inez cabral

Semana trezentos e treze

Companhia das Letras

Mutações da literatura no século XXI, de Leyla Perrone-Moisés
Leyla Perrone-Moisés é uma das críticas mais atentas e curiosas do Brasil. É famosa por descobrir os melhores jovens autores, além de se destacar pela qualidade de seus escritos. Neste livro atual e desafiador, ela lê autores como Jonathan Franzen, Bernardo Carvalho e Roberto Bolaño para tentar compreender como grandes livros continuam a surgir e a impactar os leitores. Como diz a autora na “Apresentação”: “Enquanto a situação do ensino da literatura continuou se degradando, a prática da literatura não só tem resistido ao contexto cultural adverso mas tem dado provas de grande vitalidade, em termos de quantidade, de variedade e de qualidade. E é isso que pretendo mostrar neste livro”.

Soy loco por ti, América, de Javier Arancibia Contreras
Diego García, obituarista de um grande jornal portenho, é enviado como correspondente à Guerra das Malvinas, enquanto trava uma guerra particular consigo mesmo. Santiago Lazar, poeta-pichador nas ruas militarizadas de Santiago do Chile, se torna William White ao se exilar em Londres. Duas décadas depois, é obrigado a reviver um traumático fato do passado. Sergio Vilela, brilhante e inescrupuloso jornalista, entra numa espiral de loucura e poder na Brasília selvagem dos anos oitenta. Condenado ao ostracismo, tenta se redimir ao investigar uma estranha seita que envolve um poderoso político.  Marlon Müller, milionário mimado e rebelde, inicia com outros dois jovens na Cidade do México um movimento controverso que usa a tecnologia para provocar o caos na sociedade midiática globalizada. Com essas quatro histórias interligadas no tempo e no espaço da América Latina dos anos sessenta até os dias atuais, Javier Arancibia Contreras afirma-se como um dos melhores talentos da literatura brasileira contemporânea.

Viva a língua brasileira!, de Sérgio Rodrigues
Este livro é uma declaração de amor à língua portuguesa falada no Brasil. Em forma de verbetes rápidos e instrutivos, dá dicas e tira dúvidas que você sempre teve sobre o uso do idioma. Contra aqueles que defendem que só os irmãos de Portugal sabem tratar a gramática como ela merece, aqui está um antídoto. Contra aqueles que adoram corrigir o que nunca esteve errado e defendem bobagens, aqui está a resposta perfeita. Contra o analfabetismo funcional, o pedantismo do juridiquês, a barbaridade do corporativês, a importação servil de estrangeirismos e o chiclete viciante do clichê, este é um manual perfeito para usar nossa língua em toda sua riqueza e sem nenhum preconceito.

Alfaguara

A literatura como turismo, de João Cabral de Melo Neto (seleção e texto Inez Cabral)
Nesta antologia, a poesia de João Cabral e as memórias de Inez Cabral, sua filha, revelam a faceta mais íntima de um dos maiores escritores da literatura brasileira. Ao longo de seus quase cinquenta anos de carreira diplomática, João Cabral de Melo Neto morou em países como Espanha, Inglaterra, Senegal, Equador e Honduras. A cultura e a paisagem desses lugares marcaram sua poesia de forma expressiva. Sevilha talvez tenha sido a cidade mais cantada pelo poeta, mas não foi, de modo algum, a única. No Equador, por exemplo, o fascínio pela natureza e os índios dos Andes produziu joias como “O corredor de vulcões” e “O índio da Cordilheira”. Entrelaçados a esses poemas, os relatos memorialistas de Inez Cabral revelam ao leitor aspectos cotidianos da vida de João: seus hábitos, opiniões e gostos.

Morte e vida Severina – auto de natal pernambucano, de João Cabral de Melo Neto
Publicado pela primeira vez há sessenta anos, o poema mais conhecido de João Cabral mudou os rumos da poesia no Brasil. Um dos poemas mais populares de João Cabral de Melo Neto, “Morte e vida severina” dá voz aos retirantes nordestinos e ao rio Capibaripe, em cenas fortes e contundentes. Clara crítica social, o autor descreve a viagem de um sertanejo chamado Severino, que sai de sua terra natal em busca de melhores condições de vida. Durante a jornada, Severino se encontra tantas vezes com a Morte que, desiludido e impotente, percebe que a luta é inútil — como ele, tantos outros severinos padecem com a miséria e o abandono. Apenas o nascimento de um bebê, uma criança-severina, renova as esperanças e o espírito cansado daquele que já não tinha motivos para continuar a viver.

Cinco esquinas, de Mario Vargas Llosa (tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman)
Uma sociedade permeada pela corrupção e pelo jornalismo sensacionalista é examinada pela lupa sensual do vencedor do Nobel, Mario Vargas Llosa. A amizade de Marisa e Chabela se transforma quando, presas tarde da noite na casa de uma delas, as duas se veem sozinhas, deitam-se na mesma cama e, sem conseguir dormir, dão asas aos seus mais reprimidos desejos. Quique e Luciano, seus maridos e amigos de longa data, são empresários peruanos de sucesso e não desconfiam de nada. Na verdade, Quique não tem tempo para isso. Ao receber a visita de um jornalista que possui fotos comprometedoras, ele se vê enredado num submundo de intriga e violência controlado pelas mais altas esferas do poder. Parte romance de costumes — na melhor tradição de Travessuras da menina má — parte suspense, Cinco esquinas é um livro envolvente, que retrata uma sociedade às voltas com a corrupção e o terrorismo, acossada pelo jornalismo sensacionalista, mas que luta até o fim pela liberdade.

Seguinte

Outra página de cada vez – Motivação para hoje e amanhã, de Adam J. Kurtz (tradução de Henrique de Breia e Szolnoky)
Com muita criatividade, humor e um toque de autoajuda, o designer americano Adam J. Kurtz encantou os brasileiros com seu primeiro livro, 1 página de cada vez. Lançado em 2014, ele já vendeu mais de cem mil cópias no país. Agora Adam está de volta com Outra página de cada vez, que reúne novas atividades capazes de melhorar o nosso dia a dia de maneira lúdica. Lançando mão de novo de um traço simples e elegante, ele propõe outras brincadeiras e questionários que levam o leitor a pensar ou simplesmente levantam a nossa moral nessa época difícil. Sempre com inteligência e sensibilidade. Algumas páginas são só para ler e pensar, mas nem por isso são menos divertidas. Como no primeiro livro, você pode fazer várias atividades de uma vez ou abrir o livro de vez em quando e brincar. Um raio de sol em tempos de trovoadas.

O livro de memórias, de Lara Avery (tradução de Flávia Souto Maior)
Uma história emocionante sobre aprender a viver quando a vida não sai como a gente espera. Sammie sempre teve um plano: se formar no ensino médio como a melhor aluna da classe e sair da cidade pequena onde mora o mais rápido possível. E nada vai ficar em seu caminho – nem mesmo uma rara doença genética que aos poucos vai apagar sua memória e acabar com sua saúde física. Ela só precisa de um novo plano. É assim que Sammie começa a escrever o livro de memórias: anotações para ela mesma poder ler no futuro e jamais esquecer. Ali, a garota registra cada detalhe de seu primeiro encontro perfeito com Stuart, um jovem escritor por quem sempre foi apaixonada, e admite o quanto sente falta de Cooper, seu melhor amigo de infância e de quem acabou se afastando. Porém, mesmo com esse registro diário, manter suas lembranças e conquistar seus sonhos pode ser mais difícil do que ela esperava.

Sou fã! E agora?, de Frini Georgakopoulos
Fã que é fã adora conversar, discutir, interagir. Mas nem sempre temos por perto um amigo tão fanático quanto a gente para desabafar. Foi pensando nisso que Frini Georgakopoulos, uma fã de carteirinha, escreveu este livro: um manual de sobrevivência voltado para quem é apaixonado por livros, filmes, séries de TV… Com uma linguagem rápida e divertida, Sou fã! E agora? é uma mistura de artigos breves e atividades interativas que convidam a refletir sobre os motivos para curtirmos tanto as histórias, além de ajudar a descobrir o que fazer com todo esse amor: criar seu próprio cosplay, escrever uma fanfic, organizar um evento, começar um blog ou canal e muito mais!

Reimpressões

Branca de neve e as sete versões, de José Roberto Torero
Tá gravando. E agora?, de Kéfera Buchmann
Macunaíma (nova edição), de Mário de Andrade
A queda dos reinos, de Morgan Rhodes
Por lugares incríveis, de Jennifer Niven
Lolita, de Vladimir Nabokov
Amor sem fim, de Ian McEwan
Amsterdam, de Ian McEwan
Costumes em comum, de E. P. Thompson
Depois a louca sou eu, de Tati Bernardi
Poemas, de Wislawa Szymborska
Sejamos todos feministas, de Chimamanda Ngozi Adichie
Steve Jobs, de Walter Isaacson
Trópicos utópicos, de Eduardo Giannetti
A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera
Felicidade dá lucro, de Márcio Fernandes
O menino no alto da montanha, de John Boyne

A descoberta do poeta

Por Inez Cabral

morte-e-vida

Cartaz original da peça Morte e vida severina.

O poema “Morte e vida severina”, de João Cabral de Melo Neto, foi publicado pela primeira vez em 1956, em Duas águas. Exatos dez anos depois, o espetáculo de mesmo nome recebia o grand prix do IV Festival Mundial de Teatro Universitário em Nancy, na França. A peça Morte e vida severina estreara no ano anterior no Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, com direção de Silnei Siqueira e música do jovem Chico Buarque de Holanda.

No texto a seguir, feito especialmente para o blog da Companhia, Inez Cabral conta como João Cabral reagiu ao pedido do grupo de teatro amador para montar e musicar seu poema.

Você encontrará outras histórias de João Cabral na coletânea A literatura como turismo, que será lançada juntamente com a edição especial de Morte e vida severina. Nela, entremeados aos poemas, breves memórias de Inez Cabral sobre sua convivência com o pai revelam a faceta mais íntima de um dos maiores poetas da literatura brasileira.

* * *

Genebra, uma noite qualquer do ano de 1964. O jantar está na mesa. Ao sair do escritório a caminho da sala de jantar, meu pai passa pelo termostato, confere a temperatura da calefação, confirma que as aspirinas estão no seu bolso e senta-se à mesa numa das cabeceiras. Na frente de seu prato, enfileirados em um batalhão, estão todos os comprimidos efervescentes ou não, cápsulas, pílulas e drágeas que costuma consumir, para que escolha quais vai tomar antes da refeição. Minha mãe lhe estende uma carta por cima da mesa. Ele deixa os remédios de lado e examina o envelope: Vem de São Paulo. Abre-o cuidadosamente com a faca e começa a ler a missiva. De repente se indigna:

— Querem botar música em Morte e vida severina!

— Para quê?

— Estão pedindo para montar a peça. É um grupo de teatro amador de São Paulo.

— Que ótimo! Pode deixar que eu redijo a autorização depois do jantar.

— Mas Stella, eles querem por música em meus versos!

— Você vai negar a autorização por causa disso?

— Eu detesto música, você está cansada de saber. Os versos vão mudar de ritmo e perder a força.

— Me deixa ler essa carta. Quem vai musicar é um rapaz novo, Francisco Buarque de Holanda. Será que é parente do Sérgio?

— Já sei! vou autorizar a montagem do texto, mas proibir de mudar a métrica dos versos. Se o rapaz conseguir…

E assim a autorização é enviada a Silney Siqueira, diretor do espetáculo que será montado pelo Tuca, grupo de teatro amador da PUC de São Paulo.

Alguns meses depois, já em 1966, recebo um telefonema de minha mãe no internato onde estudo e ela me diz:

— Já dei a autorização para você sair do colégio ainda hoje, você vai à França com seu pai e comigo.

— Que legal! Vamos fazer o que na França? E na França onde?

— Vamos a Nancy, assistir à montagem de Morte e vida severina por um pessoal de São Paulo. Seu pai quer que você venha conosco porque está preocupado, ele acha que você está europeia demais. Assim, vai entrar em contato com jovens brasileiros, você precisa disso.

— Então vou me arrumar, tem um trem que sai de Fribourg para Berna daqui a uma hora. Até já!

Na maior felicidade (nada melhor do que matar alguns dias de aula), em menos de meia hora estou pronta e na estação.

No dia seguinte, lá vamos nós de carro até Nancy, onde acontece o Festival Mundial de Teatro Universitário.

A peça será encenada daqui a dois dias. Durante esse tempo, assisto os ensaios, ouço falar português sem ser em casa, aprendo algumas gírias novas. O pessoal é absolutamente adorável e o compositor… enfim, o que dizer de Chico Buarque aos vinte e um anos, visto por uma garota de dezoito? Ainda tive a alegria e a honra de ouvi-lo cantar “Olê, Olá” só para mim.

No dia da apresentação, chegamos cedo ao teatro, que está lotado.

A peça começa. Legendas são projetadas no alto do palco. O silêncio na sala é total. Fico siderada, e reparo que meu pai, sentado a meu lado fica também. As músicas inseridas no texto são arrepiantes. Meu pai está pasmo, o rapaz não mexeu numa vírgula sequer, e comenta isso durante os aplausos. A peça é ovacionada em pé, o que não é uma reação muito normal para um público francês. Tudo o que ouço em volta de nós na plateia é:

— Quelle merveille!

— Incroyable!

— C’est d’une beauté!

Eu seria uma mentirosa se não confessasse o orgulho que senti do meu velho naquele momento. Nunca tinha lido o texto, apenas sabia que existia. Esse foi o dia em que descobri o poeta escondido dentro daquele que para mim era apenas o meu pai. O texto de Morte e vida severina precisou ficar dez anos dormindo, até ser despertado por um grupo de estudantes paulistas a quem serei eternamente grata por me apresentarem, há cinquenta anos atrás, o poeta João Cabral de Melo Neto.

* * * * *

 

Inez Cabral nasceu em Barcelona, na Espanha. Durante a infância estudou em vários países, acompanhando o pai diplomata. Cineasta, trabalhou na extinta TVE, participou da equipe de diversos filmes e dirigiu curtas-metragens como Romance policial brasileiro. É também tradutora e vive atualmente no Rio de Janeiro.