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Sinatra resfriado é Picasso sem tinta

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“Sinatra resfriado é Picasso sem tinta, Ferrari sem combustível — só que pior. Porque um resfriado comum despoja Sinatra de uma joia que não dá para pôr no seguro — a voz dele —, mina as bases de sua confiança, e afeta não apenas seu estado psicológico, mas parece provocar também uma espécie de contaminação psicossomática que alcança dezenas de pessoas que trabalham para ele, bebem com ele, gostam dele, pessoas cujo bem-estar e estabilidade dependem dele. Um Sinatra resfriado pode, em pequena escala, emitir vibrações que interferem na indústria do entretenimento e mais além, da mesma forma que a súbita doença de um presidente dos Estados Unidos pode abalar a economia do país.”

Este é o trecho mais famoso do mais famoso dos textos já escritos sobre Frank Sinatra, que, se estivesse vivo, completaria 100 anos hoje. “Frank Sinatra está resfriado” foi escrito por Gay Talese para a revista Esquire em 1966 e é até hoje considerado o melhor perfil jornalístico já escrito e uma das mais célebres peças publicada por uma revista.

“Frank Sinatra está resfriado” está na antologia dos grandes textos jornalísticos de Gay Talese, Fama e anonimato, que a Companhia das Letras lançou na coleção Jornalismo Literário em 2004. Leia mais um trecho do perfil de Sinatra por Gay Talese.

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Porque Frank Sinatra estava agora envolvido com muitas coisas que tinham a ver com muitas pessoas — sua companhia cinematográfica, sua gravadora, sua companhia aérea, sua indústria de componentes de mísseis, seus títulos imobiliários em todo o país, seu staff pessoal de 75 pessoas — e que são apenas uma parte do poder que ele representa. Ele parecia ser a personificação do macho plenamente emancipado, talvez o único da América, o homem que pode fazer tudo o que desejar, tudo mesmo, porque tem dinheiro, energia e nenhum sinal de culpa. Numa época em que os muito jovens parecem estar assumindo o controle da situação, protestando e manifestando-se e exigindo mudanças, Frank Sinatra se mantém como um fenômeno nacional, um dos poucos produtos do pré-guerra que resistiu à prova do tempo. Ele é o campeão que fez a volta triunfal, o homem que tinha tudo, perdeu tudo e depois recuperou tudo, fazendo o que poucos homens são capazes de fazer: destruiu sua vida, deixou sua família, rompeu com tudo que lhe era familiar, aprendendo nesse processo que a única maneira de conservar uma mulher é não tentar segurá-la. Agora ele goza da afeição de Nancy, de Ava e de Mia, a fina flor de três gerações de mulheres, e ainda é adorado pelos filhos, tem a liberdade de um homem solteiro, não se sente velho, faz com que homens velhos se sintam jovens, faz com que eles pensem que, se Sinatra é capaz de fazer alguma coisa, ela pode ser feita; não que eles mesmos sejam capazes de fazê-la, mas agrada-lhes saber que, aos cinquenta anos, essa coisa ainda é possível.

Mas agora, naquele bar em Beverly Hills, Sinatra estava resfriado, e continuava bebendo em silêncio, parecendo estar a quilômetros de distância, num mundo só dele, sem demonstrar reação nenhuma, nem mesmo quando, de repente, o estéreo do outro salão passou a tocar uma canção de Sinatra, “In the wee small hours of the morning”.