gore vidal

Desastres na Companhia – 2

Por Luiz Schwarcz

[Leia aqui a 1ª parte, sobre a chegada de Gore Vidal]

A programação de Gore Vidal em São Paulo, após a fatídica entrevista, começava com festa. E ela se realizou em grande estilo, em uma casa luxuosa, num bairro afastado do centro. Até aquela ocasião, a Lili e eu nunca havíamos ido a uma festança daquele estilo. Ainda mais assustada do que eu naquela sala cheia de socialites, ela quase chorou ao notar um papelucho que indicava que nos sentaríamos em mesas diferentes. Também estranhou quando um colega de mesa a convidou para acompanhá-lo ao lavabo. Não topou, imaginando que o convite tinha alguma conotação de interesse sexual. Mais tarde, soubemos que as idas ao banheiro tinham outro motivo.

A festa teve direito a sarau, com um grupo de câmara tocando Villa-Lobos, para desespero do convidado, que não tinha o grande compositor brasileiro em alta conta. Quando perguntei a Vidal se estava gostando da festa, ouvi dele: “Sim, Luiz, eu já fui a muitas festas deste tipo. Há um anfitrião desses em cada grande cidade do mundo”.

No dia seguinte, um domingo, mais uma recepção, agora num sítio no interior do estado. O trajeto demorou muito mais que o esperado. Com vergonha do meu carro, pedi emprestado o do meu pai, o qual nunca havia guiado. A novidade do momento eram carros com vidro elétrico. Não tardou para que na longa estrada de terra, distraído, eu fechasse o vidro no braço do convidado. Concentrado no caminho, ouvi os berros de Vidal e seu companheiro que gritavam em uníssono pedindo socorro, sem que eu percebesse o porquê.

Ao chegarmos na festa, mais percalços nos esperavam. O short do escritor estava em desacordo com seu peso à época. Vidal, que só notou o quanto estava fora de forma quando chegou na festa, teve que passar o dia sem camisa, morrendo de calor, mas com a calça do terno.

No entanto essa seria a última vez que Vidal usaria aquela calça: assim que se sentou num banco à beira da piscina, percebeu que teria dificuldades para se levantar. Grudado pela única peça de roupa que usava, reconheceu, estarrecido, que o tal banco havia sido recém-pintado com tinta verde. A calça nunca mais seria salva! Fulminou-me com um olhar, que só abrandou com um prato de feijoada, que, às pressas, fui buscar. A feijoada, porém, deixou rapidamente suas iniciais em nosso convidado. Quinze minutos depois do primeiro prato, Vidal correu ao banheiro, de onde não saiu por um bom tempo. Aquela foi a primeira e última feijoada de sua vida, posso apostar.

No dia seguinte, pela noite, começavam as palestras. A programação incluía três conferências: a primeira no auditório da Folha na segunda-feira; outra na Unicamp na terça, e a final no MASP no dia seguinte. Ao chegar em Campinas, Vidal foi avisado, não sei por quem, que Nelson Ascher criticara o evento no próprio jornal anfitrião, e o atacara na edição da Ilustrada daquela manhã, chamando-o de “o mestre das gags prontas”. Sem sucesso, eu tentara evitar que Vidal fosse informado do fato, pelo menos antes do evento em Campinas, que fervilhava a mais de 33 graus centigrados. Furioso, Vidal respondeu a Ascher: “façam-me as mesmas perguntas e terão as mesmas respostas”. Depois, no almoço, servido em uma sala com pôsteres emoldurados, reproduzindo quadros clássicos como a Santa ceia de Leonardo da Vinci — para os quais Vidal olhava com desdém —, ele me procurou e esbravejou: “Ascher só pode estar a serviço de Norman Podhoretz, meu inimigo, também judeu, e que escreve na Commentary”.

E mais: exigiu que Ascher não fosse o mediador do último evento que aconteceria no MASP, sob ameaça de não comparecer. A crise com a Folha estava armada. Gastei toda minha capacidade de argumentação para tentar convencê-lo de que tudo não passava de uma conspiração semita contra sua verve crítica. Acho, na verdade, que não consegui mudar seu ponto de vista, mas a agenda de compromissos foi mantida.

O grand finale, ainda em Campinas, se deu quando um grupo de câmara apareceu para tocar Villa-Lobos e Paganini. Vidal virou-se para mim e disse: “Com esse calor, Villa-Lobos e Paganini, eu não mereço!”.

O fim da estadia em São Paulo foi marcado por mais uma festa, na casa de um anfitrião generoso e simpático, que faleceu poucos anos depois, muito precocemente. Depois de autografar todos os seus livros para a biblioteca do dono da casa, Vidal mandou me chamar e, apertando uma das narinas, me pediu: “Luiz, I want something for the nose”. Preocupado, eu respondi tentando ser prestativo: “Oh, I didn’t know you had a cold. I will ask someone to go to the drugstore immediately”.

Gesticulando e balançando a cabeça com desânimo, Vidal me mostrou que eu não o compreendera. Ao ver um dos convidados que também estivera presente na primeira festa, fui prontamente dispensado da minha derradeira tarefa ao ouvir: “Don’t worry, he was at the first party, of course he will be able to understand and arrange what I need”.

Com todas as gafes deixadas para trás, a estadia de Vidal no Rio de Janeiro se iniciou finalmente. Foi tão agradável que, mesmo com tantos problemas em São Paulo, alguns meses depois recebi uma carta muito gentil na qual o grande ensaísta e romancista americano agradecia pelos meus esforços como anfitrião e anunciava que queria voltar ao Brasil.

PS: A confusão entre os papéis de anfitrião e crítico, que originou a polêmica entre Gore Vidal e Nelson Ascher, repetiu-se nesta Flip ― 24 anos depois. Os personagens dessa vez foram Claude Lanzmann e Manuel da Costa Pinto.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

Desastres na Companhia – 1

Por Luiz Schwarcz


Ele era nosso primeiro convidado. Estávamos em 1987. A editora não tinha como bancar os custos da vinda de um autor dessa importância. Duas passagens de primeira classe, estadias em hotéis de luxo e todos as despesas necessárias para uma recepção de alta classe. Procurei instituições que pudessem me apoiar. A Folha de S.Paulo se interessou. Achou que teria como conseguir um bom acordo com a companhia área e topou se responsabilizar por essa parte. Em troca, promoveria um evento com o autor no jornal e daria ampla cobertura na Ilustrada; o suplemento que era a coqueluche da direção do jornal. A Unicamp — onde eu ainda trabalhava, dando uma consultoria semanal, promovendo eventos culturais e reestruturando a editora — também entrou na dança. Além de uma palestra aberta num ginásio local, a universidade teria direito a oferecer um almoço com o reitor, para o qual seriam convidados os principais diretores de faculdades, e alguns acadêmicos de destaque.

Sabendo que o escritor visitante gostava de festas, consultei amigos com experiência no assunto e preparei um roteiro caprichado. Conversei detalhadamente com o secretário de redação da Folha e com o então editor da Ilustrada, tentando prever a visita nos seus mínimos detalhes.

Pois na manhã da chegada de Gore Vidal e de seu companheiro, Howard Austen, no aeroporto de Cumbica, eu intuí que um sequência de desastres estava apenas se iniciando.

Entre todas as precauções que tomei, uma, certamente, salvou-nos de um desastre maior. O voo de Vidal, pela Alitália, era direto: Roma – Rio de Janeiro. Como o convidado era ilustríssimo, a companhia área prometeu tratamento VIP, e ficou de entregar os bilhetes da conexão para São Paulo. Aqui o casal seria recebido por mim e por um repórter da Ilustrada, Nelson Asher.

Pensando no pior, como sempre, pedi que outro repórter fosse ao aeroporto do Galeão, de madrugada. Sérgio Augusto, amigo meu e fã de Vidal, aceitou de bom grado a missão: graças ao Santo Deus. A Alitália não entregou bilhete algum para a continuação da viagem. De repente, Sérgio viu seu ídolo no saguão do desembarque, carregando muita bagagem e bufando sem parar. Acho que pensava na minha mãe, de maneira pouco cordial. Além da volumosa bagagem, Vidal pesava muito mais do que suas fotos atestavam. Não era fácil reconhecê-lo. Com incredulidade, Sérgio Augusto se aproximou, certificou-se de que se tratava do autor de De fato e ficção – Ensaios contra a corrente e encaminhou Vidal e Howard Austen para o balcão da Varig, onde os dois foram obrigados a comprar passagens para São Paulo.

Depois de um enorme atraso, e sem ter sido avisado de nada, eu consegui localizar Gore Vidal no aeroporto de Cumbica. Parado, e com expressão de profundo desânimo, ele segurava a cabeça com a mão, apoiado no seu carrinho repleto de malas. Esperava que alguém o reconhecesse e que a santa providência o salvasse. Gore e Howard deviam estar perambulando pelo aeroporto há um bom tempo, enquanto nós os aguardávamos no terminal de chegada internacional.

Antes disto, durante nossa longa espera, Nelson passara mal, e por conta de uma taquicardia teve que ser atendido no ambulatório do aeroporto. Deixei meu colega anfitrião por lá, com palavras pouco pacientes: “Nelson, agora não, pelo amor de Deus, eu não tenho como te acompanhar aqui no ambulatório. Vê se melhora logo e me encontra lá embaixo. Temos que receber o homem a qualquer minuto”.

Com meu colega anfitrião já recomposto, e os dois convidados com cara de pouca conversa, seguimos para o estacionamento. Carregávamos os carrinhos com as bagagens em silêncio. Era o melhor que podíamos fazer.

Preocupado com a superexposição do autor e com uma recepção elegante, lembrei de pedir à Folha que o carro utilizado para o transporte dos convidados fosse confortável e que não trouxesse o logotipo do jornal. Seria indelicado fazer Gore Vidal trafegar pela cidade nos carros brancos, com aquela faixa amarela e azul da Folha, como um garoto propaganda do jornal. Ao chegar no estacionamento, sem ter conseguido mudar o humor de Vidal, que ainda bufava abundantemente, vi que não havia sido bem-sucedido também naquele quesito. O logo da Folha reluzia em Guarulhos, na porta aberta do carro à espera dos convidados. Gore Vidal mal reparou na pequena grosseria.

Deixei Nelson se ocupar dos convidados, conforme o combinado, e voltei sozinho no meu carro. Uma das grandes gafes que cometi nessa ocasião foi a de aceitar que o jornal atribuísse ao seu repórter o papel de anfitrião e de crítico. Enquanto ciceroneava o autor, Nelson estava também incumbido de sacar diariamente furos jornalísticos, e depois cobrir a visita para a Folha de S.Paulo. Para tanto, precisava colar no convidado, desenvolver amizade e empatia, e depois, criticá-lo com isenção. A combinação de funções era uma bomba-relógio, que viria a explodir no meu colo logo mais.

Ao chegarmos no hotel Ca D’oro, Vidal teve sua primeira alegria. Adorou a suíte luxuosa e tradicionalíssima, com móveis em veludo e uma profusão de tecidos avermelhados. Ficou tão animado que disse: “Luiz, eu poderia viver aqui para sempre!”.

No entanto, devido ao atraso na chegada, tive de pedir que ele descesse imediatamente para a entrevista coletiva. Um bando de repórteres ávidos o esperava. Mal houve tempo para o pequeno descanso previsto na programação.

Tentando restabelecer o bom humor e satisfeito com o hotel, Vidal foi surpreendido com uma batelada de perguntas infelizes, entre elas, logo de cara a costumeira: “Sr. Vidal, quais são suas primeiras impressões do Brasil?”

Acostumado a lidar com este tipo de pergunta com alta dose de mordacidade, a resposta veio de bate-pronto: “Senhores, eu vim aqui como emissário secreto do FMI. Não devia confessar isso logo de cara, mas é que soubemos que o Brasil tem gastado parte de suas reservas com literatura, o que não é nada aconselhável. Vim investigar”.

A ida do país ao Fundo Monetário Internacional era o assunto do dia, e uma pedra no sapato do leitorado de esquerda — talvez aquele que mais crescia e o que mais lia a Folha Ilustrada. Os jovens jornalistas também se incomodavam muito com a suposta subserviência do governo brasileiro para com as instituições de controle das finanças mundiais. Com essa declaração, dada em tom de mais absoluto deboche, Vidal conseguiu desagradar a todos os jornalistas presentes na coletiva, que o esperaram por horas. Se a tragédia com Nelson Asher ainda viria a proporcionar grandes emoções, a relação com o resto da imprensa, que não patrocinava a vinda do escritor, azedou desde a primeira resposta.

A estadia de Gore Vidal em São Paulo mal completava sua primeira hora. Era difícil imaginar o que ainda estaria por acontecer.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.