evaldo cabral de mello

Semana cento e quatro

Os lançamentos da semana são:

Antologia do teatro brasileiro: séc. XIX – comédia, Alexandre Mate e Pedro M. Schwarcz (orgs.)
Desde o século XIX, quando a tradição teatral começou a se consolidar no Brasil, um gênero em especial se destacou como vocação maior da dramaturgia nacional: a comédia. Apesar de desdenhado por críticos, intérpretes e até pelos próprios autores, o texto cômico – e a possibilidade de satirizar e denunciar os costumes de um país recém-independente – se mostrou uma tentação irresistível para muitos autores. Nesta antologia, estão reunidas peças cômicas de diferentes estilos. Com introdução de João Roberto Faria, professor titular de literatura brasileira na USP, esta edição é sobretudo uma excelente fonte àquele que queira conhecer a comédia teatral brasileira do século XIX em suas mais diversas vertentes.

O bagaço da cana, Evaldo Cabral de Mello
Em O bagaço da cana, Cabral de Mello analisa vários aspectos da atividade canavieira nordestina entre o início da colonização portuguesa e a definitiva retirada dos holandeses, e defende que mesmo quando da sua maior expansão durante os anos do governo Nassau a produção açucareira não chegou a alcançar o patamar da fase anterior a 1630. O bagaço da cana é fruto de uma pesquisa exaustiva baseada em documentações de origem neerlandesa e luso-brasileira, e uma obra essencial para entender o primeiro boom econômico do Brasil Colônia.

Fantasma, Luiz Alfredo Garcia-Roza
Princesa e Isaías. Dois inocentes. Para eles o mundo se resume ao que acontece diante dos seus olhos, no cotidiano de Copacabana. Para Princesa, sentada em seu pedaço de calçada, o mundo são as pessoas que passam, ocupadas com tarefas pouco compreensíveis. Algumas são simpáticas e lhe oferecem um cafezinho, um pão com manteiga. Isaías vive com seus cães numa obra abandonada. Em troca de um pequeno salário, vive ali para que o local não seja invadido ou pilhado. Nos fins de semana faz uma visita à amiga, em seu ponto na calçada. Para ele, além de ser uma princesa, ela é uma deusa porque lhe explicou coisas que nunca pensou. Dois amigos, duas vidas lentas. Isso até a madrugada em que um assassinato é cometido a poucos metros de Princesa. O delegado Espinosa está seguro de que ela viu o que aconteceu. Isaías também acha que ela viu alguma coisa e está decidido a protegê-la. Mas ambos são frágeis e correm riscos

Nove vidas, William Dalrymple (Tradução Paulo Schiller)
Nove vidas, nove encontros com o sagrado na Índia do século XXI. O premiado William Dalrymple, autor de diversos relatos de viagem, foi em busca das crenças milenares que ainda sobrevivem na sociedade indiana atual – que vive uma transformação brutal e veloz rumo à modernidade. O escritor cruzou o país colecionando as histórias da vida dos personagens mais inusitados: prostitutas sagradas, dançarinos que incorporam deuses, uma monja jainista, um cantor de épicos no Rajastão, escultores de ídolos de bronze, um monge tibetano que abriu mão de seus votos para proteger o dalai-lama e lutar contra o Exército chinês, uma devota da vertente islâmica sufi – cada vez mais ameaçada pelos radicais religiosos -, seguidores de um ritual tântrico que vivem num crematório e um excêntrico cantor cego. Nesses relatos que soam mais como ficção do que realidade, o autor revela um lado espantoso, mas absolutamente fascinante dessa cultura ainda tão misteriosa para o Ocidente.

Hora do almoço, Ilan Brenman
Todos aqueles que convivem com crianças sabem da dificuldade que é a hora de comer. Há aquelas que não comem legumes, outras que não gostam de feijão, as que querem brincar com os alimentos… Por isso, nada mais universal do que a brincadeira das “garfadas-veículo”. O escritor Ilan Brenman inventou algumas bem divertidas, para animar as crianças e ajudar os pobres pais. Superilustradas, elas prometem realizar milagres!

Os ursos da escada, Julia Jarman (Tradução Júlia Moritz Schwarcz)
A imaginação infantil é famosa e tem papel fundamental no crescimento das crianças. Mas serve também em momentos de malandragem, segundo contam certos pais. Os deste livro têm certeza de que o filho está inventando história para não dormir. Mas, segundo ele, três ursos enormes guardam as escadas que levam ao seu quarto. Parece que são superferozes…

Não brinque com a comida!, Dalcio
Mas que bagunça! O passarinho está pulando a corda com a minhoca, a passarinha colocou duas joaninhas como sutiã, a formiga resolveu surfar na folha e o menino fez uma obra de arte contemporânea com o seu prato… Será que alguém pode dizer a essa turma que comida não é brinquedo?

Semana quarenta e três

Os lançamentos da semana são:

Cláudio Manuel da Costa, de Laura de Mello e Souza
O mineiro Cláudio Manuel da Costa, consagrado pelos versos de Vila Rica, poema dedicado à fundação da capital “das Minas Gerais”, é revisitado de maneira inovadora nesse perfil biográfico escrito por Laura de Mello e Souza, que pesquisou inventários, escrituras e processos judiciais para reconstituir os passos do poeta no Brasil e na Europa. O leitor é transportado à Minas Gerais do século XVIII, onde Cláudio Manuel da Costa exerceu a carreira de advogado paralelamente à de poeta, engajando-se também no movimento da Inconfidência Mineira. Leia o post que Lilia Moritz Schwarcz fez sobre uma das muitas controvérsias que marcam a vida do poeta.

Onde os homens conquistam a glória, de Jon Krakauer (Tradução de Ivo Korytovski)
Jon Krakauer, autor de Na natureza selvagem, reconstitui a trajetória de Pat Tillman — astro do futebol americano que se tornou um dos principais ícones do patriotismo pós-11 de setembro ao abrir mão de uma carreira milionária para servir no Afeganistão. Tillman foi morto acidentalmente por um colega após uma sequência de manobras equivocadas de sua unidade de combate. A reação oficial foi um cínico encobrimento da verdade aprovado pelos mais altos escalões do governo e uma série de investigações que resultariam ineptas não fosse a determinação de Dannie Tillman em descobrir o que acontecera com seu filho. Em uma pesquisa de fôlego, Krakauer reconstrói a trajetória de Pat Tillman e expõe a farsa arquitetada para encobrir aquele que se tornaria um dos mais emblemáticos escândalos militares da era Bush.

O negócio do Brasil, Evaldo Cabral de Mello
Sessenta e três toneladas de ouro: esse foi o preço que Portugal pagou aos holandeses para que eles devolvessem o Nordeste aos lusitanos; essa negociação teria sido o arremate de uma guerra que já havia sido vencida pelos portugueses, que mesmo assim sentiam-se vulneráveis ao rivalizar com a principal potência econômica e militar do século XVII. A tese heroica de que os holandeses foram expulsos mediante a valentia dos portugueses, dos índios e dos negros é revista nessa reconstituição histórica feita por Evaldo Cabral de Mello, um dos maiores historiadores brasileiros, especialista em história regional e no período de domínio holandês em Pernambuco no século XVII.

Quarta-feira entre os clássicos

Por Lilia Moritz Schwarcz

[Veja em nosso álbum as fotos dos encontros no Rio de Janeiro e em São Paulo]

Quarta-feira à noite, temperatura elevada e em pleno Leblon, não resta nada a fazer senão tomar uma cerveja gelada e conversar com amigos. No entanto, nessa última semana, as coisas andavam meio viradas. O saguão da elegante Livraria da Travessa no shopping local foi invadido por cadeiras e um público saído não se sabe da onde, mas carente de conhecer mais sobre nossos clássicos. À frente do evento (o que já explica a pequena multidão), nada mais, nada menos que dois clássicos nacionais: o africanista, acadêmico, embaixador, poeta e historiador Alberto da Costa e Silva, e o igualmente embaixador, historiador e polemista de mão cheia, Evaldo Cabral de Mello.

Essa que vos escreve deveria funcionar como moderadora (animadora até) desse encontro feliz, fadado ao sucesso. No entanto, diante de intelectuais desse calibre não é preciso intervir, perguntar ou provocar… tudo isso ocorre normalmente e sem maior esforço. Se comecei lembrando as máximas do escritor Ítalo Calvino — que mostra como clássico é um livro que nunca se lê, só se relê; ou explica que um clássico sempre diz muito sobre aquele que o evoca —, já Alberto reagiu, desfazendo (e com razão) meu discurso tão comportado. Disse ele, em tom debochado, que tudo aquilo era muito bom, mas que clássico é também um livro que ainda não lemos e mais: que não queremos ler.

Evaldo também não deixou por menos. Disse que escritores deveriam começar a produzir tarde e parar cedo, e reservou-se o direito, como historiador, de falar só de livros de não-ficção. Edward Gibbon, por exemplo, converteu-se logo em unanimidade da mesa. Já os autores nacionais não tiveram tempo fácil, ao menos nas mãos do Evaldo, que alegou, por exemplo, que no Brasil todo mundo lê apenas um livro de determinado autor e já se comporta como profundo conhecedor da obra. É claro que pensava em Gilberto Freyre e seu famoso Casa grande & senzala, no que foi logo secundado por Alberto.

O fato é que concordamos, mas, no limite, discordamos de tudo: dos livros que selecionamos, dos nossos clássicos e até dos horários em que lemos ou pensamos. Evaldo disse que só raciocina bem das 10 da manhã às 18 da tarde e Alberto logo discordou. Quando aleguei que já eram quase 8 da noite e ele continuava por lá (e muito bem, aliás), Evaldo respondeu: “eu estou divertido, mas não inteligente”. Eu contei que gostava de A montanha mágica de Thomas Mann, e foi a vez de Alberto acrescentar que José e seus irmãos era infinitamente melhor. Lembrei que Raízes do Brasil era meu clássico nacional, e Evaldo afirmou desconfiar de todos os livros de interpretação do país, os quais, segundo ele, são os que mais sofrem com a ação do tempo.

Enfim, já eram 20h30 e eu tinha que cumprir a minha parte, e encerrar essa sessão, que não tinha hora para acabar já que a conversa corria solta e escorria para todos os lados: lados mais “clássicos” e outros nem tanto. Acho que só concordamos (parcialmente) quando o tema foi literatura infantil. Eu resolvi mencionar a série Babar, do elefante que perde a mãe logo no começo da história e quer ganhar a civilização quando todos, hoje em dia, a estão rifando. Já Evaldo foi obrigado (por conta de minha pergunta impertinente) a recordar de seu personagem mais querido: o carneiro Ferdinando Flores. Em sua opinião, ele (Ferdinando) é infinitamente melhor que seus companheiros. Se os outros são ativos, agressivos até, já Ferdinando é passivo de caráter e, ainda melhor, contemplativo de índole. E completou: “também sou assim; contemplativo”.

É impossível concordar com a ideia de que essas duas grandes personalidades da cultura brasileira sejam apenas contemplativas, que devam evitar falar a partir de determinadas horas, ou que seria bom que encerrassem suas carreiras como escritores, já que atingiram uma bela idade. Em se tratando dos dois, o outro lado desse espelho é o verdadeiro.

Literatura, vida, história, memória, historiografia e muita piada: esse encontro foi mesmo um clássico.

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Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil(vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros.

Encontro “Os clássicos que eu li”


(Foto por ginnerobot)

Em “Por que ler os clássicos”, Italo Calvino afirma que “um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”. E conclui: ler os clássicos continua sendo melhor do que não ler os clássicos.

Pensando na importância desses livros, a Companhia das Letras promove dois encontros onde diversos autores conversam com os leitores sobre a importância dos clássicos da literatura em suas vidas.

No Rio de Janeiro, o encontro “Os clássicos que eu li” acontecerá no dia 25 de agosto, às 19h, na Livraria Travessa do Shopping Leblon, com a presença de Alberto da Costa e Silva, Evaldo Cabral de Mello e Lilia Moritz Schwarcz.

Em São Paulo, Alfredo Bosi, José Miguel Wisnik e Milton Hatoum participarão do evento, que acontece dia 30 de agosto na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, às 19h.