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Silêncios da ditadura

Por Heloisa M. Starling

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Foto: Elói Corrêa/GOVBA

Heloisa M. Starling, uma das autoras de Brasil: Uma biografia, escreve sobre um dos períodos mais conflituosos da nossa história, a ditadura militar, e como os fatos daquele tempo foram silenciados. O período da ditadura também é abordado no livro, que será lançado no dia 9 de maio.

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Já se vai mais de meio século desde o golpe de 1964 e a memória dos anos da ditadura ainda incomoda os brasileiros. É certo que a historiografia, em companhia do jornalismo e das ciências sociais, tem provocado muito a memória do país sobre sua história recente. Mas, definitivamente, a sociedade brasileira ainda não parece estar disposta a conhecer e compreender a ditadura. A partir do início de 1979, o ano da aprovação da Anistia, deu-se a construção de uma simplificação narrativa, que funciona em duas direções: numa ponta, estabelece uma ruptura entre o passado recente e o presente; na outra, produz esquecimento.

Desde o final do governo dos militares, em 1985, e ainda hoje, no momento em que uma nova história parece começar no país, a memória continua seletiva, como se a investigação sobre a ditadura provocasse certa vergonha entre nós. É como se a sociedade brasileira não quisesse ser atormentada por uma pergunta desconcertante: afinal, quem promoveu a ditadura, quem a apoiou, quem a sustentou?

Três silêncios organizam a memória do Brasil sobre os anos da ditadura militar. O primeiro deles recai sobre o apoio da própria sociedade, e em especial, sobre o papel dos empresários dispostos a participar na gênese do regime e na sustentação e financiamento de uma estrutura repressiva muito ampla que se materializou sob a forma de política de Estado, os atos de tortura, assassinato, desaparecimento e sequestro. Falta aos brasileiros o conhecimento e a compreensão de quem foram os empresários dispostos a financiar a tortura como política de Estado — e a forma como os recursos financeiros gerados por esses grupos eram recolhidos, organizados e encaminhados até os órgãos de inteligência e repressão.

O segundo silêncio incide sobre as práticas de violência cometidas pelo Estado contra a população e direcionadas a grupos e comunidades específicos — em particular, as violências cometidas contra camponeses e povos indígenas. Dentre os casos de mortes e desaparecimentos políticos ocorridos entre 1962 e 1985, o universo dos camponeses e trabalhadores rurais é o que encontra maiores dificuldades para mapeamento e identificação. Segundo levantamentos sobre as lutas no campo ocorridas no período entre 1964 e 1986, realizados pela Comissão Pastoral da Terra e pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, foram registrados cerca de 1.100 assassinatos nesse período. Boa parte desses crimes ocorreu em conflitos de terras e teve como protagonistas jagunços, capangas, milícias paramilitares constituídas por proprietários rurais — são crimes cometidos por grupos de extermínio privados, embora tenham contado com o beneplácito ou com a omissão do Estado, e permanecem sem identificação ou sem que a investigação sobre suas circunstâncias tenha obtido informações conclusivas.

Mas nada se compara ao silêncio sobre os crimes cometidos pela ditadura contra as populações indígenas. O mais importante documento de denúncia sobre esses crimes — o “Relatório Figueiredo” — foi produzido pelo próprio Estado brasileiro e ficou desaparecido por 44 anos. Durante todo esse tempo a versão oficial era que o relatório havia sido destruído em um incêndio. A alegação não procede. O Relatório foi encontrado quase intacto por pesquisadores independentes em 2013, com 5 mil páginas e 29 tomos — das 7 mil páginas e 30 tomos que constavam da versão original. Para escrever seu relatório, o procurador geral Jader de Figueiredo Correia percorreu com sua equipe mais de 16 mil quilômetros, visitando 130 postos indígenas em todo o país. O resultado apresentado pelo procurador é estarrecedor: matanças de tribos inteiras, torturas e toda sorte de crueldades foram cometidas contra indígenas no país, principalmente pelos grandes proprietários de terras e por agentes do Estado. Os índios estavam posicionados entre os militares e a realização do maior projeto estratégico de ocupação do território brasileiro. Pagaram um preço altíssimo em dor e quase foram exterminados por isso.

O terceiro silêncio impede a sociedade brasileira de conhecer a estrutura e os procedimentos de funcionamento do aparato de inteligência e repressão da ditadura. A utilização da tortura como técnica de interrogatório nos quartéis, os desaparecimentos forçados e a criação de centros clandestinos de violação de direitos são parte dos procedimentos utilizados pelo Estado para violar sua própria legalidade de exceção. A prática da tortura como técnica de interrogatório nos quartéis brasileiros é um procedimento inédito — não ocorreu em nenhum outro momento da história do país e foi praticada pelo Estado brasileiro a partir de 1964 e até pelo menos 1977.

A adoção dos desaparecimentos forçados de opositores políticos teve início no segundo semestre de 1969, e está associada a alguns procedimentos considerados estratégicos pelas Forças Armadas: encobrir homicídios e/ou o uso da tortura em prisioneiros políticos para extorsão de confissões; provocar incerteza e/ou expectativa nas forças de oposição sobre o destino de seus militantes e/ou de sua liderança política. Já os Centros Clandestinos foram criados para execução de procedimentos considerados estratégicos pelos militares com base em uma nova avaliação da atuação das forças de oposição, realizada pelos órgãos de comando no interior da estrutura de repressão, entre os anos de 1969-1970. Era nesses Centros que os militares executavam os procedimentos necessários para desaparecimento de corpos de opositores mortos sob a guarda do Estado, através da eliminação das condições de identificação, como retirada de digitais e arcadas dentárias e da queima do corpo, esquartejamento ou lançamento ao mar ou em rios. Também era atribuição dos Centros Clandestinos garantir as condições de sigilo necessárias à prisão e interrogatório de opositores políticos já condenados pela política de extermínio, criar condições para recrutamento e monitoramento de agentes infiltrados em organizações oposicionistas e impedir o ingresso do preso político nos esquemas judiciais previstos pela legalidade de exceção.

Diante de certos fatos extremos — no nosso caso de brasileiros, do horror produzido pela violência injustificada e desnecessária do Estado durante a ditadura militar — é preciso que todos saibam de tudo para que sejam testemunhas do que ocorreu. Testemunha será também aquele que não vai embora, que consegue escutar o murmúrio das vozes e a narração insuportável do outro, e que aceita que suas palavras revezem a história do outro. Não por culpa ou por compaixão. Mas porque somente essa retomada reflexiva do passado pode ajudar a nós, brasileiros, a não repeti-lo infinitamente, pode nos ajudar a ousar esboçar outra história e a inventar o presente.

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brasilBRASIL: UMA BIOGRAFIA
Sinopse: 
Com linguagem fluente, acesso a documentação inédita e profundo rigor na pesquisa, Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Murgel Starling traçam um retrato de corpo inteiro do país, e mostram que o Brasil bem merecia uma nova história. Nessa travessia de mais de quinhentos anos, as autoras se debruçam não somente sobre a “grande história” mas também sobre o cotidiano, a expressão artística e a cultura, as minorias, os ciclos econômicos e os conflitos sociais (muitas vezes subvertendo as datas e eventos consagrados pela tradição). No fundo da cena, mantêm ainda diálogo constante com aqueles autores que, antes delas, se lançaram na difícil empreitada de tentar interpretar ou, pelo menos, entender o Brasil. A história que surge dessas páginas é a de um longo processo de embates e avanços sociais inconclusos, em que a construção falhada da cidadania, a herança contraditória da mestiçagem e a violência aparecem como traços persistentes.

Brasil: uma biografia chega nas livrarias no dia 9 de maio e já está em pré-venda.
Veja onde encontrar: [Cultura] – [Saraiva] – [Travessa] – [Curitiba]

Se você deseja saber mais sobre o livro, leia a entrevista com as autoras Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa M. Starling e o texto Cores são linguagens.

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Heloisa M. Starling é professora titular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e autora de Lembranças do Brasil (1999) e Os senhores das gerais (1986).

Cores são linguagens

Por Lilia Moritz Schwarcz

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Qual a diferença entre falar o idioma materno e falar um idioma que se adquire?

Regras das salas de aula de inglês, francês, espanhol, japonês, alemão, o que for, costumam funcionar bem no ambiente protegido da “escola de línguas”. Basta, porém, colocar os pés em outro país para se notar que ser estrangeiro significa, sobretudo, não dominar o manejo complicado da maneira como se fala, quando se fala e o que se fala.

E se, a começar pela fala, cada nação cria os seus próprios problemas, códigos, enigmas e desafios, a nossa não foge à regra. Não há quem desconheça que somos todos, por aqui, catedráticos no uso e na negociação em torno das cores.

No Brasil, com grande facilidade, e na linguagem do dia a dia, manipulamos cores. Por sinal, faz muito tempo que o conceito de “cor” vem substituindo a noção de raça, num uso mais fluído, mas não menos perverso.

Cor pode até ser um conceito mais elástico, mas nem por isso é avesso à delimitação de hierarquias rígidas e regimes de inclusão e de exclusão social. De um lado, dependendo da situação, da hora, da companhia, do local, do momento, um entrevistado, um amigo (e nós mesmos) mudamos de cor — como se troca de meia. De outro, sabemos muito bem que não há nada de inocente nessa cartografia de tons e meio tons.

Desde a época da “civilização da cana” — nos idos dos séculos XVI e XVII — já fazíamos um paralelo entre as colorações do açúcar e sua pureza. Quanto mais branco, melhor a qualidade; mais escuro, o oposto, sendo o produto nem ao menos digno de exportação. O mesmo tratamento recebiam os escravizados: se sua cor de pele fosse mais branqueada, tinham muito mais chance de lutar por uma alforria e de recebê-la.

Essa verdadeira lente colorida continuou vigente e se transmutou numa série de novas teorias. O primeiro concurso realizado pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1845, chamava-se “Como se deve escrever a história do Brasil”. O vencedor, o bávaro K. F. Von Martius, propôs novo paralelo colorido. O Brasil seria como um grande rio (branco), banhado por rios mais diminutos (um negro e outro indígena), os quais levavam, todos, a uma grande civilização. Como se vê, aqui havia mistura, mas também hierarquia, expressa no tamanho variado dos afluentes. No século XIX, os modelos deterministas raciais previam uma evolução única e progressiva, repetindo a metáfora do doce: o branco no alto da pirâmide social; populações mestiças, bem abaixo. No início do século XX, o Brasil foi o único país da assim chamada América Latina convidado a participar do Congresso Internacional das Raças, de 1906. Levou a tese de João Batista Lacerda, “Sur les Metis”, que dizia que em três gerações seríamos brancos: gregos até. Não contente, o médico ilustrou suas palavras com a tela do artista acadêmico Modesto Brocos chamada Redenção de Can, 1895, em que, numa metáfora, dessa vez bíblica, vemos nos extremos do quadro um pai português e uma avó africana — quase uma estátua de ébano. O pai sorri com orgulho; a avó agradece aos céus. No centro, uma mãe com traços suavizados traz ao colo uma criança branca de cabelos lisos. Era a inversão da maldição de Can. No caso do Brasil, “o branqueamento”, mais esse conceito afeito às cores, nos redimiria.

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De lá para cá fomos sofisticando nosso linguajar, assim como apurando nossa percepção social sobre o alcance das cores. Basta dizer que nosso censo é todo pautado nelas. Nos dividimos e classificamos assim: branco, negro, amarelo, indígena (vermelho), pardo. Se as quatro primeiras são cores primárias, a última é uma espécie de “etcétera”, um coringa da classificação, um sonoro NDA. Mas todos sabemos, com convicção, o que significa a cor pardo. Ela vem de pardal: esse pássaro de um marrom indefinido.

A partir dessa base passamos a manipular o uso das cores. Sabemos que, não raro, pessoas que enriquecem são vistas como “mais brancas”; cabelo bom, na linguagem popular, é cabelo liso; e até há pouco “pessoa de boa aparência” era uma maneira de não falar em cor.

Aliás, a polícia brasileira costuma ser “especialista” em cor. Basta dar uma olhada nas batidas no meio da madrugada, e mesmo durante o dia, para ter certeza como essa instituição carrega consigo uma régua de cor precisa.

Pois bem, para dar conta desse jogo travesso das cores, em 1976 foi feita uma pesquisa em que se perguntou aos brasileiros a sua cor. O resultado é esse grande arco-íris classificatório, composto por mais de 136 cores!

Não é o caso de analisar todos os termos, apenas destacar algumas recorrências. Em primeiro lugar, a grande incidência em torno do branco: uma espécie de símbolo local. Em segundo, as cores na fronteira — quase morena, meio branca, puxa para —, que mostram como aqui se manipulam tons e semi tons. Terceiro, diferenças de gênero: diminutivo para as mulheres; aumentativo para os homens. Por fim chamam atenção termos como “queimada de sol, tostada”, que parecem revelar que a cor é pensada como um estado transitório, não definitivo. Não se é de uma cor. Se está.

Claro que a situação é hoje muito diferente, e isso já desde os anos 1980, quando com os Movimentos Sociais o país acordou de vez para o tema do preconceito e do racismo vigentes no Brasil. Questão difícil num país que carrega a triste marca de ter sido o último a abolir a escravidão no Ocidente, ela se esconde e se apresenta a partir desse arco-íris social.

Foi justamente pensando nesse uso escorregadio das cores que a Companhia das Letras resolveu, na primeira edição de Brasil: uma biografia, apresentar capas do livro em dez cores e combinações diferentes. Esse é um tema forte neste trabalho que Heloisa Starling e eu escrevemos, e achamos que essa seria uma maneira de provocar o leitor com relação a esse difícil idioma nacional.

Cores são perversas na reposição cotidiana do preconceito e da discriminação.

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Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP, além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca) e O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia), entre outros. Em abril, lança com Heloisa Starling Brasil: Uma biografia.

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No começo de maio, a Companhia das Letras lança Brasil: uma biografia, de Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Starling. Com acesso a documentação inédita e vasta pesquisa, as autoras traçam um retrato de corpo inteiro do país. Nessa viagem de mais de quinhentos anos, se debruçam não somente sobre a “grande história” mas também sobre o cotidiano, a expressão artística e a cultura, as minorias, os ciclos econômicos e os conflitos sociais.

Inaugurando esta nova seção no blog, que apresentará com mais profundidade os futuros lançamentos da editora, entrevistamos Lilia e Heloisa sobre o livro, que já está em pré-venda. Leia o que elas dizem sobre o método escolhido, o recorte temporal, as inspirações e afiliações na historiografia e a necessidade de uma nova obra acessível ao público geral sobre a história do Brasil.

Por que fazer uma nova história geral do Brasil em 2015?

Existem muito boas histórias gerais do Brasil, mas poucas delas, arriscamos dizer, carregam as características que queremos perseguir nesse livro, como um todo.

Em primeiro lugar, mais do que apenas cronológico, o livro sustenta um argumento geral. Procura entender como o caminho para a democracia foi difícil e singular num país marcado pelo sistema escravocrata. Aliás, é bom lembrar que o Brasil contou com o mais duradouro sistema escravista da era moderna; aquele que absorveu a maior diáspora compulsória de africanos, e o único que tomou o território todo. Isso sem esquecer que o país foi o último a abolir a escravidão e sente suas consequências até hoje nas práticas clientelísticas, nos paternalismos, no preconceito ao trabalho, na corrupção interna.

Também cabe insistir em outra marca que encontramos no caminho e decidimos sublinhar. Ao longo da nossa história, a palavra liberdade foi expressa em épocas diferentes nas mais diversas circunstâncias e pelos mais diferentes personagens. Compreender o poder da palavra liberdade e o modo como ela se manifesta na origem dos caminhos da democracia brasileira ajuda a entender a longa jornada das lutas sociais do povo brasileiro. A democracia é hoje um dos mais fortes consensos no Brasil e sua consolidação constitui um dos nossos maiores legados para as próximas gerações de brasileiros. Mas de tanto ser banalizada, a ideia de democracia, e o longo processo de lutas que garantiu sua construção no país, é hoje mal conhecida por nosso povo, sobretudo pelos jovens.

Vale destacar, ainda, que recuamos ao período anterior à chegada dos portugueses, incorporando as novas teorias e pesquisas da etnologia, da história e da antropologia, que mostram as riquezas das sociedades ameríndias, em termos de mitologia e filosofias.

Outra novidade é o uso crítico das imagens, não como ilustrações, mas como documentos. Nós tentamos ressaltar a importância das narrativas contidas nas imagens, os significados que elas trazem e os efeitos que podem produzir sobre a realidade. Por exemplo: a fotografia de um treinamento de tortura realizado por um batalhão da Guarda Presidencial do Exército, em Brasília, afeta o curso da história oficial sobre o período da ditadura militar — revela que a versão das Forças Armadas não corresponde ao que aconteceu. Nós gostaríamos de convidar o leitor a também ler as imagens e descobrir junto conosco que elas falam de maneira eloquente sobre as circunstâncias e os motivos que fazem do Brasil, Brasil. Foi realizada, também, uma ampla pesquisa iconográfica, de maneira a ampliar o nosso acervo visual e não apenas devolver o que se conhece.

Quem sabe vale a pena destacar a relevância dessa escrita em diálogo. Nossa formação é comum, e também distinta (aliando história, mas também antropologia e ciência política), e nos especializamos em períodos e abordagens bastante diferentes. Heloisa é especialista na história de Minas, nas concepções de república e do republicanismo e no período contemporâneo: em particular a ditadura militar. Lilia trabalha com temas do final do período colonial, do império e primeira república. Também especializou-se em discutir a imagem como linguagem visual. Além do mais, se ambas trafegam pelos mesmos mares, Lilia sempre acentua a questão cultural e a antropologia, e Heloisa não se esquece da ciência política. Por conta dessa escrita mestiça (não como acomodação, mas sim diálogo) o livro introduz sempre cultura e política; política e cultura.

Por fim, é explícito no projeto a ideia de que não há como contar “a” história, mas, sim, “uma” história sobre o Brasil; ou melhor, algumas histórias sobre o Brasil. Ou ainda: tentamos fazer do Brasil uma história. Um projeto como esse é um convite ao leitor para embarcar conosco numa aventura, mas essa é uma viagem com roteiro explícito. Afinal, não se consegue escrever uma história exaustiva do Brasil — e é possível escrever um número interminável de histórias sobre o Brasil.

Qual é o recorte temporal?

O livro segue sistematicamente até a primeira eleição de FHC, a despeito de na sua conclusão avançar até o momento presente — o governo Dilma Rousseff —, alcançando as manifestações de junho de 2014, o processo de consolidação da nossa experiência democrática e os riscos que ela corre — daí as referências ao mensalão ou ao escândalo da Petrobrás. A ideia é que os governos de FHC e Lula, de alguma maneira, ainda estão em curso, até porque os dois líderes continuam atuantes e suas políticas permanecem presentes na nossa agenda. A primeira eleição de FHC e sua posse em 1995 marcam o fim do período de redemocratização e daqui para frente está tudo em aberto. Nossa aposta é que uma novíssima história do Brasil está — ou deveria estar — começando, e nós brasileiros temos grandes tarefas pela frente: recuperar a República, sustentar o desenvolvimento, ampliar a igualdade, acentuar a democracia… O tempo presente e os homens do presente são um pouco de cada um de nós e essa nova história ainda está em seu início.

Quais foram as principais inspirações para este livro?

Há muitas boas histórias gerais do Brasil e citamos apenas algumas. O grande projeto em vários volumes — História Geral das Civilizações —, organizado por Sergio Buarque de Holanda e depois por Boris Fausto, é sem dúvida um grande modelo ao unir os maiores estudiosos brasileiros e recortar temas gerais da nossa agenda. Mas a coleção, como toda coletânea de ensaios, tem altos e baixos, e os diferentes capítulos não obrigatoriamente dialogam entre si. Há também o livro de História do Brasil, de Boris Fausto, da Edusp, que representou um avanço imenso em termos de documentação, de crítica e de coerência historiográfica. Não há como se esquecer dos bons livros de colegas e jornalistas — Laurentino Gomes, Eduardo Bueno — que têm nos ajudado a refletir e aceitar o desafio de alcançar um público mais amplo.  No nosso caso, porém, o desafio era, igualmente, incluir pesquisa original e documental. É preciso destacar, ainda, que um livro como esse só poderia ser feito por conta da excelente qualidade e maturidade da historiografia brasileira, internacionalmente reconhecida, que tem produzido investigação de ponta acerca dos mais diversos períodos da nossa formação nacional. Sem ela esse livro não existiria e a produção está toda referenciada nas notas e na bibliografia em anexo.

Não há como esquecer das coleções estrangeiras — História da vida privadaHistória da família —, por autores como Eric Hobsbawm, Jacques Le Goff, Georges Duby, Robert Darnton, Simon Schama, Carlo Ginzburg que vêm mostrando como é possível narrar a história com charme, saber e diversão. Tudo isso sem perder o rigor

Vale destacar ainda que Lilia, particularmente, se valeu de sua experiência em alguns projetos. Um deles, a coleção História da vida privada no Brasil, que reuniu uma grande equipe de historiadores brasileiros buscando reconstituir aspectos da vida cotidiana no processo histórico de nossa formação nacional. O outro, na coleção Virando os séculos — ambas editadas pela Companhia das Letras. Mais recentemente, Lilia foi diretora da coleção em 6 volumes História do Brasil Nação, pela Mapfre/Objetiva. Essa é uma coleção que conta com os mais importantes especialistas em história do Brasil moderno, faz um amplo levantamento documental e de imagens fundamental e perseguiu um público mais amplo, aliás como esse livro que lançamos agora. Lilia também está preparando para a Ducke University Press (junto com James Green e Victoria Langland) um novo Brazil reader: coletânea cronológica de documentos e respectivos comentários.

Podem comentar a escolha do subtítulo do livro, “uma biografia”?

A história do Brasil, por suposto, não cabe em um único livro. Até porque não há nação que possa ser contada de forma linear, progressiva ou mesmo de uma só maneira. Sendo assim, este livro não pretende contar uma história do Brasil, mas fazer do Brasil uma história. Ao contar uma história, tanto o historiador quanto o leitor aprendem a “treinar a imaginação para que ela faça uma visita”, como diria Hannah Arendt. E é por levar a sério essa noção de “visita” que este livro deixará de lado a meta de construir uma espécie de “história geral dos brasileiros” para se concentrar na ideia de que a biografia talvez seja outro bom caminho para tentar compreender o Brasil em perspectiva histórica: conhecer os muitos eventos que afetaram nossas vidas, e, de tal maneira, que continuam presentes na agenda atual.

Uma biografia é a evidência mais elementar da profunda conexão entre as esferas pública e privada — somente quando estão articuladas, essas esferas conseguem compor o tecido de uma vida, tornando-a real para sempre. Escrever sobre a vida do nosso país implica interrogar os episódios que formam sua trajetória no tempo, e ouvir o que eles têm a dizer sobre as coisas públicas, sobre o mundo e o Brasil onde vivemos — para compreendermos os brasileiros que fomos e que deveríamos ou poderíamos ser.

A imaginação e a multiplicidade das fontes são dois predicados importantes na composição da biografia. Nela, cabem os grandes tipos, os homens públicos, as celebridades; cabem igualmente personagens miúdos, quase anônimos. Em todos os casos, porém, não cabe tarefa fácil: é muito difícil reconstituir o momento que inspirou o gesto. É preciso calçar os sapatos do morto, na definição preciosa de Evaldo Cabral, conectar o público ao privado, para penetrar num tempo que não é o seu, abrir portas que não lhe pertencem, sentir com sentimentos de outras pessoas e tentar compreender a trajetória dos protagonistas dessa biografia — os brasileiros — no tempo que lhes foi dado viver; as intervenções que protagonizaram no mundo público de cada época com os recursos de que dispunham; a disposição de viverem segundo as exigências de seu tempo e não de acordo com as exigências do nosso tempo. É também não ser indiferente à dor ou à alegria do brasileiro comum, invadir o espaço da intimidade de personagens importantes e escutar o som das vozes sem fama. O historiador anda sempre às voltas com a linha difusa entre resgatar a experiência daqueles que viveram os fatos, reconhecer nessa experiência seu caráter quebradiço e inconcluso, interpelar seu sentido e, por estar atenta a tudo isso, a biografia é, também, um gênero da historiografia.

Brasil: uma biografia será lançado no dia 4 de maio e já está em pré-venda nas principais livrarias.