f. scott fitzgerald

Semana cento e setenta e nove

Os lançamentos desta semana são:

 

Fim, de Fernanda Torres
Eles são cariocas, se conheceram na praia, foram companheiros de vadiagem em blocos de carnaval, viveram o desbunde dos 1960, as festas movidas a álcool, sexo e pó. Suas vidas testemunharam um país que virava de cabeça para baixo em costumes e valores: é esse o pano de fundo dos excessos, separações e arrependimentos que compõem as histórias de Fim. Álvaro, Sílvio, Ribeiro, Neto e Ciro são figuras muito diferentes, mas partilham não apenas o fato de estarem no extremo da vida, como também o acanhamento dos horizontes. Sucesso, realização pessoal e serenidade estão fora de questão – ninguém parece capaz de colher no fim das contas mais do que um inventário de frustrações. Há graça, sexo, sol e praia nas páginas de Fim. Mas elas também são cheias de resignação e melancolia. Humor sem superficialidade, lirismo sem cafonice, complexidade sem afetação: de que mais precisa um romance para dizer a que veio?

O último magnata, de F. Scott Fitzgerald (Tradução de Christian Schwartz)
Conforme Edmund Wilson observa em seu prefácio a esta edição, o mandachuva Monroe Stahr, centro da trama de O último magnata, é a figura mais bem concebida de F. Scott Fitzgerald. “Suas anotações sobre o personagem mostram como Fitzgerald conviveu com Stahr por três anos ou mais, amadurecendo as idiossincrasias da figura e reconstituindo sua rede de relacionamentos nos vários departamentos da indústria do cinema”, escreve. Temos cerca de 60 mil palavras no rascunho incompleto deste romance; foi planejado para ter mais ou menos esse tamanho, mas, como se nota, o capítulo em que o autor estava trabalhando no dia anterior à sua morte, aos 44 anos, leva a narrativa um pouco mais adiante do que poderia ter sido a sua conclusão. Mesmo assim, Fitzgerald concebeu maravilhosamente a atmosfera em que uma gigantesca e otimista indústria era estruturada; fica claro que ele teria demonstrado o quão este pequeno mundo fechado em si representava as noções de Sonho Americano e do Destino Manifesto. Esta edição, organizada e prefaciada por Edmund Wilson, é uma nova oportunidade para o leitor se encantar com o universo de um dos maiores prosadores do século XX.

Editora Seguinte

O lírio dourado, de Richelle Mead (Tradução de Guilherme Miranda)
Sidney Sage adoraria ir para a faculdade como qualquer garota comum, mas ela faz parte do grupo dos alquimistas — os responsáveis por esconder a existência dos vampiros do resto da humanidade —, então isso não tem a menor chance de acontecer. Ainda mais depois que ela é convocada para uma missão super importante: passar uma temporada num colégio interno na Califórnia para ajudar a esconder a princesa vampira Jill Dragomir. Após enfrentar vários desafios, como desvendar um esquema de tráfico de sangue de vampiro e ter de suportar um chefe abominável, Sydney sente que alcançou certa tranquilidade em sua empreitada — tanto que encontra tempo até para arrumar um namorado.

O grande Tanner

Por Tony Belotto

Party! Party!

Todos conhecem aquela sensação, quando estamos envolvidos com um livro, de não querer que a leitura chegue ao final. Cada leitor tem uma técnica específica de retardar o gozo, digamos assim, da última linha. Eu mesmo já vivi essa sensação inúmeras vezes, e desenvolvi subterfúgios inacreditáveis para driblar o final de um romance. Desde recomeçar a ler o livro quando já estou no terço final, até guardá-lo na gaveta de meias por alguns dias, numa atitude digna de um pervertido sexual. Mas nada se compara ao que tem me acontecido ao me aventurar pelo clássico de Scott Fitzgerald, O grande Gatsby.

Permitam-me um pequeno preâmbulo. Sou, como todos sabem, um escritor intuitivo e pouco ilustrado. Identifiquei-me com a Fernanda Torres quando ela declarou que sua formação intelectual era cheia de furos, como um queijo suíço. Pois bem, também me considero um escritor tipo queijo suíço. Posso listar inúmeros clássicos que nunca li, e não por não ter tentado, mas por não ter conseguido. Há livros que me dão muito sono. Mas sou humilde o suficiente para creditar meus fracassos de leitor sempre a mim mesmo, e não aos autores, que são todos geniais.

O grande Gatsby, por exemplo, eu ainda não li. E nem tinha tentado. Nos anos 1960 as pessoas se dividiam entre as que preferiam os Beatles e as que preferiam os Rolling Stones. Mal comparando, na era do jazz sempre fui mais Ernest Hemingway do que Scott Fitzgerald. E até hoje prefiro os Stones aos Beatles.

O grande Gatsby, para mim, era o Robert Redford. Outro dia fui a assistir à recente versão cinematográfica de Baz Luhrmann e — perdão, perdão — adorei. Ao ler depois que todo mundo tinha odiado o filme, e que ele de certa forma conspurcava a memória do clássico — e a crônica da Vanessa Barbara aqui publicada é taxativa nesse sentido —, não pude evitar de ler o romance.

Bem, aí começa o verdadeiro assunto desta crônica.

Comprei a bela edição da coleção de clássicos da Penguin Companhia, com uma foto sugestiva de uma provável Daisy na capa e a promissora tradução da Vanessa Barbara. E eis que antes do texto de Fitzgerald, me deparo com a introdução de Tony Tanner — pelo que informa a primeira página da edição, um crítico literário inglês apaixonado por literatura americana.

E não é que eu me apaixonei pela introdução? Isso nunca tinha me acontecido antes. Eu costumava pular introduções por considerá-las chatas e empata-foda!

Mas a introdução em questão é escrita em linguagem fluente e charmosa, e consegue, ao esmiuçar o romance, transcendê-lo e criar uma personalidade autônoma, que independe do texto que analisa. Essa é uma introdução que se lê como um livro avulso.

Estou há semanas lendo o texto de Tanner. Não só já guardei o Grande Gatsby na gaveta de meias, como já li dois outros livros antes de concluir a leitura da introdução, tudo por puro sadomasoquismo e vontade de potencializar a pequena morte do fim que se aproxima na página 58. Imaginem quando eu chegar ao Gatsby.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, Machu Picchu, foi lançado em março de 2013.

Gatsby for dummies

Por Vanessa Barbara


De pouco ou nada adiantou fazer pensamento positivo, acender uma vela aos deuses do cinema ou rezar uma novena pelo discernimento espiritual de Baz Luhrmann: a mais recente adaptação de O grande Gatsby, que estreou nesta sexta-feira, é mais deprimente do que Zelda em dia de cabelo ruim.

A crítica americana foi quase unânime em destroçar o filme. Numa resenha para a revista New Yorker, o jornalista David Denby afirmou que Luhrmann não é um cineasta, mas um diretor de videoclipes com recursos infinitos e uma impressionante ausência de bom gosto.

Peter Travers, da Rolling Stone, pediu silêncio aos leitores para ouvir F. Scott Fitzgerald revirando-se no túmulo. “O filme é tão rígido e morto quanto uma vitrine de butique de luxo”, declarou. Já Rex Reed, do New York Observer, disse que a adaptação tem a força narrativa de uma água de torneira. O New York Times classificou a obra de rasteira e agudamente inautêntica; no Wall Street Journal, Joe Morgenstern a acusou de elefantíase artística. Todos reprovaram o excesso, a superficialidade e a vulgaridade desta superprodução que custou 150 milhões de dólares.

Luhrmann, que assina o roteiro com Craig Pearce (ambos de Moulin Rouge), transformou o texto sutil, denso e complexo de Fitzgerald numa orgia visual e hiperativa com dançarinas seminuas, zebras infláveis, plumas, pérolas, mafiosos de fraque, trapezistas, palhaços, acrobatas e uma orquestra no meio da piscina, como “um baile de formatura à fantasia invadido pelo Cirque du Soleil”, comparou Reed.

A cena mais infeliz é a da primeira aparição de Jay Gatsby. No livro, a apresentação é feita casualmente durante uma festa na mansão. Nick conversa com um desconhecido que, no fim, se identifica como o anfitrião, desculpando-se pela falta de modos. No cinema, a câmera dá um close grosseiro em Leonardo DiCaprio, que exclama: “Eu sou Jay Gatsby!” ao som de Rhapsody in Blue, de Gershwin, e emoldurado pelo espocar de fogos de artifício.

(Há tantos closes em O grande Gatsby que o crítico Rex Reed o chama de “um filme sobre orelhas”.)

O pior de tudo, porém, é o roteiro. Por motivos didáticos, recorreu-se a um sofrível recurso de framing device que sustenta o enredo: Nick está internado num sanatório e conta seus dissabores a um psiquiatra, que o aconselha a transformá-los em livro. As falas em off são mal escritas, soporíferas e redundantes, atribuindo a Nick uma personalidade rasa. Muitas vezes, ele narra uma cena e então a repete em forma de diálogo, enquanto na tela pipocam as palavras datilografadas — em 3D, ainda por cima. (Não há nenhum motivo terreno que explique a adoção desse formato.)

Outra prova de que o diretor esforçou-se para legar às massas um verniz do romance: a expressão old sport (meu velho) é repetida não menos do que 55 vezes, provavelmente para quem é surdo de um ouvido. No momento em que Nick descreve a sensação de estar “dentro e fora” das situações, Luhrmann acha cabível mostrar o narrador materializando-se na cena e depois fora dela, o que me lembrou vivamente um episódio dos Teletubbies.

No livro, o relato da reunião no apartamento de Myrtle é soturno, esquisito e incoerente, cheio de lacunas. A embriaguez de Nick é mais um estado letárgico do que uma frenética orgia regada a ecstasy, porém esta parece ter sido (como sempre) a opção de Luhrmann.

Já a tensão psicológica entre os personagens indiferentes e descuidados (até o narrador tem defeitos de caráter) dá lugar, no filme, a um bacanal espalhafatoso e violento, anulando as nuances do livro numa barulhenta sucessão de festas e futilidade. Não há espaço para ambiguidades nem delicadeza.

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O ponto forte desta adaptação é a fotografia. Por meio de reconstituições computadorizadas de Nova York nos anos 20, veem-se impressionantes cenas panorâmicas de Long Island que situam até o espectador mais perdido; uma belíssima tomada aérea do carro amarelo atravessando o Vale das Cinzas em direção a Manhattan; vistas detalhadas das duas penínsulas separadas pela baía; travellings da ponte Queensboro; a imponência da mansão dos Buchanan e a extravagância do palácio de Gatsby. É certo que, às vezes, Nova York fica parecendo a Hong Kong de Batman: O Cavaleiro das Trevas, mas isso é o de menos. Gostei do expressionismo dos trabalhadores do Vale das Cinzas, das janelas dos apartamentos em Manhattan e do saxofonista solitário.

Por outro lado, a trilha sonora é de supurar o apêndice. Em vez de swing jazz, charleston e foxtrote temos hip-hop, Beyoncé e André 3000 comandados pelo rapper Jay-Z, que assina a catastrófica trilha. Em vez de lindy hop, shimmy e vaudeville, temos uma dança estilo rave totalmente fora de contexto. “Nada como o hip-hop para acrescentar relevância a um clássico”, ironiza Peter Travers.

Se a ideia era mesclar a estética e os ritmos dos anos 20 com a atualidade, o único acerto foi a versão jazzística para Crazy in Love, de Beyoncé, executada pela Bryan Ferry Orchestra. Podia ter seguido essa lógica nas outras faixas.

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Rebatendo as críticas, Baz Luhrmann diz que o romance de Fitzgerald também foi mal recebido na época, e que os resultados da bilheteria é que irão julgar a qualidade do filme.

Talvez a intenção do diretor tenha sido mimetizar Jay Gatsby, um “homem saído da própria concepção platônica de si mesmo”, que, reinventando-se, esvaziou-se de substância e verdade. Um galã de anúncio feito para agradar. Como observa o Homem dos Olhos de Coruja, os livros de Gatsby são absolutamente verdadeiros, mas suas páginas nunca foram cortadas.

O filme de Luhrmann é como a biblioteca do protagonista: uma suntuosa parede de encadernações verdadeiras, mas jamais lidas. Uma ilusão que só vai até certo ponto, não passando das aparências. “Mas o que vocês queriam? O que esperavam?”, conclui o Homem dos Olhos de Coruja.

Nesse sentido, Luhrmann nos deu uma interpretação perfeita de O grande Gatsby.

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Extras: Leia aqui uma análise das adaptações anteriores de O grande Gatsby para o cinema.

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Vanessa Barbara nasceu em 1982, é jornalista e escritora. É autora da graphic novel A máquina de Goldberg (Quadrinhos na Cia., 2012, em parceria com Fido Nesti), O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e do infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Resultado do concurso O grande Gatsby

Obrigada a todos que participaram do concurso O grande Gatsby, recebemos ótimas respostas!

O melhor resumo em 140 caracteres foi enviado por Romulo Ribeiro:

“Milionário misterioso tenta reaver amor do passado criando mundo de ilusões para uma amada que se mostra tão ilusória quanto todo o resto.”

Parabéns, Romulo! Você ganhou 5 livros da Penguin-Companhia, entraremos em contato por email.

O filme de O grande Gatsby chega aos cinemas brasileiros dia 7 de junho. Para aqueles que gostam de ler o livro antes de ver o filme, a Penguin-Companhia está vendendo com desconto sua edição do clássico, que tem tradução de Vanessa Barbara e introdução de Tony Tanner: o livro físico está disponível em diversas lojas por R$19,50, e o e-book está à venda por R$7,90.

Concurso: O grande Gatsby

No dia 7 de junho chega aos cinemas brasileiros a nova adaptação de O grande Gatsby, com direção de Baz Luhrmann. O filme tem Leonardo DiCaprio, Tobey Maguire e Carey Mulligan nos papeis principais, e promete ser bem diferente das adaptações anteriores.

Para aqueles que gostam de ler o livro antes de ver o filme, a Penguin-Companhia está vendendo com desconto sua edição do clássico, que tem tradução de Vanessa Barbara e introdução de Tony Tanner: o livro físico está disponível em diversas lojas por R$19,50, e o e-book está à venda por R$7,90.

Para combinar com essa versão moderna do livro, nós aqui do blog propomos o seguinte: resuma O grande Gatsby em 140 caracteres. O autor da melhor resposta ganhará 5 (cinco) clássicos da Penguin-Companhia, à sua escolha.

Para participar, basta deixar seu resumo na caixa de comentários deste post até a meia-noite do dia 26 de maio. Os editores da Companhia avaliarão as respostas, e o vencedor será divulgado aqui no blog dia 29 de maio. Só aceitaremos uma participação por pessoa, e para evitar cópias, todos os comentários serão ocultados até o fim do prazo.

Veja os trailers abaixo para se inspirar, e boa sorte!

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