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A foto de Lima Barreto

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Há mais de Lima Barreto na literatura do que seus aclamados livros nos levam a imaginar. Muitos textos do autor de Triste fim de Policarpo QuaresmaRecordações do escrivão Isaías Caminha Clara dos Anjos ainda são desconhecidos dos leitores, e assim ficaram durante mais de um século. O motivo, certamente, é o fato desses textos terem sido assinados com pseudônimos. Mas isso muda com o lançamento de Sátiras e outras subversões, que acaba de chegar às livrarias pelo selo Penguin-Companhia.

Felipe Botelho Corrêa, pesquisador e professor de literaturas e culturas do Brasil, de Portugal e da África lusófona na universidade King’s College London, foi atrás dessa obra desconhecida e é o responsável pela organização desta edição, que apresenta 164 textos de Lima Barreto publicados sob pseudônimos em revistas satíricas do Rio de Janeiro. A seguir, leia um trecho da introdução que o pesquisador escreveu para Sátiras e outras subversões, e conheça outro lado de um dos mais importantes autores brasileiros.

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Todos os 164 textos que compõem a edição que o leitor tem em mãos são inéditos em livro, e foram publicados originalmente em periódicos. Nesse sentido, mais do que uma antologia, este volume é a revelação de uma parte da obra de Lima Barreto que permaneceu completamente desconhecida por mais de um século. Embora as razões para tal desconhecimento sejam várias, a que mais pesou certamente foi o fato de o autor ter utilizado pseudônimos em muitas de suas colaborações em revistas desde o início até o fim de sua carreira, em 1922.

O esforço para encontrar material inédito sobre o escritor também logrou identificar uma nova imagem fotográfica que, de certa forma, sintetiza a proposta deste livro. Apesar de ter sido publicada em 1907 numa revista de grande circulação e estar disponível em arquivos diversos — como é o caso dos textos aqui revelados —, somente agora foi possível identificar sua fisionomia, da mesma forma como só agora foi possível identificar alguns dos pseudônimos. Na imagem, o escritor aparece na plateia que lotou o Palace-Theatre no Rio de Janeiro naquele ano para a conferência humorística organizada pela revista Fon-Fon. Intitulado “As cariocas e os cariocas”, o evento apresentou uma galeria de figuras da cidade, que eram comicamente ilustradas no palco por dois desenhistas da revista no decorrer do espetáculo. Em meio a tantos rostos, é preciso se ater ao detalhe para poder identificar a presença de Lima Barreto, autor cuja iconografia não é extensa.

Essa fotografia é um importante registro do início de uma carreira literária e do contexto que cercava o autor naquele momento. À esquerda da imagem, sentado na quarta fileira, sério e concentrado, ele ainda não tinha adquirido o prestígio que lhe trariam Recordações do escrivão Isaías Caminha, que ele começaria a publicar naquele ano em fragmentos na revista Floreal. Ele já era, contudo, colaborador da Fon-Fon naquele momento, com textos publicados desde o primeiro número, editado em abril de 1907, ainda que sob a máscara de pseudônimos. Entretanto, nesse momento ainda não se sentava junto aos principais colaboradores, como os caricaturistas Raul Pederneiras e Calixto Cordeiro, que protagonizaram o evento e que aparecem na primeira fila, na parte inferior da imagem.

A foto nos dá uma amostra do tipo de público que uma revista popular ilustrada como a Fon-Fon tentava alcançar. Com ingressos esgotados e lotação máxima, vemos o teatro repleto de homens e mulheres de variada faixa etária, além de jovens e crianças, o que já serve como um pequeno indício do apelo e do sucesso das substanciais tiragens que a revista teve desde seu lançamento, como veremos mais adiante. Antes, contudo, é importante chamar a atenção para alguns detalhes. Mais do que uma ênfase na individualidade de cada colaborador, o que se tem aqui é uma identidade coletiva assumida e representada pela revista. O espetáculo era do grupo de colaboradores da Fon-Fon, que tinha como símbolo a imagem do automóvel que buzina a modernidade pela via da sátira visual e escrita.

Lima Barreto é um dos poucos negros presentes neste prestigiado evento na capital do país. Ele está em meio a tantas caras não identificáveis e alguns rostos que se escondem, outros que deliberadamente gesticulam para o fotógrafo e a maioria que aparenta ignorar a presença do aparato num teatro que emanava modernidade com seus elementos art nouveau. Consciente do uso que será feito da fotografia, Lima Barreto aparece encarando atentamente a câmera, buscando um contato visual com o leitor da revista. Sua vestimenta de terno e gravata está em gritante contraste com as fotos que foram descobertas nos últimos anos, em que ele aparece com o uniforme de interno do Hospital Nacional dos Alienados em 1914 e 1919. Essas três fotografias são momentos da vida e do contexto de uma personalidade que desde o princípio de sua carreira como escritor optou por produzir uma literatura subversiva que é, em grande parte, de base satírica.

A sátira para ele tinha a potência de ser combativa, revolucionária e mortal no âmbito do embate das ideias e das práticas daquele começo de século XX. Em um de seus artigos para a Careta, ele afirma:

A troça é a maior arma de que nós podemos dispor e sempre que a pudermos empregar é bom e é útil.
Nada de violências, nem barbaridades. Troça e simplesmente troça, para que tudo caia pelo ridículo.
O ridículo mata e mata sem sangue.
É o que aconselho a todos os revolucionários de todo o jaez. […]
Assim é que todos devemos fazer.
Troças, troças, sempre troças.

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Sátiras e outras subversões, de Lima Barreto e organizado por Felipe Botelho Corrêa, já está em todas as livrarias.

Lima Barreto subversivo

Por Felipe Botelho Correa

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Rio de Janeiro em 1915.

Em dezembro, Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, faz 100 anos. Para marcar a data, convidamos vários estudiosos para escrever sobre o livro. A próxima colaboração é de Felipe Botelho Correa, pesquisador e professor de estudos brasileiros e lusófonos da universidade King’s College London.

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“Subversivo” foi a definição de Triste fim de Policarpo Quaresma em uma das poucas resenhas que apareceram nos jornais logo que a edição em livro do folhetim de Lima Barreto foi publicada em dezembro de 1915. Com ares de denúncia, o autor da crítica aponta o escritor carioca como pertencente a uma nova geração de intelectuais antirrepublicanos que ganharam espaço através de “publicações obscuras e desdenhadas que não receberam a tempo o corretivo devido”.

Foi de fato através de edições de baixo custo que Lima Barreto fez seu nome circular nas livrarias da época numa tentativa de dar sobrevida aos textos que publicava em revistas e jornais. Triste fim… é uma das pérolas dessa atuação incansável, combativa e debochada que ele encarnou sobretudo através da sátira. Atuação essa que ele próprio definia como consequência de suas implicâncias com certas ideias, indivíduos e práticas que surgiam nos primeiros anos da República no Brasil. “Não sou republicano, não sou socialista, não sou anarquista, não sou nada: tenho implicâncias”, afirmou ele em 1911.

Esse foi o mesmo ano em que escreveu a história de Policarpo Quaresma. O herói quixotesco, cujo destino já está marcado no título do romance, é um personagem que cultiva as origens e as características autênticas de sua pátria mítica “no silêncio do seu gabinete” através das leituras de uma seleta biblioteca com obras de ficção e de história exclusivamente sobre o Brasil. A história do triste fim do visionário estudioso do “culto das tradições” brasileiras aparece como subversivo não só por ridicularizar a administração republicana e tratá-la com desdém, como afirma o oficial militar autor da resenha tirânica, mas por expor, como um cronista burlesco que mata pelo riso, o caráter ridículo das ideias que surgiam no contexto político e social da jovem República.

O livro de Lima Barreto é uma resposta contundente e irreverente aos ultranacionalismos que pipocavam em textos como Porque me ufano de meu país (1900), de Afonso Celso, Através do Brasil (1910), de Olavo Bilac e Manoel Bomfim, ou mesmo no próprio Hino Nacional, cuja letra foi escrita por Joaquim Osório Duque Estrada em 1909 para idolatrar a pátria amada, que é imaginada deitada “em berço esplêndido ao som do mar e à luz do céu profundo.”

Triste fim… é subversivo porque ousa pensar o Brasil para além das ideias de nação e pátria, e em busca de uma perspectiva mais complexa em relação aos problemas e tensões de sua época, como fica claro em outros textos de Lima Barreto publicados na imprensa. Em vários desses artigos, muitos deles recentemente descobertos e ainda inéditos em livro, a implicância com o nacionalismo essencialista fica evidente. Para ele, o conceito de humanidade deveria se sobrepor ao de pátria, e a literatura deveria ser a arte que, tendo o poder de transmitir sentimentos e ideias, deveria trabalhar pela união da espécie, e não pela construção de conflitos, como a Primeira Guerra Mundial que já estava em curso quando, há cem anos, Lima Barreto bancou do próprio bolso a primeira edição deste livro que se tornou um clássico.

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Leia mais sobre os 100 anos de Triste fim de Policarpo Quaresma:

Triste fim, por Lilia Moritz Schwarcz

O riso, a sina e o sonho, por Antonio Arnoni Prado

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Felipe Botelho Correa é do Rio de Janeiro e transferiu-se para o Reino Unido, onde concluiu seu doutorado pela Universidade de Oxford. Atualmente é pesquisador e professor de estudos brasileiros e lusófonos da universidade King’s College London.