heloisa m. starling

Os melhores livros de 2015

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Já é tradição fazermos um balanço no blog dos melhores livros do ano que passou. Reunimos neste post diversas listas de importantes veículos da imprensa nacional que escolheram os destaques de 2015. Se você perdeu algum lançamento e procura uma boa história para ler agora em 2016, conheça os livros do Grupo Companhia das Letras que mais se destacaram no último ano.

Entre o mundo e eu

Em Entre o mundo e eu, Ta-Nehisi Coates relembra seus momentos da infância em Baltimore e sobre como as tensões raciais sempre estiveram presentes em um Estados Unidos que se recusa a acordar do sonho americano. Na lista de melhores livros de: O GloboRisca Faca.

Dois irmãos

O grande e trágico épico de Milton Hatoum adaptado por dois dos mais extraordinários quadrinistas da atualidade, Fábio Moon e Gabriel Bá, entrou na lista de melhores HQs do ano do site Risca Faca.

Jeito de matar lagartas

Vencedor do Prêmio APCA na categoria contos/crônicas, o livro de Antonio Carlos Viana narra histórias do cotidiano aparentemente banais, mas que tocam em questões fundamentais como o envelhecimento, o sexo (ou a ausência dele) e a solidão. Na lista de melhores livros de: O Globo e Suplemento Pernambuco.

A capital da vertigem

No segundo livro de Roberto Pompeu de Toledo sobre a cidade de São Paulo, o jornalista faz um panorama monumental da capital, sobre como surge uma cidade que deixa a condição de vila e se impregna com a fuligem das chaminés, o vapor das fábricas e a fumaça dos automóveis.Na lista de melhores livros do Risca Faca.

Submissão

Em Submissão, Michel Houellebecq faz uma sátira precisa, devastadora, sobre os valores da nossa própria sociedade, e foi também um dos livros mais comentados de 2015. Na lista de melhores livros de: Estado de S. Paulo, El País BrasilJornal Opção e Veja

A noite do meu bem

A noite do meu bem, novo livro de Ruy Castro, mergulha na vida noturna da capital carioca nos anos 1940, 50 e 60 para contar a história do samba-canção, e entrou na lista de melhores livros do jornal O Globo.

A ilha da infância

Terceiro livro da série Minha Luta, de Karl Ove Knausgård, este volume narra a infância do autor em uma pequena ilha da Noruega. A ilha da infância está na lista de melhores livros do ano do Risca Faca.

Ainda estou aqui

Após 35 anos do lançamento de Feliz Ano Velho, Marcelo Rubens Paiva volta a falar sobre a história de sua família durante a ditadura militar em Ainda estou aqui. Concentrando o relato também em sua mãe, Eunice, o livro entrou na lista de melhores livros de O Globo.

A queda do céu

Davi Kopenawa, grande xamã e porta-voz dos Yanomami, e o antropólogo francês Bruce Albert oferecem neste livro um relato excepcional sobre a realidade indígena, ao mesmo tempo testemunho autobiográfico, manifesto xamânico e libelo contra a destruição da floresta Amazônica. Na lista de melhores livros de: O Globo e Suplemento Pernambuco.

O livro das semelhanças

O livro das semelhanças desperta o leitor para o prazer sempre iluminador e sensível de uma das vozes mais originais da poesia brasileira: Ana Martins Marques. Na lista de melhores livros de: O Globo e Suplemento Pernambuco

Revival

Revival, publicado no Brasil pela Suma de Letras, é uma história eletrizante de Stephen King sobre vício, fanatismo e o que existe do outro lado da vida. Está na lista de melhores livros da revista Veja.

O amor das sombras

Os contos de Ronaldo Correia de Brito em O amor nas sombras falam de traição, repressão, segredos e linhagens assombradas por uma herança de violência. A cada conto, a cada personagem, ele revela algo novo, sempre buscando um caminho distinto. Na lista de melhores livros de: O Globo e Suplemento Pernambuco.

A zona de interesse

A zona de interesse, de Martin Amis se passa em Auschwitz em 1942, e cada um dos vários narradores do livro testemunha o horror inominável  do campo de concentração a sua maneira. Na lista de melhores livros da Veja.

Brasil: Uma biografia

Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa M. Starling tratam o país como um personagem em Brasil: Uma biografia, livro com texto acessível que propõe uma nova e pouco convencional história do Brasil. Na lista de melhores livros do Suplemento Pernambuco.

Diários da presidência

Durante seus dois mandatos como presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso manteve o hábito quase semanal de registrar, num gravador, o dia a dia do poder. O primeiro volume de Diários da presidência, que traz a transcrição dos dois primeiros anos de FHC como presidente, entrou na lista de melhores livros do Jornal Opção.

Escuta

Com Escuta, Eucanaã Ferraz mais uma vez avança em sua escrita e confere vigor a toda a poesia brasileira. É o que levou o livro a figurar na lista de melhores do ano do Suplemento Pernambuco.

Assim começa o mal

Tendo como título um verso da tragédia shakespeariana Hamlet, o novo romance de Javier Marías apresenta um olhar arrebatador e inesquecível sobre o desejo e o rancor tendo como cenário a Madri pós-ditadura franquista nos anos 1980. Na lista de melhores livros de: Suplemento Pernambuco e Jornal Opção.

Uma menina está perdida no seu século à procura do pai

Hannah, de 14 anos, é portadora de uma doença congênita e está perdida. No cenário de destruição da Europa após a Segunda Guerra Mundial, ela encontra Marius, um homem que guarda seus próprios segredos e parte com a menina em busca de seu pai. O livro de Gonçalo M. Tavares está na lista de melhores livros do Suplemento Pernambuco.

Assim foi Auschwitz

Primo Levi e Leonardo De Benedetti, logo após o fim da Segunda Guerra, são encarregados de elaborar um relatório detalhado sobre as abomináveis condições de saúde dos campos de concentração. O relato está em Assim foi Auschwitz, que entrou na lista de melhores livros do Jornal Opção.

61 anos do suicídio de Getúlio Vargas

Por Heloisa M. Starling

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Em algum momento entre 8h30 e 8h40 da manhã de 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas fechou a porta de seu quarto, deitou-se na cama, encostou o cano da pistola no lado esquerdo do peito e apertou o gatilho. O suicídio de Vargas foi seu último triunfo político: frustrou a oposição que acusava o presidente de corrupção e, desnorteada, viu escapar a oportunidade de acirrar a crise, desmoralizar Getúlio com a renúncia e abrir caminho para o golpe militar. Sua carta testamento não deixava dúvida sobre como o suicídio deveria ser entendido pela população: uma campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais para bloquear a legislação trabalhista e o projeto desenvolvimentista. “Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida,” declarou.

Cerca de uma hora depois, o prefixo estridente do “Repórter Esso”, o mais importante noticiário de rádio-jornalismo do país, informou aos brasileiros, em edição extraordinária, o suicídio de Vargas. Aturdidas, as pessoas saíam de casa, procuravam uns aos outros e choravam. Aos poucos, porém, a população se transformou e, em diversas cidades — Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador, São Paulo —, uma multidão amargurada, revoltada e colérica passou a percorrer as ruas armada com paus, pedras e fúria. No Rio de Janeiro, capital da República, a multidão arrancou dos postes a propaganda política dos candidatos da oposição, quebrou as vidraças da Standart Oil, apedrejou a fachada da embaixada dos Estados Unidos e dos prédios onde funcionavam as redações de O Globo e da Tribuna da Imprensa e, para arrematar, cercou e incendiou os caminhões de distribuição dos jornais. Apenas Última Hora, o único jornal favorável ao governo de Vargas, circulou nesse dia.

Não parou aí. Em frente ao Catete, cerca de um milhão de pessoas tentava ver o corpo de Getúlio; muita gente chorava compulsivamente, outros desmaiavam e havia quem, ao entrar na sala onde acontecia o velório, se agarrasse ao caixão. Às 8h30 da manhã do dia 25, a multidão acompanhou o corpo de Vargas até o aeroporto Santos Dumont, em um gigantesco cortejo que ia se desenrolando pela praia do Flamengo, do Russel e da avenida Beira-Mar. Mas quando o avião da Cruzeiro do Sul decolou e desapareceu no céu, rumo a São Borja, aconteceu o inevitável e as pessoas perceberam o lugar onde estavam: em frente ao quartel militar da 3º Zona Aérea. A dor se transformou em cólera e a multidão avançou contra a guarnição da Força militar que mais claramente havia se posicionado como oposição à Vargas. A Aeronáutica aterrorizada pegou em armas, soldados e oficiais dispararam contra a população civil desarmada. O tiroteio durou 15 minutos. Mulheres e crianças foram pisoteadas, uma pessoa morreu e muita gente saiu ferida — por estilhaços de granada, tiros ou cortes de sabre. Os manifestantes fugiram, mas o motim continuou: a multidão se reagrupou no centro da cidade, os manifestantes juntaram-se a outros milhares e os conflitos continuaram a sacudir a cidade durante todo o dia.

Antes de cometer o suicídio, Vargas deixou registrado: “Escolho esse meio de estar sempre convosco… Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história”. Seu gesto final tinha um poderoso apelo político e, de fato, imobilizou a oposição e paralisou a tentativa de golpe militar. Mas foi o povo amotinado nas ruas das principais cidades brasileiras quem garantiu a Democracia e fez os golpistas recuarem.

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brasilBRASIL: UMA BIOGRAFIA
Em Brasil: Uma biografia, Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa M. Starling propõem uma nova (e pouco convencional) história do Brasil. Nessa travessia de mais de quinhentos anos, as autoras se debruçam não somente sobre a “grande história” mas também sobre o cotidiano, a expressão artística e a cultura, as minorias, os ciclos econômicos e os conflitos sociais (muitas vezes subvertendo as datas e os eventos consagrados pela tradição). No fundo da cena, mantêm ainda diálogo constante com aqueles autores que, antes delas, se lançaram na difícil empreitada de tentar interpretar ou, pelo menos, entender o Brasil.

Brasil: Uma biografia já está nas livrarias.

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Heloisa M. Starling é professora titular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e autora de Lembranças do Brasil (1999) e Os senhores das gerais (1986).

39 anos da morte de JK

Por Heloisa M. Starling

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No dia 22 de agosto de 1976, o ex-presidente da República, Juscelino Kubitschek morreu num acidente de carro, na via Dutra, a rodovia que liga São Paulo ao Rio de Janeiro. A versão oficial é de que o automóvel que transportava JK, em alta velocidade, bateu num ônibus da Viação Cometa, rodopiou na pista, atravessou o canteiro central e, na contramão, chocou-se, de frente, num caminhão Scania.

Quase 40 anos depois, um laudo pericial encomendado pela Comissão Nacional da Verdade confirmou a versão oficial – a morte de JK teria resultado de um acidente. Ainda assim, para muita gente, permanecem as desconfianças de assassinato. Afinal, num curto espaço de tempo, morreram, de forma suspeitíssima, três das principais lideranças civis com atuação política anterior ao golpe de 1964: JK, Jango e Carlos Lacerda. Os três eram políticos de alta popularidade, estavam em vias de recuperar seus direitos políticos, propunham a volta do país à democracia e representavam uma ameaça concreta ao projeto de abertura política controlada que os militares pretendiam executar para substituir gradativamente a coerção da ditadura por um governo civil de tipo autoritário.

Além disso, havia a Operação Condor, uma parceria transnacional com vistas à obtenção de benefícios mútuos na área de inteligência e repressão que uniu cinco Estados ditatoriais, a partir de 1975. A Operação Condor foi, para usar a expressão precisa de Elio Gaspari, uma espécie de “MERCOPorão” formado pelos órgãos de segurança do Chile, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Brasil e Argentina com o propósito de perseguir, capturar e eliminar os líderes militares e políticos latino-americanos de oposição às ditaduras militares instaladas nesses países. Incluía formação de banco de dados, coordenação policial, troca de informações e a realização de ações conjuntas: captura, interrogatório, tortura, sequestro e assassinato/desaparecimento.

Do que hoje se sabe, diversas lideranças de oposição no Cone Sul não escaparam da Condor: o ex-presidente da Bolívia, Juan José Torres, assassinado em Buenos Aires, em 1976; e o ex ministro do governo de Salvador Allende, no Chile, morto em Washington, no mesmo ano. Ainda em 1976 duas lideranças parlamentares de oposição do Uruguai acabaram assassinadas: Héctor Ruiz e Zelmar Michelini. As suspeitas de que JK, Jango e Carlos Lacerda também estavam na mira da Condor até hoje não foram suficientemente esclarecidas.

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brasilBRASIL: UMA BIOGRAFIA
Em Brasil: Uma biografia, Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa M. Starling propõem uma nova (e pouco convencional) história do Brasil. Nessa travessia de mais de quinhentos anos, as autoras se debruçam não somente sobre a “grande história” mas também sobre o cotidiano, a expressão artística e a cultura, as minorias, os ciclos econômicos e os conflitos sociais (muitas vezes subvertendo as datas e os eventos consagrados pela tradição). No fundo da cena, mantêm ainda diálogo constante com aqueles autores que, antes delas, se lançaram na difícil empreitada de tentar interpretar ou, pelo menos, entender o Brasil.

Brasil: Uma biografia já está nas livrarias.

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Heloisa M. Starling é professora titular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e autora de Lembranças do Brasil (1999) e Os senhores das gerais (1986).

Imagem não é ilustração ou lustro

Por Lilia Moritz Schwarcz

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Lilia Moritz Schwarcz durante a visita guiada no Museu de Belas Artes.

No dia 2 de junho deste ano, Heloisa Starling e eu fomos lançar Brasil: Uma biografia no Museu de Belas Artes, no Rio de Janeiro. O lançamento contava com um programa vasto e, além do debate com o Professor José Murilo de Carvalho, fazia parte da atividade uma visita ao acervo do museu carioca, conhecido, entre outros, por sua excelente coleção de arte acadêmica brasileira.

Às 17h daquele dia, lá estavam sessenta professores para discutirmos juntos algumas pinturas expostas no Museu, e assim “lermos imagens”.

Impressiona como, muitas vezes, essas instituições passam quase que despercebidas no nosso cotidiano, como se os portões solenes e a arquitetura imponente, ou até mesmo os vigias sempre guardando a entrada, cumprissem o papel de desanimar todo aquele que passa por esses verdadeiros patrimônios nacionais, mas infelizmente pouco conhecidos de todos nós.

O MBA possui em seu acervo algumas das obras mais emblemáticas da nossa cultura visual. Até porque, muitas vezes, nos acostumamos a pensar num evento do passado a partir de uma imagem — seja ela uma foto, uma pintura, um mapa, uma gravura —, que se cola na cabeça de cada um de nós feito tatuagem.

Por exemplo, por que será que A primeira missa, do pintor Victor Meireles, consta sempre nos capítulos sobre História Colonial dos nossos livros didáticos? Por que será que acabamos sendo socializados com a ideia de que ela seria a nossa verdadeira “certidão de nascimento”? Pois ela é, mas também não é!

Na verdade, essa imensa tela fala mais sobre o Segundo Reinado do que sobre nosso descobrimento. Afinal, se muitas vezes somos “afiados” e queremos saber tudo sobre um documento escrito — sua data de origem, autoria, conteúdo, recepção —, já no caso das imagens ficamos com a falsa e ingênua sensação de que elas falam por si só. Mais uma vez, elas falam e não falam.

É claro que podemos avaliar uma tela a partir do que ela nos revela como experiência estética. Mas é também possível perguntar sobre as “razões” de um quadro, os problemas que ele carrega e as muitas histórias que fazem parte da produção da obra.

A primeira missa é resultado de uma encomenda do mecenato de Pedro II e foi seguida à risca, no sentido de manter coerência dentro das diretrizes determinadas pelo Paço. “Lê Caminha e caminha”, aconselharia Paulo Barbosa, o poderoso mordomo do Imperador, a Victor Meireles, revelando como a ideia era recuar ao momento fundador do país — quando o Brasil era Brazil, ou melhor, uma América portuguesa —, como já carregávamos, mesmo nessas priscas eras, “um destino pré-determinado”: o de sermos um povo pacífico, irmanado e cordato. Nada de guerras, nada de conflitos, apenas uma grande consagração — um encontro fortuito nos idos de 1500 —, com a Igreja rodeada pelo Estado e os indígenas a tudo assistindo. Aliás, não é coincidência o fato do Império ter criado um indigenismo de fundo romântico e ter se voltado para um período sem tempo, data e local — um tempo mítico —, onde sobretudo não existiriam escravos, ao menos africanos.

A escravidão era a grande contradição desse império, que divulgava no país e fora dele a imagem de uma nação tropical e civilizada. Difícil, porém, garantir essa (boa) representação e ao mesmo tempo justificar um sistema de trabalhos forçados, pautado na violência de um homem sobre o outro.

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Não é preciso andar muito pelos corredores do Museu para se chegar a outra tela, ainda maior em termos de dimensão e de investimento por parte do Segundo Reinado. Praticamente lado a lado, como sempre estiveram originalmente quando foram apresentados na Exposição Geral da Academia Imperial de Belas Artes de 1872, encontram-se dispostas duas outras telas igualmente simbólicas quando se quer narrar a história do Brasil.

Batalha do Avahy, de Pedro Américo, e Batalha de Guararapes, de Victor Meireles. Dois artistas comissionados por Pedro II — e seus diletos —, os pintores produziram dois trabalhos encomendados ao mesmo tempo, no final da Guerra do Paraguai, nos idos de 1870, mas que apresentam ambientes basicamente opostos.

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No primeiro, Pedro Américo figurou o exército imperial brasileiro — sempre uniformizado, leal e a cavalo — como a “civilização”, e o comando paraguaio — com os dorsos nus, patuás aos pescoços, e cometendo atos vis, como roubar carteiras dos mortos ou não proteger colegas indefesos — como a representação do outro lado, o da “barbárie”. Assim, depois de uma Guerra que prometeu ser breve e durou cinco longos e custosos anos; de um conflito que dizimou quase uma geração masculina paraguaia inteira e cuja aliança foi chamada de “Tríplice Infâmia”, o Império tentou “caprichar” na sua imagem a partir da encomenda e comissionamento de duas grandes pinturas históricas e patrióticas.

Mas era tarde demais: sabe-se como a Guerra do Paraguai marcou o apogeu mas também o começo da decadência do Império, e isso fica claro na própria crítica de época. O público aclamou a arte presente na imensa tela de Pedro Américo, mas julgou-a, igualmente, muito violenta. Também sobraram comentários à boca pequena contra o fato desse pintor colocar negros lutando e em situações heroicas bem no meio da batalha. Não era desconhecido o procedimento de alguns senhores que libertaram e enviaram ex-escravos para o cenário da guerra — livrando-se assim, eles próprios, de participar do combate. Mas essa era uma cena muda: pouco comentada.

Muito diferente era a tela de Meireles. Prudente, e diferente de Pedro Américo, o artista preferiu não tratar de uma batalha recente. Isto é, se Batalha do Avay fazia parte do ciclo de eventos sangrentos que marcou o final da Guerra — as famosas Dezembradas —, já nosso moderado Meireles optou em recuar à época da expulsão dos holandeses. Nada como afastar o tempo e assim ganhar uma perspectiva mais “equilibrada” ou ao menos distante.

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A tela, no entanto, é igualmente ideológica ao figurar a vitória brasileira contra os “estrangeiros holandeses” a partir da união de três raças: brancos, negros e índios.

Mas dizem que a pintura era tão artificial que padeceu de sorte oposta. O público que afluiu à exposição achou que ela era pacífica demais, artificial demais e que os cavalos mais lembravam brinquedos ou um carrossel de parquinho de diversões.

Tanto é verdade que o cartunista Angelo Agostini ironizou a disputa, à época, dizendo que os combatentes da “Batalha do Avahy” haviam resolvido sair da tela de Américo e invadir a de Meirelles.

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Para além da batalha pictórica interna, vale mais comentar qual a ideia que organizou esse passeio pelo Museu. Quadros, fotografias, desenhos, mapas não são documentos ingênuos. Ao contrário, contam suas próprias histórias.

Historiadores e cientistas sociais não são críticos de arte — sabemos bem — mas podem ajudar nesse debate, mostrando os bastidores das telas, a autoria das imagens, a importância do contexto.

Mais do que “ilustrar”, no sentido de trazer lustro a uma argumentação prévia, mais do que reflexos inertes, as imagens povoam nossas verdades, nossos costumes, nossa imaginação e as teorias mais arraigadas. Elas não são produto da realidade, mas ajudam a produzi-la. Nada como rever nossas imagens que muitas vezes se tornam uma memória fácil e habitam nossos livros como se fossem meros adereços. Não são!

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13865_gComeçamos aqui, Heloisa Starling e eu, uma espécie de “Diário dos lançamentos”  que temos feito pelo Brasil afora, sempre conversando com professores. Nossa próxima “parada” será uma aula show na próxima FLIP, que foi chamada de “Brasil: uma aula”. O evento ocorrerá na sexta-feira, dia 3 de julho, às 13h30 na Tenda dos autores. No dia seguinte, dia 4 de julho, teremos uma sessão só para professores na Casa da Cultura de Paraty, às 14h30.

Os ingressos para a mesa “Brasil: uma aula”, na FLIP, estão à venda. Saiba mais.

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Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros. Em abril, lançou com Heloisa Starling Brasil: Uma biografia.

Um complexo e conturbado personagem

Por Wander Melo Miranda

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1. O livro

Uma grafia da vida de um personagem, no caso o Brasil, do seu nascimento à maturidade — ou do seu longo e inconcluso nascimento. Como sabemos, nação vem de natio, “nascer”. Mas, diferentemente das biografias comuns, a vida continua em aberto — pode-se, então, sempre recomeçar: dizem as autoras no final — “feita a opção democrática, também a Republica pode recomeçar” (p. 508).

Em contraste com sua vida, cheia de percalços, avanços e recuos, a grafia do Brasil: Uma biografia corre solta, flui, surpreende e estimula o leitor a seguir adiante, com a leveza e o humor de um texto que se marca pela sua natureza ensaística, pela incorporação de quem narra ao narrado, a léguas de distância das insossas “histórias” do Brasil que temos habitualmente de enfrentar. Por exemplo, ao concluírem a análise da construção de Brasília e da vocação modernista que a cidade representa, as autoras assinalam: “[Brasília] também sustentou as condições para tornar o poder da República mais asséptico, mais isolado, mais vaidoso, mais arrogante” (p. 428). A adjetivação é deliciosa na sua ousada gradação! Outro exemplo: um capítulo sobre a independência do Brasil recebe o título de: “Quem foi para Portugal perdeu o lugar: vai o pai, fica o filho” (p. 7), apropriando-se com ironia de um aforisma popular.

Tudo nessa biografia foge ao comum, em se tratando do biografado: o texto se constrói por figuração narrativa dos eventos, o que quer dizer que são várias as perspectivas de abordagem de um acontecimento, que vão do público às suas reverberações no privado, na vida de cada um, e vice-versa. Assim, para se falar da chegada de D. João, fala-se das ruelas que vai encontrar no Rio, dos escravos que circulam pelas ruas, das casas de pau a pique — enfim, da desajeitada monarquia nos trópicos, já se tem desde o início um índice iluminador.

Há também um conjunto de imagens significativas, com legendas com textos explicativos. Não são meras ilustrações, são um outro conjunto narrativo que suplementa o conjunto maior e nele se dissemina com força icástica. Isso sem falar na cronologia final, que começa em cerca de 30.000 a.c. com o início do povoamento do continente americano e vai até 2013, tratando de Brasil, Portugal e do mundo. É importante ressaltar também a extensa e atualizada bibliografia que sustenta a argumentação e lhe dá estofo teórico e metodológico incomum. Sem que o texto perca a graça, vale repetir.

2. As autoras

Em “Apesar de dependente, universal” (1980), Silviano Santiago diz o seguinte:

“O intelectual brasileiro, no século XX, vive o drama de ter de recorrer a um discurso histórico, que o explica, mas que o destruiu, e a um discurso antropológico, que não mais o explica, mas fala do seu ser enquanto destruição (…) Como ‘explicar’ a ‘nossa constituição’?. Nenhum discurso disciplinar o poderá fazer sozinho. Pela História universal, somos explicados e destruídos, porque vivemos uma ficção desde que fizeram da história europeia a nossa estória. Pela Antropologia, somos constituídos e não somos explicados, já que o que é superstição para a História, constitui a realidade concreta do nosso passado.” (p. 17-18)

A aporia resolve-se, felizmente, no século XXI com trabalhos como Brasil: Uma biografia. Lilia e Heloisa, uma antropóloga-historiadora e uma historiadora-antropóloga, superam o impasse colocando-se e nos colocando em cheio entre o “não ser e o ser outro”, na notável expressão de Paulo Emílio, não mais como um estigma, mas como um elemento mobilizador da nossa identidade sempre em diferença. Por isso, talvez, nossa cidadania corra sempre o risco de ser postergada, como se houvesse um gap intransponível entre desejo e realização.

A quatro mãos, as experientes pesquisadoras conseguem passar para o leitor — qualquer leitor, categoria em que me incluo — o enfrentamento problema que é o nosso complexo e conturbado personagem. A síntese não compromete o detalhe, a reflexão acirrada não é obstáculo para a fluidez do relato: um equilíbrio difícil de obter, mas que nossas duas escritoras conseguem alcançar com a tranquilidade de quem sabe onde pisa, ou o que escreve.

3. O personagem

Terminada a leitura do livro, o Brasil se revela múltiplo nas suas demandas — muitas delas ainda não satisfeitas — e carente de um traço distintivo forte o bastante para torná-lo uma das forças decisivas em jogo no mundo globalizado. Será por que ainda estamos presos à equação oswaldiana Tupi or not tupi that is the question, epígrafe (e elas são um outro relato) da conclusão do livro? Há aí certa melancolia, ou me equivoco, quando se cita junto outro trecho de Oswald de Andrade?

Quando o português chegou

Debaixo duma bruta chuva

Vestiu o índio

Que pena!

Fosse uma manhã de sol

O índio tinha despido

O português. (“Erro de português”)

A certa altura se diz que entre nós “a democracia convive perversamente com a injustiça social” (p. 502). Talvez essa equação paradoxal defina nossa difícil contemporaneidade, a que a biografia que estamos lendo oferece inúmeras possibilidades de resolução. É ler para crer!

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Wander Melo Miranda é professor de teoria da literatura e literatura comparada na Universidade Federal de Minas Gerais e diretor da Editora UFMG.