georges perec

Semana oitenta e quatro

Os lançamentos da semana são:

As coisas: uma história dos anos sessenta, de Georges Perec (Tradução de Rosa Freire d’Aguiar)
Primeiro livro de Perec, As coisas mostra um casal parisiense de vinte e poucos anos dividido entre aspirações intelectuais e o chamado incontrolável da sociedade de consumo. Perec declarou que sua ambição foi expor “tudo o que pode ser dito a propósito da fascinação que exercem sobre nós os objetos”. Jérôme e Sylvie são “psicossociólogos”, emprego que na verdade não constitui uma profissão, mas que emerge com promessas de ascensão rápida na esteira do nascimento das agências de publicidade. Aplicando questionários de estudos motivacionais, atividade que lhes deixa tempo para débeis veleidades intelectuais e para a vida boêmia, no fundo os dois jovens apenas hesitam diante do inevitável: um cargo dentro de uma grande agência, passaporte para um apartamento mais amplo e para as mercadorias ostentadas nas vitrines e nas revistas.

Dez mil guitarras, de Catherine Clément (Tradução de Eduardo Brandão)
Um brâmane morre em Bengala, na Índia, e nasce de novo, como rinoceronte, na África. Para seu azar, sofre uma dupla reencarnação, levando para a nova vida sua antiga consciência, encerrada agora naquele animal portentoso. Quando já havia se acostumado a sua rotina de mergulhos na lama, é capturado e levado a Portugal para ser o bibelô de d. Sebastião, num reino prestes a deixar para trás seus dias de glória. Com a alma e o corpo aprisionados, nada resta ao misto de brâmane e bada senão narrar tudo o que presencia e ouve falar, iniciando uma jornada que o levará a uma nova transformação, a outros países e a um insólito contato com a intimidade do filósofo René Descartes em seus momentos finais na corte da rainha Catarina da Suécia. Misto de romance histórico e narrativa fantástica, o novo romance de Catherine Clément nos transporta com humor e magia aos tumultos políticos da Europa de fins do século XVI e meados do XVII.

O que acontece quando nada acontece

Por Joca Reiners Terron

Georges Perec escreveu um ensaio sobre os objetos presentes em sua escrivaninha. Cinzeiros que lembram dos mártires de Beirute, apontadores, esferográficas e outros souvenires. Além de toda a papelada típica da mesa de um escritor, lembranças adquiridas em viagens e acontecimentos. Ou então objetos temporários que denotam o estágio de bloqueio criativo do proprietário da mesa: xícaras de café em profusão, bitucas, quebra-cabeças, palavras cruzadas a meio caminho.

Perec, em outro texto famoso, denunciou a importância do infraordinário no curso da história. Das coisas mínimas tão necessárias à existência. Quem disse que a História se movimenta somente através de grandes acontecimentos? Para um acidente de trem ir parar nas manchetes é necessário que ocorra um grande descarrilhamento que mate centenas de pessoas. Mas e os pequenos ocorridos no interior de um trem não afetariam a história, a nossa história, talvez de modo ainda mais impactante? Por exemplo, o que sucedeu àquele rapaz que, após se despedir da garota que acabara de conhecer no trem e por quem se apaixonara perdidamente… Na estação, um pé de vento levou o papelzinho onde estava anotado o telefone dela. Fim da história?

Com o fim do ano se aproximam as férias e o momento em que deixaremos nossos objetos sozinhos em casa. É um momento difícil, esse em que somos obrigados a esquecer aquilo que nos acompanhou cotidianamente ao longo dos últimos meses. Como se estivesse numa versão destinada a leitores do filme Toy Story, imagino o que pode acontecer às centenas de livros que eu adoraria ler nas férias, mas que seria inviável sair carregando por aí, do Oiapoque ao Chuí. O que aconteceria entre eles enquanto estivessem sozinhos? Aquele narrador solitário de Fome, de Knut Hamsun, finalmente terá com quem conversar? Haverá uma verdadeira batalha campal em pleno carpete da sala entre os livros de literatura contemporânea brasileira e finalmente alguém sairá ganhando nessa guerra fantasma sem vitoriosos? Os guias de viagem deixados para trás se revoltarão e viajarão sozinhos para destinos não contemplados nestas férias?

Perec, em seu ensaio, acaba concluindo que a mesa do escritor está sempre aquém do ideal, que deveria incluir pilhas organizadas de papéis, lápis apontados e somente objetos estritamente ligados à atividade do escritor. Para selar tudo, um caderno aberto com suas páginas em branco. A criação literária é feita desses instantes mínimos, em que nada, quase nada, parece ocorrer. Foi assim que Tolstói empreendeu as mais de mil páginas de Guerra e paz: quase não saindo do lugar.

Os livros estão feitos desse paradoxo: compostos de imobilidade e de movimento, os acontecimentos nímios das páginas dos livros só chegam a existir devido à concentração de quem os compõe. É quase uma questão de Física, e que remete à máxima de Pascal, que afirmou que “toda a miséria dos homens vem de uma só coisa, que é não saberem permanecer em repouso, num quarto”.

Para testar os limites da História que acontece entre o mínimo e o máximo, unirei aspectos ideais do pensamento de Pascal e de Perec. Enquanto meus livros preteridos fazem amor em minha cama vazia, deixarei minha escrivaninha completamente organizada, e sobre ela, um caderno aberto com páginas em branco e uma caneta. Se esta minha confusa teoria estiver correta, quando chegar em casa depois de um mês de férias, haverá um livro novo inteiramente escrito pelo vazio de minha ausência. Não tenho dúvida de que será minha obra-prima.

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Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Pela Companhia das Letras, lançou seu último romance, Do fundo do poço se vê a lua, e relançou seu primeiro, Não há nada lá. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.