gay talese

Semana trezentos e dezoito

Companhia das Letras

Rio acima, de Pedro Cesarino
Um antropólogo desembarca na Amazônia para estudar os mitos de um povo indígena e a misteriosa história do “apanhador de pássaros”. Aos poucos, o pesquisador vai se aproximando da descoberta — mas ela pode ter consequências desastrosas. Narrado com precisão e agilidade, Rio acima é um misto de Nove noites, o romance de Bernardo Carvalho em que um pesquisador mergulha na vida dos índios do Xingu, e de Coração das trevas, o clássico de Joseph Conrad em que o lento avançar por um rio selvagem revela um universo sombrio. Pedro Cesarino é um dos pesquisadores mais brilhantes de sua geração e mostra que é também um grande ficcionista, capaz de ombrear com os melhores da nova literatura brasileira.

Enclausurado, de Ian McEwan (tradução de Jorio Dauster)
O narrador deste livro é nada menos do que um feto. Enclausurado na barriga da mãe, ele escuta os planos da progenitora para, em conluio com seu amante — que é também tio do bebê -, assassinar o marido. Apesar do eco evidente nas tragédias de Shakespeare, este livro de McEwan é uma joia do humor e da narrativa fantástica. Em sua aparente simplicidade, Enclausurado é uma amostra sintética e divertida do impressionante domínio narrativo de McEwan, um dos maiores escritores da atualidade.

O voyeur, de Gay Talese (tradução de Pedro Maia Soares)
“Conheço um homem casado, com dois filhos, que comprou um motel de 21 quartos perto de Denver, há muitos anos, a fim de se tornar um voyeur residente.” Assim começa a espantosa história que Gay Talese, um dos maiores nomes do jornalismo literário, narra em O voyeur. O homem é Gerald Foos, que construiu uma “plataforma de observação” para bisbilhotar a vida de seus hóspedes. Intrigado, Talese investiga os diários do proprietário, um complexo registro de suas obsessões e das transformações da sociedade americana, mas só após trinta e cinco anos o jornalista pode divulgar a história. Um trabalho extraordinário e polêmico do repórter que mudou para sempre a face do jornalismo.

Como ser as duas coisas, de Ali Smith (tradução de Caetano W. Galindo)
Escritas com paixão, as obras de Ali Smith são únicas. Aclamadas, discutidas e premiadas, renderam um séquito de leitores à escocesa, sensação literária da contemporaneidade. Como ser as duas coisas não é diferente. Na Inglaterra, o livro vendeu 150 mil exemplares no primeiro ano — feito raro para um romance literário. A versatilidade da arte é o tema por trás das trajetórias de amor e injustiça que aqui se espelham dissolvendo gêneros, formas, tempos, realidades e ficções. Com técnica análoga à pintura de afrescos, Smith cria uma original história de duplos, protagonizada por um pintor renascentista dos anos 1460 e uma neta dos anos 1960.

Paraíso & inferno, de Jón Kalman Stefánsson (tradução de João Reis)
Numa parte remota da Islândia do século XIX, um pequeno barco de pesca é apanhado no meio de um violento temporal e a tragédia abate-se sobre os homens. Entre os tripulantes, um jovem pescador fica surpreso pela aparente indiferença dos companheiros à morte por hipotermia do seu único amigo. Desiludido e confuso ao retornar, ele decide abandonar sua aldeia, arriscando atravessar a pé as montanhas em pleno inverno, com uma ideia fixa: chegar à cidade mais próxima para devolver o livro Paraíso perdido, de John Milton, a um velho capitão cego, que o emprestara a seu amigo. Uma história vívida e lírica, com a intensidade da paisagem natural islandesa.

Penguin-Companhia

Romeu e Julieta, de William Shakespeare (tradução de José Francisco Botelho)
Há muito tempo duas famílias banham em sangue as ruas de Verona. Enquanto isso, na penumbra das madrugadas, ardem as brasas de um amor secreto. Romeu, filho dos Montéquio, e Julieta, herdeira dos Capuleto, desafiam a rixa familiar e sonham com um impossível futuro, longe da violência e da loucura. Romeu e Julieta é a primeira das grandes tragédias de William Shakespeare, e esta nova tradução de José Francisco Botelho recria com maestria o ritmo ao mesmo tempo frenético e melancólico do texto shakespeariano. Contando também com um excelente ensaio introdutório do especialista Adrian Poole, esta edição traz nova vida a uma das mais emocionantes histórias de amor já contadas.

Objetiva

Verissimas, de Luis Fernando Verissimo
Antologia reúne, em pílulas de sabedoria e humor, o suprassumo da obra do escritor e cronista, que completa 80 anos. O publicitário e jornalista Marcelo Dunlop tinha apenas dez anos quando descobriu, lendo um texto de Luis Fernando Verissimo, que até a morte podia ser engraçada. Deslumbrado com o achado e às gargalhadas, o menino recortou a crônica do jornal e passou a fazer o mesmo com várias outras. Duas décadas depois, eis aqui o resultado da empreitada: uma seleção de pérolas garimpadas em toda a obra do escritor. Salpicada de cartuns raros recolhidos no baú do autor, esta coletânea traz cerca de oitocentos verbetes — ou Verissimas — em ordem alfabética. Conduzido e instigado por esse alfabeto particular, o leitor seguirá se divertindo de A a Z com as comparações, máximas, mínimas e metáforas do mestre do humor sintético.

Como ter um dia ideal, de Caroline Webb (tradução de André Fontenelle)
Através de técnicas simples baseadas em pesquisas científicas de economia, psicologia e neurociência, Caroline Webb ajuda você a melhorar seu dia a dia. Em Como ter um dia ideal, Caroline Webb mostra que é possível usar as recentes descobertas da economia comportamental, da psicologia e da neurociência para transformar nossa relação com o cotidiano profissional. Avanços nessas ciências nos oferecem um melhor entendimento de como nosso cérebro funciona, por que fazemos as escolhas que fazemos e o que é necessário para conseguirmos dar o melhor de nós. Webb explica como aplicar essas descobertas em nossas tarefas e rotinas diárias e, assim, lidar melhor com os desafios do ambiente de trabalho moderno — dos conflitos com colegas a reuniões tediosas e caixas de entrada lotadas — com destreza e facilidade.

Reimpressões

Alta fidelidade, de Nick Hornby
Brasil: Uma biografia, de Lilia M. Schwarcz e Heloísa Starling
Budapeste, de Chico Buarque
Marighella, de Mário Magalhães
Mulheres de cinzas, de Mia Couto
O anjo pornográfico, de Ruy Castro
A corrida para o século XXI, de Nicolau Sevcenko
Pippi nos mares do sul, de Astrid Lindgren
O mundo assombrado pelos demônios (Edição de bolso), de Carl Sagan
Obra completa (Edição de bolso), de Murilo Rubião
Rumo à estação Finlândia (Edição de bolso), de Edmund Wilson
Anticâncer, de David Servan-Schreiber
Fora da curva, de Pierre Moreau

Sinatra resfriado é Picasso sem tinta

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“Sinatra resfriado é Picasso sem tinta, Ferrari sem combustível — só que pior. Porque um resfriado comum despoja Sinatra de uma joia que não dá para pôr no seguro — a voz dele —, mina as bases de sua confiança, e afeta não apenas seu estado psicológico, mas parece provocar também uma espécie de contaminação psicossomática que alcança dezenas de pessoas que trabalham para ele, bebem com ele, gostam dele, pessoas cujo bem-estar e estabilidade dependem dele. Um Sinatra resfriado pode, em pequena escala, emitir vibrações que interferem na indústria do entretenimento e mais além, da mesma forma que a súbita doença de um presidente dos Estados Unidos pode abalar a economia do país.”

Este é o trecho mais famoso do mais famoso dos textos já escritos sobre Frank Sinatra, que, se estivesse vivo, completaria 100 anos hoje. “Frank Sinatra está resfriado” foi escrito por Gay Talese para a revista Esquire em 1966 e é até hoje considerado o melhor perfil jornalístico já escrito e uma das mais célebres peças publicada por uma revista.

“Frank Sinatra está resfriado” está na antologia dos grandes textos jornalísticos de Gay Talese, Fama e anonimato, que a Companhia das Letras lançou na coleção Jornalismo Literário em 2004. Leia mais um trecho do perfil de Sinatra por Gay Talese.

* * *

Porque Frank Sinatra estava agora envolvido com muitas coisas que tinham a ver com muitas pessoas — sua companhia cinematográfica, sua gravadora, sua companhia aérea, sua indústria de componentes de mísseis, seus títulos imobiliários em todo o país, seu staff pessoal de 75 pessoas — e que são apenas uma parte do poder que ele representa. Ele parecia ser a personificação do macho plenamente emancipado, talvez o único da América, o homem que pode fazer tudo o que desejar, tudo mesmo, porque tem dinheiro, energia e nenhum sinal de culpa. Numa época em que os muito jovens parecem estar assumindo o controle da situação, protestando e manifestando-se e exigindo mudanças, Frank Sinatra se mantém como um fenômeno nacional, um dos poucos produtos do pré-guerra que resistiu à prova do tempo. Ele é o campeão que fez a volta triunfal, o homem que tinha tudo, perdeu tudo e depois recuperou tudo, fazendo o que poucos homens são capazes de fazer: destruiu sua vida, deixou sua família, rompeu com tudo que lhe era familiar, aprendendo nesse processo que a única maneira de conservar uma mulher é não tentar segurá-la. Agora ele goza da afeição de Nancy, de Ava e de Mia, a fina flor de três gerações de mulheres, e ainda é adorado pelos filhos, tem a liberdade de um homem solteiro, não se sente velho, faz com que homens velhos se sintam jovens, faz com que eles pensem que, se Sinatra é capaz de fazer alguma coisa, ela pode ser feita; não que eles mesmos sejam capazes de fazê-la, mas agrada-lhes saber que, aos cinquenta anos, essa coisa ainda é possível.

Mas agora, naquele bar em Beverly Hills, Sinatra estava resfriado, e continuava bebendo em silêncio, parecendo estar a quilômetros de distância, num mundo só dele, sem demonstrar reação nenhuma, nem mesmo quando, de repente, o estéreo do outro salão passou a tocar uma canção de Sinatra, “In the wee small hours of the morning”.

14 livros para você ler no Dia do Jornalista

“Apesar de uma baixa difusão, os jornais tiveram e ainda têm uma inegável influência na vida do país. Eles foram, durante um século e meio, os principais meios de comunicação e de formação da opinião pública, e praticamente os únicos.Eram o fórum de debates do país, a ágora onde se discutiam os principais temas. Sua influência ia muito além das magras tiragens. O Brasil é um país de rica tradição oral, e no século xix era comum nas cidades do interior as pessoas se reunirem em lugares públicos para ouvir a leitura das notícias e dos folhetins que chegavam pelo correio, que depois seriam comentados nas praças, na rua e nas tabernas.

Os jornais contribuíram para a proclamação da Independência; para a definição da estrutura política e social; para a abdicação de d. Pedro I e seu retorno a Portugal; para a consolidação da Regência; para minar a Monarquia e instaurar a República; para acelerar a queda da República Velha; para derrubar Getúlio Vargas em 1945 e para seu suicídio em 1954; para o desgaste do governo Goulart e para a implantação de uma ditadura militar — papel de que se arrependeriam tardiamente.”

O trecho acima foi retirado do livro História dos jornais no Brasil, de Matias Molina, obra essencial para o jornalismo que acaba de ser lançada. No Dia do Jornalista, conheça mais livros com grandes histórias escritas pelos principais nomes do jornalismo mundial.

1) História dos jornais no Brasil, de Matias Molina

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Resultado de décadas de pesquisa de Matias Molina, História dos jornais no Brasil é o primeiro volume de uma trilogia que busca abarcar toda a história da imprensa no país, desde suas primeiras manifestações no Brasil colônia até os dias atuais. Este livro aborda a imprensa no período colonial, no tempo em que o Rio de Janeiro era sede da Corte, estende-se até a época da Independência, quando os jornais foram palco de renhidas disputas políticas, e termina com a ascensão de D. Pedro II ao poder, na década de 1840. Como epílogo, traz uma análise dos fatores que condicionaram o desenvolvimento da imprensa no país e ajudam a explicar a baixa penetração dos jornais na sociedade brasileira. Um livro para jornalistas, professores, estudantes e interessados na história da imprensa brasileira.

2) A sangue frio, de Truman Capote

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A grande obra de Truman Capote é um romance-reportagem que conta a história da morte de toda a família Clutter, em Holcomb, Kansas, e dos autores da chacina. Capote decidiu escrever sobre o assunto ao ler no jornal a notícia do assassinato da família, em 1959. Quase seis anos depois, em 1965, a história foi publicada em quatro partes na revista The New Yorker. Além de narrar o extermínio do fazendeiro Herbert Clutter, de sua esposa Bonnie e dos filhos Nancy e Kenyon – uma típica família americana dos anos 50, pacata e integrada à comunidade -, o livro reconstitui a trajetória dos assassinos. Truman Capote passou um ano na região de Holcomb, investigando e conversando com moradores, ele se aproximou dos criminosos e conquistou sua confiança. E assim escreveu A sangue frio, um marco na história do jornalismo e da literatura dos Estados Unidos.

3) Chê – uma biografia, de Jon Lee Anderson

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Aclamada internacionalmente, a biografia definitiva sobre Che Guevara, de Jon Lee Anderson, consegue transcender e retratar em detalhes um ser humano complexo. Em sua busca para descobrir quem era o verdadeiro líder revolucionário, Anderson se mudou para Havana e teve acesso a arquivos pessoais mantidos pela viúva de Che. Passou meses com velhos amigos de Che na Argentina, entrevistou seus companheiros de luta em Cuba, no Congo e na Bolívia, e conversou com personagens dos dois lados da Guerra Fria, em Moscou e na CIA. Publicado originalmente em 1997 e eleito o livro do ano pelo New York Times, a biografia traz informações que durante muito tempo permaneceram em sigilo, como a que revela como o corpo de Che havia sido escondido depois de seu assassinato em 1967.

4) Deu no New York Times, de Larry Rother

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Deu no New York Times é fruto das experiências vividas pelo correspondente norte-americano Larry Rohter durante quase quatro décadas passadas no Brasil. Enviado do New York Times ao país entre 1999 e 2007, o jornalista já havia desempenhado a mesma função no final da década de 70 e no começo dos anos 80 na revista Newsweek e no jornal The Washington Post. Este livro reúne textos inéditos nos quais Rohter analisa o país sob a ótica de um jornalista experiente e profundo conhecedor da nossa nação, escrevendo sobre política, cultura, meio ambiente e raça, entre outros temas. O livro ainda traz algumas das melhores reportagens do correspondente sobre o Brasil e os brasileiros publicadas no jornal americano. Acompanhando os textos, o jornalista acrescenta comentários nos quais aproveita para dizer tudo que tinha vontade mas não podia, devido às restrições impostas por sua posição no NYT.

5) Vida de escritor, de Gay Talese

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Vida de escritor não é uma autobiografia convencional. Gay Talese, um dos maiores jornalistas norte-americanos, fala sobre o ofício da escrita e os reveses que acometem aos que por ele se aventuram. Entre as histórias que vão desde o jornalzinho da faculdade no Alabama às redações de grandes revistas como a New Yorker, Talese conta como passou meses apurando a história de Lorena Bobbit, que, num surto de fúria, cortou com uma faca de cozinha o pênis do marido. Ele se esfalfou para reconstituir a noite da agressão e tentou entrevistar todos os envolvidos no episódio. Enfurnou-se num quarto e escreveu uma longuíssima reportagem, enviou-a à revista e, no dia seguinte, acordou à tarde com um fax na porta: a diretora da revista recusava a reportagem, e sugeria que Talese fizesse um pequeno livro sobre o crime. Talese mostra como o fracasso é inerente à profissão, e como mesmo na autobiografia de um jornalista, o que importa são os outros.

6) Despachos do front, de Michael Herr

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Despachos do front é um visceral relato escrito pelo jornalista norte-americano Michael Herr sobre sua temporada no Vietnã como correspondente da revista Esquire. Considerado o mais brilhante tratamento literário sobre o Vietnã, o livro usa uma linguagem “suja”, repleta de gíria, jargão militar e do linguajar grosseiro e deturpado dos marines, para transmitir o caráter surreal de uma guerra pouco convencional, embalada por drogas e rock’n roll. Pois se o Vietnã foi palco de crueldades desumanas e baixas numerosíssimas, foi também, ironicamente, o lugar onde jovens vindos dos cantos mais remotos dos Estados Unidos escutaram The Doors, fumaram maconha e viveram, de certa forma, a experiência de suas vidas.

7) O jornalista e o assassino, de Janet Malcolm

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Janet Malcolm é uma das mais importantes jornalistas americanas do século XX. Em O jornalista e o assassino, ela narra a história de um médico, Jeffrey MacDonald, que, condenado pelo assassinato da esposa e das duas filhas, moveu um processo contra um jornalista que escrevera um livro sobre ele com base em entrevistas feitas durante o julgamento e na prisão. Colocando em pauta temas tão polêmicos quanto a ética do jornalismo e a liberdade de imprensa, o livro de Malcolm tornou-se um clássico instantâneo sobre a relação entre jornalismo e poder.

8) A milésima segunda noite da Avenida Paulista, de Joel Silveira

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A milésima segunda noite da avenida Paulista é uma coletânea de textos escritos ao longo da década de 40, em que Joel Silveira emprega, de forma inovadora no Brasil, recursos próprios da literatura. Dono de um estilo famoso pela mordacidade, o jornalista cobriu fatos que marcaram a vida política do país e, no Rio de Janeiro, conviveu com artistas e intelectuais como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga. Além de reportagens, o livro traz crônicas curtas e bem-humoradas sobre a vida cultural do Rio e textos situados entre o perfil e a entrevista, retratando escritores e artistas como Monteiro Lobato, Agripino Grieco, Antônio Nássara, Candido Portinari e João Cabral de Melo Neto.

9) O inverno da guerra, de Joel Silveira

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Joel Silveira tinha 26 anos quando foi escalado para cobrir a Segunda Guerra Mundial pelo Diário dos Associados. “Você vá, mas não me morra!”, foi o que ouviu do dono do jornal, Assis Chateaubriand, ao ser enviado para a Itália. Escrito como um diário de bordo, O inverno da guerra reúne as melhores histórias do trabalho de Joel como correspondente do jornal – publicadas originalmente em 1945 no livro Histórias de Pracinhas –, além de um texto inédito do autor preparado especialmente para esta edição. O livro apresenta o cotidiano de uma guerra com seus absurdos e contradições, em momentos de tensão, medo e horror, mas também de heroísmo e solidariedade.

10) Hiroshima, de John Hersey

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A bomba atômica matou 100 mil pessoas na cidade japonesa de Hiroshima, em agosto de 1945. Um ano depois, a reportagem de John Hersey reconstituía o dia da explosão a partir do depoimento de seis sobreviventes. O texto tomava a edição inteira da revista The New Yorker, uma das mais importantes publicações semanais dos Estados Unidos, alcançando repercussão extraordinária. A narrativa de Hersey dava rosto à catástrofe da bomba: o horror tinha nome, idade e sexo. Ao optar por um texto simples, sem enfatizar emoções, o autor deixou fluir o relato oral de quem realmente viveu a história. Quarenta anos mais tarde, Hersey voltou a Hiroshima e escreveu o último capítulo da história dos hibakushas – as pessoas atingidas pelos efeitos da bomba.

11) Paralelo 10, de Eliza Griswold

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Filha de um proeminente bispo da Igreja Episcopal dos Estados Unidos, Eliza Griswold acostumou-se desde criança ao convívio com o sagrado. Entretanto, como demonstram as reportagens reunidas em Paralelo 10, ela procura enxergar os conflitos religiosos que atingem boa parte da humanidade no século XXI com um penetrante viés socioeconômico, amparado por amplas pesquisas históricas – e, sobretudo, por arriscadas viagens às zonas de conflito. Griswold visita seis países situados nas proximidades do paralelo 10 – linha imaginária que atravessa boa parte do continente africano e das ilhas do Sudeste Asiático, delimitando de modo aproximado a fronteira entre o cristianismo e o islamismo – com o intuito de esmiuçar o atual “choque de civilizações” em suas peculiaridades locais.

12) A face da guerra, de Martha Gellhorn

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A face da guerra é uma seleção de reportagens de Martha Gellhorn, uma das maiores correspondentes de guerra do século XX. São relatos enviados diretamente dos campos de batalha, que refletem a forte ligação da autora com as pessoas retratadas no livro, independente das ideologias. Da estréia na Espanha até os conflitos na América Central dos anos 1980, ela cobriu tudo: várias fases da Segunda Guerra Mundial; a resistência da China ao domínio japonês; a Guerra dos Seis Dias, a primeira guerra de alta tecnologia, em que os judeus arrasados pela Alemanha nazista usaram a tática alemã da “guerra relâmpago” para vencer uma coalizão de todos os países árabes; e o Vietnã. A face da guerra é Um clássico da literatura pacifista.

13) O xá dos xás, de Ryszard Kapuscinski

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Para narrar o processo de ascensão e queda do último xá do Irã, Mohammed Reza Pahlevi, Kapuscinski lança mão de uma técnica mista, em que entram narrativa histórica, crônica jornalística e escrita de ficção. Sem entrevistar representantes do novo governo ou adentrar o palácio onde viveu o xá, o autor busca no homem comum o significado profundo da cultura, da religiosidade e da revolução iraniana.

14) Notas sobre Gaza, de Joe Sacco

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Uma década depois de ter surpreendido o mundo com seus relatos em quadrinhos sobre o conflito entre israelenses e palestinos, Joe Sacco volta à Faixa de Gaza para realizar seu projeto mais ambicioso até aqui: resgatar do esquecimento quase completo dois episódios ocorridos quase cinquenta anos antes. O jornalista mergulha nos escombros de um conflito que parece não ter fim para reconstituir alguns dos eventos mais importantes para a escalada de violência em que se transformou a relação entre israelenses e palestinos.

Semana quarenta e dois

Os lançamentos da semana são:

Honra teu pai, de Gay Talese (Tradução de Donaldson Garschagen)
Poucas mitologias de nosso tempo causam tanto fascínio quanto a máfia, e não por acaso esse universo já rendeu obras-primas como O poderoso chefão, Os bons companheiros e, mais recentemente, a série de tevê Família Soprano. Honra teu pai é livro-reportagem sobre os meandros desse mundo, centrado na história de Joseph “Joe Bananas” Bonanno, que controlava uma das chamadas Cinco Famílias de Nova York, e de seu filho Salvatore “Bill” Bonanno, protagonista de uma sangrenta guerra entre mafiosos. Gay Talese, um dos pais do new journalism americano, obteve vasto acesso ao clã Bonanno, e pela primeira vez trouxe à tona uma visão de dentro da máfia, objetiva e despida de romantismo.

O navio negreiro — Uma história humana, de Marcus Rediker (Tradução de Luciano Vieira Machado)
Muito se escreveu sobre a escravidão e o sistema de plantations que empregou grande parte da mão de obra africana no Novo Mundo, mas pouco se sabe sobre a principal “tecnologia” que tornou tudo isso possível: o navio negreiro. Com base em mais de trinta anos de pesquisas em arquivos marítimos, Marcus Rediker, grande especialista em tráfico transatlântico, escreveu uma história sem precedentes dessas embarcações e de seus passageiros, voluntários e involuntários. O autor reconstrói com detalhes sombrios a vida e a morte de escravos e marujos, os desmandos e a perversidade dos capitães, o dia a dia do navio — com suas doenças terríveis, motins e violência —, sem se esquecer dos detalhes técnicos e das principais diferenças entre os vários tipos de embarcação dedicados ao comércio de carne humana.

As entrevistas da Paris Review — vol. 1, de vários autores (Tradução de Christian Schwartz e Sérgio Alcides)
Essa antologia traz uma seleção de catorze entrevistas da Paris Review, cobrindo as quase seis décadas de existência da publicação. Fazem parte do volume autores como W. H. Auden, Paul Auster, Jorge Luis Borges, Truman Capote, Louis-Ferdinand Celine, William Faulkner, Ernest Hemingway, Primo Levi. Concebidas como um contraponto à crítica academicista e formal que imperava nos Estados Unidos na época, as entrevistas buscam revelar o autor de forma profunda, cobrindo sua vida passada, sua visão de mundo, suas motivações e as peculiaridades de sua criação literária. Editadas com maestria, inclusive com revisão e aprovação dos próprios autores, elas transcendem o formato jornalístico e adquirem qualidade literária. O livro sai com um projeto gráfico inovador, no qual cada exemplar terá uma capa única (leia o post de Elisa Braga sobre o projeto).

O visconde partindo ao meio, de Italo Calvino (Tradução de Nilson Moulin)
O visconde partido ao meio, publicado originalmente em 1952, veio a compor com O cavaleiro inexistente e O barão nas árvores, ambos publicados pela Companhia das Letras, uma trilogia a que Italo Calvino (1923-85) chamou de Os nossos antepassados, uma espécie de árvore genealógica do homem contemporâneo, alienado, dividido, incompleto. É a história de Medardo di Terralba, o voluntarioso visconde que, na defesa da cristandade contra os turcos, leva um tiro de canhão no peito, mas sobrevive, ficando absurdamente partido ao meio, a metade direita atormentada pela maldade e a esquerda, pela bondade. “Ainda bem que a bala de canhão dividiu-o apenas em dois”, comentam aliviadas suas vítimas.

Os últimos dias de Tolstói, de Liev Tolstói (Organização de Elena Vássina; Tradução de Anastassia Bytsenko, Belkiss J. Rabello, Denise Regina de Sales, Graziela Schneider e Natalia Quintero)
Traduzidos diretamente do russo, os ensaios, cartas, parábolas e fragmentos de obras de Tolstói reunidos neste volume, escritos a partir de 1882, pregam contra o hábito de se comer carne, contra o sexo sem fins reprodutivos, contra a excessiva cobrança de impostos, contra o patriotismo, contra o alistamento militar obrigatório e contra os dogmas e ritos das religiões que considerava como desvios da fé (ele foi excomungado pela Igreja Ortodoxa Russa). No imaginário russo, Tolstói passou a ocupar o lugar de profeta e uma legião de seguidores, mendigos e oportunistas passou a se dirigir a Iasnaia Poliana, a grande propriedade rural de sua família. Seus famosos ensaios estéticos “O que é arte?” e “Shakespeare e o drama” completam o volume. Os textos foram escolhidos por Jay Parini, autor do romance histórico A última estação: os momentos finais de Tolstói, que serviu como inspiração para o filme homônimo estrelado por Christopher Plummer, Helen Mirren e Paul Giamatti.

Mecanismos internos — Ensaios sobre literatura, de J.M. Coetzee (Tradução de Sergio Flaksman)
Exercitada em sua vasta experiência como professor, tradutor e pesquisador de literatura, a verve crítica de Coetzee — que transparece na trama híbrida de seus melhores romances — é apresentada em sua plenitude nos 21 textos reunidos em Mecanismos internos, quase todos escritos para a prestigiosa New York Review of Books. Coetzee oferece sua visão pessoal sobre a vida e a obra de alguns de seus maiores precursores e contemporâneos — Nadine Gordimer, Robert Musil e Walter Benjamin, entre outros —, reafirmando o papel histórico do escritor e intelectual criticamente engajado.

Cleópatra — A rainha dos reis, de Fiona Macdonald (Ilustrações de Chris Molan; Tradução de Augusto Pacheco Calil)
Cleópatra morreu há mais de dois mil anos, mas sua vida ainda desperta curiosidade e fascínio. Quando ela nasceu, em 69 a.C., o Egito corria o risco de ser dominado por Roma. Ao tornar-se regente, Cleópatra mudou essa situação. Usando seus encantos e inteligência, conquistou os generais romanos Júlio César e Marco Antônio, tornando-os seus aliados, e assim conseguiu manter-se no poder por cerca de duas décadas. Neste livro, o leitor conhece essa notável história, assim como diversos aspectos da vida no antigo Egito através de ilustrações, fotografias e textos complementares. Além disso, as páginas centrais do volume se desdobram, fornecendo uma visão panorâmica dos acontecimentos.