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Semana duzentos e cinquenta e seis

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O gigante enterrado, de Kazuo Ishiguro (Tradução de Sonia Moreira)
Uma terra marcada por guerras recentes e amaldiçoada por uma misteriosa névoa do esquecimento. Uma população desnorteada diante de ameaças múltiplas. Um casal que parte numa jornada em busca do filho e no caminho terá seu amor posto à prova — será nosso sentimento forte o bastante quando já não há reminiscências da história que nos une? Épico arturiano, o primeiro romance de Kazuo Ishiguro em uma década envereda pela fantasia e se aproxima do universo de George R. R. Martin e Tolkien, comprovando a capacidade do autor de se reinventar a cada obra. Entre a aventura fantástica e o lirismo, O gigante enterrado fala de alguns dos temas mais caros à humanidade: o amor, a guerra e a memória.

Tudo que é, James Salter (Tradução de José Rubens Siqueira)
Depois de participar da Segunda Guerra Mundial como soldado no Japão, Philip Bowman retorna aos Estados Unidos para recomeçar a vida.
Pelas décadas seguintes, acompanhamos sua carreira, seu casamento e divórcio. Novas relações amorosas aparecem – a mais significativa delas marcada por uma traição que Bowman vinga de forma particularmente cruel. Este não é um livro de grandes mistérios ou acontecimentos marcantes. É uma história sobre as pequenas coisas da vida – o teste para qualquer grande escritor. Depois de 35 anos sem publicar um romance, Salter mostra por que é considerado um dos maiores nomes da literatura americana atual.

Agora aqui ninguém precisa de si, de Arnaldo Antunes
O tempo e o espaço, a insignificância e a morte são os principais temas deste volume de inéditos de Arnaldo Antunes, que oscilam entre o humor e a desilusão. Alternando poemas em verso e visuais, fotografias e “prosinhas”, a obra é marcada pela pluralidade, pelo registro pop e pela sonoridade, tão próprios ao artista, que assina também o projeto gráfico. Um diálogo sensível e desafiante com o homem contemporâneo.

Do que é feita uma garotade Caitlin Moran (Tradução de Caroline Chang)
“Wolverhampton, em 1990, parece uma cidade a que algo terrível aconteceu.” Talvez tenha acontecido de fato. Talvez seja Margaret Thatcher, talvez seja a vergonha que Johanna Morrigan passou num programa da TV local aos catorze anos. Nossa protagonista decide então se reinventar como Dolly Wilde — heroína gótica, loquaz e Aventureira do Sexo, que salvará a família da pobreza com sua literatura. Aos 16 anos, ela está fumando, bebendo, trabalhando para um fanzine de música, escrevendo cartas pornográficas para rock-stars, transando com todo tipo de homem e ganhando por cada palavra que escreve para destruir uma banda. Mas e se Johanna tiver feito Dolly com as peças erradas? Será que uma caixa de discos e uma parede de pôsteres bastam para se fazer uma garota?

Penguin-Companhia

A estepe, de Anton Tchékhov (Tradução de Rubens Figueiredo)
A estepe foi a primeira tentativa de Anton Tchékhov de produzir uma narrativa mais extensa. Foi uma tarefa desafiadora, mas bem-sucedida. Até porque o autor, que se tornaria um clássico da literatura ocidental, traria um olhar mais delicado e dado a menos arroubos, crises ou atos de heroísmo que outros escritores russos fundamentais, como Tolstói e Dostoiévski. O subtítulo — História de uma viagem — sintetiza o tema central: a viagem de um menino pela vasta estepe russa para estudar em outra cidade. Mas também apresenta o caráter múltiplo do texto: relato de viagem, narrativa ficcional, estudo de tipos humanos, pintura da natureza, além de retrato das atividades econômicas, das relações sociais e das mudanças de comportamento em curso.

Portfolio-Penguin

Dinheiro, dinheirode João Sayad
O dinheiro é uma instituição fundamental da sociedade em que vivemos há mais ou menos quatrocentos anos. Sem ele, não há economia capitalista. Como tudo que é habitual, colado ao cotidiano, é difícil de ser compreendido. O tema é controverso e movimentado por um debate infindável entre economistas de vertentes diversas. Neste livro, João Sayad tem como objetivo jogar luz sobre esta discussão que, apesar de singular em cada momento, tem uma tradição comum e conceitos que se repetem. As muitas teorias monetárias são analisadas como se fossem diferentes narrativas sobre o mesmo tema fundamental da economia capitalista.

Companhia das Letrinhas

Um raio de luz, de Jennifer Berne e ilustrações de Vladimir Radunzky (Tradução de Eduardo Brandão)
Enquanto anda de bicicleta numa estrada poeirenta, um garoto se vê viajando a uma velocidade além da imaginação, dentro de um raio de luz. É nessa mesma mente que nascerá, algum tempo depois, uma das mais revolucionárias ideias da ciência: a teoria da relatividade. Albert Einstein era um menino distraído com as maravilhas do mundo e acabou se tornando um dos maiores gênios da humanidade, iluminando profundamente a compreensão do universo que temos hoje. Jennifer Berne e Vladimir Radunsky convidam o leitor a viajar com Einstein numa jornada pela sua vida, desde o seu nascimento, e descobrir com ele o poder que a imaginação pode ter em cada um de nós.

Mula sem cabeça, de Ilan Brenman e ilustrações de Marjolaine Leray
Apesar de bem antiga, a lenda da mula sem cabeça ainda é contada em diversas regiões do Brasil. Mas como foi que ela surgiu? E quais seriam as impressões de um estrangeiro ao ouvir essa história tão particular do nosso folclore? Foi pensando nisso que Ilan Brenman resolveu contar, pra todos que quiserem saber, como nasceu a mula sem cabeça e desafiar uma ilustradora que vive bem longe daqui a criar a sua versão da assombração. Dá pra imaginar? O resultado é surpreendente!

Os nada-a-verde Jean-Claude R. Alphen e ilustrações de Juliana Bollini
Era uma vez uma cidade particular. Nela viviam seres especiais, todos diferentes um do outro. Cada um tinha o seu jeito e a sua turma, e não se misturavam com qualquer um. O-que-sorri era parente próximo d’O-que-assobia, que por sua vez era amigo d’O-que-quer-ficar-livre e d’O-que-cata-borboletas. Mas eles não podiam chegar perto de tipos como O-que-olha-o-relógio, O-que-conta-dinheiro, O-que-espera-pelo-pior, O-que-sempre-diz-não etc. (E muitos se identificavam com esse último tipo.) Acontece que um belo dia O-que-olha-o-espelho olhou um pouco mais para o lado e se deu conta de que existia outro tipo de beleza além da sua própria: era O-que-tem-cabelos-lisos. Foi paixão à primeira “olhada”, e também um escândalo, pois os dois não pertenciam ao mesmo grupo, de jei-to ne-nhum! Esse incidente se espalhou como fogo na floresta e logo a cidade estava transformada, e a encrenca, armada – O-que-acha-que-vai-dar-tudo-errado que o diga…

A cozinha encantada dos contos de fadasde Katia Canton e ilustrações de Juliana Vidigal e Carlo Giovani
Cozinhar é uma tarefa mágica. Um punhado de farinha, manteiga e ovos pode se tornar um lindo bolo, assim como um copo de leite gelado com sorvete e morangos vira um delicioso milk-shake. Com um pouco de persistência e criatividade, as coisas se transformam, ganham brilho, vida e graça, como num passe de varinha de condão. Neste livro, Katia Canton reuniu o encanto da culinária com a fantasia dos contos de fadas para apresentar as diversas receitas que aparecem em histórias como Cinderela, Pele de Asno, O Gato de Botas e muitas outras.

Semana cento e setenta e cinco

Os lançamentos desta semana são:

A filha das flores, de Vanessa da Mata
Giza cresceu à beira de uma estrada que liga o norte e o sul do país. Sua geografia familiar, no entanto, pouco ultrapassa os limites da casa de infância, onde foi criada em meio às plantações de flores, ao pé do jardim. Os buquês e arranjos que lá eram preparados abasteciam toda a região, aproximando Giza de um universo de gente que ama, é rejeitada e morre, cada circunstância pedindo a sua própria flor.  Assim, a menina, vivendo à sombra das tias, duas garotas que já encantavam os homens do vilarejo, encontrava seu jeito de vencer as cercas de casa. Mas, se das flores ela colecionava as histórias, das tias ela ganhava um vislumbre da vida adulta, que Margarida e Florinda, a despeito de serem pouco mais velhas, pareciam abraçar com naturalidade. Quase como uma estrangeira na casa, Giza passa a infância navegando pelos códigos e subentendidos da família, à beira de algo que ela parece prestes a compreender. Dona de uma imaginação prodigiosa, ela preenche esses espaços com doçura, humor e leveza, que a autora soube captar num estilo vivo e vibrante. Mas a menina cresce. E começa a saber de seu corpo, de suas vontades e de seus arredores. Viajando no carro que usa para entregar flores, ela ultrapassa os limites impostos pela família e chega a uma vila, lugar sobre o qual pairam histórias tenebrosas, e que ela passará a frequentar em busca de uma vida mais terrena.

Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato
O nove de maio de 2000 é um dia qualquer em São Paulo. Os habitantes seguem realizando pequenos e grandes feitos cotidianos, protagonistas de uma narrativa subterrânea, que representa, ao fim e ao cabo, o próprio tecido da cidade. Para captar essa polifonia urbana, Ruffato estruturou seu romance em 70 episódios, cada qual com registro e fôlego próprios, alternando entre poesia, discurso publicitário, música, teatro e prosa, instantâneos de uma cidade que só se move deixando para trás um rasto de esquecidos. Ao jogar luz sobre esses anônimos, o autor iluminou também as circunstâncias em que eles se confrontam, em atos que se alternam entre a solidariedade e a frieza. Mais de uma década depois de sua publicação, Eles eram muitos cavalos segue um retrato atual e doloroso da vida na grande cidade.

Noventa dias, de Bill Clegg (Tradução de Pedro Maia Soares)
Depois de narrar seu mergulho insano nas profundezas da droga, Bill Clegg descreve a batalha cotidiana para abandonar o vício do crack e do álcool. Ele está de volta a Nova York, após passar uma temporada numa clínica de desintoxicação, e tem um único objetivo na vida: completar noventa dias – apenas três meses – sem se drogar. Para o comum dos mortais, parece coisa simples. Para o viciado, é um trabalho de Sísifo, uma luta diária contra a fissura pela droga, contra a força magnética avassaladora que o leva a procurar traficantes e antros de junkies. O autor narra com absoluta honestidade o drama monstruoso de sua vida, que a qualquer momento pode se transformar em tragédia. São muitas as recaídas, é insaciável a vontade da droga, é forte a tentação de acabar de vez com a vida, é penoso o retorno à superfície. Para Clegg, ficar sóbrio não depende apenas da tão alardeada força de vontade: ele precisa do suporte e da convivência de seus colegas de recuperação. O árduo caminho de volta passa pelo apoio de um “padrinho” a quem possa recorrer a qualquer momento de fraqueza, e pelo comparecimento a reuniões de viciados – duas, três vezes por dia -, em que o relato de cada um reforça a disposição dos outros de permanecer limpo.  Neste diário de franqueza pungente, por vezes inacreditável, Bill Clegg expõe as idas e vindas de uma jornada que não tem fim, que recomeça todos os dias, de uma vida que avança sobre o fio da navalha.

Caras animalescas, de Ilan Brenman e Renato Moriconi
Nas fábulas e histórias que escutamos desde pequenos, os bichos muitas vezes se comportam como humanos. Eles andam, falam e se vestem como nós. Com os personagens deste livro acontece exatamente o contrário. O Abelardo se acha a estrela da pista e é cheio de sardas, parece mais um leopardo. E a dona Ninoca, sempre de bom humor, adora uma brincadeira e não sai da água. Pra completar, tem a maior cara de… adivinha!

O livro das lendas, de Shoham Smit (Ilustrações de Vali Mintzi; Tradução de Paulo Geiger)
O que os animais comiam na arca de Noé? Como Moisés ficou gago? Quais foram os enigmas que a rainha de Sabá apresentou ao rei Salomão? Neste livro vamos conhecer algumas das lendas mais importantes da cultura judaica e descobrir a resposta para essas e outras perguntas. Apresentando povos e costumes antigos para os leitores de hoje, as histórias protagonizadas por personagens do Velho Testamento, os contos sobre sábios e as fábulas diversas vêm acompanhados de explicações e reflexões sobre os aspectos mais significativos e curiosos de cada uma das narrativas, que relacionam esses tempos ao mundo atual. Repletos de figuras e lugares misteriosos, estes textos, escritos há centenas de anos, irão encantar adultos e crianças.

Pequena Grande Tina, de Patricia Auerbach (Ilustrações de Ronaldo Fraga)
Chega uma idade em que as crianças querem, mais que tudo, crescer logo para serem grandes, bem grandes. A Tina está nessa, não vê a hora de alcançar a torneira do banheiro e o botão mais alto do elevador. Este livro, que nasceu da cabeça da Patricia Auerbach e ganhou forma (e algumas roupas!) nas mãos do Ronaldo Fraga, fala sobre as angústias e alegrias do crescimento, a partir de páginas que se desdobram e, ao final da leitura, dão a noção exata do tamanho da menina.

Semana cento e cinquenta e sete

Os lançamentos desta semana são:

13 palavras, de Lemony Snicket (Trad. Érico Assis)
A partir de 13 palavras aparentemente aleatórias, Lemony Snicket e Maira Kalman criaram esta história peculiar e irreverente, sobre uma passarinha melancólica e um cão que tenta alegrá-la a todo custo, oferecendo, por exemplo, bolos e chapéus. As crianças vão se surpreender com este livro extravagante e lindamente ilustrado.

Amanhã para sempre, de Jorge G. Castañeda (Trad. Luiz A. de Araújo)
O intelectual, diplomata e político Jorge G. Castañeda é um dos intérpretes mais respeitados do México. Além de diversos livros sobre o tema, o autor de Amanhã para sempre tem se dedicado a investigar as singularidades do caráter nacional e da formação histórica de seu país, forjados basicamente pela submissão do substrato racial, linguístico e cultural das civilizações indígenas preexistentes à conquista e às contribuições impostas pelo colonizador ibérico. Neste ensaio ambicioso e abrangente, que contém capítulos especiais para a edição brasileira, Castañeda investiga as origens do México moderno nos momentos decisivos dos cinco séculos desde a chegada dos espanhóis, recuando até a era pré-colombiana para rastrear os traços primordiais da nacionalidade. Para Castañeda, o México e os mexicanos conquistarão um futuro radioso se conseguirem superar o isolacionismo e o individualismo engendrados em sua longa história de espoliação colonial, violência política e injustiças sociais.

México, de Erico Verissimo
Na primavera de 1955, esgotado pela rotina burocrática de seu cargo na sede da OEA em Washington, Erico Verissimo sai de férias com a mulher, Mafalda, para viajar pelo México. O autor de O tempo e o vento e sua companheira de viagem, sufocados pelo cotidiano asséptico nos Estados Unidos, ansiavam reencontrar-se com o universo mágico da cultura latino-americana. Seguindo um roteiro que incluiu a capital federal, Oaxaca, Puebla, Taxco e outras cidades da Meseta Central, os Verissimo se surpreenderam com a natureza ao mesmo tempo exótica e familiar da mexicanidad. O bloqueio criativo que afetava o escritor e os vulcões que espreitam a milenar história do país. Permeado de argutas reflexões estéticas e antropológicas, este livro é o saboroso relato de Verissimo na pátria de Diego RIvera, José Vasconcelos e Octavio Paz.

Malcolm X, de Manning Marable (Trad. Berilo Vargas)
“Até agora só os negros sangraram, e isso não é visto pelos brancos como derramamento de sangue. Para que o homem branco considere um conflito sangrento, é preciso que sangue branco seja derramado.” Nada mais distinto da mensagem de paz propagada por Malcolm X (1925-1965) em seus últimos meses de vida que o ódio racial que até o início de 1964 lhe impregnava as palavras como ministro da Nação do Islã. Essa transformação radical foi apenas uma das metamorfoses sofridas pelo inspirador do movimento Black Power ao longo de uma existência curta mas plena e tumultuada como poucas. Da pobreza da infância órfã à conversão ao Islã, dos crimes inconsequentes da juventude à longa pena cumprida por assalto armado, dos períodos como gigolô e traficante de drogas à defesa veemente dos direitos civis dos negros americanos, este ambicioso relato biográfico reconstitui o heterodoxo percurso de um dos ativistas políticos mais influentes do século XX, símbolo trágico de uma época de profundas transformações na sociedade norte-americana.

Pastoral americana, de Philip Roth (Trad. Rubens Figueiredo)
No estilo impetuoso de Philip Roth, Pastoral americana narra os esforços de Seymour Levov para manter de pé um paraíso feito de enganos. Filho de imigrantes judeus que deram duro para subir na vida, Seymour tenta em vão comunicar um legado moral à terceira geração da família. Esmagado entre duas épocas que não se entendem e desejam destruir-se mutuamente, Seymour se apega até o fim a crenças que se mostram cada vez mais irreais. A força de sua obstinação em defesa de uma causa perdidalhe confere um caráter ao mesmo tempo de heroísmo e desatino. Para contar a história, Philip Roth ressuscita seu famoso alter ego, o romancista Nathan Zuckerman, herói e narrador dos romances Casei com um comunista e A marca humana. Na voz de Zuckerman, Seymour Levov assume a dimensão patética de um Adão obediente que um dia, sem entender por quê, se vê expulso do paraíso.

O amor de uma boa mulher, de Alice Munro (Trad. Jorio Dauster)
Vencedor no National Book Critis Circle Award (1998), O amor de uma boa mulher reúne oito contos da canadense Alice Munro, uma das mais prestigiadas escritoras de língua inglesa da atualidade. Suas histórias – que podem ser lidas como pequenos romances – revelam a complexidade de personagens à deriva, cujos turbilhões se formam sob a aparente normalidade dos eventos cotidianos.

O império de Hitler, de Mark Mazower (Trad. Claudio Carina e Lucia Boldrini)
O império de Hitler foi a maior, mais brutal e ambiciosa tentativa de reformulação das fronteiras europeias na era moderna. Inspirado no legado de potências imperiais como Roma ou a Grã-Bretanha, o Terceiro Reich impôs sua sombra maldita das ilhas do Canal (a poucos quilômetros por mar da grande nêmesis da Alemanha na Segunda Guerra, a Inglaterra) ao Cáucaso, reunindo milhões de súditos das mais diversas etnias, culturas e religiões. Neste trabalho de fôlego – que apresenta uma tese inovadora e surpreendente sobre a derrocada alemã -, o historiador Mark Mazower mostra, no entanto, que os domínios do Reich tinham por base um castelo de cartas. Uma aliança nefasta entre incompetência administrativa e ausência de racionalidade tática levou não só ao colapso da ordem nazista como à decadência de todo um continente.

Histórias do pai da História, de Ilan Brenman
Muita gente acha que a “História”, aquela disciplina que aprendemos na escola, cheia de nomes e datas, não tem nada a ver com as histórias inventadas que lemos nos livros. Mas você sabia que, quando a matéria da História surgiu, ela era uma mistura de fatos reais com um tanto de imaginação? Quando voltavam para casa, os viajantes contavam aos outros tudo o que tinham visto – e um pouquinho do que não tinham visto -, e essa era a única forma de saber o que acontecia pelo mundo. Isso até Heródoto, um historiador e geógrafo grego nascido em 484 A.C., reunir aquilo que presenciou e ouviu falar em suas andanças num grande livro chamado Histórias. E é por isso que ele ficou conhecido como “O pai da História”: criou um documento que permitiu que todos tivessem acesso às mais vaiadas informações sobre o resto do mundo sempre que quisessem, e se tornou o inventor da ciência mais antiga do mundo ocidental. Neste livro, outro grande narrador apresenta alguns dos escritos mais interessantes que Heródoto nos deixou. Depois de lê-los, você verá que a realidade também pode ser uma bela história!

Semana cento e trinte e um

Os lançamentos desta semana são:

Lançamentos da semana

Bocejo, de Ilan Brenman e Renato Moriconi
Um bocejo pode contagiar o outro e o outro e o outro… E quem sabe o mundo inteiro? Foi a partir dessa ideia que Ilan Brenman e Renato Moriconi desenvolveram a brincadeira deste livro-imagem, composto por lindas pinturas a óleo que mostram diversos personagens, míticos ou históricos, em seu momento mais sonolento.
E como a proposta era fazer o mundo inteiro bocejar, nada mais justo que chamar o leitor para o jogo: com o papel espelhado ao final do livro, o contágio termina não nos momentos históricos ou míticos retratados ao longo da história, mas sim no leitor em seu mundo e em seu tempo. A última página é o retrato de um eterno presente preguiçoso.

Diversidade da vida, de Edward O. Wilson (Trad. Carlos Afonso Malferrari)
Edward O. Wilson é considerado o papa da biodiversidade. Neste livro, o autor ilumina a grave degradação ambiental em curso: populações em risco, ameaças à evolução, drástica redução de flora e fauna. O autor analisa cataclismos dos últimos seiscentos milhões de anos: desastres naturais provocados por meteoritos e mudanças climáticas que levaram a longos processos de reconstituição ecológica. Wilson alerta que o impulso acelerado de destruição da Terra, hoje causado pelo homem, pode ser irreversível. As saídas que o autor propõe são complexas, à altura do problema, mas factíveis, e conciliam produtividade e proteção ambiental. Desafiadores, permitem que a consciência ecológica e as práticas sociais alcancem novo patamar, nas atitudes individuais, na vida cotidiana e nas políticas de preseervação.

Dom Quixote, de Miguel de Cervantes (Trad. de Ernani Ssó)
Dom Quixote de La Mancha não tem outros inimigos além dos que povoam sua mente enlouquecida. Seu cavalo não é um alazão imponente, seu escudeiro é um simples camponês da vizinhança e ele próprio foi ordenado cavaleiro por um estalajadeiro. Para completar, o narrador da história afirma se tratar de um relato de segunda mão, escrito pelo historiador árabe Cide Hamete Benengeli, e que seu trabalho se resume a compilar informações. Não é preciso avançar muito na leitura para perceber que Dom Quixote é bem diferente das novelas de cavalaria tradicionais – um gênero muito cultuado na Espanha do início do século XVII, apesar de tratar de uma instituição que já não existia havia muito tempo. A história do fidalgo que perde o juízo e parte pelo país para lutar em nome da justiça contém elementos que iriam dar início à tradição do romance moderno – como o humor, as digressões e reflexões de toda ordem, a oralidade nas falas, a metalinguagem – e marcariam o fim da Idade Média na literatura.
Mas não foram apenas as inovações formais que garantiram a presença de Dom Quixote entre os grandes clássicos da literatura ocidental. Para milhões de pessoas que tiveram contato com a obra em suas mais diversas formas – adaptações para o público infantil e juvenil, histórias em quadrinhos, desenhos animados, peças de teatro, filmes e musicais -, o Cavaleiro da Triste Figura representa a capacidade de transformação do ser humano em busca de seus ideais, por mais obstinada, infrutífera e patética que essa luta possa parecer.

Primeiras leituras, de Paulo Mendes Campos
Dono de um texto arejado, delicioso e sempre instrutivo, o mineiro Paulo Mendes Campos (1922-1991) foi um gênio da crônica, gênero tão brasileiro de escrita. Falando sobre Ipanema – onde viveu grande parte de sua vida depois de ter se mudado para o Rio de Janeiro -, comentando os eventos cotidianos, cantando o amor de modo ensolarado ou fustigando (com graça e humor) os usos e costumes do seu tempo, Paulo Mendes Campos é um desses autores que ensinam a pensar e a escrever melhor. Esta seleção de crônicas, produzida a partir de diversos títulos do autor, muitos deles esgotados nas livrarias, é a melhor porta de entrada para aqueles que apreciam um texto leve e saboroso. E – claro! – para quem gostaria de entrar em contato com o universo de um dos nossos mais cativantes escritores.

Às armas, cidadãos, de José Murilo de Carvalho, Lúcia Bastos e Marcello Basile
Distribuídos de mão em mão, afixados nos postes ou lidos em voz alta para um público eletrizado e buliçoso, os panfletos manuscritos que circularam nas ruas do Brasil e de Portugal às vésperas da Independência são documentos de valor inestimável para a historiografia do período. Esta compilação dos “papelinhos” (como então eram conhecidos) políticos sobreviventes, produzidos tanto por brasileiros autonomistas como por partidários da monarquia portuguesa, reconstitui os principais acontecimentos que resultaram no Sete de Setembro de 1822: a repercussão da Revolução Liberal do Porto, o regresso do rei d. João VI a Lisboa, as agitações militares em diversas províncias do Brasil e, finalmente, a deflagração do movimento independentista centrado no príncipe d. Pedro. Com organização, introdução e amplo aparato crítico de José Murilo de Carvalho, Lúcia Bastos e Marcello Basile, este volume constitui uma valiosa referência para a compreensão de fatos e personagens decisivos do nascimento político do Brasil.

Os desejos de Nina, de Gilles Eduar
Todos aqueles que já acompanharam as crianças em um passeio irão se divertir com este livro. É sempre um tal de “quero este” pra cá, “quero aquele” pra lá, que até os mais pacientes podem chegar a ficar um pouquinho irritados.
Aproveitando esta vontade incontrolável dos pequenos, Gilles Eduar inventou este livro-jogo, em que as crianças percorrerão a cidade junto com o cavalo Heitor e a gatinha Nina e ajudarão o pobre Heitor a encontrar todos os pedidos da gata exigente – ela não se contenta com qualquer mimo e não faz nem ideia de que o coração de Heitor bate mais forte quando ela está por perto…

Semana cento e cinco

Os lançamentos desta semana são:

A memória de nossas memórias, de Nicole Krauss (Tradução de José Rubens Siqueira)
O que acontece quando estamos a ponto de perder tudo — inclusive a esperança? A busca por uma resposta atravessa o tempo e o espaço, marcando a trajetória daqueles que precisam lidar com suas memórias e com a consequente necessidade de esquecimento em nome da autopreservação. O resultado é um painel (que tem algo elegíaco) narrado com elegância, por meio de personagens que aos poucos, no decorrer da leitura, vão descortinando aspectos inesperados de seu próprio percurso. Narrativa que mesmo sem ser detetivesca transcorre a partir do mistério escondido na vida de cada um de nós, A memória de nossas memórias conduz o leitor pelos emaranhados fios que somente a reconstrução do passado é capaz de desvendar.

Éramos nós, de Thomas L. Friedman & Michael Mandelbaum (Tradução de Ivo Korytovski)
Os dois autores travam uma conversa descontraída sobre a política norte-americana, conduzindo o leitor em uma agradável viagem pelos fatos históricos que tornaram os Estados Unidos a maior potência mundial, e apontam as causas da atual crise desse modelo. Juntos, eles traçam um texto esperançoso, analítico e opinativo, que busca explicar por que a ideia de que a Grã-Bretanha dominou o século XIX, os EUA o século XX e de que a China vai inevitavelmente reinar no XXI está errada, apesar de coisas muito estranhas ocorrerem em todo o país. Embora o cenário pareça devastador, Friedman e Mandelbaum conseguem localizar pequenas ações que os enchem de esperança no futuro, e lhes dão a certeza de que o fim da hegemonia americana não está tão perto quanto se imagina.

Sobre meninos e lobos – Mystic river, de Dennis Lehane (Tradução de Luciano Vieira Machado)
Um carro encosta perto de três meninos que brigam numa rua da violenta periferia de Boston. Aturdidos com a inesperada abordagem, Sean e Jimmy veem o amigo Dave ser levado por dois homens que, ao que tudo indica, pertencem à polícia. Mas eles logo percebem que há algo de errado: uma simples disputa entre três garotos de onze anos não justificaria tal intervenção. Vinte e cinco anos mais tarde, os três companheiros se reencontram numa encruzilhada armanda por um trágico destino. Espelhados nas águas turvas do rio Mystic, Sean, Jimmy e Dave tentarão se livrar definitivamente de um passado que por tanto tempo ficou encoberto.

Fotografia e império, de Natalia Brizuela (Tradução de Marcos Bagno; co-edição IMS)
Natalia Brizuela resgata um aspecto pouco explorado da história do Brasil no século XIX: o extraordinário papel da mídia recém-inventada na formação de uma identidade nacional brasileira. Mais que um simples aparato para registrar paisagens e rostos, a fotografia foi utilizada — de forma mais ou menos consciente — como um instrumento para fixar e configurar o vasto território do Império tropical. Pintado como uma espécie de paraíso selvagem, o Brasil se tornou um território de desejo para olhos estrangeiros — e um espaço a ser dominado pelo Estado, fosse ele a Coroa ou a República.
[A autora estará no Rio de Janeiro e em São Paulo para bate-papo sobre o livro.]

Paralelo 10, de Eliza Griswold (Tradução de Ângela Pessoa)
Nos últimos anos, a escritora e jornalista norte-americana Eliza Griswold visitou 6 países assolados por violentas hostilidades entre cristãos e muçulmanos: na África, as regiões conflagradas da Nigéria, do Sudão e da Somália; na Ásia, os arquipélagos da Indonésia e das Filipinas e as florestas da Malásia continental. Visitando por perigosas zonas de conflito, a autora entrevistou personagens-chave de batalhas supostamente travadas em defesa dos ensinamentos de Maomé e Jesus Cristo. Suas conversas com pastores evangélicos, xeques, guerrilheiros, políticos e líderes tribais — e, sobretudo, com os sobreviventes de diversos massacres — revelam que os crimes cometidos em nome da religião não se dissociam da luta pela dominação econômica em territórios historicamente marcados pela desigualdade. Como demonstram as impactantes reportagens reunidas em Paralelo 10, a disputa por terras e matérias-primas quase sempre subjaz ao confronto entre islã e cristandade ao redor do planeta.

Pai, não fui eu!, de Ilan Brenman (Ilustrações de AnnaLaura Cantone)
A imaginação infantil pode ir longe — tão longe a ponto de fazer parte da própria realidade em que vivem os pequenos. Brincando com essa poderosa capacidade de inventar típica da infância, Ilan Brenman narra a história de um pai que, enquanto trabalhava tranquilamente no escritório de sua casa, ouve um estrondo. A filha dele, que presenciou o desastre, logo chega para dar explicações: o barulho foi por causa do livro italiano gigante — o preferido do pai — que, de repente, despencou da prateleira da estante. E quem o deixou cair foi o leopardo, que, ao ver a menina folheando o livrão, disse que adorava ler e se aproximou, mas acabou esbarrando nele e lá foi o livro gigante estante abaixo… Depois de todo aquele esclarecimento, qual não foi a surpresa do pai ao abrir o seu livro!… Com um final surpreendente e divertido, esta é uma pequena amostra da relação entre pais e filhos, ilustrada com delicadeza por AnnaLaura Cantone.

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