flann o’brien

Companhia das letras brasilienses

Por Joca Reiners Terron


Houve um tempo, ali por 1986 e 1987, em que a ficção publicada pela Companhia das Letras lembrava um pouco a Brasiliense, editora de onde o Luiz Schwarcz saíra. Suponho que ainda estivessem adaptando a linha editorial, ou recriando nova orientação com total autonomia. Mas para os leitores que haviam delineado seu gosto literário com livros da Brasiliense, aquele chorinho era um consolo para nossa orfandade fora de hora.

Algumas escolhas de títulos de ficção foram especialmente marcantes. Isso incluía também a arte gráfica das capas, que recorria muito à ilustração. Hoje em dia a maior parte dos capistas — eu mesmo — se apóia no uso da fotografia, o que em geral resulta em capas meio burocráticas — foto ok, lettering ok, mas e daí? Talvez para distingui-las das capas da Brasiliense, as da editora recém criada quase sempre eram brancas, ou traziam boa parte da capa de área em branco. Ou seria coincidência?

Nesse sentido, acredito em coincidências tanto quanto na inocência dos editores. Aposto que tudo, desde a escolha de certos livros e autores até a escolha do papel alta alvura das páginas — já falei aqui dos fungos alucinógenos que nascem nas páginas dos livros — foi crime premeditado para não causar síndrome de abstinência nos antigos leitores viciados.

Dois títulos que ando lendo por esses dias me fazem lembrar daquela época, O Arquivo Dalkey, de Flann O’Brien, e Meus Amigos, de Emmanuel Bove. Que livros, meus amigos, que livros. Deste último falarei numa próxima.

Flann O’Brien é o grande desfalque da inesquecível coleção Circo de Letras, da Brasiliense. É o Romário não convocado por Telê em 1986, o Neymar esquecido em 2010. Nascido em 1911 com o nome de Brian O’Nolan, o irlandês teve várias encarnações. Como colunista de humor, publicou centenas de artigos no jornal The Irish Times com o pseudônimo Myles na Gopaleen. Sob o disfarce de Flann O’Brien, publicou ao menos três obras-primas, O Terceiro Tira (publicado aqui pela L&PM em 1987) e At Swin Two-Birds (que a Cavalo de Ferro acaba de publicar em Portugal). Dizem que James Joyce tinha este último na cabeceira da cama quando morreu.

O Arquivo Dalkey trata das idas e vindas de dois amigos, Mick e Hackett, que ao tomarem um banho de mar conhecem por acaso o dr. De Selby, um cientista louco que fabrica seu próprio uísque e vai destruir o mundo. Para realizar tal façanha, De Selby descobriu que o tempo linear não existe. Se isso vai lhe ajudar ou não a realizar seu intento não interessa muito. O que realmente vale é que a inexistência do tempo lhe permite uns encontros hilários.

Um deles é com Santo Agostinho debaixo d’água. Depois de encherem a cara de uísque artesanal, Mick, Hackett e De Selby vestem trajes de mergulho e vão ao encontro do filósofo. Não dá para revelar aqui o conteúdo da tertúlia subaquática, mas nela O’Brien destila todos os ingredientes de que sua prosa é feita: anarquia, eclesiofobia, surrealismo etílico ou etilismo surrealista e extrema aversão ao banal. Em suma: sátira das mais escuras, forjada nas mesmas caldeiras infernais de onde escaparam Jonathan Swift, Oscar Wilde, Bernard Shaw, Samuel Beckett e James Joyce.

O autor de Ulysses, aliás, descoberto ressurrecto por Mick no pub de um vilarejo litorâneo no qual trabalha como barman, é a arma secreta para combater os nefastos planos do simpático De Selby. Como diagnostica Vivian Mercier na orelha de O Arquivo Dalkey, “nenhum aspecto da existência é sagrado o bastante para escapar ao escárnio do riso irlandês”. Muito menos James Joyce escaparia, é claro.

Dentre todos os personagens insanos de O’Brien meu predileto é o sargento Fotrell, beberrão dos beberrões (o esporte mais praticado no livro é esporte nacional irlandês, a nobre biritagem), um policial tomado pela verborreia pernóstica e por uma visão muito particular da ciência que turbina a doses de vinho tonificante de Hurley, um biotônico endemoninhado que mistura ao uísque e às cervejas.

Em meio aos eflúvios farmacêuticos, Fotrell acredita na sensata ideia de que os homens de sua província estejam pouco a pouco adquirindo as características de suas bicicletas. Para evitar que isso aconteça, ele as rouba. Melhor delinquir com boas intenções do que permitir que os rapazes fossem acometidos de barbaridade semelhante à ocorrida com seu avô, que passou a agir como o seu velho cavalo Dan.

Com Fotrell, Mick, Hackett e outros, Flann O’Brien faz o leitor crer que o humor negro escurecido ainda mais por doses equinas de cerveja preta Guiness, da mesma forma que a noite na curiosa acepção do dr. De Selby, não passa do “acúmulo de substâncias negras fuliginosas na atmosfera”. FIAT LUX.

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Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu novo livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, acaba de ser publicado. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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