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Lady Gaga e o processo criativo

Por Laerte Coutinho


(Foto por Áron Balogh/SXC)

Numa entrevista à revista Rolling Stone, Lady Gaga diz que não faz análise porque não quer correr o risco de bloquear seu processo criativo.

Gosto dela — não tanto da música (sou meio pentelho nesse assunto), mas desse jeitão de dizer qualquer coisa sem medo e se comportar como se fosse uma celebridade milionária (coisa que ela é, mas funcionaria também se não fosse).
A Bia, linda travesti que mora aqui perto, age do mesmo jeito e também é fascinante.

Voltando ao assunto, uma vez o humorista Jaguar, meu mestre querido, disse coisa parecida. Que tinha receio de não conseguir mais escrever e desenhar se viesse a “conhecer a si mesmo”.

Confesso que já senti o mesmo.
Ao longo da vida, sempre fiz alguma forma de terapia — análise, mesmo, só recentemente —, mas sempre sob o bafo desse medo.

Achava que o fluxo das ideias e dos sentimentos que produzem uma história, um desenho, passa necessariamente pela zona de sombra e dubiedade da nossa loucura particular — e que tentar acessar algum ponto de clareza pode desmobilizar esse ímpeto, interromper este fluxo.

Achava que a doideira precisa ser doida mesmo, pra que não se cubra do clichê das convicções gerais, das ideias prontas, do bom-senso óbvio e tedioso.

Hoje suspeito do contrário.
Ou melhor, suspeito que existam essas duas possibilidades, em momentos diferentes da vida — ou em pessoas diversas, como diversas são as pessoas nesse mundo.

Sinto que existe um cenário de dificuldade — o famoso bloqueio criativo — que é resultado justamente da falta de acesso às nossas áreas malditas.

Porque ali se encontram horrores, sim — mas também a razão que nos faz dar os passos que damos, escolher as palavras ou os traços que escolhemos.
Ali estão nossos medos e a nossa saída.

Margaret Atwood, em seu livro Negociando com os mortos, discorre sobre o movimento que fazem os escritores em busca de sua literatura, da força vital em sua literatura — e sobre a necessidade desse mergulho.
É essa a essência do primeiro romance da história, a epopeia de Gilgamesh — o mergulho, o retorno e o relato.

O quadrinista Lourenço Mutarelli afirma ter ido ao inferno, voltado e marcado o caminho pra poder transitar quando precisa.

Lady Gaga pode não ter feito análise, mas, pela força da sua arte (eu sou meio pentelho mas sei reconhecer…), certamente achou sua própria trilha no mapa complexo das mentes e dos corações.

[Texto originalmente publicado pelo Jornal de Colombo em 29 de setembro.]

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Laerte nasceu em São Paulo, em 1951. É autor de histórias em quadrinhos, cartuns, ilustrações e textos. Ele mantém o blog de tiras Manual do Minotauro.

Semana vinte e dois

Todos os homens são mentirosos, de Alberto Manguel (Tradução de Josely Vianna Baptista)
O ponto de partida do novo romance de Alberto Manguel é a história secreta de Alejandro Bevilacqua, misterioso autor de um único livro, que se matou no exílio em Madri. Caído no esquecimento, o escritor desperta a curiosidade de um jornalista francês, que decide escrever um livro sobre ele. As fontes são quatro pessoas que conviveram com Bevilacqua e prometem revelar segredos importantes. Enquanto o jornalista constata a impossibilidade de montar o quebra-cabeças das lembranças alheias, confundido entre equívocos e mentiras, Manguel demonstra com maestria a possibilidade de um romance dar vida nova ao passado — uma vida verdadeira, apesar de ficcional.

Palhaço, macaco, passarinho, de Eucanaã Ferraz (Ilustrações de Jaguar)
Palhaço é palhaço, macaco é macaco, passarinho é passarinho. Mas será que existe alguma coisa em comum entre eles? O poeta Eucanaã Ferraz acha que sim. E, ainda por cima, acredita que todo mundo tem um pouco dos três. A partir desses personagens, e de estruturas frasais simples, Eucanaã cria uma espécie de jogo de sintaxe em que, a cada página, palavras são trocadas de maneira a criar novos sentidos. As ilustrações são de Jaguar, que, apesar do nome de onça, faz coisas engraçadas e às vezes mais parece um macaco. E o macaco parece um palhaço que parece um passarinho. Deu para entender?

É um livro, de Lane Smith (Tradução de Júlia M. Schwarcz)
Ganha uma bolacha recheada quem responder primeiro a seguinte pergunta: qual O Assunto do Ano no mercado editorial? Sim, estamos falando do futuro do livro, dos tais e-books e a proposta de revolução que trazem consigo. E o que será do livro? E o que será dos direitos autorais? E o que será das prateleiras? E o que será dos pobres marcadores de página?! Muitos aproveitam a onda para reafirmar seu amor às letras impressas em papel, e dizem que o livro é uma espécie de deus grego: não morre nunca. Sem enveredar pelas malhas da vidência, mas deixando claro que um livro é um livro e isso basta, Lane Smith criou uma história ilustrada, tanto para crianças quanto para adultos, sobre o nosso velho e bom — e amado — livro. Aquele que, ao contrário dos produtos eletrônicos, não apita, não interage, não conecta nem retwitta. Mas que, só pela emoção da narrativa e das imagens, prende a atenção (e ainda rouba o coração) de qualquer um. Veja abaixo o trailer o livro:

Quimonos e Yumi, de Annelore Parot (Tradução de Eduardo Brandão)
Dois livros apresentam às crianças palavras e costumes japoneses a partir das kokeshis, bonequinhas típicas do país. Buracos nas páginas escondem fantasias; abas revelam o interior das casas; e recortes especiais sugerem algumas atividades, como encontrar as joaninhas que fugiram e descobrir qual a yukata — espécie de quimono levinho que se usa após o banho — de cada kokeshi. Com capa dura acolchoada, com uma tira de couro costurada, o livro é supercaprichado nos mínimos detalhes, assim como o são essas bonequinhas japonesas.