james joyce

No esquenta do Ulysses

Por André Conti

Por muitos anos tornou-se uma convenção dizer que Ulysses é um livro chato. Seja pela dificuldade ou pelo tamanho, seja porque Finnegans Wake, o romance seguinte de Joyce, sedimentou de vez a fama do autor de inacessível, cifrado e esotérico. Como se ler Ulysses fosse pedante ou sinal de pretensão e o diabo.

Às vezes a reputação que antecede uma obra pode ser muito prejudicial. Toda a história da publicação do Ulysses e a própria personalidade espalhafatosa do autor colaboraram para isso. O livro passou anos proibido por acusações de indecência, e teve defensores (Ezra Pound, T.S. Eliot) e detratores (Virginia Woolf, Gertrude Stein) de peso. Passados quase cem anos de seu lançamento, ele ainda carrega o fardo dessas polêmicas.

O tipo de fama a qual Joyce foi alçado depois do Ulysses também era bastante incomum para a época. A discussão extrapolou o campo da crítica: gostar ou não do livro era quase como se posicionar politicamente nas eternas questões do nacionalismo irlandês. O autor, que ademais era um pândego, se aproveitava da situação. A um amigo, declarou que os críticos passariam décadas sem decifrar Ulysses. A outro disse que, depois do romance, sentia que podia fazer “o que quisesse” com a língua inglesa.

No caso do Joyce, é praticamente impossível dissociar vida e obra do autor. Quando foi convidado pelo poeta W.B. Yeats para um café — a maior distinção literária da época —, aguentou alguns minutos do encontro até declarar, joyceanamente, “O senhor está velho demais para ser influenciado por mim”. Há dezenas de anedotas como essa, que lançam luz no tipo de humor que é parte integral do livro.

Porque a verdade é essa: Ulysses é antes de tudo um livro engraçado, como seu autor foi em vida. A mulher de Joyce, Nora Barnacle, lembra de ouvir o marido rindo sozinho durante a escrita do romance, o que é um indicativo poderoso das intenções do autor. Ainda voltarei ao processo de edição do livro, já que ficarei nisso pelos próximos meses, mas a intenção agora era dizer isso. Que não há nada de pedante em ler e gostar do Ulysses. Que a dificuldade (e ela existe, claro) é amplamente recompensada, de um modo que poucas obras literárias tiveram ambição (e sucesso) em alcançar.

O crítico Declan Kiberd disse algo muito verdadeiro sobre o livro: Ulysses te dá de volta exatamente o esforço que você deposita nele. É possível lê-lo como um romance, cruamente, e tirar algo disso. É possível, numa segunda camada, lê-lo ao lado da Odisseia, traçando todos os paralelismos entre as duas obras. É possível ainda embrenhar-se na realidade social irlandesa do início do século XX e tirar ainda outra leitura. É possível ler São Tomás de Aquino e Aristóteles e se perder menos no terceiro capítulo. Cada degrau desses amplia os significados do livro, expande suas possibilidades narrativas, conduz o leitor ao (prazeroso) labirinto ficcional que é o Ulysses.

A operação que torna isso possível é relativamente simples. Seja quão profunda você decidir que será sua leitura, Ulysses funciona porque é um livro sobre nós. Ao recriar de maneira meticulosa um dia específico de uma cidade específica na vida de um homem específico, Joyce bateu o mais preciso retrato que conheço de quem somos enquanto espécie. No 16 de junho de 1904 em que se passa a ação do livro, tudo que é possível existir numa vida acontece: pessoas nascem e morrem, se apaixonam, são traídas, cometem pequenos e grandes delitos, levam suas vidas públicas e voltam-se à mais particular vida íntima.

O sr. Bloom não é um homem comum que representa a todos nós. Ele é, única e exclusivamente, o sr. Bloom. Mas o acesso que Joyce nos permite a ele — por meio de uma série de manobras estilísticas — universaliza a experiência humana e nos insere, com toda nossa mesquinhez, com nossas manias abjetas, nossos grandes (e secretos) fracassos e nossas vitórias microscópicas, no centro do que é estar vivo e apreender a realidade a nossa volta. Tudo isso, como eu disse, num humor desconcertante e muitas vezes pueril (e dá-lhe piada com peido, dedo no nariz, micção pública e afins).

Como em qualquer livro, para ler Ulysses basta abri-lo na primeira página e seguir até a última. Esqueça os paralelismos com a Odisseia. Esqueça que o conjunto dos dezoito episódios forma um corpo humano. Esqueça as dezenas de variações de estilo, o exibicionismo linguístico, as referências cifradas a acontecimentos obscuros e esquecidos. Ulysses não foi escrito para revolucionar o romance moderno. Ele revolucionou o romance moderno porque coloca todas essas questões a serviço de algo maior: falar, da maneira mais cândida e terna e divertida possível, de quem você é. O resto fica para uma segunda (e terceira) leitura.

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André Conti é editor da Companhia das Letras. Trabalha nos selos Quadrinhos na Cia. e Penguin-Companhia, entre outros projetos.

Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal chamada Editando Clássicos.

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