Fabio Uehara

Quem é quem na Companhia das Letras

Nome: Fabio Uehara

Há quanto tempo trabalha na editora? Entre vendedor na Bienal, diretor de arte e agora responsável pelos e-books, já são mais de 10 anos.

Função: Coordenador de novos negócios. Gerencio a concepção e produção dos livros digitais, aplicativos e sites da editora.

Um livro: A caixa preta, Amós Oz

Uma história que você se lembre da editora: Desde que fiquei sabendo que iríamos lançar a biografia do Steve Jobs, fiquei muito feliz. Mas este livro marcou muito, porque além de ser sobre alguém que sempre admirei, foi um dos que mais participei de todo processo. Desde a aprovação do conceito da capa até a revisão técnica (e, por isso, fui um dos primeiros a lê-lo), além de ter sido um dos últimos livros em que trabalhei como diretor de arte. E como e-book, já na minha nova função de responsável pelos livros digitais da editora, se tornou um marco, nosso primeiro best-seller digital. E para terminar, conheci o autor Walter Isaacson pessoalmente. Além de muito simpático, ele contou algumas boas histórias e ainda autografou meu exemplar.

Cem reuniões entre céu e mar

Por Fabio Uehara


Imagem exclusiva do aplicativo do livro Cem dias entre céu e mar, de Amyr Klink

Lembro da primeira vez em que li Cem dias entre céu e mar, de Amyr Klink. Como era possível um homem atravessar o Atlântico sozinho remando? Aquele oceano imenso que no meu atlas era maior que tudo, aquele azulão que dividia o Brasil da África, enquanto na minha mente infantil só tinha como referência uma praia onde eu havia remado exaustivamente no caiaque do meu tio. Se uma praia era tão imensa, imagine então um oceano. E o livro do Amyr mostrava aquela aventura inimaginável, cheia de encontros com animais selvagens, das dificuldades de passar tanto tempo só e, claro, enfrentar o Oceano, que parecia personificado em alguém a ser combatido e transposto.

Agora, trabalhando aqui na Companhia das Letras, em uma reunião que começamos a falar em ebooks, apps e afins, foi proposto fazer este livro para aplicativo em iPad. Imagine a minha felicidade: juntar aquele espírito aventureiro e empreendedor do Amyr com os recursos desta tábua digital!

Começaram então as reuniões: quem vai produzir conosco? Quais recursos iremos usar? Como iremos fazer? Para entrar neste mar, escolhemos a empresa Fluida, capitaneada pelo Daniel Mendes – afinal a Companhia das Letras faz cerca de 30 livros por mês, mas seria o primeiro aplicativo para iPhone e iPad. Apenas tínhamos molhado os pés no mundo eletrônico quando fizemos CD-Rom multimídia para o selo Letrinhas.

Logo pensamos em fazer o menu inicial como se fosse um mapa, mostrando capítulo a capítulo o avanço de um barco. Mostraríamos o barco em várias visões e todos os seus equipamentos. As reuniões foram avançando, detalhes foram se definindo, as pessoas foram enlouquecendo: “e agora o que fazemos com este botão? É melhor ser arredondado? Esta caixa poderia sumir? E as legendas? Temos de colocar as fotos! Mas elas são de época! A qualidade não é tão boa, mas são documentos! Cuidado com o mapa das correntes! E o mapa com os encontros e aventuras! A baleia foi antes! O desenho interno do barco está com a linha meio torta!”. E eu enlouquencendo o Daniel, que com toda a sua paciência e competência conseguiu resolver todos os problemas. E o Amyr e sua equipe sempre tão prestativa para não fazermos nenhuma besteira.

Foram 356 dias exatos, desde a primeira reunião até a Apple colocar no ar na App Store. Quando baixei o primeiro “exemplar” me senti novamente uma criança, descobrindo este novo mundo. E de quebra ainda conheci o Amyr Klink pessoalmente!

Foi o primeiro App que criamos (o do livro Quem soltou o Pum? foi o primeiro a ficar pronto). Foi difícil, mas vai ser o primeiro de muitos. Que sejam melhores, em todas as plataformas!

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Fabio Uehara é designer, fã de gadgets e produtor gráfico da Companhia das Letras, onde coordena o departamento de arte dos selos Companhia das Letras, Cia. das Letras e Companhia de Bolso.

O dia em que eu conheci um presidente da República

Por Fabio Uehara

boy

Imagine um menino que quis aprender a ler para saber o que estava escrito naqueles balões de história em quadrinhos. Que seus primos um dia esconderam todos os gibis da casa para terem o companheiro de brincadeiras de volta. Que, em uma casa onde não havia o hábito da leitura, lia desde O pequeno príncipe até Sidney Sheldon, pela absoluta falta de escolha, e pelo deslumbramento por aqueles volumes que continham tantos mundos. Sim, era eu, um neto de japoneses que, aos 12 anos, já tinha 2,75 de miopia, absolutamente tímido, mas absurdamente fascinado por aquelas páginas que teimavam em ser empoeiradas, apesar de minha rinite. Uma criança que passava tardes e noites depois da escola num canto do quarto divido com dois irmão mais velhos, lendo. Minha mãe, muito zelosa dos estudos, não permitia TV além do tempo estipulado por ela, então eu lia até a Enciclopédia Britânica. Ali conhecia terras para onde a Brasília de meu pai não podia me levar.

A felicidade infantil só se comparava à do primeiro game portátil do Donkey Kong. Ou quando achei no quartinho da bagunça uma velha máquina de escrever, que batia em duas cores, letras maiúsculas e minúsculas, e ainda me servia como um microcomputador e cabine dos caças de Guerra nas Estrelas. Até meu irmão mais velho aparecer com um TK80, o primeiro computador pessoal do Brasil, que não tinha nem como gravar os programas. Para usar algum, era preciso programá-lo (na verdade, copiávamos de alguma revista) e quando o desligávamos, o programa era simplesmente apagado, pois não tinha HD ou disquete ou algo similar.

Depois disso passaram uma série de outras coisas chamadas computadores em nossa casa, devidamente comprados na Santa Efigênia e montados pelo meu irmão Luis, engenheiro e fuçador. Eu sempre ligava essas máquinas beges e com suas telas brilhantes e ficava fuçando naquele quarto cheio de irmãos (na verdade só dois: além do Lú, o gênio autodidata Ricardo), me divertindo por entre telas apenas verdes. Um dia, Luis apareceu com um mouse e um monitor a cores. Foi como quando descobri Vidas secas, ou Drummond: alegria, emoções! Apertar aquelas teclas e ver aquele parco Windows 3.1 responder (imagine então a emoção de abrir a caixa do meu primeiro iMac, do meu primeiro notebook, do meu primeiro smartphone).

Comecei a brincar com o programa de desenho, o tosco Paint, vendo a imensa variedade de fontes ― todas as 12 delas. Foi como ler O tempo e o vento ou Mario Quintana. Ali, naquele pequeno quarto com aquele dinossauro informático marrom, diagramando, desenhando com o mouse, vi se juntarem meus amores, que depois viraram minha profissão.

Ainda hoje me admira quando penso em uma capa que produzo ou crio dentro desta caixa metálica e que, depois de algumas semanas, vira aquele produto tão especial, que durante toda minha vida admirei, vivi e me fiz nele.

Hoje vejo a possibilidade de novamente juntar esses dois objetos de minha admiração, livros e tecnologia. Livros que podem ser um pouco mais. Imagine um livro com a trilha sonora pensada para AQUELE momento da trama. Ou um infográfico animado para explicar aquela teoria de física tão complexa. Não a ponto de se tornar um filme ou um jogo, mas de ter uma camada a mais de leitura que nos ajude a transportar aqueles tantos mundos que o autor criou.

A tecnologia não vai matar o livro. Ponto. Ela pode ajudar a expandi-lo, a ser mais. Ela pode ajudar, nos acrescentar muito. E pode trazer experiências inusitadas, como a de conhecer e conversar por um bom tempo com um presidente da República sobre como usar um leitor de e-books. Não que ele não pudesse entender sozinho, mas estes anos de nerd, enfiado entre livros e eletrônicos, me fizeram a pessoa indicada para essa função, de ser um manual de instruções ambulante. Naquele momento em que dava explicações para uma figura tão importante, me senti novamente aquele garoto de óculos, leitor de gibi, feliz. E tão orgulhoso.

E cheio de esperança de fazer os livros serem livros, mesmo quando não forem de papel.

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Fabio Uehara é designer, fã de gadgets e produtor gráfico da Companhia das Letras, onde coordena o departamento de arte dos selos Companhia das Letras, Cia. das Letras e Companhia de Bolso.

A Companhia das Letras responde – parte 4

Nesta 4ª e última parte do “A Companhia das Letras responde”, temos mais dois vídeos. No primeiro, Fabiana e Thais falam sobre o trabalho de revisão:

No segundo, Elisa e Fabio falam sobre a escolha do design e da capa dos livros:

E, respondendo algumas questões que foram enviadas na última semana:

Rodrigo Strobel: Existe previsão de lançamento de A origem das espécies, de Charles Darwin, pela Penguin-Companhia das Letras?
R: Por enquanto não há previsão para lançarmos A origem das espécies, mas obrigado pela dica!

Luis: Olá, gostaria de saber quando o Asterios Polyp será lançado. Obrigado. (:
R: Asterios Polyp está previsto para junho.

Holq: Gostaria de saber quando o Mestres antigos, de Thomas Bernhard, será lançado. Além disso, vi que vocês lançarão Wilson, de Daniel Clowes — mas e quanto a David Boring e Ghost World, alguma previsão ou, ao menos, interesse em lançá-los? (E bem que vocês poderiam criar um espaço fixo para dúvidas e respostas sobre datas de lançamentos, né?) Um abraço.
R: Por enquanto não pretendemos lançar Mestres antigos nem as outras obras de Daniel Clowes. Todavia, Meus prêmios, de Thomas Bernhard, será lançado no meio do ano.  Quanto às datas de lançamento, você sempre pode nos perguntar pelo twitter ou pela nossa página de contato.

Muito obrigado a todos que enviaram perguntas e acompanharam os vídeos, esperamos que vocês tenham gostado!

Assista aos outros vídeos do “A Companhia das Letras responde”:

Parte 1: Maria Emilia, Thyago, André e Ana Paula respondem questões sobre processo de edição, Jorge Amado, tradução e aquisição de direitos autorais estrangeiros.

Parte 2: Júlia, Ana Maria e Helen explicam o processo de edição e produção dos livros infantis e juvenis.

Parte 3: Lucila, Julia, Vanessa e Otávio explicam o dia a dia do trabalho de edição e falam sobre a avaliação de manuscritos. Marta e Matinas falam sobre Daniel Galera, Lygia Fagundes Telles e jornalismo literário.

O mundo não está mais tão simples, né?

Por Fabio Uehara

Quando o carteiro trazia cartas. Na época em que lembrar do nome daquela música era um suplício, e a solução dependia daquele amigo que tinha dinheiro para comprar todos os discos e não te gravava uma fita cassete sequer. Se pintasse a dúvida “qual o nome do pintor das Niféias?” ou “como é mesmo o nome da capital da Iugoslávia?” você não tinha outra opção senão consultar a Barsa ou a Mirador. Se eu falasse que encontrei um amigo da escola, as pessoas logo imaginariam que eu esbarrei com ele na videolocadora ou na fila do orelhão.

Hoje essas situações não são mais que lembranças para muita gente. Dos objetos afetados pelas mudanças tecnológicas o livro é o que talvez interesse mais aos leitores deste blog. Então é sobre as mutações dele que eu vou falar. O livro se tornou independente do papel, um arquivo que roda em um software de um determinado hardware. Você pode lê-lo no celular, no computador, no tocador de música, no leitor de livros digitais Kindle, COOL-ER e iPad.

É muito fácil ter os seus livros em um pedaço de plástico. Carregar uma biblioteca ali, no formato de uma lousa mágica, com a tela cinza, onde as letras vão surgindo ao toque de um botão e se desenham quase como um mimeógrafo digital na sua frente. Em alguns casos o livro pode ser ditado para você. Mais alguns cliques e um dicionário também está lá, para que a solução chegue tão logo apareça a dúvida sobre o significado de uma palavra, junto com informações que a princípio não te interessavam, como a etimologia e os antônimos.

Qualquer livro já digitalizado pode estar ao seu alcance em segundos, basta seu cartão de crédito ter o limite necessário. Além dos e-readers, existem os tablets: pequenas maravilhas de vidro e plástico capazes de reproduzir tudo aquilo que antes precisava de uma TV, um videocassete, um videogame, um terminal de videotexto, um fax e, claro, de espaço físico no caso do armazenamento de livros e pilhas de revistas. Ou seja, para ser portátil, só com um caminhão da Granero. E, apesar da praticidade desses meios, não podemos dizer que o livro em papel é ou será um objeto em extinção. O objetivo desse post não é discutir o futuro do livro, e sim mostrar a variedade de meios pelos quais podemos lê-lo, suas vantagens e desvantagens:

  • E-readers (Sony Readers, COOL-ER, Kindle): tela ótima para leitura, diagramação dos livros simplificada (poucas fontes e ilustrações pobres), “apenas” para leitura. Ótimos para uma leitura rápida, aquisição prática de arquivos.
  • Tablets (iPad, Slater, e outros tantos a caminho): tela ótima para imagens e vídeos. Uso muito fácil. Possibilidade dos livros terem interação, áudio e vídeo. A tela emite luz, não dá para ler no escuro (parece que tem uma lanterna na sua cara), nem muito no claro (imagina ver TV na sala, ao meio-dia, com um baita sol batendo na janela sem cortinas). Esqueça a idéia de usar o iPad à beira de uma piscina em um dia ensolarado. Mas também, quem seria louco de deixar o iPad tão perto da água?
  • O livro de papel: não precisa de bateria nem conexão com internet. Dá pra ler  no sol, na penumbra ― minha mulher não reclama mais do abajur e sim do iPad! Se você for ler algo que exija mais que um terço dos seus neurônios, ler no papel é bem melhor.

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Fabio Uehara é designer, fã de gadgets e produtor gráfico da Companhia das Letras, onde coordena o departamento de arte dos selos Companhia das Letras, Cia. das Letras e Companhia de Bolso.