gabriel bá

Os melhores livros de 2015

8605398994_73b6bc03e2

Já é tradição fazermos um balanço no blog dos melhores livros do ano que passou. Reunimos neste post diversas listas de importantes veículos da imprensa nacional que escolheram os destaques de 2015. Se você perdeu algum lançamento e procura uma boa história para ler agora em 2016, conheça os livros do Grupo Companhia das Letras que mais se destacaram no último ano.

Entre o mundo e eu

Em Entre o mundo e eu, Ta-Nehisi Coates relembra seus momentos da infância em Baltimore e sobre como as tensões raciais sempre estiveram presentes em um Estados Unidos que se recusa a acordar do sonho americano. Na lista de melhores livros de: O GloboRisca Faca.

Dois irmãos

O grande e trágico épico de Milton Hatoum adaptado por dois dos mais extraordinários quadrinistas da atualidade, Fábio Moon e Gabriel Bá, entrou na lista de melhores HQs do ano do site Risca Faca.

Jeito de matar lagartas

Vencedor do Prêmio APCA na categoria contos/crônicas, o livro de Antonio Carlos Viana narra histórias do cotidiano aparentemente banais, mas que tocam em questões fundamentais como o envelhecimento, o sexo (ou a ausência dele) e a solidão. Na lista de melhores livros de: O Globo e Suplemento Pernambuco.

A capital da vertigem

No segundo livro de Roberto Pompeu de Toledo sobre a cidade de São Paulo, o jornalista faz um panorama monumental da capital, sobre como surge uma cidade que deixa a condição de vila e se impregna com a fuligem das chaminés, o vapor das fábricas e a fumaça dos automóveis.Na lista de melhores livros do Risca Faca.

Submissão

Em Submissão, Michel Houellebecq faz uma sátira precisa, devastadora, sobre os valores da nossa própria sociedade, e foi também um dos livros mais comentados de 2015. Na lista de melhores livros de: Estado de S. Paulo, El País BrasilJornal Opção e Veja

A noite do meu bem

A noite do meu bem, novo livro de Ruy Castro, mergulha na vida noturna da capital carioca nos anos 1940, 50 e 60 para contar a história do samba-canção, e entrou na lista de melhores livros do jornal O Globo.

A ilha da infância

Terceiro livro da série Minha Luta, de Karl Ove Knausgård, este volume narra a infância do autor em uma pequena ilha da Noruega. A ilha da infância está na lista de melhores livros do ano do Risca Faca.

Ainda estou aqui

Após 35 anos do lançamento de Feliz Ano Velho, Marcelo Rubens Paiva volta a falar sobre a história de sua família durante a ditadura militar em Ainda estou aqui. Concentrando o relato também em sua mãe, Eunice, o livro entrou na lista de melhores livros de O Globo.

A queda do céu

Davi Kopenawa, grande xamã e porta-voz dos Yanomami, e o antropólogo francês Bruce Albert oferecem neste livro um relato excepcional sobre a realidade indígena, ao mesmo tempo testemunho autobiográfico, manifesto xamânico e libelo contra a destruição da floresta Amazônica. Na lista de melhores livros de: O Globo e Suplemento Pernambuco.

O livro das semelhanças

O livro das semelhanças desperta o leitor para o prazer sempre iluminador e sensível de uma das vozes mais originais da poesia brasileira: Ana Martins Marques. Na lista de melhores livros de: O Globo e Suplemento Pernambuco

Revival

Revival, publicado no Brasil pela Suma de Letras, é uma história eletrizante de Stephen King sobre vício, fanatismo e o que existe do outro lado da vida. Está na lista de melhores livros da revista Veja.

O amor das sombras

Os contos de Ronaldo Correia de Brito em O amor nas sombras falam de traição, repressão, segredos e linhagens assombradas por uma herança de violência. A cada conto, a cada personagem, ele revela algo novo, sempre buscando um caminho distinto. Na lista de melhores livros de: O Globo e Suplemento Pernambuco.

A zona de interesse

A zona de interesse, de Martin Amis se passa em Auschwitz em 1942, e cada um dos vários narradores do livro testemunha o horror inominável  do campo de concentração a sua maneira. Na lista de melhores livros da Veja.

Brasil: Uma biografia

Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa M. Starling tratam o país como um personagem em Brasil: Uma biografia, livro com texto acessível que propõe uma nova e pouco convencional história do Brasil. Na lista de melhores livros do Suplemento Pernambuco.

Diários da presidência

Durante seus dois mandatos como presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso manteve o hábito quase semanal de registrar, num gravador, o dia a dia do poder. O primeiro volume de Diários da presidência, que traz a transcrição dos dois primeiros anos de FHC como presidente, entrou na lista de melhores livros do Jornal Opção.

Escuta

Com Escuta, Eucanaã Ferraz mais uma vez avança em sua escrita e confere vigor a toda a poesia brasileira. É o que levou o livro a figurar na lista de melhores do ano do Suplemento Pernambuco.

Assim começa o mal

Tendo como título um verso da tragédia shakespeariana Hamlet, o novo romance de Javier Marías apresenta um olhar arrebatador e inesquecível sobre o desejo e o rancor tendo como cenário a Madri pós-ditadura franquista nos anos 1980. Na lista de melhores livros de: Suplemento Pernambuco e Jornal Opção.

Uma menina está perdida no seu século à procura do pai

Hannah, de 14 anos, é portadora de uma doença congênita e está perdida. No cenário de destruição da Europa após a Segunda Guerra Mundial, ela encontra Marius, um homem que guarda seus próprios segredos e parte com a menina em busca de seu pai. O livro de Gonçalo M. Tavares está na lista de melhores livros do Suplemento Pernambuco.

Assim foi Auschwitz

Primo Levi e Leonardo De Benedetti, logo após o fim da Segunda Guerra, são encarregados de elaborar um relatório detalhado sobre as abomináveis condições de saúde dos campos de concentração. O relato está em Assim foi Auschwitz, que entrou na lista de melhores livros do Jornal Opção.

Os primeiros passos

Por Gabriel Bá

13286_10152787228536408_1213208732564560196_n

Dois meses. Duas línguas. Nove sessões de autógrafos em cinco cidades na França, mais de 4.000 livros vendidos nas primeiras quatro semanas. Oito eventos em cinco cidades do Brasil, todos com bate-papos e longas sessões de autógrafos. Quase 6.000 livros distribuídos. Contratos assinados para lançar edições em inglês e italiano ainda este ano. Nunca imaginamos que este livro pudesse ser tão brasileiro e, ao mesmo tempo, tão internacional.

Quando penso no Dois irmãos, parece que minha cabeça se transforma no Biblos, restaurante do viúvo Galib, com sua algaravia de vozes e línguas. Formulo frases em francês pra explicar a história, resultado do lançamento no Salon du Livre de Paris e da pequena turnê pela França, em março, promovendo a edição do Deux Frères, publicada pela Urban Comics simultaneamente com a edição brasileira. Na semana passada, terminei a revisão do livro em inglês e passei os últimos dias discutindo o livro com o editor, pensando na edição e no lançamento nos EUA. Mas quando penso nas frases do livro que mais me encantam, as palavras ainda vêm em português.

dois-irmaos-france1-500

dois-irmaos-france2-500

Depois de uma gestação de quatro anos, finalmente temos um livro novo no Brasil. Durante esses quatro anos, pudemos trabalhar em silêncio no Dois irmãos, não falamos ou mostramos nada do livro, assim como não fomos questionados sobre ele, pois as pessoas ainda estavam descobrindo o Daytripper. Incrivelmente, nosso último livro sobreviveu no interesse do público, nas prateleiras das livrarias, na boca do povo. Viajamos o mundo por causa do Daytripper. Sempre questionados sobre novos trabalhos, respondíamos que estávamos trabalhando nesta adaptação e a conversa parava por aí. Com o livro finalmente pronto e em mãos, surgem agora as razões para sair do isolamento produtivo e encontrar o público, falar da história, falar do trabalho, essa conversa entre leitor e autor só possível quando intermediada pela obra.

A curiosidade em cima do livro é enorme, cheia de “comos” e “porquês”, e o público presente nos lançamentos é muito diverso, incluindo nossos leitores, leitores do Milton, e até pessoas que se interessaram na obra depois de ver uma matéria na imprensa. Muitas pessoas descobrindo a história. Muitos não sabem nada do nosso trabalho, muitos não conhecem o Milton, mas a beleza desta adaptação está na união dessa gente toda, na ampliação de ambos os públicos.

dois-irmaos-curitiba-500

dois-irmaos-sp-500

O Daytripper foi publicado inicialmente nos EUA, já ganhou edições em 12 línguas e tem nos levado para convenções ao redor do mundo, mas ele também nos aproximou mais do público brasileiro. O Dois irmãos pode reforçar ainda mais esses laços. As duas histórias poderiam se passar em qualquer outro lugar do mundo, mas por se passarem no Brasil elas ganham mais autenticidade, mais camadas de leitura, dão mais ferramentas de reflexão ao leitor brasileiro. O livro do Milton apresenta uma cidade encantadora, mas praticamente desconhecida, isolada geograficamente e perdida no tempo.

Depois de trabalhar por tanto tempo com essa história, criamos uma ligação muito forte com Manaus, uma relação que só o tempo traz. Poder retornar à cidade para lançar o livro foi uma enorme honra, uma chance de voltar no tempo e reviver a história do livro, pois a cidade que conhecemos há quatro anos também não existe mais, continua mudando. O inusitado lançamento de uma adaptação para os quadrinhos da maior obra do autor mais celebrado da cidade tomou conta do largo São Sebastião, mobilizou a grande mídia local, e várias pessoas pararam para escutar os dois gêmeos que respondiam perguntas, hipnotizando a todos com a novidade, com o circo. Alguns ali também não conheciam o Milton nem o romance, mas ficaram admirados com aqueles artistas de São Paulo, que haviam pintado tão belo retrato da sua cidade. Ninguém reparava no desenho em preto e branco. Viam uma cidade de avenidas largas, praças amplas e arborizadas e lindos sobrados. Uma cidade que alguns poucos presentes conheceram, mas todos sentem saudade. O poder que a ficção tem de falar da realidade.

dois-irmaos-manaus-1

dois-irmaos-manaus-2

E finalmente, temos o Milton. Este trabalho nos apresentou e nos aproximou do Milton, um sábio, um mestre, um amigo. Ouvir o Milton falando do nosso livro é como ouvir um professor elogiando o desempenho do seu filho na escola, nos infla o peito de orgulho. Ele não está se gabando ou falando bem de sua própria obra, mas fala como maior conhecedor do assunto. Ele podia não saber nada da profissão de quadrinista, mas entende o trabalho e fala do nosso livro, da complexidade da história, dos personagens como se não tivessem saído da cabeça dele. Como ele mesmo disse, os dois livros são irmãos, mas não são gêmeos.

Nossos trabalhos são semelhantes e diferentes e o livro nos uniu, criou uma relação de respeito mútuo. A relação do Milton com a escrita, com a literatura, nos ensinou muito sobre os quadrinhos.

Este livro tem tudo que nós sempre acreditamos ser possível de fazer: uma história incrível, com a intensidade e poesia da literatura e o poder narrativo dos quadrinhos. Ele já nasceu falando mais de uma língua e viajando o mundo, e esses são só os primeiros passos.

* * * * *

Gabriel Bá nasceu em 1976, em São Paulo. Formado em Artes Plásticas pela ECA-USP, criou em 1997, em parceria com o irmão gêmeo, Fábio Moon, o fanzine 10 Pãezinhos. Por quase 20 anos, tem produzido Histórias em Quadrinhos para o mercado brasileiro e internacional. Seu último livro, Daytripper, estreou em primeiro lugar na lista de mais vendidos do NY Times, já foi publicado em doze idiomas e ganhou os prêmios Eisner Award e Harvey Award (E.U.A.), o Eagle Award (Reino Unido), o prêmio de melhor Bande Dessinée no festival Les Utopialles, em Nantes, e entrou na seleção oficial do Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême 2013 (França). Ele e o irmão publicam a tira Quase Nada aos sábados na Folha de São Paulo, e em 2015 lançaram pela Quadrinhos na Cia. a adaptação de Dois irmãos para os quadrinhos.
Site — Twitter — Instagram — Facebook

Semana duzentos e quarenta e dois

123

 

O mundo de Atenas, de Luciano Canfora (Tradução de Federico Carotti)
Luciano Canfora procura aqui restituir Atenas à sua história, estudar a cidade e seu tempo a partir dos textos primários, destituídos das camadas geológicas de interpretação e mito. O resultado é o desmanche da máquina retórica em torno do “berço da democracia”. Com recurso ao rico e variegado arsenal de fontes à disposição do historiador, o professor da Universidade de Bari demonstra que desde a Antiguidade vem se construindo um discurso engrandecedor dos feitos e instituições de Atenas — para fins e em contextos diversos —, muitas vezes em franca contradição com os documentos que dão suporte a essas narrativas. E mais: ao fazer a leitura cerrada dos textos originais, o autor aos poucos revela que os principais críticos do sistema democrático foram os próprios intelectuais atenienses.

Corpo, de Carlos Drummond de Andrade (Posfácio de Maria Esther Maciel)
Publicado em 1984, Corpo é um dos grandes livros da última fase de Carlos Drummond de Andrade. Com mais de oitenta anos de vida e cinquenta de carreira literária, o mineiro jamais se acomodaria: a força dos poemas reunidos neste volume é testemunha do inesgotável talento para ajustar, numa poesia tão comunicativa quanto poderosa, grandes temas como o amor, a morte, o meio ambiente e os afetos. Rico em significados, o título do volume lança luz sobre os vários corpos habitados por todos nós: este físico e mortal que carregamos desde o nascimento, o corpo sensual, sensorial e afetivo, e o corpo geográfico e urbano. Neste livro, o itabirano é bastante eloquente sobre o estado de coisas do Brasil. Seus versos têm o peso da denúncia, do comentário mais veemente — sem que isso signifique, claro, perder a ternura e o olhar generoso sobre a vida.

Turismo para cegos, de Tércia Montenegro
A vida de Laila está prestes a se esfacelar. Jovem aluna de artes plásticas, ela tem os planos interrompidos por uma doença degenerativa e incurável que vai lhe custar a visão. Conforme a cegueira avança, tarefas corriqueiras tornam-se desafios e tudo o que lhe era familiar precisa ser explorado e redescoberto. Assim, também há algo de novo no envolvimento com Pierre, um funcionário público aparentemente inexpressivo que irá cuidar de Laila com dedicação. Neste surpreendente romance de estreia, Tércia Montenegro tateia os caminhos que afastam e aproximam os indivíduos, revelando, com linguagem poética, um fluxo sinuoso de incertezas e, acima de tudo, a voracidade pelo desconhecido que reveste tantos encontros humanos.

O estado de narciso, de Eugênio Bucci
Eugênio Bucci investiga e analisa neste livro as fronteiras da “supermáquina da comunicação oficial”, trazendo à tona uma realidade escandalosa e ainda pouco discutida, relativa aos interesses privados e às táticas de informação nas diferentes esferas do poder público. A ideia é desmontar uma “usina de propaganda ideológica” e autopromoção, que precisa ser revista. O jornalista fala com o conhecimento de quem acompanha de perto os movimentos do front. Orçamentos bilionários e manobras para tirar proveito de brechas nas leis estão em jogo numa guerra em que a sociedade paga para ter acesso à informação e recebe em troca outro tipo de serviço. Com uma investigação minuciosa, Bucci questiona os atores envolvidos (máquina pública, mercado privado, partidos políticos, estrategistas) e propõe alternativas com base em experiências de outros países.

Quadrinhos na Cia.

Dois irmãos, de Fábio Moon e Gabriel Bá
Fábio Moon e Gabriel Bá embarcaram na missão de adaptar o romance de Milton Hatoum para uma graphic novel. Ao mesmo tempo que preserva a força narrativa de Hatoum, esta adaptação evidencia o talento de Bá e Moon na construção de histórias que alternam entre a tragédia, a delicadeza, a brutalidade e o humor. No traço deles, a vida dos gêmeos Yaqub e Omar ganha novos contornos épicos. A Manaus dos quadrinhos, feita de um jogo de luz e sombras, acolhe este drama que cruza gerações e, seja nos grandes planos ou nos mínimos detalhes, carrega o enredo original de energia e vitalidade. Quem conhece a obra de Hatoum vai não apenas reencontrar, mas redescobrir com outros olhos personagens marcantes como Domingas, Halim, Zana e Dália. E os novos leitores terão contato com um riquíssimo universo ficcional, um drama que, ao esmiuçar a intimidade e a rivalidade de Yaqub e Halim, lança luz nas frestas das relações familiares, do amor e da história recente do Brasil.

 

Do início ao fim

Por Gabriel Bá

inicio-ao-fim-500

“De onde você tira suas ideias?” 

Essa pergunta nos foi feita várias vezes por leitores, amigos e parentes, jornalistas, curiosos, artistas iniciantes querendo uma luz que aponte o caminho a ser seguido. Ela não tem uma resposta certa, definida, possível de racionalizar ou colocar em palavras. “De tudo, de conversas, de imagens, de coisas que eu escuto, eu vejo, eu leio. Do mundo, dos sonhos”. Todas estas respostas esbarram na verdade, mas nenhuma encerra a questão.

Uma ideia é o início de tudo. É aquela fagulha que aquece a imaginação do escritor e coloca todo o resto em movimento. É uma das etapas mais difíceis, verdade, justamente uma das mais preciosas, mas é preciso muita lenha e muito cuidado para alimentar o fogo, mantê-lo aceso e vivo. Uma ideia está longe de ser o trabalho pronto.

Não importa se é uma ideia para um desenho ou para um livro, ela é somente o começo do trabalho. A ideia se transformará em rascunhos, que levam aos estudos, que conduzem ao desenho pronto ou à história. E existe a emoção do processo, o valor da produção. É a jornada, a arrebentação. Existem aqueles que têm as ideias, mas não conseguem atravessar a arrebentação. É preciso muita determinação, vontade e paciência para continuar remando contra as ondas, dia após dia, durante os meses ou anos de trabalho. A sua ideia já ficou lá atrás, na praia. Foi ela que te convenceu a entrar no mar. Ao mesmo tempo, ela está lá no fundo, te chamando, te motivando a continuar dando braçadas enquanto a água te castiga e empurra para trás. Somente quem tem força para atravessar a arrebentação chega ao ponto privilegiado de onde ele pode aproveitar a experiência única de pegar aquela onda, de criar, de completar um ciclo.

A onda é o livro. Você pode enxergá-la da praia, ter uma vaga noção de como será surfá-la, você já viu outros fazendo e quer fazer também, mas é preciso nadar, remar, passar a arrebentação. A onda surfada é o livro pronto, impresso, na prateleira das livrarias, na mão dos leitores. É o sonho transformado em realidade.

Encontrei o Milton semana passada para conversarmos sobre o Salão do Livro de Paris, sobre o bate-papo que faremos juntos lá para falar da adaptação do Dois irmãos. Falamos da ansiedade de entregar o livro à editora e o tempo que demora até ele estar pronto, impresso, na sua mão. Conversamos das diferenças entre o processo de um romance e de uma HQ, das revisões, das correções, das mudanças. Quando a história está pronta? No nosso processo, a história está praticamente pronta quando terminamos o roteiro, o layout, mesmo que ainda falte desenhar centenas de páginas. A onda está lá, basta remar. Ele me contou que sempre escreve à mão, depois digita tudo para o computador e imprime, para ler e reler. Depois reescreve alguma coisa, redigita e relê. Repete esse ritual até achar que está pronto. Me disse que fez isso 16 vezes com o Dois irmãos. A paciência e determinação que levam à onda perfeita.

Agora o livro está terminado, escrito, desenhado. A última etapa é mostrar o trabalho para o mundo. Um livro inteiro feito, guardado na gaveta, não existe. Ele é tão real quanto a sua ideia inicial, quanto a onda que você imagina um dia surfar, ou até mesmo aquela onda que você surfou, diz que surfou, mas ninguém viu. É um trabalho de anos que não viu a luz do dia. O livro só está pronto quando ele é lido.

Hoje você pode mostrar o seu trabalho na internet, imediatamente e de graça, para milhões de pessoas. É uma possibilidade incrível de alcançar os leitores. Muitos autores de Quadrinhos hoje começam com webcomics, colocam suas tiras ou histórias curtas online, divulgam e são lidos. Alguns são mais conhecidos por seus trabalhos disponíveis online do que pelos livros impressos (podemos até nos incluir nesse grupo, considerando a quantidade gigantesca de pessoas que conheceram nosso trabalho através da nossa tira “Quase Nada” na internet, não no jornal, e só depois foram atrás dos livros, ainda assim nem sempre os encontrando). Isso não sustenta muita gente, mas o trabalho é visto e se torna real (até porque os livros impressos também não sustentam muitos escritores). Mesmo os e-books e versões digitais dos Quadrinhos têm sua vantagem, chegam aonde o livro físico não chega, a preços mais atraentes. É mais gente lendo, é isso que importa.

Mas eu conto histórias longas que não funcionam na velocidade da internet e sou de uma geração que quer ter o objeto livro, impresso. Ainda desenho no papel e gosto de segurar o livro na mão, de ver a história surgir na minha frente ao virar as páginas. Gosto de autografar os livros dos leitores, fazer um pequeno rascunho, uma marca para torná-lo um objeto único.

“Eu tinha começado a reunir, pela primeira vez, os escritos de Antenor Laval, e anotar minhas conversas com Halim. Passei parte da tarde com as palavras do poeta inédito e a voz do amante de Zana. Ia de um para o outro, e essa alternância — o jogo de lembranças e esquecimentos — me dava prazer.”

Adoro falar dos trabalhos, reviver as histórias, sou apaixonado pela linguagem dos Quadrinhos, por todas as etapas, e essa série de textos sobre o Dois irmãos foi um deleite, uma chance de voltar no tempo, de viajar lentamente por estes quatro anos de trabalho, olhar uma vez mais para cada detalhe e lembrar por onde nós andamos e o caminho que nos trouxe até aqui. Mas acredito que os trabalhos devem falar por si. Agora o livro está impresso, chegando às livrarias. A conversa dos leitores não é mais comigo, nem com o Fábio, nem com o Milton. É com o Halim, a Zana, a Rânia, Domingas, o narrador e os dois irmãos.

livro-espumante-500

* * * * *

Gabriel Bá nasceu em 1976, em São Paulo. Formado em Artes Plásticas pela ECA-USP, criou em 1997, em parceria com o irmão gêmeo, Fábio Moon, o fanzine 10 Pãezinhos. Por quase 20 anos, tem produzido Histórias em Quadrinhos para o mercado brasileiro e internacional. Seu último livro, Daytripper, estreou em primeiro lugar na lista de mais vendidos do NY Times, já foi publicado em doze idiomas e ganhou os prêmios Eisner Award e Harvey Award (E.U.A.), o Eagle Award (Reino Unido), o prêmio de melhor Bande Dessinée no festival Les Utopialles, em Nantes, e entrou na seleção oficial do Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême 2013 (França). Ele e o irmão publicam a tira Quase Nada aos sábados na Folha de São Paulo. Durante o mês de fevereiro, Gabriel Bá vai escrever para o blog contando mais detalhes sobre a adaptação de Dois irmãos para os quadrinhos.
Site — Twitter — Instagram — Facebook

 

O fim do capítulo

Por Gabriel Bá

capitulo-titulo-500

 “A minha maior falha foi ter mandado o Yaqub sozinho para a aldeia dos meu parentes”, disse com uma voz sussurrante. “Mas Zana quis assim… ela decidiu.”

Ao escritor cabe a difícil escolha de onde e como terminar um capítulo. Aquelas palavras, aquela frase que precisa ter cara de fim de capítulo, deixando uma impressão maior que as outras daquela página, incitando a curiosidade do leitor, introduzindo uma breve pausa para reflexão e o chamando para continuar a leitura. O fim de capítulo tem este desafio, esta responsabilidade.

Quando você escreve um texto em prosa, você não se preocupa com o espaço na página que o texto vai ocupar, somente com as palavras, com a forma da escrita, com o conteúdo; sai escrevendo, narrando, linha após linha, até o fim do seu capítulo, onde termina o texto. O fim do capítulo de um romance tem a ajuda do espaço em branco que restou na página para dar o respiro e a importância que ele precisa.

Numa história em Quadrinhos, a história é pensada espacialmente, pois você sempre tem o espaço físico da página pra considerar. Você escolhe a quantidade de informação que vai em cada página, em cada quadro, em cada balão. Assim como o desenho, o texto ocupa um espaço físico e tem diferentes pesos e importâncias dependendo do seu posicionamento na página. Todo fim de página tem a responsabilidade de chamar o leitor para a próxima página. O último quadro das páginas ímpares, da direita, têm uma importância maior ainda, pois eles precisam fazer o leitor virar a página para continuar a história. Normalmente é colocado neste quadro um “cliffhanger”, ou gancho, uma informação mais forte que agarre o leitor.

Uma HQ também pode ser dividida em capítulos, e o fim do capítulo precisa ser tão marcante quanto num romance, acumulando ainda as funções de fim de página, normalmente fim de página ímpar, com um bom gancho.

Quando pensamos no roteiro do Dois irmãos, fizemos tudo na forma de layout (como vimos no texto do dia 11 de fevereiro), assim já pensando ao mesmo tempo nos textos que entrariam, nos quadros, nas páginas. Fazíamos escolhas o tempo todo, em toda página, todo capítulo. Qual palavra vai entrar, qual será criada, modificada, onde vai entrar, qual imagem vai junto, onde acaba a página, onde vira a página, onde acaba o capítulo. Todas estas escolhas feitas neste estágio de roteiro, de layout, são, no final, as escolhas mais difíceis e as mais importantes. Depois disso, as escolhas mais específicas do desenho são mais técnicas, trabalham em função de tudo que já foi decidido no roteiro.

Ele advertia a esposa sobre o excesso de mimo com o Caçula, a criança delicada que por pouco não morrera de pneumonia.

(…)

“Fez os diabos, o Omar… mas não quero falar sobre isso”, disse ele, fechando as mãos. “Me dá raiva comentar certos episódios. E, para um velho como eu, o melhor é recordar outras coisas, tudo o que me deu prazer. É melhor assim: lembrar o que me faz viver mais um pouco.”

No trabalho de adaptação, reviramos, reorganizamos e recontamos a história. E em alguns momentos, o fim de um capítulo da HQ coincidia com o fim do capítulo no livro, podendo aproveitar a força que o texto já tinha. No fim do capítulo dois do Quadrinho, começamos a última página com um texto da última página do capítulo três do romance, terminando com as últimas palavras do capítulo dois (reproduzidas aqui, no início deste texto).

doisirmaos-layout-op1

Quando eu já estava desenhando o capítulo dois, a poucas páginas do fim do capítulo, o Fábio olhou com calma para o layout e achou que o capítulo não terminava bem. Mais especificamente, que o último Quadro não tinha cara de último quadro, de fim de capítulo. A composição não ajudava, os textos não ajudavam, a página não funcionava. Esta é a melhor parte de trabalhar com outra pessoa, pois ela vê as coisas de outro ângulo, enxerga outros caminhos. E a melhor parte de trabalhar com o Fábio, meu irmão gêmeo, é que nós podemos sempre ser honestos e dizer quando algo não funciona, quando algo podia ficar melhor, sabendo que não vamos magoar sentimentos ou ferir egos. Sabemos que o mais importante é a história. E, quase sempre, sabemos que as mudanças que o outro enxerga e pede são necessárias. Eu já sabia antes dele falar que aquele fim não estava ótimo, não tinha a força que ele podia ter, que o livro tinha.

Nessa cena, Halim está contando sua história para alguém que aparece de longe no quadro 2 e de costas no último quadro. Este outro personagem ocupa muito espaço do último quadro para alguém que não é importante nesse momento. Estamos gastando espaço à toa.

doisirmaos-layout-op2

Mudei a página, sem mudar nada no texto. O texto já era ótimo, já havia sido escolhido para terminar o capítulo. Os enquadramentos também permaneceram quase todos os mesmos, era a organização, a diagramação que podia melhorar. Principalmente, o último quadro não estava bom. Dividi o primeiro quadro, reorganizei as falas do segundo e dividi o quinto quadro, deixando as duas últimas falas sozinhas num novo último quadro, com mais respiro, o espaço para o leitor receber a informação e refletir. Foi como editar um filme, cortando alguns planos para incluir um plano que estava faltando. O último quadro era super importante para que a página tivesse cara de fim de capítulo.

2irmaos-p065-final

Antes, no último quadro, tínhamos um texto longo, de remorso e arrependimento, junto somente com o foco na expressão amargurada de Halim e um vulto cortado ocupando o primeiro plano. Agora, temos os dois personagens mais ao longe, de costas para o leitor, misteriosos, mirando o rio Negro, a revoada de pássaros, o sol se pondo no horizonte entre as gordas nuvens de Manaus, tudo isso acompanhado somente das duas últimas frases curtas se referindo à Zana, cuja importância na história é tão grande quanto seu poder sobre o Halim, e sua beleza, vontade e decisão são tão fortes quanto toda esta natureza sem fim que nos engole.

* * * * *

Gabriel Bá nasceu em 1976, em São Paulo. Formado em Artes Plásticas pela ECA-USP, criou em 1997, em parceria com o irmão gêmeo, Fábio Moon, o fanzine 10 Pãezinhos. Por quase 20 anos, tem produzido Histórias em Quadrinhos para o mercado brasileiro e internacional. Seu último livro, Daytripper, estreou em primeiro lugar na lista de mais vendidos do NY Times, já foi publicado em doze idiomas e ganhou os prêmios Eisner Award e Harvey Award (E.U.A.), o Eagle Award (Reino Unido), o prêmio de melhor Bande Dessinée no festival Les Utopialles, em Nantes, e entrou na seleção oficial do Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême 2013 (França). Ele e o irmão publicam a tira Quase Nada aos sábados na Folha de São Paulo. Durante o mês de fevereiro, Gabriel Bá vai escrever para o blog contando mais detalhes sobre a adaptação de Dois irmãos para os quadrinhos.
Site — Twitter — Instagram — Facebook

12