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Semana duzentos e cinquenta e oito

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Ai! Que Preguiça! — O Brasil em 39 poemas fabulosos & alegóricos, de Rodolfo W. Guttilla
Os mais variados aspectos e capítulos da vida brasileira são capturados com leveza pela poesia de Rodolfo Guttilla. Seu livro é uma jornada lírica e graciosa por nossa história. Leitores de todas as idades irão se cativar por essa mistura muito bem-feita de poesia e comentário social. Tomando de empréstimo como título a famosa frase de Macunaíma, de Mário de Andrade, o livro de Guttilla tem como principais inspirações a obra do autor modernista e os poemas de José Paulo Paes (1926-1998), que tratava de assuntos brasileiros com uma graça que influencia os autores mais jovens até hoje.

Seis meses em 1945 — Roosevelt, Stálin, Churchill e Truman — Da Segunda Guerra à Guerra Fria, de Michael Dobbs (Tradução de Jairo Arco e Flexa)
Poucos pontos de inflexão na história apresentam tantos aspectos dramáticos como os meses entre fevereiro e agosto de 1945, o período entre a Conferência de Yalta e o bombardeio de Hiroshima. Os Estados Unidos e a União Soviética se tornaram as duas nações mais poderosas do mundo; a Alemanha nazista e o Japão imperial foram derrotados; o Império britânico estava à beira de um colapso econômico. Um presidente morreu; um ditador doentio que quase conquistou o mundo suicidou-se; um primeiro-ministro que havia inspirado seu povo durante os dias mais sombrios de sua história foi derrotado em eleições livres. Golpes de Estado e revoluções tornaram-se corriqueiros; milhões de pessoas foram enterradas em valas comuns; antigas cidades reduziram-se a pilhas de escombros. Um tsar vermelho redesenhou o mapa da Europa, erguendo uma “cortina de ferro” metafórica entre Oriente e Ocidente. Essa é a história das pessoas — presidentes e comissários, generais e soldados rasos, vencedores e derrotados — que deram origem à corrida de gigantes que redefiniria os rumos do mundo.

O diário de Guantánamo, de Mohamedou Ould Slahi (Tradução de Donaldson M. Garschagen e Paulo Geiger)
Desde 2002, Mohamedou Slahi está preso no campo de detenção da Baía de Guantánamo, em Cuba. No entanto, os Estados Unidos nunca o acusaram formalmente de um crime. Um juiz federal ordenou sua libertação em março de 2010, mas o governo americano resistiu à decisão e não há perspectiva de libertá-lo. Três anos depois de sua prisão, Slahi deu início a um diário em que conta sua vida antes de desaparecer sob a custódia americana, o processo interminável de interrogatório e seu cotidiano como prisioneiro em Guantánamo.

Um holograma para o rei, de Dave Eggers (Tradução de Jorio Dauster)
Em uma próspera cidade da Arábia Saudita, longe da complicada realidade da recessão que assola os Estados Unidos, um empresário em apuros financeiros realiza uma última e desesperada tentativa de evitar a falência completa, pagar a caríssima faculdade da filha e, talvez, fazer algo de bom e surpreendente com sua vida. Em Um holograma para o rei, Dave Eggers nos conduz por uma viagem pelo outro lado do mundo e pela comovente e por vezes cômica jornada de um homem para manter a família unida e a vida nos eixos diante da crise que devasta todos como uma tempestade.

Só por hoje e para sempre – Diário do recomeço, Renato Russo
Perfeccionista e exigente em todas as etapas de seu processo criativo, da composição à execução diante do público, o homem que estava à frente da Legião Urbana — uma das bandas de maior sucesso na história da música brasileira — encarou com a mesma obstinação o Programa dos Doze Passos oferecido pela clínica, seguindo à risca os exercícios terapêuticos de escrita propostos. É esse material inédito que vem à tona depois de mais de vinte anos em Só por hoje e para sempre, atendendo ao desejo do autor de ter sua obra publicada postumamente. Entremeando as memórias de Renato com passagens de autoanálise e um olhar esperançoso para o futuro, esse relato oferece a seus fãs, além de valioso documento histórico, um contato íntimo com o artista e um exemplo decisivo de superação.

Paralela

Casa em cores, de Durell H. Godfrey 
Para todos os fãs de livros de colorir, chega uma novidade para todas as idades. As ilustrações de Durell Godfrey do montante de coisas das nossas vidas ocupadas — mesas cobertas, salas caóticas e pilhas de papéis — estão preparadas para ganharem vida com o ato de colorir. Arrumar pode ser terapêutico, mas colorir é muito mais. Um sossego que funciona tanto para arrumadinhos quanto bagunceiros. É só adicionar cores!

Fontanar

Um Deus muito humano — Um novo olhar sobre Jesus, de Frei Betto
Frei Betto, um dos principais líderes religiosos brasileiros, faz neste livro uma reflexão atualizada, mostrando que, em Cristo, Deus se assemelha a nós, humanos, em tudo, exceto no egoísmo. Jesus continua a ser um importante paradigma, sobretudo por ter centrado sua mensagem no amor e assegurado, com sua ressurreição, que a vida tem mais força que a morte.

Companhia das Letrinhas

Os grudolhos perseverantes de Frip, de George Saunders (Tradução de Fabricio Waltrick)
Grudolhos são como carrapichos, só que maiores. Eles são laranja, têm muitos olhos e gostam de viver em bando, de preferência bem grudadinhos nos pelos das cabras. No povoado de Frip, fazem a festa. Vivem infestando as cabras de Valência, que passa o dia escovando-as. As outras famílias do vilarejo não sofrem desse mal e se recusam a ajudar Valência. Querem mesmo é que as criaturas infernais fiquem longe de seus rebanhos. Mas, num belo dia, Valência tem uma grande ideia. Ela se livra dos grudolhos, que correm todos até as cabras mais próximas…

As boas intenções

Por Emilio Fraia


Dez de dezembro, do norte-americano George Saunders, está cheio de personagens bem-intencionados. Na primeira história, “No colo da vitória”, a jovem Alison Pope ama suas amigas de classe, e as garotas da escola, e os garotos, e os professores. “Todo mundo era tão bacana. Todos dando o melhor de si.” Na verdade, ela ama a cidade toda. A pastora Carol; o quitandeiro adorável, “borrifando suas alfaces!”; o carteiro gorducho, “acenando com seus envelopes-bolha!”. “Para fazer o bem você só precisa decidir fazer o bem. Ter coragem. Fazer o que é direito”, diz Alison, que “gostava de estar no comando de si própria. De seu corpo, de sua cabeça. De seus pensamentos, sua carreira, seu futuro”. Alison luta pelas vítimas e contra a opressão, dá comida a pobres imaginários e conversa com eles: “Há alguma coisa que eu possa fazer por vocês, pessoal?”. E eles respondem: “Você já fez muito, Alison, ao se dignar a falar conosco”. Ao que ela acrescenta: “Isso não é verdade! Vocês não entendem que todas as pessoas merecem respeito? Cada um de nós é um arco-íris”.

Às vésperas de seu aniversário de quinze anos, Alison está sozinha em casa (“Também amava sua casa. Do outro lado do riacho ficava a igreja russa. Tão étnica!”) quando alguém bate à porta. É um desconhecido, um sujeito enorme, num daqueles coletes dos homens que medem o consumo de luz e água.

De repente, o grandalhão segura Alison pelo pulso, saca uma faca.

Nesse ponto, George Saunders (mestre absoluto) nos leva a observar a história através dos olhos do vizinho da frente de Alison, o superprotegido Kyle Boot. Eles cresceram juntos, Alison e Kyle. Os pais de Kyle não o deixam fazer nada, estão sempre em cima, cobrando, exigindo, cuidando, proibindo. Querem, afinal, o bem dele. “Pense em todos os recursos que investimos em você, Amado Filho Único”, diz sua mãe. “Eu sei que às vezes parecemos rigorosos demais, mas você é tudo que temos”, diz seu pai. Saunders constrói Kyle como um personagem paralisado, abobalhado pela infinidade de regras a que é submetido. Kyle vê o que está acontecendo na casa em frente: o sujeito com a faca, carregando Alison (“como uma boneca de pano no santuário do jardim perfeito que o pai tinha feito para ela”). O coração de Kyle dispara. Sua boca fica seca.

Não vou contar o desfecho da história, claro. Mas sugeriria um salto até a terceira narrativa do livro, “Filhote”, em que uma mãe, Marie, parte com seus dois filhos pequenos, Josh e Abbie, numa “Missão Família”. Pegam seu Lexus (sedan da Toyota) e vão até um sítio, margeado por um milharal, a alguns quilômetros da cidade, onde pessoas estão doando um cachorrinho.

À primeira vista, Marie parece ter algo da Alison Pope do primeiro conto, uma visão otimista das coisas. Também possui total certeza de que é portadora do bem. Apesar disso, logo percebemos que o caminho pelo qual Saunders está nos levando aqui é outro. Marie teve uma infância dura, sem muitas alegrias (“Papai era tão casmurro, Mamãe tão envergonhada”), por isso agora, na sua família, “a risada era incentivada!”. “Ah, a risada em família era a melhor coisa do mundo!”, pensava, enquanto dirigia, com os filhos no banco de trás.

Tinha uma visão muito correta de si, “sentia que o mundo era bom e que ela tinha encontrado seu lugar nele”. Era, afinal, uma pessoa compreensiva, que sabia que os filhos eram “crias de si próprios”. Ela era meramente uma “zeladora”. “Eles não precisavam sentir o que ela sentia; tinham apenas que receber apoio naquilo que sentissem, fosse o que fosse” — Waldorf aprovaria.

Então, Saunders muda a perspectiva da narração. Passamos a acompanhar Callie, a mãe da família cujo cachorrinho vai ser doado. Eles moram num sítio. São gente simples. O cachorrinho é branco, tem uma mancha marrom num olho. Se não for doado, vai ter que ser sacrificado, e Callie não quer isso, não quer que seu marido, Jimmy, precise agir “como daquela outra vez, com os gatinhos”.

Callie tem um filho, Bo, que possui um tipo de deficiência — Saunders não nos diz exatamente do que se trata. Bo costuma ficar nervoso. Os remédios o fazem ranger os dentes, e subitamente “ele dava com o punho em cima de alguma coisa; tinha quebrado pratos daquele jeito, levado quatro pontos na mão até.” Mas naquele dia ele não precisava dos remédios porque estava em segurança no quintal, diz Callie, com seu taco, treinando arremessos, enchendo de pedrinhas seu capacete dos Yankees e atirando-as contra a árvore.

Marie chega com as crianças à casa de Callie e logo se depara com um mundo completamente distinto do seu, “a imundície, o cheiro de mofo, o aquário seco sustentando o volume único da enciclopédia”. “Por favor, não toquem em nada”, ela diz a Josh e Abbie, mas “só mentalmente, desejando dar às crianças uma oportunidade de observá-la sendo democrática e compreensiva”.

As crianças adoram o cachorrinho, ficam repetindo “mamãe, eu quero ele, eu quero ele!”. Tudo está indo bem, de maneira absolutamente ok. Até que Marie vai até a janela e, “afastando antropologicamente a persiana”, vê uma cena que, claro, eu não vou contar. Mas que a faz desistir de levar o cachorrinho, e que coloca em movimento um dos finais mais sensíveis que já li num conto.

O que dá para dizer sem dizer sobre os desfechos dessas duas histórias? — e é incrível que Dez de dezembro não tenha recebido uma única resenha ou crítica sequer até agora por aqui. Saunders vai nos dizer algo mais ou menos assim: 1) por mais ponderadas e pretensamente racionais que sejam as nossas escolhas, alguma coisa sempre pode sair do controle; 2) lutamos contra injustiças e criamos novas injustiças; 3) temos plena certeza de que somos razoáveis e bons — o bom-senso, que Descartes dizia ser a coisa mais bem distribuída do mundo, porque todos pensamos ter — e às vezes o que achamos, com convicção, que é o melhor a ser feito, acaba se mostrando cruel e desencadeando violência.

Num outro conto sensacional, “Exortação”, um chefe manda um e-mail a seus empregados. A história é a própria mensagem, um memorando DE: Todd Birnie, Diretor de Divisão. PARA: Equipe. RE: Estatísticas do Desempenho de Março. É um texto motivacional, a “exortação” do título. Tem aquele humor dos relatos de Kafka — nunca ficamos sabendo, por exemplo, o que é exatamente o trabalho que Todd e seus funcionários realizam. E a coisa, aos poucos, vai ficando pesada. “Estou dizendo que devemos tentar não esmiuçar cada mínima coisa que fazemos para saber se é boa/má/indiferente em última instância em termos morais”, escreve Todd. E vamos ficando horrorizados com a naturalização de comportamentos atrozes, com os auto-enganos que justificam as ações no ambiente corporativo. Ainda assim, o que sentimos é melancolia, uma sensação difusa, nunca raiva. A capacidade de afeição de Saunders por seus personagens impressiona. E isso se dá ao mesmo tempo em que o autor lança luz sobre aquele lado negro que, lendo seus textos, passamos a enxergar em tudo o que convencionamos chamar de bem e nossas mais nobres certezas e intenções.

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Emilio Fraia nasceu em São Paulo, em 1982, é editor, jornalista e escritor. É autor da graphic novel Campo em branco (Quadrinhos na Cia., 2013, em parceria com DW Ribatski) e do romance O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, com Vanessa Barbara). Foi repórter das revistas Trip piauí, e editor de ficção da editora Cosac Naify. Contribui com uma coluna mensal para o blog.

A importância de ser gentil

Por George Saunders
(Tradução de Carlos Alberto Bárbaro)

Nesta semana, lançamos o novo livro de George Saunders no Brasil, Dez de dezembro. O volume de dez contos aborda os dramas e as delícias da classe média urbana, a relação entre pais e filhos, as pequenas imposturas que cometemos quando queremos agradar um desconhecido.

No ano passado, George Saunders foi convidado para discursar na formatura da turma de 2013 da Syracuse University. Seu discurso não falou apenas sobre o futuro profissional dos alunos ou os desafios que encontrariam. Saunders lembrou os recém-formados sobre uma coisa muito mais importante: as pessoas devem ser mais gentis umas com as outras, independente de seus objetivos. Leia a seguir o discurso completo de George Saunders.

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Através dos tempos, estabeleceu-se um padrão para este tipo de discurso, a saber: algum velhote, já bem entrado em anos, que no curso de sua vida cometeu uma série de equívocos lamentáveis (este sou eu), oferece aconselhamento sincero a um grupo de jovens brilhantes e viris, cujos melhores anos de suas vidas estão por vir (estes são vocês).

Pretendo respeitar essa tradição.

Assim, se há algo útil que vocês podem obter de um velho, além de lhes pedir dinheiro emprestado, ou insistir para eles mostrarem algum dos seus antigos passos de “dança”, para fazê-los rir enquanto assistem, é perguntar a ele: “O que você lamenta em seu passado?” E eles lhes dirão. Em algumas ocasiões, como vocês devem saber, eles lhes dirão mesmo se ninguém tiver perguntado nada. Em outras ainda, mesmo que vocês tenham lhes pedido especificamente para não contarem nada, eles vão falar.

O que eu lamento, então? Ter sido pobre ocasionalmente? Não mesmo. Ter tido empregos terríveis, como “desconjuntador em um abatedouro”? (E nem me perguntem o que isso implica.) Não, não lamento por isso. Mergulhar pelado num rio em Sumatra, um pouco alterado, e ao olhar para cima divisar uns trezentos macacos sentados em um cano, fazendo cocô no rio, no rio em que eu estava nadando, com minha boca aberta, pelado? E cair mortalmente enfermo logo a seguir, continuando assim nos sete meses seguintes? Não muito. Será que me lamento pelas ocasionais humilhações? Como aquela vez em que, jogando hockey diante de um público enorme, que incluía essa garota de quem eu gostava imensamente, eu de algum modo consegui, enquanto caía e soltava um cacarejar estranhíssimo, marcar um gol contra e ao mesmo tempo lançar meu bastão em voo na direção do público, não acertando aquela garota por um triz? Não, nem isso eu lamento.

Mas eis algo que realmente lamento.

Quando eu estava no sétimo ano, uma garota nova entrou pra nossa turma. Para preservar os envolvidos, seu nome neste discurso de formatura será “Ellen”. Ellen era miúda, tímida. Usava aqueles óculos azuis em forma de gatinhos que, naquele tempo, só mulheres mais velhas usavam. Quando estava tensa, e isso era praticamente sempre, ela costumava colocar uma mecha de seu próprio cabelo na boca e passava a mastigar aquilo.

Bem, ela se mudou para a nossa escola e para o nosso bairro e na maior parte do tempo era ignorada, às vezes zoada (“É gostoso o seu cabelo?” — esse tipo de coisa.). Eu percebia que isso a magoava. Ainda consigo lembrar sua aparência depois que recebia esse tipo de ofensa: os olhos pra baixo, um pouco encurvada, como se, tendo sido justamente lembrada de seu lugar na ordem das coisas, ela tentasse, tanto quanto possível, desaparecer. Pouco depois, ela se afastava, o cacho de cabelos ainda em sua boca. Em sua casa, eu imaginava, depois da escola, sua mãe faria aquelas perguntas padrão: “Como foi o seu dia, meu bem?”, e ela diria, “Oh, bem.” E a mãe continuaria, “Fez algum amigo?”, e ela diria, “Claro, um monte.”

De vez em quando eu a via caminhando sozinha no quintal da frente da casa dela, como se com medo de sair.

E então — eles se mudaram. E é tudo. Nenhuma tragédia, nenhuma grande humilhação final.

Num dia ela estava lá, no outro, não estava.

Fim da história.

Então, por que lamento isso? Por que, passados quarenta e dois anos, continuo a lembrar disso? Em comparação à maioria dos outros garotos eu até que fui bem legal com ela. Jamais lhe disse uma palavra rude. Na verdade, algumas vezes eu até a defendi (timidamente).

E mesmo assim… Isso ainda me incomoda. Então, eis aqui algo que eu sei que é verdade, embora seja um pouco piegas, e eu não sei bem o que fazer com isto.

O que eu mais me arrependo em minha vida são dos fracassos em ser gentil.

Aqueles momentos em que outro ser humano fica ali, na minha frente, sofrendo, e eu reajo… sensatamente. Discretamente. Timidamente.

Ou, vendo as coisas pelo outro lado do telescópio: Quem, em sua vida, você lembra com mais carinho, da forma mais calorosa e irrestrita?

Os que foram mais gentis com vocês, aposto.

É meio cômodo, talvez, e por certo difícil de praticar, mas eu acho que como meta de vida há coisas bem piores do que tentar ser mais gentil.

Agora, a pergunta de um milhão: O que há de errado conosco? Por que não somos mais gentis?

Acho que é o seguinte:

Nascemos todos com uma porção de defeitos de fabricação, estes, de algum modo, provavelmente darwinianos. Que são os seguintes: (1) somos o centro do universo (isto é, nossa história pessoal é a mais importante e mais interessante das histórias, é, na verdade, a única história); (2) somos separados do universo (existimos, porém lá fora tem toda aquela tralha — cães e balanços, o estado de Nebraska e nuvens baixas e, você sabe, as outras pessoas); e (3) somos permanentes (a morte é um fato, tá certo — mas para vocês, não para mim).

Na verdade, não acreditamos de fato nessas coisas — intelectualmente, somos mais espertos que isso —, mas acreditamos nelas visceralmente, vivendo em conformidade a elas, que fazem com que coloquemos nossas próprias necessidades acima das necessidades dos outros, mesmo que o que a gente queira de verdade, de coração, seja sermos menos egoístas, mais atentos ao que está de fato se passando no momento presente, mais abertos e mais gentis.

Agora, a pergunta de dois milhões: Como podemos fazer isto? Como podemos nos tornar mais gentis, mais receptivos, menos egoístas, mais presentes, menos iludidos etc. etc.?

Pois é, boa pergunta.

Infelizmente, tenho apenas mais três minutos.

Então, direi apenas o seguinte: há várias maneiras. E vocês já sabem disso, porque em suas vidas houve períodos de Alta Gentileza e períodos de Baixa Gentileza, e vocês sabem o que os aproximou do primeiro e afastou do segundo. Educação é algo bom; deixarmo-nos absorver por uma obra de arte: bom; orar é bom; meditar é bom; uma conversa franca com um amigo querido; filiarmo-nos a certo tipo de tradição espiritual — reconhecendo que antes de nós houve um sem número de pessoas realmente inteligentes que se colocaram essas mesmas questões e deixaram as respostas para nós.

Porque, saibam, ser gentil é difícil — começa totalmente arco-íris e cachorrinhos fofos e se expande para incluir… bem, tudo.

Contamos com uma vantagem, porém: essa coisa de “tornar-se gentil” vem naturalmente com a idade. Pode ser apenas uma questão de cansaço: à medida em que envelhecemos, percebemos quão inútil é ser egoísta — quão ilógico, na verdade. Passamos a amar outras pessoas e somos portanto desprogramados em nossa própria centralidade. Levamos alguns tropeços na vida real e as pessoas vêm em nosso auxílio, nos defender, e aprendemos que não estamos sozinhos, e nem queremos estar. Vemos pessoas que nos são próximas e queridas ficarem pelo caminho, e somos gradualmente convencidos de que talvez também nós iremos sucumbir (algum dia, daqui a muito tempo). Muitos, ao irem envelhecendo, tornam-se menos egoístas e mais gentis. Eu acho que é assim mesmo. O grande poeta de Siracusa, Hayden Carruth, apontou, em um poema escrito pouco antes de morrer, que ele era, “agora, essencialmente Amor”.

Encerro com uma profecia, e algo que desejo de coração para vocês: à medida em que forem ficando mais velhos, seu ego irá diminuir e vocês irão crescer no amor. Vocês serão paulatinamente substituídos pelo amor. Se tiverem filhos, esse será um momento imenso em seu processo de autodiminuição. Vocês não darão realmente a mínima para o que aconteça com vocês, contanto que sejam eles os beneficiados. Esta é uma das razões pelas quais os pais de vocês estão tão orgulhosos e felizes hoje. Um dos sonhos mais queridos deles se tornou realidade: vocês conquistaram algo difícil e tangível que os fez crescer como pessoas e que irá tornar sua vida melhor, daqui para frente, para sempre.

E por falar nisto, parabéns!

Quando somos jovens, temos a urgência — compreensivelmente — de descobrir se temos o que é necessário. Teremos sucesso? Seremos capazes de construir uma vida viável para nós mesmos? Mas vocês — em particular, os desta geração — devem ter percebido uma certa característica cíclica da ambição. Vocês se dedicam durante o ciclo fundamental, na esperança de entrar em uma boa faculdade, e do mesmo modo se dedicam na faculdade, na esperança de obter um bom emprego, daí se dedicam no bom emprego na esperança de…

E é assim mesmo. Se vamos nos tornar mais gentis, isso implica nos levarmos a sério — como batalhadores, como realizadores, como sonhadores. Temos que fazer isso, ser o melhor de nós mesmos.

E mesmo assim, a realização não é garantida. “Ter sucesso”, seja lá o que isto signifique para vocês, é difícil, e a urgência em consegui-lo permanece em constante mutação (o sucesso é como uma montanha que continua crescendo à sua frente enquanto você a escala), e há também o risco muito provável de que “o sucesso” irá absorver toda a sua vida, deixando não atendidas as grandes questões.

Então, o conselho rápido de fim de discurso: Considerando que, segundo eu, suas vidas serão um processo gradual para se tornarem mais gentis e mais amorosos, não percam tempo. Abreviem o processo. Comecem imediatamente. Em cada um de nós habita uma confusão, uma doença de fato: o egoísmo. Mas também habita a cura. Então, sejam pacientes bons e proativos, e mesmo um tanto ansiosos, para seu próprio bem — busquem os mais eficazes remédios antiegoísmo, vigorosamente, pelo resto de sua vida.

Façam todo o resto, as coisas ambiciosas — viajem, enriqueçam, fiquem famosos, inovem, liderem, apaixonem-se, façam e percam fortunas, nadem pelados em rios de regiões selvagens (mas só depois de verificar se eles estão livres de caca de macaco) —, mas enquanto estiverem fazendo tudo isso, na medida do possível, vão desviando o passo rumo à gentileza. Façam aquelas coisas que os coloquem no rumo das grandes questões e evitem as que os diminuiriam e os tornariam banais. Aquela parte iluminada em vocês, que existe para além da personalidade — sua alma, se preferirem —, é tão brilhante e luminosa como qualquer outra que já tenha existido. Brilhante como a de Shakespeare, brilhante como a de Gandhi, brilhante como a de Madre Teresa de Calcutá. Tirem do caminho tudo o que os mantenha apartados desse lugar resplandecente e secreto. Acreditem em sua existência, passem a conhecer melhor esse lugar, alimentem-no, partilhem incansavelmente os seus frutos.

E algum dia, daqui a oitenta anos, quando vocês chegarem aos cem, e eu aos 134, e formos todos tão gentis e amorosos a ponto de sermos quase insuportáveis, telefonem para mim, para eu saber como tem sido a sua vida. E eu espero que vocês digam então: Tem sido tão maravilhosa.

Parabéns, Turma de 2013.

Desejo-lhes a maior felicidade, toda a sorte do mundo e um lindo verão.

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DEZ DE DEZEMBRO
Sinopse:
Os dez contos do livro formam um vasto painel da vida contemporânea, apresentando nossas neuroses, comédias de erros, relações amorosas e outros traços da realidade do século XXI. Com este livro que retoma a melhor tradição de contistas como John Cheever, Raymond Carver e David Foster Wallace, George Saunders, autor de romances, ensaios e outros volumes de contos, foi catapultado — merecidamente — para o centro da cena literária de seu país. Pudera: seus contos, escritos com virtuosismo linguístico e formal e mesmo assim intensamente divertidos, tocantes e humanos, são um olhar a partir do cotidiano de todos nós.

 

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George Saunders nasceu no Texas em 1958. Estudou Escrita Criativa na Universidade de Syracuse, onde atualmente é professor, e trabalhou como redator técnico em uma empresa de engenharia ambiental. Autor de romances, coletâneas de contos e ensaios, é considerado uma das vozes mais originais da literatura dos Estados Unidos.