flip

A literatura do luto

Por Colm Tóibín (tradução de Carlos Alberto Bárbaro)

48415657_1a09552bcb

Colm Tóibín é um dos principais nomes confirmados para a Flip 2015. Autor de Mães e filhosBroolkyn O testamento de Maria, lança agora pela Companhia das Letras Nora Webster, um romance que conta a história de uma recém-viúva que afunda na própria dor e fecha os olhos ao sofrimento dos filhos. Para conhecer melhor o autor que vem ao Brasil e o livro que acaba de chegar às livrarias, traduzimos este artigo publicado originalmente no The Guardian em que Tóibín fala sobre luto e literatura. Leia a seguir.

* * *

Quando fui estudar em Dublin, em 1972, a escritora Mary Lavin era presença constante na cidade. Eu a observava enquanto ela passava com certa majestade entre as mesas da Biblioteca Nacional rumo à mesa principal, ou enquanto ela se sentava em uma pequena cafeteria chamada Country Shop, ou enquanto ela tomava um café na Bewley da Grafton Street. Normalmente desacompanhada. Vestindo preto. O cabelo repartido ao meio e desleixado em um coque. Sua expressão era gentil, triste e estranhamente alheia, mas apresentando também uma força engraçada. Ela passara a vida a descrever os outros e descobrindo estratégias para criar versões dela mesma; não era uma pessoa fácil de classificar, ou mesmo de identificar só de olhar.

Não lembro ao certo como soube que ela ficara viúva ainda jovem, e com filhos, mas tenho certeza de que já sabia disso antes de vir para Dublin. Eu tinha interesse pela palavra “viúva” e teria prestado muita atenção a uma escritora, ou a qualquer mulher, na verdade, que fosse viúva, pelo fato de minha mãe ser uma. Pode ser que eu tenha sabido ao ler um conto de Lavin na escola, “O filho da viúva”.

Quando comecei a cruzar com ela em Dublin, eu já tinha lido um bocado de sua obra. Algumas de suas histórias nada significavam para mim. Os retratos da vida da classe média alta no condado de Meath, no norte de Dublin, eram muito rarefeitos. Mas as histórias que descreviam a vida de uma viúva eram demasiado próximas do modo como vivíamos então em nossa casa e àquilo que não era pronunciável — o trabalho de silêncio em torno ao luto, a vida de uma mulher solitária, a ausência palpável de um homem, de um marido, de um pai, nosso pai, meu pai, a noção da conversa como um modo de ocultar a dor em lugar de revelar o que quer que fosse, principalmente sentimento — para que eu não a tivesse lido com total identificação. A identificação era tão clara, na verdade, que não me recordo de ter identificado algo. Eu a lia demasiado superficialmente.

E eu devo ter precisado sentar quando cheguei a esse trecho do conto de Lavin chamado “Felicidade”:

“Quando o Pai foi para o hospital, a Mãe foi com ele, e se hospedou em um pequeno hotel do outro lado da rua para poder estar com ele o dia todo, da manhã até o final do dia. ‘Porque era muito chato pra ele, ficar em Dublin’, ela disse. ‘Você não faz ideia do quanto ele detesta aquilo.’”

Talvez eu tenha pensado que isso iria estar em outros livros no futuro — uma imagem tão precisa do que tinha se passado conosco —, mas jamais reencontrei isso. Só lá. E está no romance que acabo de escrever, Nora Webster, mas levou um bom tempo para que eu encontrasse uma forma dramática para aquelas palavras.

As personagens de Lavin, em suas histórias sobre solidão e viuvez, vivem num tempo crepuscular. Elas mal e mal prosseguem. Uma de suas histórias sobre luto e o que vem a seguir, a cessação do luto, é “No meio dos campos”. Na primeira frase, ela estabelece que sua heroína está só, em um local isolado na zona rural. Assim, lê-se a seguir: “E a despeito disso ela estava menos solitária para ele aqui em Meath do que em outro lugar qualquer.”

A perda é algo complexo, ou se manifesta de modo complexo. As pessoas acham que ela quer falar sobre o seu marido morto, ou ser lembrada do que ela perdeu. “Pensavam que ela estava abraçando fortemente cada memória que tinha dele. O que é que eles sabem sobre a memória?” Ela sonhava com um tempo em que tivesse “esquecido dele por um minuto”. É claro que o luto não tem de ser nomeado “luto”, ou esmiuçado com uma lupa. Tudo o que ela sabe é que o jeito dela sentir não é estável, não é confiável. É refratário.

Nas histórias de Lavin sobre a perda, a viúva recente tem de refazer as próprias regras, inclusive as mais banais regras de comportamento. Emoções afloram, surgem novos desejos; as ações de suas personagens podem facilmente tornar-se irracionais e difíceis de explicar; frequentemente elas fazem o contrário do que pretendiam. Não serem preservadas da perda afeta todo o seu raciocínio, mesmo quando não estão refletindo sobre a perda, e, na verdade, afeta tudo o que fazem.

Essa noção da personalidade como algo repentinamente adaptável sob a pressão da perda pertence, fundamentalmente, à literatura do luto porque, naturalmente, pertence à experiência.

Na escola, lembro-me de estar sentado na última fileira da sala, logo após meu pai ter morrido, ouvindo um debate sobre a loucura de Hamlet e sobre o caráter de Hamlet, em que todos se perguntavam como é que Hamlet podia estar apaixonado num instante e no seguinte não apresentar qualquer traço de amor, e então estar furioso e pronto para a vingança e a seguir disposto a procrastinar, num minuto, melancólico, no seguinte, brincalhão, e por que seu tom podia ser tão sábio e repentinamente também tão amargo e de um sarcasmo cortante e rude. Como podia ele ser tantas coisas, e como poderíamos nós definir seu caráter?

Eu queria ter levantado a mão para dizer que eu achava que entendia o que estava na raiz de todas as suas disposições. O seu pai tinha morrido há pouco. Isso era tudo. Ele tinha sido deixado à deriva. Enquanto todos ao seu redor tentavam lhe explicar que o que havia acontecido era normal, que era parte da natureza, e tentavam seguir em frente, Hamlet havia ficado sem chão; e, por sorte, Shakespeare enxergara as possibilidades dramáticas dessa situação.

No prefácio a seu Grief Lessons [Lições de luto], a tradução de quatro peças de Eurípides, Anne Carson reflete sobre o luto. “Por que existe a tragédia?”, ela pergunta. E em seguida responde: “Porque se está cheio de fúria. Pergunte a um caçador de cabeças porque ele corta as cabeças das pessoas. Ele dirá que a ira o impele, e a ira nasce do luto. O ato de cortar e jogar fora a cabeça da vítima lhe permite purgar a ira de todos os seus lutos. Talvez você julgue que isso não se aplica a você. No entanto, lembre-se do dia em que sua esposa, ao volante rumo ao funeral de sua mãe, virou à esquerda em vez de à direita no cruzamento e você teve que gritar com ela tão alto que os outros motoristas se voltaram para ver o que estava acontecendo. Quando você arrancou a cabeça dela e a atirou pela janela, eles assentiram com a cabeça, mudaram de marcha e seguiram seu caminho”.

Alguns anos antes, na introdução para a sua tradução de Electra, de Sófocles, uma das grandes peças sobre o luto, o tom empregado por Carson transpira menos certeza quando ela escreve sobre a cena em que Orestes volta pra casa e entrega à sua irmã uma urna com cinzas que ele diz ser de Orestes, seu irmão morto. Orestes escuta por alguns instantes o pranto de Electra antes de revelar que estava apenas pregando-lhe uma peça, estando na verdade vivo por o tempo todo, e agora parado ali, à frente dela. Carson cita a declaração da atriz Fiona Shaw, que considera a “cena de decepção/reconhecimento entre Electra e Orestes indizivelmente impossível de interpretar”.

Carson prossegue: “Críticos e estudiosos (e tradutores) concordam que esta cena é algo difícil de entender. Por que Orestes resolve enganar sua irmã fazendo-a pensar que ele está morto? Por que ele desiste no meio? Qual o objetivo buscado por Sófocles aqui? A alternação entre mentiras e verdades, emoções altas e baixas, é desconcertante e cruel, o cabo de guerra sobre uma urna, quase bizarro”. Da mesma forma, Phillip Vellacott, tradutor da versão de Eurípides da mesma peça, indaga sobre esta cena e identifica o ponto “em que Orestes deveria revelar-se… Ele não se revela. Por quê?”.

A solução é com certeza simples. A trapaça de Orestes, claro, é o próprio câmbio do luto. Orestes, tendo perdido o seu pai, é incapaz de voltar impávido. As questões de vida e morte invadiram o seu espírito e o envenenaram de tal modo que a abordagem de que faz uso para reencontrar sua irmã será completamente tortuosa. Ele simplesmente não consegue lidar com a emoção. Como Carson escreve sobre a versão euripidiana de Orestes: “Ao fim e ao cabo, Orestes é um cliente peculiar — não propriamente louco, mas estranho e irreconhecível. Sua consciência é inteira e totalmente dele apenas.” Assim, sua resposta será repleta de dubiedade e trapaça sobre a coisa em si — a diferença entre estar vivo e morto —  com a qual ele não consegue ser capaz de chegar a um termo. Tornar-se “desconcertante e cruel”, segundo a definição de Carson, e “bizarro” é o que aconteceu a sua personalidade sob pressão. Enquanto à irmã coube toda a catarse, Orestes deixou a dor se acomodar silenciosamente no âmago mesmo de seu ser, de forma que nada que ele fizesse seria jamais fácil de explicar. Enquanto as pessoas deram um jeito de evitar sua irmã por conta das coisas que ela dizia, talvez elas estivessem ainda mais ocupadas em evitar Orestes por conta do seu silêncio.

Algumas semanas depois da morte de meu pai, fui com minha tia à casa de uma velha amiga dela e de minha mãe para pegar algo. Quando minha tia disse que minha mãe estava no carro lá fora, a amiga recuou um passo, deixando claro, sem que fosse preciso dizer nada, que não estava preparada para isto e que preferia que minha mãe permanecesse no carro. Ao presenciar isto, eu me recolhi. Ninguém sabe o que fazer na presença de alguém que tenha sofrido uma perda, ou o que dizer.

Em seu A grief observed [Um luto cumprido], publicado em 1961, após a morte da esposa, C. S. Lewis descreve exatamente essa sensação, no pós-luto, de ser alguém a ser evitado. “Um produto estranhamente inesperado de minha perda é ter a consciência de ser um constrangimento para todos que encontro… Outros também se dão conta disso. R. esteve me evitando por uma semana… Talvez os enlutados devessem ser isolados em acampamentos especiais, como os leprosos.” Em Levels of life [Níveis de vida], escrito após a morte de sua esposa, Julian Barnes escreve: “Como, então, você se sente? Como se, após ter sido largado de uma altura de muitas centenas de metros, consciente o tempo todo, tivesse primeiro aterrissado em um leito de rosas com um impacto que o tivesse feito se ajoelhar, e cujo choque tivesse feito com que seus órgãos internos se rompessem e fossem arremessados para fora do seu corpo. É essa a sensação, e como poderia ser diferente? Não admira que alguns queiram desviar a conversa para um assunto mais tranquilo. E talvez eles não estejam evitando a morte, e ela; talvez eles estejam te evitando.”

Em A história de uma viúva, escrito após a morte do marido, Joyce Carol Oates descreve os esforços da amiga C. para organizar um enorme jantar festivo para ela, convidando muitos dos seus amigos, a fim de aliviar a sua dor. “Eu vislumbro uma mesa de jantar de nove metros quadrados, com a viúva colocada na extremidade mais afastada, como uma leprosa, o mais distante possível da amável C.” Apesar de Oates sugerir um evento menor, C. persiste, apenas para descobrir, claro, que os amigos não estão livres em nenhuma das noites sugeridas. Oates escreve: “Começo a perceber que embora C. tenha dito que ela e seu marido estão ansiosos para me encontrar, eles estão na verdade atemorizados com a possibilidade.”

A escrita de Lewis, Barnes e Oates sobre o luto é profundamente pessoal, precisa e particular. O sentimento que descrevem é único porque a pessoa perdida é única. A perda acontece apenas uma vez. Mas a escrita é também pública; ela não vem sob a forma de um diário com várias referências crípticas. Sua fonte é talvez a mesma fonte da ficção em si — a misteriosa e compulsiva necessidade de encontrar um ritmo e um tom elaborado para sugerir e comunicar os sentimentos, imagens e fatos mais privados a outrem, de construir frases que partam do simples espelhamento do escritor para proporcionar ao leitor um vislumbre mais intenso do mundo.

Romancistas inventam coisas, mas as coisas, ou os sentimentos que as envolvem, vêm do mundo; elas têm uma forma, como a forma do mundo, ou a forma, de fato, da experiência, incluindo a experiência do escritor ou suas preocupações mais prementes. Assim, para um romancista, a experiência do luto abre seu caminho para se tornar obra do mesmo modo que as águas de uma inundação podem ser canalizadas em uma correnteza. O ano do pensamento mágico e Noites azuis, os dois livros de Joan Didion sobre a perda de seu marido e de sua filha, e Diga o nome dela, o livro de Francisco Goldman sobre a morte de sua esposa, fazem uso, com técnica e sutileza, do próprio dom para a narrativa que distingue os autores como romancistas.

Os romancistas se tornaram personagens em seus próprios livros. Pela urgência do tom, eles deixam claro, contudo, que, na ressaca da perda, nada que eles possam inventar se compara a isso. E que, dado serem escritores, o que aconteceu precisa ser escrito para poder ser compartilhado e entendido, e assim poder se despir de sua incoerência. E para que eles, em sua impotência e fragilidade, possam ao menos fazer isso, possam ao menos escrever como é que foi.

Para outros escritores, o luto opera de um modo mais estranho e hesitante, como se o volume de água ficasse parado e começasse a se infiltrar pelas coisas. Tanto na ficção de Nadine Gordimer quanto na de Juan Goytisolo há uma vigorosa distância emocional, tornada palpável pela inteligência e preocupações políticas dos escritores. Quão estranho, então, descobrir, no último livro de contos de Gordimer, uma história intitulada “O sonho dos mortos”, em que ela sonha que está tendo uma refeição com seus velhos amigos, Anthony Samson, Edward Said e Susan Sontag, mas passa todo o tempo à espera do seu recém-falecido marido, a quem o livro é dedicado. “Você voltou ontem à noite? Eu tento te materializar via sonhos, mas você não aparece”, começa o conto. E termina assim: “Eu sentei à mesa, você não apareceu, tarde demais. Você não virá. Nunca”. E no miolo, a ausência dele paira sobre cada gesto, cada palavra, cada pensamento.

O romance de Goytisolo, The blind rider, é coalhado pela ausência da esposa do escritor de uma longa relação, uma ausência mencionada nas primeiras páginas apenas como “sua partida”. Lentamente, as referências momentâneas à perda, à morte dela, dão lugar ao mais abjeto luto. À semelhança de Gordimer, o tom pessoal e o desamparo são tão mais agudos e surpreendentes em razão da ausência dela da maior parte das outras obras de ficção de Goytisolo.

Comecei este meu romance, Nora Webster, na primavera de 2000. E mesmo tendo escrito outros livros durante os treze anos e meio seguintes, adicionei algo a Nora Webster em cada um desses anos, ou pelo menos eliminei algo dele. Eu pensava no livro quase todo dia. Embora alguns dos detalhes sejam inventados, inclusive os do lugar para onde Nora vai para trabalhar, não há nada inventado no que se refere ao clima na casa de cidade pequena onde eu e meu irmão mais novo vivemos com minha mãe nos anos seguintes à morte do meu pai.

A princípio pensei em escrever o livro de minha própria perspectiva, em vez da de minha mãe, mas ao tentar compor algo a partir daí, descobri que não havia nada, ou pelo menos não o suficiente para um romance. Era como se a experiência tivesse me esvaziado e fosse, do meu ponto de vista, demasiadamente repleta de silêncio e distância para me permitir ser capaz de juntar tudo para um romance.

Meu pai era professor na escola secundária da cidade. Eu conhecia as salas em que ele lecionava porque, como um estudante do primário, dirigia-me às salas dele na escola e esperava ali que ele terminasse sua aula. Bem, cinco ou seis semanas depois de sua morte, comecei, pela primeira vez, a frequentar a escola onde ele lecionava. Eu sentava nas salas de aula em que ele havia estado no quadro negro. O estranho é eu não me recordar de ter sentido nada; não houve drama, nenhum luto óbvio, apenas um vazio.

Pouco a pouco, seu nome parou de ser mencionado em minha casa. C.S. Lewis tem a descrição do mesmo silêncio após a morte de sua mulher: “Eu não consigo falar com as crianças sobre ela. No momento em que tento, em suas faces, não parece nem luto, nem amor, nem medo, nem piedade, mas o mais letal e frio dos condutores, a vergonha. Olhavam-me como se eu estivesse cometendo uma indecência. Torciam para que eu parasse. Eu senti exatamente o mesmo após a morte da minha mãe, quando meu pai mencionava ela. Não posso culpá-los. Os meninos são assim”.

O que amadureceu então foi uma estranha e insistente vigília que me deu, entre outras coisas, recordação total, de modo que há cenas em Nora Webster que, no mais mínimo dos detalhes — quem estava no quarto, quem disse o quê, quem olhou para quem, quem não disse nada —, aconteceram assim. Quando percebi que não poderia contar a história da minha própria perspectiva, que eu não tinha história, ou uma história tão repleta de caos e silêncio que não podia resultar em nada, foi quando vi que poderia, porque estivera observando e escutando tão ferozmente, dramatizar as coisas da perspectiva de minha mãe, ver as coisas do seu lado. Eu poderia combinar os truques e estratégias da ficção com o insistente trabalho do fato. Eu sabia o suficiente para ser capaz de imaginar tudo.

No primeiro capítulo que escrevi, Nora Webster resolve jamais voltar ao lugar no litoral de Wexford onde a família passava os verões. Eu escrevi uma grande porção do livro exatamente nesse lugar, não longe da casa onde nos hospedávamos, a casa para a qual nunca retornamos. O último capítulo do livro tem a cena mais difícil e emocional. Num sábado de agosto do ano passado eu levantei à primeira luz da madrugada para escrever a cena. Ela vinha estando na minha cabeça já há um bom tempo.

Depois, recordo que fui nadar no mar, ficando na água pelo maior tempo que pude. A cena estava escrita. Seria adorável dizer que eu me senti livre de tudo então, que por escrever tudo eu de algum modo tinha apagado tudo, ou que havia lidado com isso pelo menos da maneira apropriada, quebrado o silêncio. Mas escrever exige uma tal quantidade de apuro técnico, uma tamanha fria deliberação, que não dá pra ser uma forma de autoajuda. A página está branca quando você começa; não se trata de um espelho. Eu escrevi o romance porque ele estava em minha cabeça. Eu o escrevi porque o que está em minha cabeça tem o costume de tomar ritmo quase por si só. Mas eu sabia, não obstante, que isso era provavelmente algo para o qual eu não voltaria, e que portanto devia ser um alívio na sua conclusão, quando fosse escrito. Mas, como outros escritores que descreveram seu luto e sua perda devem saber, as coisas não são assim tão simples.

* * * * *

Colm Tóibín é autor de seis romances, entre os quais A luz do farol (2004), O mestre (2005), Mães e filhos (2008), Brooklyn (2011) e O testamento de Maria. É ganhador do Costa Book Award e do Los Angeles Times Book Prize, entre diversos outros prêmios. Vive em Dublin e em Nova York. Lança em junho pela Companhia das Letras Nora Webster

Juan Villoro estará na Flip 2014

Foi confirmada a participação do escritor mexicano Juan Villoro na Festa Literária Internacional de Paraty, que acontece de 30 de julho a 3 de agosto de 2014. Nascido em 1956, na Cidade do México, Villoro também é tradutor e professor universitário. Diversas vezes premiado por seu trabalho, é considerado um dos mais ativos intelectuais latino-americanos, escrevendo para revistas como Letras Libres e Etiqueta Negra, e para os jornais El País e Reforma. É autor de O livro selvagem, lançado no Brasil em 2011.

Em junho a Companhia das Letras lançará o seu novo romance, Arrecife, em que o ex-roqueiro Mario Müller explora o medo como forma de turismo. Leia um trecho do livro (tradução de Josely Vianna Baptista):

* * *

Avistei uma lagartixa transparente na parede. Tenho um fraco por lagartixas. São uma esplêndida companhia para um viciado. Quando a gente alucina, a presença de um inseto se torna intolerável e quase todas as espécies representam uma ameaça. Mas as lagartixas se movem com graça e brilham no escuro. Eu via o movimento delas como a expressão gráfica de minhas ideias. Naquela época, minhas ideias eram poucas, mas as lagartixas (velozes, azuis, amarelas, verdes) me faziam pensar que eram muitas.

O Gringo Peterson gostava de ouvir relatos de minha condenação alucinógena. Seu melhor amigo morrera no Vietnã, rasgado de cima abaixo por uma baioneta. Na guerra do napalm, caiu num combate corpo a corpo, como um cherokee. Seu segundo melhor amigo voltou de lá viciado em heroína. “Nunca fui a Saigon”, dizia o Gringo. Era obcecado por esse assunto. Parte do meu cérebro tinha sido detonado pelas drogas. Ele gostava que eu lhe falasse de alucinações e de noites que eu não recordava direito. E me ouvia como se eu também tivesse vindo do Vietnã.

É difícil relatar o que a gente perdeu, mas ele se conformava em estar perto de alguém que tinha afundado. “Você já saiu”, dizia de repente: “isto aqui não é o Nam, é a porra do paraíso.”

Era bom ver um magnata desprezando o luxo de seu hotel. Peterson usava camisas em tons claros compradas na Sears. Tinha o cabelo cortado à escovinha. Seus braços musculosos, cobertos de pelos avermelhados, sugeriam exercícios extenuantes. Seu porte tinha um quê do militar que não conseguiu ser. Não o recrutaram por um problema de vista.

Bebia um uísque muito mais barato que o de Mario. Nas sessões de Four Roses ele perguntava detalhes daquela minha vida bandida, com uma curiosidade nobre, alheia à compaixão. Seus melhores amigos tinham tombado. Não era um patriota anticomunista. O Vietcong pouco lhe importava. Simplesmente, sua vida tinha um fundo trágico. Era um sobrevivente.

Nasceu em Wallingford, uma cidadezinha sem graça em meio aos bosques de Vermont. Seu pai era dono de um posto de gasolina. Peterson cresceu enchendo tanques de carros que paravam ali por apenas alguns minutos. Naquela cidadezinha em que ninguém ficava, ele não pensava em ir embora. Lia qualquer coisa na biblioteca pública, ia até a cidade vizinha de Rutland para ir ao cinema ou para comprar mantimentos, nadava no lago de águas frias, que no verão se enchia de mosquitos. Aos dezoito anos se casou com uma vizinha. Era gente feita para permanecer lá, num isolamento austero e suportável.

Peterson tinha dois amigos do peito com quem desmontava motores, bebia cerveja, falava sem parar de beisebol (era o que ele dizia: eu o imaginava num silêncio satisfeito, compartilhando uma amizade sem palavras enquanto um sol denso caía atrás do bosque). Aos dezenove anos teve um filho. Todo seu destino apontava para a imobilidade, a felicidade estática, a reiteração prazerosa. Mas o infortúnio o golpeou duas vezes nos anos seguintes: seu filho se afogou no lago e sua mulher morreu de uma intoxicação, talvez voluntária. Sua vida se transformou em algo que já havia acontecido. O resto, o futuro, não existia.

“Os Estados Unidos sempre lhe oferecem uma guerra para expiar as culpas”, disse-me ele. Seus melhores amigos foram para o Vietnã, mas ele foi recusado. “Não queria matar ninguém, queria morrer lá.” Ele pronunciou tantas vezes esta frase que, para mim, ela virou uma espécie de canção de Los Extraditables. Nesse ponto de sua ladainha ele tomava um trago para dizer: “Eu queria morrer; tive de me conformar em fazer sucesso”.

Na cidadezinha tudo o fazia lembrar da mulher e do filho. Enquanto isso, seus amigos atravessavam uma selva úmida, disparando entre nuvens de maconha, no compasso do Creedence Clearwater Revival.

Peterson abandonou Wallingford, conseguiu um trabalho no Howard Johnson’s de Rutland, mostrou um inusitado talento para se movimentar entre pessoas em trânsito, foi contratado pela cadeia Holyday Inn, onde prosperou nas diferentes funções de gerente de bebidas, chefe de pessoal e gerente geral.

Gostava de perguntar sobre meu pai, sobre como eu o imaginava, sobre as razões que atribuía a sua partida (desde a primeira vez que mencionei isso, ele não acreditou na possibilidade de que tivesse sido baleado em Tlatelolco). Ficava intrigado por eu me conformar com esse desaparecimento. A incerteza de não saber lhe parecia pior que a certeza da morte. No entanto, ele não me convencia de que seria tão melhor assim saber de tudo. Vivia ancorado na lembrança do filho que não conseguiu salvar. Lembrava, com uma capacidade desvairada para o detalhe, da corda partida do motor fora da borda na lancha em que percorria o lago, dos minutos em que ficou esperando o motor esfriar para dar-lhe um novo nó. Enquanto isso, o rádio de transistores transmitia uma partida dos Red Sox de Boston. Dedicou o quarto e o quinto tempos dessa partida para consertar o motor. Depois cruzou o lago, até o embarcadouro onde seu filho devia esperá-lo na companhia de alguns amigos que celebravam uma festa.

Ninguém viu o menino de dois anos se afastar, ninguém o ouviu chapinhar na água. Havia tanta gente na reunião que não pôde culpar ninguém em particular. Sua mulher estava em casa com febre. Peterson repassava com aguda insistência o momento em que distinguia uma mancha rosada na água e depois um pontinho branco. Seu filho estava com otite e usava algodão nos ouvidos. Esse exato detalhe o fez saber que estava morto. De todos os habitantes de Wallingford só dois estavam na água, o pai e o filho. De um modo sinistro, o menino havia chegado a quem o procurava. Mil vezes Peterson repassou o tempo dedicado a consertar o motor. Sempre foi um sujeito metódico. Ouviu dois tempos da partida enquanto arrumava a corda. Não foi um intervalo de tempo muito longo. Revisara as gravações da partida para saber até onde podia se incriminar. Não houve corridas nem jogadores nas bases no quarto tempo. Os rebatedores tinham sido “retirados em ordem”, como diziam os locutores. Na quinta deram três hits, mas tampouco houve corridas. Intervalos não muito longos. No entanto, isso bastou para marcar a diferença.

Peterson não teve uma responsabilidade objetiva na morte, mas salvar o filho era factível. Isso bastava para afundá-lo, para que buscasse, com esforço metódico, seu próprio afogamento. Nunca falou com Mario sobre isso; falava comigo, o viciado que não lembrava quase nada sobre o pai. Ele me tratava como um ex-combatente, alguém que se fodeu num Vietnã alternativo, a vítima que ele não conseguiu ser.

Cumpriu o sonho americano sem a menor vontade, e seus progressos lhe pareceram uma segunda aniquilação. Para mim, isso o dignificava. “É um danado de um safado, você não o conhece”, dizia Mario, para me provocar.

Os lugares habitados por desconhecidos, as cozinhas anônimas onde toda receita é industrial, foram o novo hábitat de Peterson. Nunca mais teve relações próximas com ninguém. Eu também não o qualificava como um verdadeiro amigo. Eu ouvia o relato de sua carreira sem meta e o informava sobre o mundo dilacerado que não pôde conhecer. Isso era tudo: estranhos nos trópicos.

O mais curioso em sua condição de empresário era como ele lidava com dinheiro. Era irremediavelmente viciado em hipódromos. Apostava seus ganhos para livrar-se deles. Vez por outra a sorte o maltratava, fazendo-o ganhar. Seguia as corridas, mas não se dava ao luxo de assistir ao derby de Epsom ou ao de Kentucky. Apostava por telefone, alheio ao espetáculo dos cavalos, concentrado somente nos nomes e nos números, como um puritano da fortuna que desconfia de tudo que não seja o resultado.

O Gringo Peterson me parecia um grande sujeito, a figura oposta à do vencedor. Ganhava porque havia fracassado no que na verdade lhe interessava. Seus cálculos frios e suas decisões acertadas vinham de um prolongado repúdio.

“Me conte como as lagartixas se movem quando você está drogado”, pedia; um filete de saliva lhe descia até o queixo. Eu não queria voltar para aquele inferno, mas tinha um fraco por lagartixas, uma das poucas memórias prazerosas dos anos em que limei meu cérebro.

Um dia perguntei a Peterson por que ele não dividiu a heroína com o sobrevivente de Saigon. “Não queria a droga, queria o castigo, queria a guerra. A heroína é o consolo dos heróis; eu não queria consolo”, explicou. Falei que eu tinha me drogado sem a guerra pelo meio. Então ele soltou uma gargalhada: “Você é mexicano, Tony. Vocês não precisam de uma guerra para se drogar. Aqui a realidade já está alterada.”

Links da semana

No dia 16 de junho nós organizamos um encontro com blogueiros, para falar um pouco da nossa proposta e ouvir o que vocês tinham a dizer sobre o nosso blog até agora. Anotamos todas as críticas e sugestões (que vocês sempre podem nos mandar por e-mail ou escrever nos comentários). Algumas mudanças já apareceram, como a participação de editores contando sobre os livros em que estão trabalhando, e outras ainda estão planejadas.


Encontro de blogueiros

Todas as quartas-feiras, por exemplo, passaremos a colocar links de posts legais de outros blogs, e algumas notícias que acharmos interessantes.

Para começar, veio à tona a notícia de que John Updike deixou um extenso arquivo sobre seus trabalhos. Este mês a Companhia lançou dois livros do autor: As bruxas de Eastwick (em versão pocket) e sua continuação, As viúvas de Eastwick, e você pode ler sobre os dois no blog Devoradora de livros.

No dia 16 foi comemorado o Bloomsday, em homenagem ao livro Ulysses, de James Joyce. Para comemorar a data, o Daily Beast montou uma lista de livros que são considerados os equivalentes ao Ulysses em suas culturas, e o escolhido do Brasil foi Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa.

Para aqueles que ainda estão se acostumando com as novas tecnologias, duas novidades: o fabricante dos cadernos Moleskine criou uma capa especial para o Kindle, que, além de proteger o e-reader, tem um bloco para aqueles que preferem fazer suas anotações em papel. Já os saudosistas das máquinas de escrever podem adaptar suas máquinas para funcionarem como teclados eletrônicos, que podem ser usados via USB em computadores, laptops e até mesmo no iPad. Mas se você já se adaptou ao mundo da leitura digital, saiba que tanto a Amazon quanto a Barnes & Noble abaixaram o preço de seus e-readers.

Em resposta à lista da New Yorker dos 20 escritores americanos abaixo dos 40 anos que a revista acredita que merecerem atenção, o Telegraph divulgou uma lista semelhante com autores britânicos.

Alguns dias antes da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) anunciar os detalhes da venda de ingressos para o festival, os organizadores da Feira de Frankfurt divulgaram que o Brasil será o país homenageado da feira de 2013. A expectativa é que o foco na literatura brasileira estimule traduções dos autores do país no exterior.

O blog Leia Livros! traz uma resenha legal do infantil O livro da dança, da professora e crítica de dança Inês Bogéa, e o site Publishing Perspectives tem um texto bonito e interessante sobre o trabalho de um tradutor cego, que não abandonou seu trabalho apesar de suas dificuldades.

Para terminar, os leitores de Scott Pilgrim podem criar avatares à sua imagem no Scott Pilgrim Avatar Creator, com direito a status iguais ao usados no quadrinho e trilha sonora de videogame.