ernesto sabato

A metafísica da esperança

Por Rosa Freire d’Aguiar

Em setembro de 1981, o escritor argentino Ernesto Sabato (falecido no último 30 de abril, semanas antes de completar cem anos) e sua mulher Matilde estavam em Biarritz como convidados especiais do festival de cinema ibero-latino-americano. Um dos filmes da mostra era El poder de las tinieblas, dirigido por seu filho Mario Sabato. Mario fizera uma adaptação do “Relatório sobre os cegos”, essa espécie de novela encaixada no romance de Sabato, Sobre heróis e tumbas, e que conta a alucinante história de uma seita de cegos que governa o mundo.

Eu estava em Biarritz com meu marido, Celso Furtado, que decidiu me acompanhar quando soube que lá encontraria Sabato e Matilde. Conheciam-se desde o fim dos anos 40, quando os três moraram em Paris. Além da cobertura do festival, eu faria para a IstoÉ, da qual era correspondente, uma longa entrevista com Sabato. Num sábado, às onze da manhã, nos encontramos no restaurante quase vazio do Hotel du Palais, o belo palacete que Napoleão III mandou construir para sua mulher, a imperatriz Eugénie, e que por muitos anos foi ponto de encontro da nobreza europeia em vilegiatura pelo sul da França. Magro, miúdo, Sabato parecia mais moço que seus setenta anos. O rosto sério, os óculos de lentes grossas e escuras debaixo da testa franzida, o ar de aparente ausência passavam uma funda impressão de angústia e tensão. Ele nos ofereceu um exemplar de Apologías y rechazos, que chegava à quarta edição. Na dedicatória, a “admiración y el afecto” vinham em letra miudinha, quase ilegível. O livro devia a vida à insistência de Matilde.

Sim, doce Matilde!, que salvou do fogo centenas de páginas escritas pelo marido. Sabato admitia ser um “piromaníaco sistemático”, que queimou, no quintal da casa de Santos Lugares, nos arredores de Buenos Aires, o equivalente a quinze romances. Escaparam três: O túnel (1948), Sobre heróis e tumbas (1961) e Abadon, o exterminador (1974), um a cada treze anos. E os livros de ensaios. Agora, ele não escrevia mais. Estava ficando cego. Poucos meses antes os médicos tinham lhe diagnosticado uma lesão na retina e o proibiram de ler e escrever. Senti a garganta apertar ao ouvir essa revelação, trágica para qualquer pessoa, mais ainda para um escritor. Mas Sabato a fez em tom tranquilo e quase irônico: “Até parece uma vingança da Seita dos Cegos”.

Lembrei que a cegueira era presença constante na sua ficção: cegos de nascimento ou por acidente, cegos ricos ou cegos pobres vendendo bugigangas no metrô, cegos vivendo nos esgotos de Buenos Aires. Sem falar de Victor Brauner, o pintor surrealista que Sabato conheceu quando frequentava os ateliês de Montparnasse. Brauner, que pintava cegos de olhos vazados, certo dia foi desapartar uma briga entre os pintores espanhóis Oscar Domínguez e Esteban Frances, e acabou levando em pleno rosto um copo, que lhe arrancou um olho. Ali na minha frente estava um homem que muito escrevera sobre cegos e estava prestes a perder a visão. E que ia a um festival de cinema para prestigiar um filme sobre, justamente, uma seita de cegos que ele mesmo criara.

A conversa enveredou para a política em nossos dois países, ainda comandados por generais. Na Argentina, dizia Sabato, os militares chegaram aonde chegaram porque “muitos homens eminentes se negaram a participar da vida política”. Celso lembrou que nos dois países era corrente se afirmar que a política é uma atividade suja. Sabato rebateu, imperceptivelmente agastado: “A política é real, e a realidade é suja. Só o mundo platônico é limpo, e até a arte mais perfeita está ligada à sujeira”. Na adolescência, tinha se ligado aos anarquistas de La Plata, depois ao movimento comunista — “passei perigos de morte, mas nunca fui comunista de salão, tampouco fui revolucionário de bar” —, do qual se afastou quando começaram os processos de Moscou. Três anos depois dessa conversa, ele empenharia toda a sua autoridade moral para presidir a comissão que investigou os desaparecimentos e os crimes da ditadura argentina, e da qual resultou o relatório Nunca más.

Fazia muitos anos que os três não se encontravam. Falaram dos amigos comuns; de Jorgito Sabato, o outro filho, economista, que tinha sido aluno de Celso num pós-doutorado na Sorbonne (e que morreria prematuramente em 1996 num desastre de carro); do sucesso que era na Argentina a novela A escrava Isaura, cujos capítulos Sabato e Matilde lamentavam estar perdendo; da pintura, paixão de infância que ele retomou furiosamente ao ter de abandonar a leitura. Depois da entrevista, de quase duas horas, saímos a pé pela cidade, fizemos umas fotos e fomos assistir ao último filme de Glauber Rocha, A idade da terra, que passava hors concours no festival. Embora enxergasse tão mal e o filme durasse três horas, Sabato estava curioso para ver o último trabalho do cineasta, que morrera semanas antes. A curiosidade durou pouco mais de meia hora. Ele e Matilde foram vencidos pelo apocalipse glauberiano. Despediram-se e se retiraram.

Vinte anos depois, traduzi para a Companhia das Letras Sobre heróis e tumbas, essa grande saga em que se cruzam a história da Argentina, desde os heróis da Independência até Perón, e a história de Alejandra, descendente de uma velha família da oligarquia cujos antepassados lutaram sob as ordens do general Juan Lavalle. É justamente o pai incestuoso de Alejandra, Fernando, que no romance investiga a maléfica seita e escreve o “Relatório sobre os cegos”. Traduzir esse livro foi um reencontro com um imenso escritor que viveu todos os combates do seu século mas teve um reconhecimento muito menor que o merecido. Sabato não se beneficiou do boom da literatura latino-americana nos anos 60 e 70. Nos arraiais literários da Europa, a literatura argentina parecia se resumir a Cortazar e Borges. Deste, aliás, Sabato era o contrário, e talvez um discreto opositor: nas concepções políticas, no papel da literatura, nas origens.

Na virada de 2000, quando Sabato publicou Antes do fim, ele e Celso trocaram cartas afetuosas e nostálgicas. Em 2002, convidado a apresentar um autor para o Nobel de literatura, Celso o indicou. Na carta enviada à Suécia, lembrou o lugar à parte de sua obra na literatura latino-americana. E concluiu: “ela traduz a formação e o retrato de uma nação cuja história é um exemplo único de crisol das culturas europeias e indígenas; Ernesto Sabato, nascido em 1911, é um escritor comprometido com seu século, e cujos livros testemunham seus grandes movimentos de ideias, suas tragédias e esperanças, tais como as utopias sociais, a descoberta da energia nuclear, o surrealismo, o existencialismo. Se disso decorre uma visão trágica da condição humana, é igualmente verdade que seus romances e ensaios transmitem uma metafísica da esperança.”

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Rosa Freire d’Aguiar nasceu no Rio de Janeiro. Nos anos 70 e 80 foi correspondente em Paris das revistas MancheteIstoÉ. Retornou ao Brasil em 1986 e no ano seguinte traduziu seu primeiro livro, para a editora Paz e Terra: O conde de Gobineau no Brasil, de Georges Raeders. Em mais de vinte anos de atividade, verteu mais de sessenta títulos nas áreas de literatura e ciências humanas. Além do francês, traduz do espanhol e do italiano. Entre os prêmios que recebeu estão o da União Latina de Tradução Científica e Técnica (2001) por O universo, os deuses, os homens (Companhia das Letras), de Jean-Pierre Vernant, e o Jabuti (2009) pela tradução de A elegância do ouriço (Companhia das Letras), de Muriel Barbery.

Ernesto Sabato (1911-2011)

Ernesto Sabato faleceu na madrugada deste sábado, poucas semanas antes de completar 100 anos. O escritor argentino, vencedor do Prêmio Cervantes de 1984, era conhecido por ser pessimista, e exaltava os “valores do passado”.

Leia abaixo um trecho de A resistência:

O pior é a velocidade vertiginosa.

Nessa vertigem, nada frutifica nem floresce. E o medo é próprio dela: o homem adquire um comportamento de autômato, deixa de ser responsável, deixa de ser livre e de reconhecer os outros.

Sinto um aperto no coração ao ver a humanidade nesse vertiginoso trem em que avançamos, ignorantes e temerosos, sem conhecermos a bandeira desta luta, sem tê-la escolhido.

O clima de Buenos Aires mudou. Nas ruas, homens e mulheres apressados avançavam sem se olhar, preocupados em cumprir horários que ameaçam sua humanidade. Não há mais lugar para aquelas conversas de café que foram um traço distintivo desta cidade, quando a ferocidade e a violência ainda não a haviam transformado numa megalópole ensandecida. Quando as mães ainda podiam levar os filhos às praças ou visitar seus velhos. Alguma coisa pode florescer a tal velocidade? Uma das supostas metas dessa correria é a produtividade, mas quem diz que seus produtos são verdadeiros frutos?

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É impossível o homem permanecer humano a essa velocidade; vivendo como autômato, será aniquilado. A serenidade, uma certa lentidão, é tão indissociável da vida do homem quanto a sucessão das estações para as plantas ou para o nascimento dos bebês.

Estamos a caminho, mas não caminhando, estamos a bordo de um veículo sobre o qual nos movemos sem parar, como uma grande jangada, ou como essas cidades orbitais que dizem que haverá no futuro. Já nada se move a passo de homem. Por acaso algum de nós ainda caminha lentamente? Mas a vertigem da velocidade não está somente fora, nós já a assimilamos à mente que não pára de emitir imagens, como se também ela fizesse zapping; e talvez a aceleração tenha chegado ao coração, que já pulsa em ritmo de urgência para que tudo se passe rápido e não permaneça. Este destino comum é a grande oportunidade, mas quem se atreve a saltar fora? Tampouco sabemos mais rezar, porque perdemos o silêncio e também o grito.

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Na vertigem da velocidade, tudo é temível e o diálogo entre as pessoas desaparece. O que dizemos uns aos outros são mais números do que palavras, contém mais informação do que novidade. A perda do diálogo sufoca o compromisso que nasce entre as pessoas e que pode fazer do próprio medo um dinamismo capaz de vencê-lo e dar a elas maior liberdade. O problema mais grave, porém é que nesta civilização doente não há apenas exploração e miséria, mas também uma correlativa miséria espiritual. A grande maioria não quer a liberdade, tem medo dela. O medo é um sintoma do nosso tempo. A tal ponto que, raspando um pouco o verniz, é fácil perceber o pânico que subjaz nas pessoas que perseguem as exigências do trabalho nas grandes cidades. A exigência é de tal ordem que se vive automaticamente, sem que os atos sejam precedidos de um sim ou um não.

A maioria da humanidade é empregada de um poder abstrato. Há empregados que ganham mais, e outros que ganham menos. Mas quem é o homem livre que toma as decisões? Essa é uma pergunta radical que todos temos de nos fazer até escutar, na alma, a responsabilidade a que somos chamados.

Acredito que é preciso resistir: esse tem sido meu lema. Hoje, contudo, muitas vezes me pergunto como encarnar essa palavra. Antes, quando a vida era menos dura, eu teria entendido por resistência um ato heroico, como negar-se a continuar sobre este trem que nos leva à loucura e ao infortúnio. Mas pode-se pedir às pessoas tomadas pela vertigem que se rebelem? Pode-se pedir aos homens e às mulheres do meu país que se neguem a pertencer a esse capitalismo selvagem, quando eles têm de sustentar os filhos e os pais? Se eles carregam tal responsabilidade, como poderiam abandonar essa vida?

A situação mudou tanto, que devemos reavaliar com muita atenção o que entendemos por resistência. Não posso lhes dar uma resposta. Se eu a tivesse, sairia por aí como o Exército da Salvação, ou como esses crentes delirantes ― quem sabe os únicos que realmente acreditam no testemunho ―, proclamando-a pelas esquinas, com a urgência que nos deveriam dar os poucos metros que nos separam da catástrofe. Mas não. Intuo que é algo menos formidável, mais modesto, algo como a fé num milagre, o que quero transmitir a vocês nesta varta. Algo condizente com a noite em que vivemos, não mais do que uma vela, algo que nos ajude a esperar.