fernando gabeira

Semana cento e trinta

Os lançamentos desta semana são:

O silêncio contra Muamar Kadafi, de Andrei Netto
Em 10 de março de 2011, familiares, amigos e colegas suspiraram aliviados após vários dias sem notícias do jornalista Andrei Netto no interior da Líbia, então conflagrada pela revolução. O repórter do jornal O Estado de S. Paulo acabava de ser entregue pelas autoridades do claudicante regime líbio aos cuidados do embaixador brasileiro em Trípoli, de onde retornou a sua casa em Paris. Netto, na companhia de um jornalista iraquiano do Guardian, havia sido sequestrado no início do mês por militantes kadafistas na pequena cidade de Sabratha, no oeste do país, e levado para uma prisão secreta nos arredores de Trípoli. A detenção lhe rendeu oito dias de isolamento e deflagrou uma campanha internacional por sua libertação, felizmente bem-sucedida. Neste livro eletrizante e corajoso, o jornalista relata suas experiências humanas e profissionais no país, incluindo diversas entrevistas com vítimas e combatentes. A história da guerra revolucionária que acabou com mais de quatro décadas de opressão kadafista é contada passo a passo por uma testemunha privilegiada dos acontecimentos.

Novos poemas II, de Vinicius de Moraes
Em 1938, Vinicius de Moraes publicara seu quarto livro sob o título Novos poemas. O uso do adjetivo não era por acaso, pois ali havia mesmo uma mudança de rumos: após uma fase místico-religiosa, os versos mostravam agora ritmos variados, tinham vivacidade, observavam o cotidiano. Em 1959, Vinicius recuperaria o antigo título num volume que reunia poemas escritos entre 1949 e 1956: Novos poemas (II). Mas as mudanças diziam mais respeito à vida que à obra.
Só agora – mais de cinco décadas após seu aparecimento – Novos poemas (II) volta a ser editado como volume independente. A edição abre com um caderno de imagens que reproduz versões anteriores àquelas que o poeta fixou, além de fotos relacionadas ao período englobado pela obra. Ao final, o leitor encontrará um posfácio escrito por Ivan Marques e, na seção “Arquivo”, um abrangente ensaio de Eduardo Portela sobre a poética de Vinicius de Moraes.

O pacifista, de John Boyne (Trad. Luiz Antônio de Araújo)
Inglaterra, setembro de 1919. Tristan Sadler, vinte e um anos, toma o trem de Londres a Norwich para entregar algumas cartas à irmã mais velha de William Bancroft, soldado com quem combateu na Grande Guerra. As cartas, porém, não são o verdadeiro motivo da viagem de Tristan. Ele já não suporta o peso de um segredo que carrega no fundo de sua alma, e está desesperado para se livrar desse fardo, revelando tudo a Marian Bancroft. Resta saber se o antigo combatente terá coragem para tanto. O pacifista é uma história de amor e de guerra que se insere na tradição do romance Reparação, de Ian McEwan. Nada é o que parece nesta trama envolvente e vigorosa, que revela as consequências de uma vida tragicamente marcada pelo silêncio. Com uma abordagem original e relevante para o nosso tempo, o autor do best-seller internacional O menino do pijama listrado revisita neste romance o universo da guerra, tendo dessa vez como pano de fundo a Primeira Guerra Mundial. Sensível e engenhoso, John Boyne esmiúça um dos capítulos mais traumáticos da história da humanidade pela perspectiva de dois jovens soldados que lutam, acima de tudo, contra a complexidade de suas emoções.

O compositor está morto, de Lemony Snicket (Trad. Érico Assis)
Quem já ouviu uma orquestra tocar, sabe que os músicos têm toda a pinta de culpados. Onde estavam os Violinos na noite do crime? Alguém viu a Harpa? Não parece que o Trompete ficou um pouco nervoso demais, reclamando de tudo?
Neste desconcertante e misterioso crime, cada suspeito parece ter um motivo, mas todos têm álibis – os Violinos estavam tocando graciosas melodias, os Violoncelos estavam no acompanhamento, as Violas estavam reclamando da vida, como sempre, as Flautas estavam imitando passarinhos, os Clarinetes fizeram muitos elogios ao Inspetor, os Trombones se embebedaram e a Tuba ficou em casa com a sua senhora, a Harpa, tomando leite morno numa xicarazinha azul. E, no entanto, o Compositor ainda está morto.
Depois de ouvir os instrumentos e a narração do próprio Lemony Snicket, ou a versão em português, com música de Nathaniel Stookey interpretada pela Filarmônica de San Francisco, os leitores descobrirão o que aconteceu no crime mais bem orquestrado da história.

A máquina de madeira, de Miguel Sanches Neto
Uma enorme máquina taquigráfica chega ao Rio, vinda numa embarcação do Recife. Quem acompanha o desembarque é seu criador, o padre Francisco João de Azevedo. A máquina é uma das revoluções do século XIX. Com ela, sermões e discursos poderão ser transcritos com agilidade até então desconhecida, como que num registro do próprio progresso brasileiro. É um momento de ebulição nas ciências nacionais. Dezenas de inventores se agrupam no prédio da Exposição Universal, que receberá visita do imperador d. Pedro e de investidores do mundo todo. Nas ruas, a expectativa de um salto industrial e econômico para o Brasil. Neste romance histórico, o escritor Miguel Sanches Neto usa a trajetória do padre Azevedo, precursor da máquina de escrever e quase desconhecido entre nós, para narrar a formação da identidade de um país. Com humor e um olhar por vezes ferino, mostra um Rio de Janeiro que tenta caminhar do exótico para o moderno, um lugar onde os ventos europeus contracenam com resquícios do Brasil colônia. A figura do padre professor, impelido à desastrada aventura no Rio por suas habilidades manuais e ânsia pelo progresso, serve de baliza para uma trama maior, de exploradores e explorados, de articulações políticas e econômicas, que vai da intriga nos corredores do Paço à residência de uma certa amante do imperador, passando pelos melhores bordéis da cidade.
Em meio a essa quase tragicomédia brasileira, surge um personagem denso e complexo. Entre a fé e a ciência, entre o amor e o dever, Azevedo representa uma nova mentalidade. No descompasso de suas ideias progressistas e as já velhas tradições nacionais, surge uma reflexão atual sobre um país sempre em movimento. No Rio de Janeiro do século XIX, recriado minuciosamente por Miguel Sanches Neto, é o Brasil de hoje que se desvela.

Onde está tudo aquilo agora?, de Fernando Gabeira
Como seu famoso relato, O que é isso, companheiro?, este livro também nasce de uma indagação. Se, no primeiro, Gabeira usava a militância na luta armada para reavaliar suas posições, em Onde está tudo aquilo agora? é toda essa trajetória de cinco décadas que ele passa em revista. A partir de uma revolta incipiente, “um difuso desejo de liberdade”, acompanhamos os caminhos que o fazem se voltar para o jornalismo e se empregar em redações do Rio de Janeiro e de Belo Horizonte, iniciando então sua atividade política. É como jornalista que ele acompanha o golpe de 1964. Com o endurecimento do regime, Gabeira radicaliza e se envolve num dos mais conhecidos episódios da ditadura, o sequestro do embaixador Charles Elbrick. Na parte final de Onde está tudo aquilo agora?, Gabeira passa a limpo esses dezesseis anos como deputado em Brasília, assim como as duas campanhas políticas, para a prefeitura e para o governo do Rio. Os erros e as dificuldades são inseridos numa meditação ampla sobre o fisiologismo e a política partidária no Brasil. Do rompimento com o PT a uma percepção interna do mensalão, ele transforma a atividade parlamentar em mais um passo para compreender a democracia, a liberdade e o poder.

Editora Paralela

Profundamente sua, de Sylvia Day (Trad. Alexandre Boide)
Desde o primeiro momento em que se viram, Eva e Gideon experimentaram uma atração incontrolável. Mais do que sexo casual, os dois logo se deram conta de que o que havia entre eles era um amor profundo e arrebatador. E de que viver esse romance seria muito complicado. Segundo volume da trilogia Crossfire, Profundamente sua dá continuidade à jornada que Eva e Gideon começaram em Toda sua, romance publicado em 34 países que já vendeu mais de 1 milhão de exemplares e 600 mil e-books só nos Estados Unidos. Neste livro ainda mais ardente, detalhes perturbadores da história de Gideon são revelados, e Eva se defronta com a reaparição de um fantasma do passado, enquanto os dois lutam para construir um futuro juntos. Recheado de surpresas e cenas picantes, este romance é imperdível!

Post mortem, de Patricia Cornwell (Trad. Celso Nogueira)
Um brilho inusitado sugere a presença de alguma substância desconhecida no corpo de uma série de mulheres assassinadas. Mulheres saudáveis transformam-se em corpos inertes, assassinadas por prazer. Escassas e obscuras, as pistas não levam a lugar nenhum. A investigação dos crimes está sendo sabotada. A dra. Kay Scarpetta, médica-legista, precisa ir muito além da identificação de um produto químico para chegar ao assassino. Precisa descobrir, por exemplo, quem está do seu lado e quem não está.

Mesa 4: Autoritarismo, passado e presente

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Convidados:

Mediação: Zuenir Ventura

Processos do Ministério Público contra agentes do Estado acusados de tortura e a criação de uma Comissão da Verdade para investigar crimes e desaparecimentos ocorridos durante a ditadura fizeram com que a sociedade brasileira voltasse a discutir de maneira acirrada um passado que para muitos teria sido oficialmente superado com a promulgação da Lei da Anistia e a redemocratização. O autoritarismo em nosso país, no entanto, não começa em 1964 nem termina em 1985. Luiz Eduardo Soares e Fernando Gabeira discutem nossa tradição autoritária e o modo como ela se manifesta no presente.

Horário de início: 19h30

Zuenir Ventura: O autoritarismo é definido como o excesso de autoridade, de poder. Vocês concordam com isso?

Gabeira: Você poderia aplicar o conceito em relações pessoais, mas eu enfoquei a relação Estado-sociedade.

Luiz Eduardo: Mas no caso do Brasil, a linha de continuidade do autoritarismo se mostra tão constante que a relação entre os seres humanos acaba sendo objeto de nosso trabalho também.

Gabeira: O totalitarismo veio porque havia uma opinião de que o povo não saberia votar, e havia receio quanto ao federalismo.

Luiz Eduardo: Hoje em dia nós podemos não apanhar mais, mas negros e pobres vivem sendo abusados e todo mundo sabe, é uma barbárie e um enigma ético pra mim.

Gabeira: As pessoas partem da ideia de salvar o povo, mas na época da proclamação da República, por exemplo, os escravos eram contra. Porque ela seria uma República escravocrata.

Gabeira: Volta e meia surge a vontade de controlar a imprensa. Há uma tentativa de tornar políticos em personagens, porque eles sabem que essa é a única possibilidade de juntar as massas.

Luiz Eduardo: Não há como compreender a presença do autoritarismo no Brasil sem pensar na cordialidade brasileira explicada por Sergio Buarque de Holanda.

Luiz Eduardo: Prestes foi aclamado por deixar o lado privado separado do público no caso da Olga. Mas eu acho que isso mostra uma falta de compreensão dos direitos humanos, uma falta de vontade de transgredir certos valores.

Gabeira: Foro privilegiado é abuso de autoridade, e com voto secreto é praticamente impossível condenar alguém. As evidencias não importam mais, só a versão que eles apresentam. Isso é autoritarismo, a sociedade roubada não consegue se defender. Com a eleição do Lula havia uma expectativa, mas é como se o PT tivesse dito “o mundo fez de mim uma puta, eu vou fazer do mundo um bordel”.

Luiz Eduardo: Há uma retórica pudica, não se chama tortura de tortura, isso afetou a transição. Há uma tolerância com as versões apresentadas. A Comissão da Verdade pode vir a oferecer uma oportunidade de chamar o crime por seu nome.

Gabeira: Pra mim parece que eles não querem apurar a verdade, parece um time jogando a bola pro escanteio pra gastar tempo.

Mediador: Houve um avanço nas relações pessoais no Brasil?

Gabeira: Houve um avanço no respeito às crianças, aos gays (embora ainda haja muitos assassinatos), mas isso é um avanço da sociedade. Na época da aprovação do divórcio também havia tanto aqueles que agradeciam quanto aqueles que diziam que ia acabar com a família.

Luiz Eduardo: Vale a pena invocar o suicídio de Getúlio Vargas. Houve uma ruptura na história que só foi reparada com a morte de Tancredo, que foi oposta.

Mediador: A Dilma é uma presidenta autoritária?

Gabeira: Não conheço a relação dela com os ministros, só com o congresso. É uma relação de distância porque os marketeiros disseram que era importante distanciar a imagem dela do congresso. Porque os presidentes podem governar com MPs. O congresso no Brasil
Passou a ser um carimbador de decisões, e isso é algo autoritário.

Luiz Eduardo: Eu acho que como presidente ela não é autoritária, é centralizadora de um jeito exagerado. É uma tentativa de se distanciar de discussões políticas.

Gabeira: Mas o problema é que ela age como se fosse tudo um céu azul! Alguém precisa ver por que já tanta corrupção.

Luiz Eduardo: Sobre a Lei da Anistia, eu aceitaria não punir os envolvidos contanto que houvesse uma investigação da verdade, ao invés da aceitação de uma versão.

Gabeira: Eu acho que falar em verdade é complicado, mas nessa questão da anistia eu concordo plenamente com você. Foi um arranjo político. Nós exilados voltamos felizes, foi um avanço. Agora a relação de poderes mudou. Mas sobre a punição, também sou contra, eles estão quase morrendo.

Luiz Eduardo: Sobre a Comissão da Verdade, eu queria que houvesse um esforço por fundamentar os fatos, que pudéssemos reunir as versões que poderiam aparecer nos livros de história das nossas crianças.

Gabeira: Eu não espero muito da Comissão porque não espero muito de qualquer comissão. A imprensa e a sociedade é que impulsionam a investigação.

Horário de término: 20h45