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Semana cento e trinta e nove

Os lançamentos desta semana são:

As agruras do verdadeiro tira, de Roberto Bolaño (Tradução de Eduardo Brandão)
Aos cinquenta anos, Amalfitano — professor universitário de literatura latino-americana que será familiar ao leitor de 2666 — descobre-se homossexual ao se envolver com um aluno, o talentoso poeta marginal Padilla. A relação acaba se tornando um escândalo na universidade de Barcelona onde leciona, e o docente se vê obrigado a transferir-se para a violenta cidade de Santa Teresa, no México. Rodeado por um ambiente estranho e muitas vezes sinistro, o protagonista reflete sobre sua homossexualidade tardia, enquanto se relaciona com outro homem, o falsificador de arte Castillo.
Reconstruído a partir de arquivos que Bolaño deixou em seu computador e de algumas páginas datilografadas, este romance póstumo passeia pelos vários estilos e temas explorados pelo escritor chileno, alternando entre um registro cerebral, herdado de Borges, e uma sensibilidade poética despudorada.

A morte do inimigo, de Hans Keilson (Tradução de Luiz A. de Araújo)
Alemanha, 1930. Um jovem judeu fica fascinado por um “inimigo” que aos poucos ascende ao poder: B., líder populista cuja propaganda política cria uma atmosfera cada vez mais ameaçadora, opressiva e profundamente antissemita. Diante da barbárie, o protagonista decide assumir uma neutralidade moral, defendendo que, até num duelo de vida ou morte, é preciso levar em conta as razões do inimigo. Assim, distancia-se cada vez mais de seu povo, enquanto se vê progressivamente absorvido pela figura carismática de um ditador. Sem nomear a realidade, lançando mão de um recurso original e desafiador — palavras como “Hitler”, “judeu”, “nazista” e “Alemanha” não aparecem uma só vez ao longo do livro —, o autor de Comédia em tom menor demonstra total domínio da construção narrativa, fazendo valer sua alcunha de gênio, concedida em 2010 pelo New York Times. Embora o contexto de A morte do inimigo logo fique claro ao leitor, Keilson cria uma parábola universal, capaz de abarcar qualquer regime totalitário. Mais do que isso, ao revelar os limites da razão diante do Mal, o autor evidencia sua compreensão sensível e aguçada da natureza humana.

O jardim secreto, de Frances Hodgson Burnett (Tradução de Sonia Moreira)
Mary Lennox é uma menina profundamente solitária. Depois de perder os pais na Índia, é levada para morar na mansão de um tio na Inglaterra. Ali, ela conhece o primo Colin, também com dez anos de idade, que vive isolado do mundo por ter uma saúde frágil. A amizade improvável entre essas duas crianças coincide com a aventura de descobrir e explorar um jardim proibido nos arredores da casa. O espaço, mantido fechado há dez anos em decorrência de um acidente grave, funciona como uma metáfora para a descoberta do mundo e também para o autoconhecimento dos jovens protagonistas.
Adaptado para o cinema, este clássico juvenil da literatura inglesa ganha nesta edição uma introdução e notas da romancista e crítica literária Alison Lurie, e um posfácio de Marise Soares Hansen, mestre em literatura brasileira pela Universidade de São Paulo. Em seu texto, ela traça paralelos do romance com autores importantes de literatura de língua portuguesa como Eça de Queirós e Clarice Lispector.

Memorial do amor & Vacina de sapo, de Zélia Gattai
Dois livros em um? Ou um único livro que se desdobra em dois? A reunião de Memorial do amor, de 2004, e Vacina de sapo, de 2006, de Zélia Gattai, oferece ao leitor um delicioso problema a respeito do caráter das recordações. Fluidos e marcados por uma noção desgovernada do tempo, os exercícios da memória quebram nossos parâmetros diurnos e se assemelham mais aos sonhos. Como os sonhos, a memória é incoerente, repleta de buracos e desinteressada pela ordem. Assim como o leitor agora pode saltar de um livro para outro sem medo de se perder, também Zélia dá longos saltos entre a juventude e a velhice, a intimidade do amor e a explosão da amizade, o carinho pelas pequenas coisas e a aspereza da política, sem nunca se perder. O caráter circular torna sua escrita sinuosa e envolvente. Em uma palavra: sedutora. É sempre da sedução pela vida e seus encantos que Zélia trata. Relatos simples, sem floreios, sem impostação. Como em uma boa conversa à mesa de café, eles se deixam guiar por uma única regra: o desejo de aproximar e de acolher.

O professor do desejo, de Philip Roth (Tradução de Jorio Dauster)
Quando estava na faculdade, David Kepesh se considerava “um libertino entre os doutos, um douto entre libertinos”. Mal ele podia imaginar o quanto esse lema seria profético — ou fatídico. Pois à medida que Philip Roth segue Kepesh da domesticidade da infância à selvageria da possibilidade erótica, de um ménage à trois em Londres às agonias da solidão em Nova York, ele cria um romance de extrema inteligência, pungência e humor sobre os dilemas do prazer: onde o procuramos, por que fugimos dele e como lutamos para obter uma trégua entre dignidade e desejo.

Editora Seguinte:

O menino negro, de Camara Laye (Tradução de Rosa Freire D’Aguiar)
O menino negro narra a infância e adolescência de um garoto comum mas, ao mesmo tempo, muito diferente. Como todos nós, ele se diverte no quintal de casa, vai à escola, brinca e briga com os amigos. No entanto, ele também vivencia um dia a dia totalmente distinto: teme e respeita as cobras que insistem em compartilhar o terreno de seus pais, passa por um ritual coletivo de circuncisão aprendendo a lidar com seu corpo, estuda numa escola corânica e recebe uma formação muçulmana a seiscentos quilômetros de sua terra natal. Seu destino final é Paris, cidade iluminada que o converte em escritor.
O livro que o leitor tem nas mãos traz o ambiente único da Alta Guiné, mas é também uma homenagem a um continente durante muito tempo esquecido. São muitas as Áfricas que hoje começamos a conhecer, e esta, contada com tanta sensibilidade por Camara Laye, é daquelas que não se esquece jamais.

O anjo da dispersão

Por Luiz Schwarcz

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Estou quase chegando ao meu trigésimo texto neste blog e é a primeira vez que me sento para escrever sem ter a menor a ideia do assunto de que pretendo tratar. Os causos são muitos, as histórias afetivas com os autores se repetem. São muitas histórias, mas sinto como se fosse uma só. No momento, o que mais me preocupa é como fazer para conseguir ler mais, e terminar os livros que comecei.

Poder reler algum livro que deixei pela metade, pois só o começo bastava para que decidisse pela sua publicação, é sinônimo de luxo para mim. Há muito glamour sobre a profissão do editor e pouca razão para isso. Muitas vezes somos leitores assíduos, lemos mais de uma vez um original e acompanhamos as várias versões necessárias para que um livro fique bom. Isso já aconteceu comigo em inúmeras ocasiões. No final, quando o texto é publicado, a longa convivência com o original tira qualquer possibilidade de avaliação objetiva. Já cheguei a dizer ao departamento de vendas da Companhia que estávamos publicando uma obra-prima, quando o texto em questão, a despeito de sua qualidade, talvez não merecesse tantos confetes. No entanto, o mais comum é o contrário: achar que um texto ainda não está pronto quando se trata de uma verdadeira obra-prima, acabada, e que com o devido tempo se consagrará como tal.

Assim, em vários momentos, alguns dos bons livros estrangeiros que publicamos, eu apenas conheci de passagem. Sua qualidade me afastou do seu caminho: o livro é tão bom, veio tão pronto, que não precisa de mim — só eu preciso dele.

Na verdade, preciso correr atrás de leituras perdidas, abandonadas. Antigamente usava as minhas férias para ler livros clássicos, ou publicados por outras editoras, obras que não poderia publicar. Agora não mais. Nas férias muitas vezes leio livros que publiquei sem ler, ou que tive que largar pela metade.

No momento leio no iPad Freedom, sobre o qual já escrevi anteriormente. O lançamento fenomenal nos Estados Unidos me fez sentir, além da vontade, a obrigação de lê-lo. Quero imaginar a vida do livro de Jonathan Franzen no Brasil. A tradução, a cargo de Sergio Flaksman, está a caminho. Enquanto isso, lendo suas mais de quinhentas páginas, tento imaginar como será o impacto entre os leitores tupiniquins desse grande painel da sociedade americana das últimas décadas. Fico pensando se há algo que eu possa fazer para que aqui aconteça algo minimamente semelhante àquilo que ocorreu em seu país de origem.

Ao mesmo tempo, um importante autor colombiano recém-contratado chamou muito a atenção de várias editoras da Companhia, fazendo com que eu me sentisse impelido a lê-lo. Pouco antes da feira de Frankfurt, compramos os direitos de três livros de Héctor Abad Faciolince. O principal se chama El olvido que seremos e trata das memória do autor sobre seu pai. Passei a dividir meu tempo entre Franzen e Faciolince. Enquanto no volumoso romance americano eu me divertia com a história de um roqueiro cult decadente, passei a me comover com os excessos amorosos entre pai e filho em meio a uma sociedade onde o padrão de comportamento é a rudeza entre os homens.

As reuniões das terças-feiras, em que parte da equipe editorial se reúne para decidir o que publicaremos e avaliar o andamento dos livros em processo de edição, são uma fonte inesgotável a alimentar minha tendência dispersiva. Lá vive o anjo da dispersão, a serpente que me faz querer ser fiel a tantos livros ao mesmo tempo. Foi lá, há duas semanas atrás, que ouvi a Ana Paula comentar o prazer que teve na leitura de um autor alemão, que, com 102 anos, foi redescoberto por um editor americano e relançado nos Estados Unidos com grande repercussão. Decidimos contratar dois livros de Hans Keilson, sendo que o mais atraente deles, A comedy in a minor key, eu quis logo começar a ler.

Para complicar, acabo de começar um livro já há tempos publicado: Infância, de J.M. Coetzee, um daqueles que nem precisei ler na ocasião de sua publicação e que será discutido no grupo de leitura dos funcionários da Companhia das Letras, do qual quero participar. Pois não é que tive que deixar de lado minhas outras três leituras, e acabo de me dirigir com Coetzee para a África de Sul, onde garotos podem zombar dos professores somente quando discutem as modalidades de castigo aplicadas? A força da palmada, ou a vara utilizada para a reprimenda, podem ser motivo de piada. O castigo em si, não.

Espero terminar um dia os quatro livros que leitores mais sortudos lerão calmamente, um por vez. Que inveja.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor do recém-lançado Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.