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Linhas, traços, feições: Criando os personagens

Por Gabriel Bá

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“Do cabelo cacheado de Yaqub despontava uma pequena mecha cinzenta, marca de nascença, mas o que realmente os distinguia era a cicatriz pálida e em meia-lua na face esquerda de Yaqub.”

“Ali, em mil novecentos e vinte e pouco, morava aquele magricela, um varapau que  foi encorpando até ficar espadaúdo.”

“Yaqub quis ficar até meia-noite, porque uma sobrinha dos Reinoso, a menina aloirada, corpo alto de moça, também ia brincar até a manhã de Quarta-Feira de Cinzas.”

Estas são algumas das raras descrições de personagens durante o livro. As características físicas perdem espaço para sentimentos, posturas e atitudes, metáforas e poesia na maneira que o Milton cria os personagens, o que torna a leitura do romance encantadora, mas transforma o trabalho de desenhar estes personagens em um desafio ainda maior. Como escolher um rosto para uma ideia, como dar forma a um conjunto de emoções? Ao ler um romance, cada leitor cria na sua cabeça os “seus” personagens. Na nossa adaptação, precisamos criar a “nossa” versão desses personagens, tentando respeitar ao máximo o romance para que, quem sabe, ao invés de substituir as figuras que os leitores carregam, possamos inserir um novo dado visual no seu imaginário.

O universo do Dois irmãos é muito específico e diferente dos nossos trabalhos anteriores. “Uma mistura de gente, de línguas, de origens, trajes e aparências”. Longe dos nossos personagens cosmopolitas, contemporâneos e estilosos, era preciso buscar no fundo da nossa imaginação o visual certo para esses imigrantes, caboclos e curumins. Foi só depois de dois anos lendo, relendo, escrevendo e pesquisando que nós começamos a colocar as primeiras linhas no papel.

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Desde o início, nós fizemos uma escolha estilística para o Dois irmãos. Queríamos usar um estilo de desenho um pouco mais simples, mais sintético, principalmente nos personagens, para que eles ficassem mais “icônicos”. Precisávamos de desenhos que sobrevivessem pelas centenas de páginas que estávamos antecipando para o Quadrinho, onde expressões pudessem ser desenvolvidas mais profundamente e pudéssemos contar tudo com poucas mas bem escolhidas linhas. Traços fortes, olhos grandes e expressivos.

Depois de passarmos por uma leva de rascunhos genéricos de descendentes de árabes, ficou bem claro para nós que não estávamos desenhando As mil e uma noites, nem Aladim, mas uma história que se desenrola durante o século XX, cuja atitude, o estilo e a moda da época, todos esses elementos específicos, nos ajudariam na criação do visual dos personagens.

O primeiro a ser criado só podia ser Halim, o patriarca. Ele não é o narrador da história, apesar de boa parte dela ser contada a partir do seu ponto de vista, e também não é o personagem principal, mas são os sentimentos dele os mais fortes e que ditam esta saga de paixão e desilusão do início ao fim. O pai. Ele também serviria de molde inicial para os gêmeos.

Começamos com estudos do rosto, da testa, o cabelo, a barba. Ficamos um pouco em dúvida sobre seu porte físico, sua estatura, mas acabamos optando pelo “magricela”. Tem um estudo do Halim segurando uma corrente, menção ao trecho do livro em que ele luta com A. L. Azaz. As atitudes e o comportamento dos personagens também podem nos guiar na hora de criar o seu visual.

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Quando você está criando o visual de um personagem, você tem infinitos caminhos que pode tomar. Se você não tiver ideia alguma de qual quer seguir, pode se perder. Foi com a Zana que aprendemos que podemos errar muito na escolha de personagens e que uma indicação pode fazer toda a diferença.

A nossa imagem inicial para a matriarca da história era quase uma cigana, uma mulher exótica e encantadora, uma mistura de matrona italiana com mãe judia com cartomante. Toda nossa pesquisa visual inicial foi guiada neste sentido. Veja bem, quando buscávamos na internet imagens de mulheres nos anos 20, 30 e 40 no Brasil, em Manaus, ou libanesas, não era isso que encontrávamos. Mas essa era a imagem que tínhamos em mente e fomos recolhendo referências pra construir a Zana.

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Depois de criados os pais, passamos aos filhos. Seguindo um pouco os moldes que usamos para o Halim, começamos a pensar nos gêmeos. Durante a produção da HQ, percebemos que todos os personagens envelheceriam muito, alguns mudando pouco, outros totalmente transformados. A progressão dos cabelos grisalhos e brancos em Halim e Zana, as crianças se tornando adultos. Precisávamos pensar nisso na hora de criar os personagens, com traços simples e marcantes, para que eles permanecessem os mesmos durante toda a história, mesmo mudando a idade.

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Finalmente tínhamos o núcleo central da família criado. Para colocar a máquina em movimento, fiz um desenho de uma cena com todos os personagens, na loja, já adicionando mais atitude e contexto a eles.

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Era chegada a hora do primeiro teste dos personagens, talvez o mais duro: mostrar os primeiros desenhos ao Milton. Com a calma e serenidade que lhe são bem características, ele nos recebeu em sua casa para conversarmos sobre Manaus, sobre as escolhas e dúvidas que tínhamos sobre a casa da família na história e, principalmente, para mostrar os primeiros desenhos, os personagens.

Mostramos todos os rascunhos, o processo de criação, a evolução de cada um. Víamos a alegria em seus olhos, um sorriso no rosto, a reação mágica de quem vê as imagens que existem na sua memória representadas por linhas no papel. Foi então que aconteceu o momento mais importante desse encontro. Milton olhou para nossa Zana, fez uma pausa, respirou e nos falou algo como: “Imagino a Zana uma mulher mais elegante, atraente. O Halim é louco por ela, o leitor deve se apaixonar por ela”.  Mencionou a peça de teatro que haviam feito baseada no livro e como lá, apesar de gostar da adaptação do texto, a Zana estava muito caricata. Vi em seus olhos um desapontamento e, nesse minuto, percebi o quanto a Zana era importante na história. Conversamos mais um pouco. Milton buscou uma pasta, trouxe fotos antigas de família e da infância, juventude. As imagens que ele mostrou batiam perfeitamente com aquelas imagens que consegui na minha pesquisa pela internet, mas que eu havia descartado. No final das contas, aquelas eram as mulheres daquela época e aquela era a beleza que eu devia buscar. Ao invés da sensualidade caliente de uma cigana romena, a elegância e o charme de uma senhora, mãe de família. Bastou uma indicação do Milton para que nós encontrássemos o caminho certo da personagem.

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“Halim passou a frequentar o Biblos aos sábados, depois ia todas as manhãs, beliscava uma posta de peixe, uma berinjela recheada, um pedaço de macaxeira frita: tirava do bolso a garrafa de arak, bebia e se fartava de tanto olhar para Zana. Passou meses assim: sozinho num canto da sala, agitado ao ver a filha de Galib, acompanhando com o olhar os passos da gazela. Contemplava-a, o rosto ansioso, à espera de um milagre que não acontecia.”

Quando estamos criando um personagem, esperamos um milagre, aquele momento quando se está em frente à folha de papel cheia de traços e linhas, olhando para o personagem que acabou de desenhar, e ele finalmente olha de volta pra você.

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Gabriel Bá nasceu em 1976, em São Paulo. Formado em Artes Plásticas pela ECA-USP, criou em 1997, em parceria com o irmão gêmeo, Fábio Moon, o fanzine 10 Pãezinhos. Por quase 20 anos, tem produzido Histórias em Quadrinhos para o mercado brasileiro e internacional. Seu último livro, Daytripper, estreou em primeiro lugar na lista de mais vendidos do NY Times, já foi publicado em doze idiomas e ganhou os prêmios Eisner Award e Harvey Award (E.U.A.), o Eagle Award (Reino Unido), o prêmio de melhor Bande Dessinée no festival Les Utopialles, em Nantes, e entrou na seleção oficial do Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême 2013 (França). Ele e o irmão publicam a tira Quase Nada aos sábados na Folha de São Paulo. Durante o mês de fevereiro, Gabriel Bá vai escrever para o blog contando mais detalhes sobre a adaptação de Dois irmãos para os quadrinhos.
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Desenhando Manaus

Por Gabriel Bá

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“Zana teve de deixar tudo: o bairro portuário de Manaus, a rua em declive sombreada por mangueiras centenárias, o lugar que para ela era quase tão vital quanto a Biblos de sua infância: a pequena cidade no Líbano que ela recordava em voz alta, vagando pelos aposentos empoeirados até se perder no quintal, onde a copa da velha seringueira sombreava as palmeiras e o pomar cultivados por mais de meio século”.

Não há como imaginar Dois irmãos sem a cidade de Manaus. Ao longo do livro, Milton nos transporta com suas palavras para um lugar mágico, cheio de vozes, sons e cheiros, que se transforma junto com os personagens durante o desenrolar da história. Manaus é certamente uma peça principal nesta história e se o Fábio e eu tínhamos alguma pretensão de fazer uma adaptação à altura do livro, precisávamos conhecer a cidade.

Em abril de 2011, já havíamos lido e relido o livro, tínhamos um resumo de tudo e uma lista de coisas e lugares para ver em Manaus. O Milton nos enviou uma lista de locais que aparecem no romance e outros atrativos da cidade. Também nos colocou em contato com um amigo, Joaquim Melo, o Quim, que tem uma banca de livros e cartões no Largo São Sebastião, um entusiasta da história e cultura do Amazonas, que nos ajudou muito, nos guiou nesta viagem para dentro do livro, sabendo dizer quais lugares mudaram de nome, quais mudaram de cara e quais não existiam mais.

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Quim, cuidando da banca de Tacacá da Gisela, sua mulher, no Largo São Sebastião.

Passamos uma semana em Manaus andando pelas ruas do centro, percorrendo o caminho da praça Nossa Senhora dos Remédios até a praça Heliodoro Balbi, passando pela rua dos Barés, pelo porto, pela praça da Matriz. Atravessamos a ponte metálica ao lado da cadeia e visitamos o bairro dos Educandos. Algumas vezes nos escondemos da chuva, sempre gorda e passageira. Provamos o Tacacá, o Jaraqui frito. Passeamos de barco no rio Negro, visitamos comunidades flutuantes e nos perdemos em igarapés. Tiramos centenas, milhares de fotos, registrando a arquitetura das casas do centro, o movimento das ruas do comércio, as árvores nas largas avenidas e praças. Só indo até lá para entender a relação das pessoas com o rio, os barcos de vários tipos e tamanhos, as travessias, as viagens. O rio ali é uma estrada, é o caminho de pessoas de todas as partes do país e do mundo que estão ali de passagem, ou que ficaram, decidiram ficar, encontraram ali o seu porto.

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O Milton havia nos avisado que a Manaus que ele conheceu, que vive na sua memória e ele retrata em sua obra, não existe mais. Ao conversar sobre isso com ele, há um misto de paixão, encantamento, desilusão e mágoa. Todos estes sentimentos são encontrados no livro e só indo até lá é que eu pude entender do que ele estava falando. Essa viagem foi essencial para entender a cidade, desmistificá-la, compreender o universo geográfico da trama. Mas o livro conta uma história de época, uma viagem ao passado, e nós também queríamos captar esta aura. Trouxemos vários livros da história de Manaus, cheios de mapas, fotos e cartões postais de marcos históricos, praças, prédios, monumentos, lugares que o tempo apagou, mas que nos ajudaram a entender o encantamento do Milton pela cidade.

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Mapeamento das fotos que tiramos durante nossa visita a Manaus.

De volta a São Paulo, fizemos também muita pesquisa pela internet. Em uma das inúmeras buscas no grande oráculo (o Google), caímos em uma página no Facebook chamada Manaus de Antigamente, mantida por apaixonados pela história da cidade e que traz várias fotos (as mesmas que encontramos nos livros e cartões, além de muitas outras) e depoimentos sobre o passado da cidade, a vida cotidiana em várias épocas, as mudanças que ocorreram ao longo dos anos. Como a história do livro acontece ao longo de 50 anos, esta página foi de uma inestimável valia na nossa pesquisa, pra entender realmente o que mudou na cidade e em quais épocas.

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Quando já estávamos bem adiantados na produção da HQ, dezenas de páginas já desenhadas, nos vimos algumas vezes em busca de um ângulo novo que as fotos não traziam, de mais informações sobre a cidade que pudessem resolver uma cena. Voltamos virtualmente a Manaus pelo Google Maps, para relembrar os caminhos que fizemos e quais os caminhos dos personagens, tentamos imaginar percursos, rotas. De 2011 até 2014, a tecnologia caminhou bastante e adicionaram a ferramenta de Street View ao mapa de Manaus. Com isso, pudemos nos colocar novamente nas ruas da cidade e buscar os ângulos que nos faltavam. A cidade continuava em transformação e o Mercado Adolpho Lisboa, que estava em reforma quando fomos à cidade, agora havia sido reinaugurado. A casa que escolhemos de referência para ser a casa da família, que estava à venda na ocasião de nossa visita, agora trazia um muro alto que bloqueava a vista da rua. A constante transformação da cidade e a violência do progresso que são contadas no livro continuam até hoje.

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Na primeira imagem, fotos do coreto que tiramos durante nossa visita em 2011. Abaixo, imagem do Street View do mesmo coreto na praça Heliodoro Balbi, registrada em 2014.

No final das contas, assim como o romance, nós estamos contando uma ficção e o mais importante deste trabalho todo nunca foi retratar fielmente cada tijolo que existe nos prédios do centro, fazer um documentário sobre Manaus e as transformações que a cidade passou durante todos esses anos. O objetivo é conseguir transportar o leitor para dentro da história, fazê-lo acreditar que aquelas linhas em nanquim são ruas, praças e árvores, que está de dia ou de noite, acreditar na sombra dos oitizeiros e no balançar dos barcos no porto.

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Gabriel Bá nasceu em 1976, em São Paulo. Formado em Artes Plásticas pela ECA-USP, criou em 1997, em parceria com o irmão gêmeo, Fábio Moon, o fanzine 10 Pãezinhos. Por quase 20 anos, tem produzido Histórias em Quadrinhos para o mercado brasileiro e internacional. Seu último livro, Daytripper, estreou em primeiro lugar na lista de mais vendidos do NY Times, já foi publicado em doze idiomas e ganhou os prêmios Eisner Award e Harvey Award (E.U.A.), o Eagle Award (Reino Unido), o prêmio de melhor Bande Dessinée no festival Les Utopialles, em Nantes, e entrou na seleção oficial do Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême 2013 (França). Ele e o irmão publicam a tira Quase Nada aos sábados na Folha de São Paulo. Durante o mês de fevereiro, Gabriel Bá vai escrever para o blog contando mais detalhes sobre a adaptação de Dois irmãos para os quadrinhos.
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Novas leituras e a história de um roteiro

Por Gabriel Bá

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Quem escreve livros é escritor. Quem faz Quadrinhos é quadrinista, mas é muito comum as pessoas se referirem a ele como desenhista. Não, ele também é escritor.

As palavras são tudo num romance e o roteiro é tudo numa boa história em Quadrinhos. Sim, os desenhos atraem os olhos do leitor, carregam a magia de traduzir o mundo em traços, em linhas, e muitos quadrinistas se tornaram quadrinistas justamente porque gostavam de desenhar, mas os desenhos em uma HQ estão ali pra ajudar a contar uma história. A história é mais importante. Depois de algumas páginas, o leitor mergulha na história e nem presta mais atenção nos desenhos, pois o bom desenho é invisível. E a história é muito mais do que somente as palavras escritas nas recordatórias e balões, nas narrações e diálogos. Ela é a união de palavras e imagens que foi construída no roteiro.

Quando nos convidaram para adaptar o Dois irmãos, vimos que tínhamos uma grande história nas mãos, mas isso não era garantia de uma boa HQ. Assim como uma adaptação para teatro, para cinema ou TV, o trabalho é transpor a obra para outra linguagem e isso simplesmente pode não funcionar. O trabalho mais difícil na hora de escrever um bom roteiro é recontar a história usando as ferramentas que os Quadrinhos trazem e que não existem no romance. O mais importante, antes de mais nada, é fazer uma boa HQ. Quando fizemos O Alienista, pegamos todo o texto original e recortamos, decupamos em páginas. Usamos quase tudo, pois era um conto e tínhamos espaço confortável pra contar toda a história. No caso do Dois irmãos, isso seria impossível, pelo estilo da prosa do Milton, pelo tamanho do romance. Vimos de imediato que o desafio seria muito maior.

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Não existe uma maneira correta, pior ou melhor de escrever um roteiro de Quadrinhos, cada autor tem o seu jeito. Quando o Fábio e eu trabalhamos numa história original, muita coisa não precisa ser dita, escrita ou explicada no roteiro, pois já está na nossa cabeça, faz parte do nosso repertório. Mas o trabalho de adaptação de um romance exige muito mais do que criar uma história do zero. É preciso entrar na cabeça do escritor, entender a história, recontá-la. No romance, tudo está nas palavras: as ações, as imagens, o tempo. É preciso compreender essas palavras para transformá-las, ou mesmo abandoná-las.

Foram várias leituras do livro, escrevemos três resumos da história até ter todo seu universo interiorizado, o drama de cada personagem, tudo pronto para começar a fazer escolhas, mudar coisas e realmente escrever o roteiro da nossa HQ. Junto com as várias releituras do livro, usamos uma técnica de roteiro que aprendemos no livro STORY: substância, estrutura, estilo e os princípios de escrita de roteiros, do Robert McKee (Arte & Letra Editora, 2006), chamada de Step-Outline, onde o roteirista escreve um resumo de cada cena em um cartão, produzindo assim vários cartões, a fim de organizar suas ideias visualmente, ordenar sua história, mudar coisas de lugar. Começamos agrupando várias cenas por cartão, fomos estreitando, dividindo em momentos menores e mais pontuais. Acabamos com 37 cartões.

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Tentamos escrever o roteiro de uma forma mais formal, separando em páginas, quadro a quadro, narrações, diálogos e tudo mais, descrevendo tudo em palavras, mas logo na introdução vimos que isso não daria certo. Esse tipo de roteiro é bom pra explicar a história, para que o roteirista se entenda com o desenhista, com o editor e outros envolvidos no processo. Pegar a história do livro e escrever as imagens que nós gostaríamos de criar nos pareceu um processo sem sentido algum. Então decidimos partir para outra forma de roteiro, onde nós já rascunhamos as páginas e colocamos os textos ali. É um processo um pouco mais demorado, exige muito mais pensamento e demanda mais escolhas o tempo todo. Já nesta etapa era preciso escolher o texto exato que entraria na história, além de escolher ângulos, ritmo, silêncios. Por outro lado, uma vez escolhido e “escrito/desenhado”, a história estaria “pronta”. Alguns autores que conhecemos trabalham dessa maneira, como o Craig Thompson (Retalhos) e o Jeff Smith (Bone). Os roteiristas do estúdio do Maurício de Sousa também escrevem os roteiros assim, para depois serem lidos e aprovados pelo próprio Maurício.

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Fizemos uma linha do tempo dos acontecimentos da história, dividimos a trama em três atos, listamos todos os personagens, todos os locais, as plantas e animais citados no livro. Com o livro sempre do lado, e um caderno onde palavras eram escritas e frases escolhidas, começamos finalmente a fazer o roteiro — ou layout — da nossa história. Num mundo ideal, gostamos de fazer todo o roteiro antes de começar a desenhar realmente, pra saber qual o tamanho da história, quantas páginas terá e pra onde ela vai caminhar, pra poder medir quanto foi feito e quanto falta fazer. Não gostamos de sair andando sem rumo. No caso do Dois irmãos, em meio a viagens e outros projetos (eu desenhei 128 páginas de uma HQ do Casanova com o roteirista Matt Fraction e o Fábio e eu escrevemos e desenhamos uma HQ de 100 páginas do universo do Hellboy, personagem do Mike Mignola), depois de dois anos, resumos e cartões, ainda estávamos no primeiro capítulo e a coisa não estava caminhando. Vimos então que precisávamos começar a desenhar, ter algo mais sólido que nos motivasse a continuar produzindo, pois o fim do trabalho ainda parecia abstrato e infinitamente distante.

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Fizemos o roteiro de 25 páginas no final de 2012 e desenhamos estas páginas em janeiro de 2013 para levar ao Festival International de la Bande Dessinée de Angoulême. Traduzimos para o francês e mostramos para alguns editores franceses e americanos, começamos diálogos sobre edições estrangeiras e voltamos super empolgados para o Brasil. Nossa próxima meta era a Feira de Frankfurt, em outubro, onde o Brasil seria o país homenageado e nós havíamos sido convidados. Terminamos outros projetos que estávamos fazendo, viajamos para Portland em maio para uma conferência e aproveitamos para conversar com outros editores americanos sobre o livro e voltamos mais animados para terminar o trabalho. Fizemos mais 47 páginas de roteiro, mas conseguimos desenhar somente 33 páginas para levar pra Frankfurt. Retomamos conversas com editores franceses, iniciamos outras com editores italianos, estávamos orgulhosos do futuro promissor de um livro que ainda não estava pronto, que não sabíamos o tamanho final e que nem tinha previsão de conclusão.

Depois de voltar da Alemanha, acabados os outros projetos, as distrações, os compromissos, focamos todos nossos esforços em fazer o roteiro até o fim, chegar ao fim da história, para conseguir planejar o resto do trabalho. Em janeiro de 2014 nós terminamos a última leitura do livro fazendo anotações e escolhendo frases, diálogos, palavras. Em março finalmente terminamos o roteiro, todos os layouts, tínhamos a história inteira pensada, planejada, rascunhada. Finalmente a HQ estava ali, na nossa frente, toda escrita. Sabíamos que havia muito trabalho pela frente, 166 páginas pra desenhar, mas isso já não era mais um problema. Nós tínhamos nosso roteiro, a história estava ali. O trabalho do escritor havia acabado. Olhando no horizonte, sabíamos que havia um ponto distante, uma luz, um fim.

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Gabriel Bá nasceu em 1976, em São Paulo. Formado em Artes Plásticas pela ECA-USP, criou em 1997, em parceria com o irmão gêmeo, Fábio Moon, o fanzine 10 Pãezinhos. Por quase 20 anos, tem produzido Histórias em Quadrinhos para o mercado brasileiro e internacional. Seu último livro, Daytripper, estreou em primeiro lugar na lista de mais vendidos do NY Times, já foi publicado em doze idiomas e ganhou os prêmios Eisner Award e Harvey Award (E.U.A.), o Eagle Award (Reino Unido), o prêmio de melhor Bande Dessinée no festival Les Utopialles, em Nantes, e entrou na seleção oficial do Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême 2013 (França). Ele e o irmão publicam a tira Quase Nada aos sábados na Folha de São Paulo. Durante o mês de fevereiro, Gabriel Bá vai escrever para o blog contando mais detalhes sobre a adaptação de Dois irmãos para os quadrinhos.
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Meus filhos já fizeram as pazes?

Por Gabriel Bá

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Durante o mês de fevereiro, Gabriel Bá escreverá todas as quartas-feiras para o Blog da Companhia sobre a adaptação de Dois irmãos, de Milton Hatoum, para os quadrinhos, que está sendo produzida com seu irmão Fábio Moon. A HQ está prevista para chegar nas livrarias em março.

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“Soube que levantou a cabeça e perguntou em árabe, para que só a filha e a amiga quase centenária entendessem (e para que ela mesma não se traísse): ‘Meus filhos já fizeram as pazes?’. (…)

Ninguém respondeu.”

Foi com estas palavras, logo no início do livro, que Milton Hatoum nos conquistou e convenceu a fazer a adaptação de seu romance, Dois irmãos, para os Quadrinhos. Que força, que premissa, que introdução. Um desafio digno de uma nova incursão nas adaptações literárias, este gênero que cresceu muito no Brasil — mais em volume e variedade, mas nem sempre em qualidade — desde que fizemos nossa adaptação de O Alienista, de Machado de Assis, em 2007.

São as palavras que nos enfeitiçam nos livros, a maneira como o escritor as escolhe e alinha formando frases, montando pensamentos, criando ações. As palavras são tudo num romance. Então como traduzir esse tudo para outra linguagem? Sim, porque o trabalho de adaptação é também uma tradução. É preciso entender a linguagem original, interpretá-la para, finalmente, dizer aquilo novamente na nova língua. Em outra língua, é preciso mudar algumas coisas para ser fiel à história.

“Trouxe a grande diversão, o grande sonho, curuminzada.”

Foi o que disse o cinematógrafo ambulante ao entrar na casa de Estelita Reinoso. Falava de filmes, mas podia estar falando de Histórias em Quadrinhos, do poder de sedução das imagens, destas linhas que colocam no papel aquilo que povoa a imaginação das pessoas.

No entanto, engana-se aquele que acha que um desenho vai limitar a imaginação do leitor em relação a um texto só com palavras. Uma História em Quadrinhos tampouco é uma leitura mais fraca, mais rasa, mais fácil. Um desenho também é uma tradução, é uma interpretação feita pelo artista e que não esgota as possíveis leituras que alguém pode ter dele. O leitor de Histórias em Quadrinhos precisa saber ler os desenhos, precisa entender estes símbolos e precisa saber juntar as informações que o desenho carrega com aquelas escritas com palavras.

“Naquela época, tentei, em vão, escrever outras linhas. Mas as palavras parecem esperar a morte e o esquecimento; permanecem soterradas, petrificadas, em estado latente, para depois, em lenta combustão, acenderem em nós o desejo de contar passagens que o tempo dissipou.”

Não é da noite para o dia que se escreve um livro. O que pode sim surgir num estalo é uma ideia, um conceito tão forte que motive o escritor a escrever, durante o tempo que precisar, até que sua ideia esteja toda no papel, completa, viva, pronta pra ir de encontro aos leitores e ao mundo. Mas escrever o livro é mais importante do que querer ter o livro pronto. Queremos tudo agora, já, neste exato momento. No instante que temos uma ideia, queremos que ela se materialize. Mas escrever é um exercício de paciência, de saber esperar o livro estar pronto, sem arruinar a ideia por ter sido apressado. Uma vez pronto, o livro é eterno.

Esta foi uma das muitas coisas que aprendi com o Milton: a ter paciência, a caminhar junto com a história e, acima de tudo, a respeitar o livro.

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Gabriel Bá nasceu em 1976, em São Paulo. Formado em Artes Plásticas pela ECA-USP, criou em 1997, em parceria com o irmão gêmeo, Fábio Moon, o fanzine 10 Pãezinhos. Por quase 20 anos, tem produzido Histórias em Quadrinhos para o mercado brasileiro e internacional. Seu último livro, Daytripper, estreou em primeiro lugar na lista de mais vendidos do NY Times, já foi publicado em doze idiomas e ganhou os prêmios Eisner Award e Harvey Award (E.U.A.), o Eagle Award (Reino Unido), o prêmio de melhor Bande Dessinée no festival Les Utopialles, em Nantes, e entrou na seleção oficial do Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême 2013 (França). Ele e o irmão publicam a tira Quase Nada aos sábados na Folha de São Paulo. Durante o mês de fevereiro, Gabriel Bá vai escrever para o blog contando mais detalhes sobre a adaptação de Dois irmãos para os quadrinhos.
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