (literatura infantil, Scipione, 1988) e A terceira perna (contos, Brasiliense, 1992) mereceram o prêmio Jabuti. Em 2002, Trouxa frouxa (contos) recebeu o prêmio Alejandro José Cabassa (44o. aniversário da União Brasileira de Escritores), e em 2005 Clarice Lispector com a ponta dos dedos (ensaio) recebeu o prêmio APCA categoria literatura. Professora titular de literatura brasileira na Unicamp, Vilma Arêas ainda publicou pela Companhia das Letras o livro Vento sul.

Vilma Arêas participa da mesa de encerramento “Luvas de pelica” com Sérgio Alcides no domingo, 3 de julho, às 14h.

Patrícia Campos Mello

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Patrícia Campos Mello, jornalista paulistana, atualmente é repórter especial e colunista da Folha de S. Paulo. Cobrindo economia, relações internacionais e direitos humanos há 15 anos, já esteve em quase 50 países fazendo reportagens. É autora de Índia: da miséria à potência (Planeta, 2008) e prepara Lua de mel em Kobani, com publicação prevista pela Companhia das Letras, em que narra a história da guerra contra o estado islâmico na Síria através do olhar de um casal de refugiados.

Participa da mesa “Siria mon amour” no domingo, dia 3 de julho, às 10h com Abud Said.

Flipinha

Ernani Ssó

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Ernani Ssó é autor de livros infantis como Castelos e fantasmasCom mil diabos! Contos de gigantesTambém é tradutor da edição da Penguin-Companhia de Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Na Flipinha, o autor participa do “Mesão: desafios literários”, às 9h do dia 30 de junho, com Lázaro Ramos, Angela-Lago e a dupla Palavra Cantada. Já no sábado, dia 2 de julho, ele participa da mesa “Histórias de arrepiar!”, com Alexandre de Castro Gomes, às 10h30.

Angela-Lago

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Nasceu em Belo Horizonte, em 1945. Viveu na Venezuela e na Escócia. Há vinte anos escreve e ilustra livros para crianças, como os livros O caixão rastejante e outras assombrações de família, Muito capeta Sete histórias para sacudir o esqueletoNa quinta-feira, dia 30 de junho, participa do “Mesão: desafios literários”, às 9h, e da mesa “Caderno de segredos” com Lázaro Ramos, às 10h30.

Patricia Auerbach

Nasceu em São Paulo, em 1978. Se formou em arquitetura e trabalhou como diretora de arte, artista plástica e professora de história da arte. Desde pequena sempre adorou desenhar, escrever e inventar histórias. Hoje é autora e ilustradora de livros infantis, professora e mãe, e lançou pela Companhia das Letrinhas o livro Histórias de antigamentePatricia participa da mesa “Diálogos texto e imagem” no dia 1º de julho, às 10h30, com Aline Abreu.

Blandina Franco e José Carlos Lollo

Blandina Franco e José Carlos Lollo são a dupla responsável pelas historinhas do cãozinho Pum, como Soltei o Pum na escola! e Quem soltou o Pum?Em 2016 lançaram ErnestoBlandina e Lollo participam da mesa “Histórias parceiras” no dia 3 de julho, às 10h30, com Laura Castilhos.

Semana vinte e cinco

Os lançamentos desta semana foram:

Contos completos de Lima Barreto (Organização de Lilia M. Schwarcz)
Com organização, introdução e notas de Lilia Moritz Schwarcz, esta edição reúne os 149 contos do autor, resgatados por meio de pesquisas em manuscritos, edições originais, jornais e revistas da época. Tanto os contos menos conhecidos quanto alguns mais famosos, como “A Nova Califórnia” e “O homem que sabia javanês”, ressaltam o aspecto autobiográfico que, segundo a organizadora, perpassa toda a carreira de Lima Barreto.

Vergonha, de Salman Rushdie (Tradução de José Rubens Siqueira)
Vergonha conta a história da disputa pelo poder entre dois homens: o eminente oficial do Exército Raza Hyder e seu primo, Iskander Harappa, cada qual autoritário a sua moda. Ao redor das truculentas figuras estão Sufiya Zinobia e Omar Khayyam Shakil. Sufiya é a filha de Hyder, nascida depois da morte do esperado primogênito e desprezada desde o primeiro instante. Com a capacidade sobrenatural de absorver a vergonha e as emoções reprimidas de todos, a menina ruboriza a ponto de queimar as mãos de quem a toque. Ela se casará com o médico Omar Khayyam, dando início à união simbólica do excesso de vergonha com a falta absoluta dela. Conduzindo o enredo de volta às esferas principais do poder, ou seja, aos efeitos que esse casamento absurdo irá provocar na disputa entre Raza e Iskander, Rushdie demonstra de maneira inequívoca que um povo regulado pela vergonha acaba recriando um cenário de violência.

A vida secreta da guerra, de Peter Beaumont (Tradução de José Viegas)
Neste relato pouco usual da guerra contemporânea, Peter Beaumont, jornalista e correspondente internacional do Observer, mostra que a privatização dos conflitos bélicos por pequenos grupos armados e a fragmentação de Estados nacionais instáveis transformaram a guerra em um modo de vida, o que representa um desafio quase intransponível para exércitos “tradicionais”. A vida secreta da guerra é resultado de um dos mais corajosos trabalhos de jor-nalismo investigativo dos últimos anos, que levou o autor a viajar muitas vezes sozinho e sem guarda-costas para os lugares mais perigosos do mundo e permitiu uma rara proximidade e intimidade com os entrevistados.

O rei do picles, de Rebecca Promitzer (Tradução de Érico Assis)
A cidade de Elbow é conhecida por apenas duas coisas: chuva e picles. Chove todo dia em Elbow, principalmente no verão, e sem parar. E é de lá que vem o Chili Herman Língua do Diabo, o picles mais potente já criado pelo homem e o prato oficial da cidade. Mas Bea e seus amigos – as únicas crianças que não foram viajar nas férias de verão – vão descobrir que Elbow tem um terceiro ingrediente: mistério. Movidos pela curiosidade e pelo tédio, os Condenados da Chuva então se unem para desvendar os motivos do assassinato de Herman, o adorável dono da fábrica de picles.

Recordações do escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto
Apoiando-se no tema do racismo e da exclusão social, este romance de estreia de Lima Barreto discorre sobre a incapacidade do país de incorporar os negros na sociedade e traça um panorama histórico e social do começo do século XX. Resgatando a atualidade de Lima Barreto sob o viés da crítica literária, Alfredo Bosi defende na introdução do livro que Recordações é um dos grandes romances da literatura brasileira. Essa edição traz também um prefácio de Francisco de Assis Barbosa, historiador que fez um importante estudo sobre o autor, valendo-se de dados biográficos e contextualizando o livro à época em que foi publicado. E, ainda, mais de cem notas elaboradas por Isabel Lustosa, que comenta fatos históricos e nos revela quem eram as pessoas e os lugares retratados no livro.

Os ensaios, de Montaigne (Tradução de Rosa Freire d’Aguiar)
Personagem de vida curiosa, Michel Eyquem, Seigneur de Montaigne (1533-1592), é considerado o inventor do gênero ensaio. Herdeiro de uma fortuna deixada pelo avô, um comerciante de peixes abastado, foi alfabetizado em latim e prefeito de Bordeaux. A certa altura, retirou-se para ler, meditar e escrever sobre praticamente tudo. Esta edição oferece ao leitor brasileiro a possibilidade de ter uma visão abrangente do pensamento de Montaigne, sem que precise recorrer aos três volumes de suas obras completas. Selecionados para a edição internacional da Penguin por M. A. Screech, especialista no Renascimento, os ensaios desta edição passam por temas como o medo, a covardia, a preparação para a morte, a educação dos filhos, a embriaguez, a ociosidade. Trata-se da primeira edição brasileira que utiliza a monumental reedição dos ensaios lançada pela Bibliothèque de la Plêiade, que, por sua vez, se valeu da edição póstuma dos ensaios de 1595. Leia um texto de Rosa Freire d’Aguiar sobre a tarefa de traduzir este clássico.

Irmãos, de Yu Hua (Tradução de Donaldson M. Garschagen)
Irmãos conta cerca de quarenta anos de uma pequena cidade chinesa, narrados a partir da vida de dois meninos, Song Gang e Li Carequinha, que se tornam irmãos quando o pai de um se casa com a mãe de outro. Inseparáveis, eles não poderiam ser mais diferentes: um é irrequieto e aproveitador, e o outro, puro e dedicado; um deles vira milionário e mulherengo, até se tornar o homem mais poderoso da Cidade de Liu, e o outro, permanece operário e marido fiel, até seu triste fim. Uma crítica ácida e espirituosa à realidade chinesa por meio de uma história familiar. A violência do regime maoísta e o tsunami da nova economia ganham uma narrativa em que o humor e a tragédia caminham juntos e apontam para os contrastes atuais de um país em que imperam o controle político, a liberalização econômica, a miséria e uma prosperidade que parece não ter limites.

Com mil diabos, de Ernani Ssó (Ilustrações de Edgar Vasques)
Há muito tempo, quando os bichos falavam pelos cotovelos, um escritor resolveu escrever um livro sobre diabos. Depois de meses de pesquisa, desanimou: as histórias eram danadas de bobas. Mas, muito tinhoso, esse escritor foi em frente; pensou até em fazer um pacto com o próprio coisa-ruim. Ainda bem que isso não foi necessário, pois Ernani encontrou seis histórias deliciosas sobre esse anjo rebelde, que na verdade tem tantos nomes quanto faces diferentes. Tem história em que ele parece muito maldoso mas revela um coração mole; em outras é horroroso até o fim – porém, no final das contas, acaba em geral levando a pior por uma incrível falta de esperteza. Escritor de mão-cheia e extremamente zeloso, Ernani faz um extenso trabalho de pesquisa para encontrar as melhores narrativas, que são depois recontadas à sua maneira, preservando a oralidade da contação de histórias.

A morte e as crianças

Por Ernani Ssó

Acho mais difícil escrever para crianças do que para adultos, porque os adultos eu sei (mais ou menos) quem são. Mas acho mais fácil falar com crianças. Não devia. Afinal, numa conversa não dá pra se usar a tecla delete e começar tudo de novo, e o problema de quem são as crianças continua — e de pertinho, ainda por cima. Só que, na maioria das vezes, acontece uma mágica entre nós.

Quando escrevi os Contos de morte morrida e me chamaram para falar com alunos sobre eles, torci como nunca por essa mágica.

Logo no começo da pesquisa para escrever o livro, me dei conta de que a Morte era apenas outra personagem, como a bruxa ou o ogro, tanto que vinha em maiúscula. Agora tive a comprovação disso com crianças bem pequenas: perguntei a elas se a Morte andava por aí encapuzada e com uma gadanha. Claro que não, foi a resposta geral. Elas sabiam que essa Morte, em seu belo modelito medieval, é apenas uma imagem para podermos aprender a lidar com a outra, a que se escreve com minúscula. O fato de alguns pais acharem que protegem os filhos se calando sobre o assunto, ou afastando-os de livros que tratam dele, é outra história complicada, bastante parecida com a da avestruz.

Outra personagem apenas? Não. A Morte emociona mais — mais até que a bruxa, a campeã absoluta na modalidade meter medo. Por exemplo, algumas crianças me contaram que os irmãos maiores, os pais e os avós leram os Contos de morte morrida. Havia nessa revelação uma ponta de ironia e também de orgulho. É que a maioria das famílias ignora as leituras dos filhos na escola, ou não tem muita paciência com elas.

A Morte vinha me proporcionando boas alegrias, mas dentro de uma faixa segura, digamos: dos oito anos para cima. Então fui convidado a falar na escola Pato, uma das mais antigas de Porto Alegre, fundada em 1967, e referência na educação infantil. A turma da professora Patrícia Dexheimer, com crianças de cinco para seis anos, faz seu último ano por lá. Como preparação de saída para o ensino fundamental, há muitas atividades que envolvem separação, perda, mudanças, essas coisas. Foi assim que a Patrícia teve a ideia de ler os Contos de morte morrida em aula. No início, algumas crianças se mostraram receosas, mas depois da leitura da apresentação do livro (que também é uma história), a Morte, com sua velha gadanha, conquistou a turma. Um detalhe interessante: a pedido de alguns alunos, os finais dos contos foram lidos mais de uma vez, para que não houvesse dúvida de que os personagens tinham morrido mesmo.

Um dia, na biblioteca, com as crianças folheando livros e revistas, a professora Patrícia ouviu o seguinte pingue-pongue:

— Olha, o Cebolinha morreu aqui.

— Mas essa revista não é do Ernani Ssó.

— Claro que não. Não é só ele que escreve sobre a Morte.

Como, felizmente, a Morte não é monopólio meu, as crianças resolveram criar uma história, inclusive parodiando meu estilo. O papel da professora, é bom que fique claro, foi apenas o de secretária.

Na minha alegria, só não soltei foguetes porque sou contra foguetes. Se eu precisasse de uma prova de que não devemos subestimar as crianças, de que devemos apostar sempre na inteligência, os alunos da professora Patrícia teriam me dado uma das melhores. Vejam como pegaram direitinho o espírito da coisa:

A Morte e o palhaço

Há muito tempo, quando os bichos falavam e existia um monte de cachoeiras na cidade, uma pessoa deu uma festa e convidou o palhaço.

O palhaço apareceu na festa e a Morte veio conversar com ele. Já estava perto da meia-noite, e ela falou:

— Aproveite bem a festa enquanto viver.

A Morte foi embora.

O palhaço se divertiu muito fazendo palhaçadas, mas depois se fantasiou de convidado e saiu da festa.

Quando a Morte chegou e procurou pelo palhaço, não o encontrou. Foi até a casa dele, bateu na porta e ninguém respondeu. Aí a Morte derrubou a porta com a gadanha e entrou.

A Morte procurou, procurou e achou o palhaço escondido dentro do fogão, que estava ligado. Aí ela falou:

— Cheguei bem na hora!

* * * * *

Ernani Ssó nasceu em Bom Jesus, RS. Tem livros para adultos, mas prefere os infantis. Dele, a Companhia publicou Contos de morte morrida e Virou bicho!, entre outros. Tem uma coluna semanal no site Coletiva.net.