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Hiroshima: 70 anos da tragédia nuclear

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Eram 8h15 da manha do dia 6 de agosto de 1945 quando a bomba atômica “Little Boy” caiu sobre Hiroshima, matando instantaneamente cerca de 100 mil pessoas. Dias depois, 9 de agosto, os EUA fariam um novo ataque contra o Japão, dessa vez lançando a bomba em Nagasaki. Os ataques que deixaram centenas de milhares de mortos, destruíram cidades e deixaram sequelas por muito tempo completam 70 anos em 2015. As duas bombas faziam parte da estratégia do governo norte-americano de mostrar a sua força armamentística para evitar a “morte de soldados” em novas invasões ao Japão. Mas essa demonstração de poder entrou para a história como um dos maiores e mais cruéis atentados à humanidade.

Veja, em trecho do recém-lançado Seis meses em 1945, de Michael Dobbs, quando e como Truman tomou a decisão final de ordenar o ataque atômico contra o Japão.

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Havia ampla concordância dentro do governo de que a bomba atômica poderia tornar-se uma carta decisiva no jogo diplomático, se jogada da maneira certa. O próprio Byrnes dissera ao presidente em abril que a bomba permitiria aos Estados Unidos “ditar as regras” no fim da guerra. Seu uso contra o Japão poderia salvar as vidas de centenas de milhares de soldados americanos que se preparavam para invadir as ilhas japonesas. A demonstração do poderio tecnológico americano serviria também de contrapeso ao poderio territorial da União Soviética. Na opinião do Secretário de Guerra, Henry Stimson: “Essa era uma área em que todas as cartas estavam em nossas mãos”. Os Estados Unidos agora possuíam “um royal straight flush, e não podemos errar na maneira de utilizá-lo”. A analogia com o jogo de pôquer fora calculada para agradar a Truman, para quem nada havia de melhor do que um jogo de cartas à noite com seus amigos.

Pouco depois de seu encontro com Szilard, Byrnes foi a Washington para uma reunião de dois dias sobre a bomba atômica, que começou no dia 31 de maio no Pentágono. Truman havia formado um Comitê Provisório para coordenar a tomada de decisões nas questões nucleares, com o secretário de Estado atuando como seu “representante pessoal”. A reunião foi presidida por Stimson e incluía cientistas do mais alto nível, como Robert Oppenheimer e Enrico Fermi, bem como generais no topo da hierarquia, como Marshall e Groves. O tema principal da agenda era uma análise do trabalho feito por um comitê militar que selecionara três alvos possíveis para a primeira bomba atômica: Kyoto, Hiroshima e Niigata. O Comitê do Alvo recomendava que “o artefato” fosse lançado no “centro da cidade escolhida” em vez de ser dirigido a instalações militares e industriais específicas, que eram “um tanto dispersas” e situadas nas periferias das cidades. A escassez de dispositivos atômicos tornava impossível lançar bombas em localidades diferentes: uma única bomba teria de ser suficiente para destruir todo um conglomerado urbano. Embora o termo “bombardeio de precisão” já fizesse parte do léxico militar, era inteiramente impraticável para uma bomba atômica de primeira geração.

A ideia de usar a nova bomba como arma de terror deixou horrorizado Stimson, que se considerava um baluarte da “lei e da moralidade internacionais”, mesmo numa época de “guerra total”. Ele ficara perturbado com as bombas incendiárias lançadas em Tóquio, poucos dias antes, pelo conjunto de aviões B-29 de Curtis LeMay, que provocou a morte de dezenas de milhares de civis japoneses. Stimson havia visitado Kyoto antes da guerra e compreendia a importância cultural e histórica da antiga capital imperial, com suas centenas de templos budistas e santuários xintoístas. Ele deixou bem claro que não permitiria a destruição da cidade, mesmo que do ponto de vista militar se tratasse de um alvo atraente, por ter sofrido anteriormente poucos danos provocados por bombas. “Esta é uma ocasião em que serei a autoridade que dará a decisão final”, disse a Groves, desgostoso com o que ouvia. “Nesta questão, eu sou o chefe supremo.”

Também estava claro para Stimson que a bomba representava uma revolução não apenas nos assuntos militares, mas na “relação do homem com o universo”. Ele disse aos integrantes do Comitê Provisório que a nova arma poderia ser usada para “aprimorar a civilização internacional”, ou poderia transformar-se “num Frankenstein”. Sofrendo de insônia crônica, o secretário de Guerra tinha acabado de passar “uma noite realmente pavorosa no que diz respeito a dormir”. Virou e se revirou na cama enquanto tentava pensar sobre as implicações da bomba, não apenas na guerra contra o Japão, mas também quanto às relações com a Rússia e com toda a era do pós-guerra.

Stimson estava ciente de que a bomba era algo inevitável. Ao contrário de Szilard, ele não julgava que o projeto atômico poderia ser cancelado, nem mesmo retardado. Era da opinião que os Estados Unidos deveriam partilhar suas conquistas tecnológicas com outras nações, especialmente a Rússia, mas na base de uma estrita reciprocidade, como a liberalização política e um regime de inspeção transparente. Atraído pela possibilidade de acesso aos segredos atômicos, além da ajuda americana à devastada economia soviética, Stálin poderia ser levado a cooperar com o Ocidente.

O apoio à postura de Stimson veio de diversos outros integrantes do comitê, incluindo Marshall e Oppenheimer. O diretor de Los Alamos sempre fora favorável a organismos internacionais de controle da energia atômica, chegando ao ponto de tornar-se suspeito de deslealdade por serviços antiespionagem. Cuidadoso na escolha de palavras, ele agora propunha uma discussão “experimental” com os russos quanto a uma futura cooperação “em termos extremamente genéricos, sem fornecer detalhes sobre o que já conseguimos”. Era importante não fazer “julgamentos prévios” com relação à atitude que a Rússia adotaria.

O chefe de Estado-Maior do Exército foi mais longe ainda na defesa de uma abertura em relação a Moscou. Segundo a visão de Marshall, independentemente de sua postura política, os russos sempre haviam cumprido as obrigações militares assumidas com seus aliados. A resistência que manifestavam em cooperar em questões militares com frequência poderia ser explicada como paranoia, “a necessidade de preservação da segurança”. Era possível confiar que os russos não passariam os segredos atômicos americanos aos japoneses. O general chegou até a cogitar se não valeria a pena “convidar dois destacados cientistas russos” para assistir ao primeiro teste atômico.

Havia chegado o momento de Byrnes mostrar sua autoridade. O obstinado negociador do Senado não tinha a menor intenção de fazer algum tipo de acordo envolvendo os segredos nucleares dos Estados Unidos sem ter certeza absoluta de receber em troca alguma coisa bem concreta e de imenso valor. Ele receava que compartilhar informações, “mesmo em termos genéricos”, poderia levar Stálin a exigir uma parceria. Isso causaria problemas infindáveis. O melhor seria levar adiante a produção de armas atômicas da maneira mais rápida possível, esforçando-se ao mesmo tempo no aprimoramento de relações com a Rússia. Depois que o representante de Truman deixou clara sua posição, os outros integrantes do comitê puseram-se de acordo.

Byrnes foi bem-sucedido também em impor seu ponto de vista sobre o que fazer com a bomba depois que tivesse sido testada com sucesso. Ele se opôs à proposta de alguns cientistas, que desejavam anunciar publicamente uma demonstração, para forçar os japoneses a se renderem. Sempre haveria a possibilidade de que a bomba não explodisse, o que daria “ajuda e ânimo” ao inimigo. Byrnes insistiu para que a bomba fosse “usada contra o Japão assim que fosse possível” e “usada sem aviso prévio”. Sua única concessão às preocupações de Stimson quanto ao aspecto moral de matar grandes números de civis estava na modificação da linguagem sugerida pelo Comitê do Alvo. O lugar escolhido para o lançamento seria “uma instalação militar cercada por casas de trabalhadores”, e não “o centro da cidade”. Tratava-se apenas de uma distinção semântica para aplacar a consciência dos responsáveis pela decisão, que na prática fazia pouca diferença. Muitos japoneses trabalhavam em sua casa produzindo material bélico. Nas palavras de um homem nada sentimental como Curtis LeMay, “toda a população participava e trabalhava para fabricar aqueles aviões ou munições para a guerra […] homens, mulheres, crianças. Sabíamos que mataríamos uma porção de mulheres e crianças quando incendiávamos uma cidade. Era o que precisava ser feito”.

Assim que a reunião do Comitê Provisório terminou, Byrnes dirigiu-se rapidamente à Casa Branca para apresentar suas recomendações a Truman. Os dois políticos examinaram as opções para forçar os japoneses à rendição. De acordo com alguns cálculos, 100 mil americanos poderiam morrer durante uma invasão das ilhas japonesas semelhante àquela realizada no Dia D. A escolha acabou sendo muito clara, baseando-se na possibilidade de salvar vidas americanas. Apesar de alguns sentimentos íntimos de pesar, o presidente, ainda não habituado a decisões de tamanha magnitude, não estava disposto a discutir as conclusões de seus conselheiros, bem mais experientes que ele. Com relutância, disse a Byrnes que “não conseguia pensar em outra opção”. A decisão de lançar a bomba atômica no Japão foi efetivamente tomada no dia 1o de junho de 1945, mesma data do jantar de gala oferecido por Stálin a Hopkins em Moscou. Menos de quatro semanas tinham se passado desde a rendição da Alemanha. Ainda que não fosse irrevogável, seria necessária toda a força da disposição presidencial para chegar a um desfecho diferente. Na visão de Groves, Truman era como “um garoto num tobogã”, descendo em alta velocidade a rampa da história, uma perna para cada lado, montado numa invenção que mudaria o mundo.

Conheça mais sobre Seis meses em 1945.

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Um dos grandes relatos do jornalismo literário é a história de seis sobreviventes da bomba de Hiroshima, entrevistados um ano após o ataque. John Hersey precisou de 31347 palavras para explicar como uma única explosão matou 100 mil pessoas, feriu seriamente o corpo de mais 100 mil e machucou a alma da humanidade. Nenhuma outra reportagem na história do jornalismo teve a repercussão de Hiroshima. Os cerca de 300 mil exemplares da revista The New Yorker com a data de 31 de agosto de 1946 no cabeçalho esgotaram-se rapidamente nas bancas. Do país todo e do estrangeiro chegavam à redação pedidos de autorização para a reimpressão da matéria.

Quarenta anos mais tarde, o autor reencontrou os entrevistados e completou o trabalho. Leia um trecho da reportagem que permitiu que o mundo tomasse consciência do catastrófico poder de destruição das armas nucleares.

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No dia 6 de agosto de 1945, precisamente às oito e quinze da manhã, hora do Japão, quando a bomba atômica explodiu sobre Hiroshima, a srta. Toshiko Sasaki, funcionária da Fundição de Estanho do Leste da Ásia, acabava de sentar-se a sua mesa, no departamento de pessoal da fábrica, e voltava a cabeça para falar com sua colega da escrivaninha ao lado. Nesse exato momento o dr. Masakazu Fujii se acomodava para ler o Asahi de Osaka no terraço de seu hospital particular, suspenso sobre um dos sete rios deltaicos que cortam Hiroshima; a sra. Hatsuyo Nakamura, viúva de um alfaiate, observava, da janela de sua cozinha, a demolição da casa vizinha, situada num local que a defesa aérea reservara às faixas de contenção de incêndios; o padre Wilhelm Kleinsorge, jesuíta alemão, lia a Stimmen der Zeit, revista da Companhia de Jesus, deitado num catre, no terceiro e último andar da casa da missão de sua ordem; o dr. Terufumi Sasaki, jovem cirurgião, caminhava por um dos corredores do grande e moderno hospital da Cruz Vermelha local, levando uma amostra de sangue para realizar um teste de Wassermann; e o reverendo Kiyoshi Tanimoto, pastor da Igreja Metodista de Hiroshima, parava na porta de um ricaço de Koi, bairro do oeste da cida de, para descarregar um carrinho de mão cheio de coisas que resolvera transferir para ali por temer o maciço ataque dos B-29, que a população aguardava. Uma centena de milhares de pessoas foram mortas pela bomba atômica, e essas seis são algumas das que sobreviveram. Ainda se perguntam por que estão vivas, quando tantos morreram. Cada uma delas atribui sua sobrevivência ao acaso ou a um ato da própria vontade — um passo dado a tempo, uma decisão de entrar em casa, o fato de tomar um bonde e não outro. Agora cada uma delas sabe que no ato de sobreviver viveu uma dúzia de vidas e viu mais mortes do que jamais teria imaginado ver. Na época não sabiam nada disso.

Conheça mais sobre Hiroshima.