helen rappaport

A vida das filhas do último tsar

8. Family on duty

Não são raros os casos ao longo da história que conjugam o binômio poder e tragédia. Em 17 de julho de 1918, a última família imperial da Rússia foi brutalmente assassinada pelos revolucionários bolcheviques. Era o fim da dinastia Romanov, que comandara a Rússia por mais de três séculos.

A historiadora inglesa Helen Rappaport reconstrói a vida da última família imperial russa, com base nas cartas e nos diários das jovens e em fontes primárias nunca antes examinadas, para retratar a rotina de Olga, Tatiana, Maria e Anastácia em sua biografia As irmãs Romanov — A vida das filhas do último tsar (Objetiva). Durante a maior parte de suas curtas vidas, as quatro irmãs descendentes diretas do tsar viveram como prisioneiras em luxuosos palácios, por causa da mãe superprotetora e do medo de ataques terroristas contra a família imperial. Tinham poucos amigos e eram alheias à realidade e a experiências corriqueiras para outras garotas.

Em entrevista para o blog da Companhia das Letras, Rappaport não hesita em atribuir a Lênin a ordem para que as jovens fossem cruelmente mortas junto de seus pais, o tsar Nicolau II e a tsarina Alexandra Feodorovna, e de seu irmão hemofílico Alexei, e lamenta a ausência de uma prova material que incrimine diretamente o líder comunista. Avalia também a importância dos Romanov nos dias de hoje para os russos, que os elevaram ao status de santos e os consideram um símbolo da grandeza do passado, em um momento de renascimento de sentimentos nacionalistas e do retorno da Igreja Ortodoxa Russa ao palco central da vida do país. Para a autora, o presidente Vladimir Putin age como um tsar, sem ostentar o título. Rappaport também refuta as teorias da conspiração que insistem na defesa de que um ou mais integrantes da família real teriam sobrevivido e afirma: “É preciso assumir que não houve sobreviventes”.

1 – Você já havia dedicado o livro Os últimos dias dos Romanov à família imperial russa. Por que decidiu voltar ao tema? Ainda há mistérios a ser revelados? 

Pensei em escrever durante anos sobre as quatro irmãs Romanov, porque sempre achei que a trajetória delas foi marginalizada pela história, em favor dos personagens notórios Nicolau II e Alexandra Feodorovna. Enquanto andava pelas ruas de Ecaterimburgo, durante a minha estadia na Rússia em 2007, quando pesquisava para Os últimos dias dos Romanov (Record), sempre pensava nessas quatros amáveis irmãs trancafiadas na claustrofóbica Casa Ipatiev imaginando se voltariam a ver o mundo exterior. A imagem que tinha delas se assemelhava às personagens de As três irmãs, de Tchékhov, que também viviam isoladas em uma cidade na Sibéria ocidental à espera da partida para Moscou. Eram tantos os ecos nessa peça que sempre me faziam recordar das irmãs Romanov. Para mim como historiadora, a única peça que ficou de fora do quebra-cabeça e que gostaria que houvesse evidência sólida é a ordem de Lênin para que os Romanov fossem assassinados. Não há nenhum vestígio documental, mas não tenho nenhuma dúvida de que a ordem final tenha vindo dele. Com certeza, não ficou nenhum mistério sobre o desfecho: ninguém na família sobreviveu ao massacre de 17 de julho de 1918. Temos que deixar para trás todas as teorias da conspiração e de uma fuga miraculosa.

2 – O renascimento do patriotismo russo no governo de Vladimir Putin preocupa as potências ocidentais. Como os russos veem os Romanov nos dias de hoje? Você acredita que a dinastia, que comandou a Rússia por mais de três séculos, passa por um processo de revisão histórica associada à ideia de grandeza do passado?

Da última vez em que estive na Rússia, ficou claro para mim como os últimos membros da família imperial são venerados. Eles são santos de acordo com o calendário da Igreja Ortodoxa russa e atualmente, em todos os lugares que se for, haverá estátuas imensas representando suas imagens nas igrejas russas. Acredito que os russos reconheçam na família imperial a representação de tudo o que foi perdido com o comunismo — um senso de unidade, de sentimento nacional e ortodoxia. O grande renascimento da Igreja Ortodoxa Russa desde a queda do comunismo em 1991 é em parte resultado de uma espera disseminada entre os fiéis russos para recuperar o sentido de uma Rússia autêntica, anterior ao comunismo. E para eles, a Rússia autêntica é o mesmo que a Rússia Ortodoxa. A consolidação de Vladimir Putin como um tsar dos últimos tempos, a não ser pelo título, reforça o desejo nacional por lideranças fortes e ao retorno aos dias de glória da Rússia imperial.

3 – São inúmeros os rumores que rondam as circunstâncias da morte do tsar Nicolau II, sua esposa Alexandra, e seus cinco filhos, incluindo a versão que integrantes da família teriam sobrevivido ao massacre de 1918. Você já declarou em algumas situações que a hipótese é absolutamente falsa. Por que esses rumores permanecem? Os russos teriam saudade de seu passado imperial?

A razão para a permanência dos rumores de sobrevivência de algum integrante dos Romanov, acredito, está relacionada à recusa em aceitar que a família inteira tenha sido tão brutalmente assassinada por seu próprio povo. O desejo de que alguém tenha sobrevivido é muito forte entre os russos. E a Rússia é também o país onde a maior parte das teorias da conspiração ainda persiste. Uma coisa é o assassinato do tsar, e até mesmo que sua mulher tenha pagado o preço por seus desmandos, mas matar os filhos foi algo tão terrível, e sem qualquer justificativa, que os russos querem acreditar desesperadamente que um deles tenha escapado. Esta é a razão por que Anna Anderson conseguiu manter por tanto tempo a sua fraude — ela deu um jeito de convencer os russos emigrados e parte da família real exilada de que ela era, de fato, Anastácia, mesmo contrariando o juízo mais sensato e desafiando toda a lógica. Sigo na esperança de que a Igreja Ortodoxa Russa, que acaba de impor nova barreira no caminho de aceitação da morte de todos os Romanov em julho de 1918, não persistirá com essa história em aberto, sem solução alguma, por muito tempo. Já chegou a hora de a igreja reconhecer que os restos mortais de toda a família já foram encontrados, para que eles tenham o direito de descansar em paz, juntos, como gostariam.

Semana duzentos e oitenta

Como curar um fanático, Amós Oz (Tradução de Paulo Geiger)
O romancista Amós Oz cresceu na Jerusalém dividida pela guerra, testemunhando em primeira mão as consequências perniciosas do fanatismo. Em dois ensaios concisos e poderosos, o autor oferece uma visão única sobre a natureza do extremismo e propõe uma aproximação respeitosa e ponderada para solucionar o conflito entre Israel e Palestina. Ao final do livro há ainda uma contextualização ampla envolvendo a retirada de Israel da Faixa de Gaza, a morte de Yasser Arafat e a Guerra do Iraque. A brilhante clareza desses ensaios, ao lado do senso de humor único do autor para iluminar questões graves, confere novo fôlego a esse antigo debate. Oz argumenta que o conflito entre Israel e Palestina não é uma guerra entre religiões, culturas ou mesmo tradições, mas, acima de tudo, uma disputa por território  e ela não será resolvida com maior compreensão, apenas com um doloroso compromisso.

Ponto de fuga, Ana Maria Machado
Ponto de fuga, fruto da participação de Ana Maria Machado em eventos literários, reúne treze ensaios que mostram por que a escritora se tornou uma referência na literatura brasileira. No prefácio escrito especialmente para esta edição, a professora Marisa Lajolo, doutora em teoria literária e literatura comparada pela Universidade de São Paulo, destaca que “a autora acompanha algumas das vertentes mais sugestivas de estudos contemporâneos de leitura: lê-se hoje como se lia antigamente? Leem-se da mesma maneira diferentes tipos de livros? Qualquer leitura vale a pena? De passagem e perseguindo as questões, Ana Maria registra a multiplicação de situações de leitura em que homens e mulheres, crianças e adultos veem-se, hoje, inevitavelmente envolvidos”.

Objetiva

As irmãs Romanov, Helen Rappaport (Tradução de Cássio de Arantes Leite)
Ao longo dos anos, a história da brutal execução das quatro grã-duquesas Romanov turvou nossa impressão a respeito de quem elas realmente foram. Com frequência, são vistas como um belo mas insignificante detalhe na história dos pais, Nicolau e Alexandra, o último casal imperial da Rússia. A imagem que prevalece é a de que eram jovens adoráveis e donas de uma vida invejável, mas a verdade é bem diferente.

Outros Cantos, Maria Valéria Rezende
Numa travessia de ônibus pela noite, Maria, uma mulher que dedicou a vida à educação de base, entrelaça passado e presente para recompor uma longa jornada que nem mesmo a distância do tempo pode romper. Em uma escrita fluida, conhecemos personagens cativantes de diversos lugares do mundo e memórias que desfiam uma série de impossíveis amores, dos quais Maria guarda lembranças escondidas numa “caixinha dos patuás posta em sossego lá no fundo do baú”.

Seguinte

Coroa cruel, Victoria Aveyard (Tradução de Cristian Clemente)
Duas mulheres – uma vermelha e uma prateada contam sua história e revelam seus segredos. Em “Canção da rainha”, você terá acesso ao diário da nobre prateada Coriane Jacos, que se torna a primeira esposa do rei Tiberias VI e dá à luz o príncipe herdeiro, Cal  tudo isso enquanto luta para sobreviver em meio às intrigas da corte. Já em “Cicatrizes de aço”, você terá uma visão de dentro da Guarda Escarlate a partir da perspectiva de Diana Farley, uma das líderes da rebelião vermelha, que tenta expandir o movimento para Norta – e acaba encontrando Mare Barrow pelo caminho. O livro traz, ainda, um mapa de Norta e um trecho exclusivo de Espada de vidro, o segundo volume da série A Rainha Vermelha que chega às livrarias em fevereiro.