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Do catálogo: Garotos da fuzarca (Ivan Lessa)

Por Leandro Sarmatz

Há toda uma linhagem de escritor que faz tudo para não escrever. Conhece o tipo? O sujeito é bem dotado (opa: intelectualmente, literariamente), parece saber segredos pouco conhecidos do metiê, é apontado pelos seus contemporâneos como “o-cara-que-fará-o-grande-livro-de-sua geração”. Mas não faz. Mas negaceia. Mas se fecha em copas. E quando se vê, pfui, a vida passou. Morreu e cadê o livro? Ele queria mesmo deixar um livro? Todo um mistério.

É conhecido o caso de Roberto Bazlen, figura mítica do meio editorial italiano. Triestino cultíssimo, leitor e parecerista refinado, versado em Kafka, Benjamin, Freud e Proust, virou até personagem de um livro de Daniele del Giudice e é um dos bartleby arrolados no livro de Vila-Matas. Seus Scritti, publicados pela Adelphi de Roberto Calasso, compreendem os textos editoriais, aforismos e um romance inacabado. E foi tudo o que ele deixou.

Fortuna semelhante teve o gigante Ivan Lessa (1935-2012). Imenso, sim, porque sua voz era maleável e tinha embocadura como poucas em nossas letras, sua mente oscilava entre a nostalgia de um Rio que talvez só tenha existido em sua cabeça (uma Copacabana meio mítica e movida a cinema, música, sexo e outras mumunhas, anos 50, gibi, carnaval infantil) e comentários que denunciavam uma cultura que, antes do google, poderia ser chamada de enciclopédica. Além de tudo, ele fez parte da geração que, a partir do Pasquim, ajudou a reinventar a prosa brasileira na imprensa, sepultando o tom cerimonioso e anacrônico dos jornalões, tão cheios de pompa e tão descolados da realidade do idioma. A língua portuguesa de Ivan Lessa, Millôr, Paulo Francis, Sergio Augusto e cia — todos bem nutridos na crônica carioca dos mineiros e adjacentes e no essay anglo-americano, soltinho, antiacadêmico que só — trouxe a redenção para a gíria, espanou o beletrismo e ainda hoje, mais de quarenta anos depois, soa afiada, aguda e contemporânea.

Eis que em 1987, com mais de cinquenta anos nas costas, Ivan Lessa sai com esse Garotos da fuzarca. Que, claro, deve ter sido extraído a fórceps dele pelo comentarista Diogo Mainardi, organizador do volume. Abre parêntese: o Luiz Schwarcz passou por aqui para contar que, além de tudo, o livro de Ivan Lessa foi o primeiro título de ficção da Companhia das Letras. Fecha parêntese. Pois bem, mas como ia dizendo: Garotos da fuzarca, com contos (?) e crônicas cruéis (?) publicados pelo autor no Pasquim e em outras paragens, é um desses tesouros da literatura brasileira e — tamborilando nas teclas pretas da melancolia — um anúncio frustrado do que a obra monumental de Ivan Lessa poderia ter sido.

Sim, poderia, não foi, ai dele, ai muito mais de nós! Do primeiro conto, “A difícil arte de não escrever” (hmm), em que o menino filho de literatos (o fez-tudo Orígenes Lessa e a cronista de escol Elsie Lessa) relembra a São Paulo de Mário de Andrade, passando pela crueldade infantil em “Garotos da fuzarca” (eis um tema para estudos: a infância como território distópico na obra de Ivan Lessa e em Otto Lara Resende, esses nossos dois antiCasimiro de Abreu), a dublagem de uma mulher da elite-escumalha política em “Uma boneca ao relento”, entre outras delícias (só mais uma, please: o pornô nada chique em “Carlos Zéfiro na região dos Lagos com Edélsio Tavares”, verdadeiro cinquenta tons de Lessa), o que se enxerga é um escritor com pleno domínio, repertório, imaginação livre e aquela maldade (com grifo e tudo) que só as grandes personalidades literárias possuem. Os textos, alguns puxando para os lados do conto, outro para os arrabaldes da crônica, poderiam ser chamados de clássicos da prosa contemporânea brasileira se a obra de Ivan Lessa — esse tiquinho de obra que nos deixou, pois — fosse seriamente lida e estudada. E se o autor tivesse soltado mais alguns desses tesouros ao longo de sua vida.

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.