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Companhia apresenta: Mônica é daltônica?

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Em agosto, chega às livrarias o primeiro livro de um novo projeto da Companhia das Letrinhas: a publicação de histórias clássicas da Turma da Mônica, todas roteirizadas e ilustradas pelo Mauricio de Sousa nas décadas de sessenta e setenta, mas que foram muito premiadas e até hoje são lembradas. O Cascão, o Cebolinha, a Magali, a Mônica, entre outros personagens, ganharão nova roupagem nos traços de grandes ilustradores da literatura infantil. No primeiro livro, Mônica é daltônica?, a tarefa de transformar a HQ em livro ilustrado ficou nas mãos de Odilon Moraes, que conversou com a gente sobre os desafios de fazer uma releitura da dona da rua.

Também conversamos com Mauricio de Sousa sobre a importância de Mônica é daltônica? na sua trajetória. Ela foi a primeira história publicada na revista Mônica, em 1970.

Em Mônica é daltônica?, é o Zé Luís — e não o Cebolinha, acredite se quiser — que inaugura a tradição dos planos mirabolantes para tentar acabar com as temidas coelhadas da dona da rua. Será que a Mônica enxerga as cores de um jeito diferente e escondeu isso de todo mundo? O livro chega às livrarias no dia 21 de agosto e está em pré-venda.

[Saraiva] [Livraria Cultura] [Livraria Martins Fontes] [Livraria da Folha] [Cia. dos Livros] [Livraria da Travessa] [Amazon]

Fritz The Cat na livraria infantil

Por Érico Assis

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Na semana passada, o Dicionário de Inglês de Oxford registrou a palavra comix. A definição do substantivo plural é: “Histórias e tiras em quadrinhos, especialmente as escritas para adultos ou de natureza underground ou alternativa”. Na mesma semana, encontrei Fritz the Cat numa livraria infantil.

Veja bem: não era seção infantil de livraria. Era uma livraria infanto-juvenil. A livraria matriz chama-se Xis. Você anda mais alguns metros na mesma galeria e chega na filial, que se chama Xiszinha. A Xiszinha só tem livros para crianças e adolescentes, prateleiras de várias cores, mesinhas com lápis de cor. Xiszinha tem uma pequena seção de quadrinhos. Ali que eu vi Fritz the Cat, de R. Crumb, da editora Conrad, formato álbum, 132 páginas, lançado em 2002.

O gato foi criado por Crumb nos anos 1960. Foi estrela de várias histórias e tinha personalidade adaptável: foi beatnik, pop star, poeta hippie, agente da CIA. A consistência estava na personalidade: mulherengo, arrogante, hipócrita, drogado, indigno da confiança de namoradas e amigos, às vezes meio racista. Era um canalha gozando a/da/na revolução sexual. As gatas, pombas, raposas que Fritz pega têm os peitos e coxas grossas típicos de Crumb. Quase sempre acabam nuas. Em uma das primeiras histórias, ele seduz a irmã. Em 72, Fritz virou um longa animado que inclui cenas das HQs e uma suruba zoológica na banheira. Teve continuação. Fez tanto sucesso que Crumb se irritou e matou o gato nos quadrinhos.

Não que a livraria Xis ou Xiszinha precisem saber o histórico de cada livro que vendem. Mas a capa da edição da Conrad dá dicas: Fritz com a mão enfiadas na blusa de sua gatinha, umas coisas caídas no chão que parecem baganas. A quarta capa deixa tudo bem claro. Fritz the Cat é tão marco dos comix que podia ilustrar o verbete do Oxford. Será que eu devia informar a Livraria Xiszinha?

Óbvio que o meu eu de 20 anos me xingou pelo ataque de moralismo. Mas o caso é que eu não tenho 20 anos e tenho uma filha de quatro anos que gosta de gatinhos. Ela também ama dinossauros, então a levamos para assistir Jurassic World e no final ela resenhou: “Não me tragam mais nesses filmes assustadores”. Fritz não tem dinossauros comendo gente, embora tenha bichos comendo bichos. Não sei o que ela ia achar.

Por coincidência, no mesmo dia eu tinha lido uma declaração do Neil Gaiman: “Sou absolutamente, cem por cento a favor do direito do pai ou mãe dizer: ‘Não quero que meu filho leia isso.’ Sou absolutamente, cem por cento contra o pai ou mãe que diga: ‘Não quero que meu filho leia isso e não quero que outra criança leia.’ São duas coisas bem diferentes”. Ele falava de pais que tentam proibir livros em bibliotecas. Vale para livrarias também, Gaiman? Como eu disse, a matriz da Xis fica a poucos passos da filial Xiszinha, e era só questão de passar o Fritz da Xiszinha para a Xis. Além disso, ninguém proíbe crianças de entrar na Xis-matriz, que tem sua própria seção de HQ.

Tem um ensaio do Alan Moore sobre erotismo e pornografia onde ele diz que “culturas sexualmente progressistas nos deram a matemática, a literatura, a filosofia, a civilização e coisas desse tipo, enquanto culturas sexualmente restritivas nos deram a Idade Média e o Holocausto”. Entre os exemplos, ele fala das estátuas de Pã ostentando ereções nas praças da Grécia antiga e os anéis penianos, com espigões voltados para dentro, que os pais alemães e austríacos no início do século passado prendiam em adolescentes para evitar pensamentos impudicos.

Tem também aquela entrevista maravilhosa do Colbert com o Maurice Sendak, quando este diz que: “Eu não escrevo para crianças. Eu escrevo. Aí vem alguém e diz: ‘Isso é para criança’”.

Também lembro de uma conversa com um amigo que reclamava da Disney, a qual insiste em colocar cenas tristes nos filmes que a filha dele gosta. Justifiquei (mal, muito mal) que filmes também podem ser um aprendizado. Que podem render uma ou duas noites mal dormidas, mas que ajudam a criança a entender o mundo, inclusive coisas ruins do mundo. Tomei: “Minha filha já aprende as coisas ruins do mundo vivendo no mundo. Ela não precisa aprender num desenho”.

Minha vó repetia que só gostava de filmes onde podia ver “coisa bonita”. Dor, sofrimento, tristeza não era coisa pra cinema. O filme preferido dela era Uma linda mulher.

Mexi um pouco mais na seção de quadrinhos e vi que também tinham a adaptação de O estrangeiro para HQ. De repente o problema não é moralismo, imoralismo, nem desorganização ou falta de conhecimento. De repente é só porque gibi é tudo para criança e esse tem um gatinho. Enfim: não avisei nada à Xiszinha. Ainda não sei se devia.

* * * * *

Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
Site — Twitter — A Pilha

Crianças x Adultos

Por José Roberto Torero 

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Uma pergunta que as crianças sempre me fazem quando visito escolas é esta:

“Você gosta mais de escrever para adultos ou para crianças?”

Minha resposta automática é “Dá empate”. E penso que estou dizendo a verdade. Mas talvez esteja enganado.

Há um senso comum de que na chamada literatura para adultos podemos contar histórias mais duras e cruéis, usar um vocabulário mais vasto e tentar inovações formais. Enquanto isso, na literatura infantil, a graça seria deixar a imaginação mais solta e escrever num estilo mais livre.

Mas não é verdade. Nos livros para crianças também podemos contar histórias terríveis (é só ver os contos de fadas, em que meninas são devoradas por lobos, garotas são obrigadas a hibernar por um século e meninos são colocados em gaiolas para engordarem e serem comidos), usar palavras doidas e, principalmente, fazer inovações formais.

Por exemplo, em literatura infantil já consegui fazer uma história com onze finais, várias versões de uma mesma fábula (sei que o Novo Testamento já tem isso, mas ainda acho algo novo) e um livro cortado em tiras, em que narrativas e personagens podem ser misturados.

Além disso, o livro infantil, como objeto, permite — e talvez até exija — mais liberdade e criatividade.

Explico:

Os livros para adultos têm uma diagramação incrivelmente monótona. É sempre uma única coluna e raramente traz uma reles capitular diferente. Mas não pense que sempre foi assim. Se você der uma olhada nos manuscritos da Idade Média ou em alguns incunábulos, vai ver que a diagramação e a ilustração já estão lá. Exuberantes, criativas, valorizando e interagindo com o texto.

Enquanto o livro adulto tem uma história contada de forma totalmente verbal, o infantil pede algo mais. Ele é mais coisa, é mais objeto, exige mais integração entre suporte e texto.

O escritor de livro adulto geralmente pensa seu texto como algo imaterial, como uma história que se passa apenas no cérebro do leitor, e não também na página do livro. No livro infantil é diferente. Temos que pensar no tamanho da página, se uma ilustração pode entrar ali e substituir o texto, no tipo de letra, na diagramação, etc… E isso faz muita diferença.

Na literatura infantil, talvez mais áreas do cérebro tenham que estar ligadas. Não basta ligar o verbômetro. Há que pensar no texto espacialmente.

Enfim, quando escrevo para adultos, me concentro no texto. E isso é bom.

Mas, quando escrevo para crianças, já penso no livro como um todo. E isso talvez seja mais divertido.

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José Roberto Torero é escritor, roteirista e jornalista. Em parceria com Marcus Aurelius Pimenta, é autor da coleção Fábrica de Fábulas, com seis títulos já publicados pela Objetiva. É autor dos romances O Chalaça, O evangelho de Barrabás e Nove contra o 9 e do livro de contos Papis et circenses, vencedor do Prêmio Paraná de 2012. E também corroteirista do curta-metragem Uma história de futebol, indicado ao Oscar em 2001. Seu último livro lançado foi Entre raios e caranguejos, em coautoria com Marcus Aurelius Pimenta.

Por que amar o Snoopy

Por Mell Brites


Nunca fui fã do Snoopy. Não tinha o costume de ler as tirinhas do Charles Schulz ou assistir os episódios na tevê e nunca fiz loucuras para ter uma camiseta do Charlie Brown, um estojo da Lucy ou um fichário do Woodstock. Quando a Júlia Schwarcz me passou os livros da turma para decidirmos juntas se gostaríamos de publicá-los aqui no Letrinhas, confesso que comecei a avaliação com alguns pés atrás. Por que publicar histórias que, em geral, todo mundo já conhece, de personagens que estão estampados em materiais escolares, roupas, alimentos etc.? Isso me parecia no mínimo estranho — e talvez uma aposta errada.

Bom, não é difícil imaginar que a minha opinião mudou rapidamente. E posso explicar por quê. Parte considerável dos originais que temos recebido, e muitos livros para crianças que têm saído no Brasil e fora, discutem temas relacionados ao próprio ato de ler, à relação entre texto e imagem, à questão do livro objeto, entre outros assuntos que, de uma forma ou de outra, têm essa feição experimental e metalinguística. Isso, me parece, reflete o momento atual da literatura infantil; muito do que vem sendo publicado expressa essa vontade de brincar com o suporte, pensar o ato da escrita, refletir sobre, afinal, o que é a literatura para crianças. Acho a discussão muito válida, legítima e enriquecedora, e sou apaixonada por vários títulos com essa característica publicados aqui e em outras editoras no Brasil e mundo afora.

Mas ler um texto formulado há mais de sessenta anos me trouxe uma sensação que há tempos não encontrava nas histórias infantis, como se ali houvesse certa ingenuidade que os livros atuais não tivessem mais. Quando terminei a leitura de It’s time for school, Charlie Brown (ou, em português, É hora da escola, Charlie Brown, um dos quatro títulos que publicaremos em novembro), imediatamente pensei que a palavra de ordem naquela narrativa era simplicidade. Senti até uma espécie de euforia, um gosto de liberdade, quando me caiu a ficha de que “aquela era uma história”. Isto é: um enredo habitual (um garoto que sempre se dá mal na vida e está apavorado porque as férias estão acabando e o seu martírio vai recomeçar) somado a uma boa dose de sensibilidade com a palavra é suficiente para entreter, fazer pensar, abrir portas diferentes para cada leitor.

É a essa ingenuidade que me refiro, pois histórias como as de Schulz me fazem lembrar que nem sempre é preciso um “algo a mais”, uma crítica concreta, uma mensagem, um tema a ser tratado com a criança. E foi assim que me tornei fã convicta do beagle mais famoso do mundo e de seu criador.

Daí pra frente foi só alegria: trabalhar no processo de edição de texto, adequar as ilustrações ao formato que escolhemos para a nossa coleção, tentar reproduzir, nos releases e textos de quarta capa, um pouco dessa “singela magia” que encontrei nas narrativas do Schulz, pensar nas ações de divulgação e marketing e ver o entusiasmo de todos os departamentos da editora com esse cão que, pelo jeito, só eu não amava.

Estamos nas etapas finais da produção e tocando as ações de divulgação — acompanhem o Snoopy nas nossas redes sociais! Agora o que importa é que os livros cheguem lindos e alcancem o maior número possível de leitores. Torço para que muitos possam sentir esse prazer que senti e que só a verdadeira diversão traz, ou para que possam, no mínimo, se surpreender com essa turma capaz de muito, muito mais do que imaginamos.

Com este texto, abro no blog a nossa série de depoimentos sobre Snoopy e sua turma, que serão dados por autores da casa.

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Mell Brites é editora da Companhia das Letrinhas.


24 horas em Passo Fundo

Por Júlia Moritz Schwarcz


Tania Rösing recepciona os convidados no aeroporto.

Cheguei de Passo Fundo (RS) há quase duas semanas mas ainda tremo de frio ao lembrar das 24 horas que passei lá, onde fui participar do 1º Simpósio de Literatura Infantojuvenil da 14ª Jornada da cidade. Imaginar o frio de três graus é uma coisa, mas sentir o frio de três graus — com aquela chuvinha! — é bem diferente.

Voltei muito impressionada com o que vi, e caí de cama, toda doente. Nos dois dias de virose e dor no corpo, fiquei lembrando de algumas cenas de Passo Fundo: a Tania Rösing, idealizadora e comandante-geral do evento desde o seu início, há trinta anos, em pé em cima de uma mesa no aeroporto agradecendo a presença de todos e nos dizendo que era só fazermos exatamente o que ela mandava que sairia tudo às mil maravilhas — “aqui, a literatura é um ato democrático!”, ela avisava; as “líderes” do meu grupo de convidados, preocupadas com a minha mochila, com os meus horários, com o que eu comia e com a hora que ia dormir — “Minha menina dormiu bem?!”, elas perguntavam; a abertura do evento em uma tenda de circo, enorme e lotada — “Pelo espaço-tempo viaja a palavra/ Deletando os vácuos do esquecimento/ Das placas de barro de antigos sumérios/ Chega ao livro impresso salta pra internet”, cantava Humberto Gessinger; as refeições com os meus colegas, no Clube Comercial — “experimentaste o arroz negro? E o palmito, provaste?”, se orgulhava o dono do estabelecimento. E mais as conversas importantes e os comentários sobre o meu trabalho, que ficaram rodando na minha cabeça.

É sempre muito bom ter de parar para refletir sobre o que fazemos, quais são as nossas reais convicções. É o que acontece quando escrevemos sobre a nossa profissão (como tento fazer às vezes aqui para o blog), quando participamos de eventos de trabalho e nos encontramos com pessoas que têm um cotidiano parecido com o nosso, ou quando debatemos em mesas-redondas e com o público, o que é uma raridade para mim.

Na manhã da penúltima 3ª feira de agosto, mais precisamente às 8h30, numa temperatura de pouquíssimos graus centígrados, conversei com uma escritora carioca que estava sofrendo com as condições climáticas, e com duas editoras de muita experiência — com quem partilhei um dia e três refeições e me diverti muito. Se em Bolonha me lembrei de passar batom para me sentir mais madura, desta vez até pintei as unhas, e aproveito para agradecer ao marido, que ficou limpando os cantos com cotonete embebido em acetona, um sofredor.

Se querem saber como foi a nossa mesa, é só imaginar quatro mulheres animadíssimas e cheias de opinião discutindo o espaço da criação literária, o mercado infantojuvenil, o papel do editor, os livros digitais… Pobre do nosso mediador, o único homem da mesa, tentando se aproximar do microfone!

Entre tantas questões importantes debatidas nas três horas que passamos no palco, uma pergunta do público me deixou até acalorada. A professora nos contava que, naquela cidade onde os índices de leitura são os mais altos do país — com seus habitantes lendo em média 6,7 livros por ano, se não me engano—, muitas crianças se sentiam motivadas a escrever seus livros. Até aí, tudo ótimo, afinal, quem lê mais, tem maior probabilidade de querer também escrever. Mas foi aí que soubemos do motivo de sua maior indignação: os alunos dessa professora, com entre onze e quinze anos, não conseguiam publicar seus livros por editoras comerciais. Uma das mães teria até custeado uma edição, vejam que coisa!, ela dizia.

Essa professora queria saber como lidar com a frustração dos jovens, que se deparavam com as portas fechadas das editoras. A Dolores Prades, umas das editoras-debatedoras (que me emprestou seu precioso cobertor na gélida sessão de abertura, assim como dividiu o guarda-chuva comigo inúmeras vezes a caminho e na saída do nosso busão literário) foi a primeira a responder: muitas editoras não assinam contrato com menores de dezoito anos, ponto final. Claro! E como é que podemos achar bom que menores de idade façam parte de um mercado, procurem produzir para ter lucro, e lidem com a rejeição ou crítica negativa que podem surgir dos leitores? A Miriam Gabbai, editora da Callis (uma pessoa doce e incrivelmente rápida e clara em todas as respostas), tentou ajudar com uma ótima ideia: fazer, com os alunos, uma revista, em um projeto escolar que poderia abarcar várias disciplinas, integrar e ensinar coisas importantes ao grupo. Outra possibilidade seria criar com esses alunos blogs para troca de textos.

A Ieda de Oliveira, a escritora da mesa, contou como alguns de seus livros ficaram na gaveta por mais de quinze anos. E quantos não são os escritores sem livros publicados? O mercado oferece um espaço muito menor do que o que se escreve no Brasil e no mundo.

Acho mesmo que, com doze anos de idade, as crianças estão no momento de ler bastante e escrever muito, mas com o único intuito de se exercitar, aprimorar, mostrando sempre seus textos aos pais, professores e amigos, ponto final. Vivo insistindo na importância da forma, do texto, ou do discurso, como diria a Ieda, nos livros infantis. Muitas pessoas acham que basta contar uma boa história, que as palavras escolhidas e a composição do texto não importam. Os escritores às vezes demoram anos para concluir um único livro. E uma criança de catorze anos de idade ainda não sabe quem é, o que realmente gosta e sabe fazer. Está em fase de formação. Mais um ponto final.

E por que esses jovens precisam esperar ter seus livros publicados por uma editora comercial para se sentirem plenamente satisfeitos? De quem será que vem essa espécie de cobrança? Será que essa não seria uma ideia dos adultos?

Lembro bem de umas duas histórias das quais senti muito orgulho de ter escrito, isso do alto dos meus dez anos de idade. Em um dos casos, no final do ano, quase explodi de felicidade ao receber o “livro” de histórias da classe (na verdade um xerox grampeado que a professora fez dos textos escritos a mão por nós, alunos) com a minha “criação” ali no meio. Levei no tradicional jantar familiar de sexta-feira e mostrei para todos. E li não sei quantas vezes a versão xerocada do texto, cuja cópia original eu guardava na gaveta da minha escrivaninha.

Realmente, a literatura nos faz viajar.

PS: Muito obrigada, Tania Rösing, pelo convite. Agradeço também a Fabiane Verardi Burlamaque por ter organizado o simpósio e pelos elogios encorajadores, e a Claudete e Nilde por cuidarem do meu cronograma em Passo Fundo com tanto afeto. Foi uma experiência e tanto.

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Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.

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