jamil chade

O jornalismo não vai acabar

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No Dia do Jornalista, convidamos o correspondente internacional de O Estado de S. Paulo Jamil Chade para responder três perguntas sobre o papel do jornalismo investigativo na defesa de temas de interesse público e o futuro da profissão em um mundo com novas dinâmicas de comunicação. A partir de sua experiência como repórter radicado na Suíça há mais de quinze anos, Chade reuniu um farto material sobre a corrupção no futebol mundial e brasileiro, que deu origem ao livro Política, propina e futebol – Como o “Padrão Fifa” ameaça o esporte mais popular do planeta, publicado pela Objetiva.

Em 2011 e 2013, Jamil Chade foi premiado como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se. Com viagens a mais de 65 países, já cobriu missões de presidentes brasileiros no exterior, viajou com Papa Bento XVI e Papa Francisco ao Brasil, percorreu a África com o secretário-geral da ONU, Ban Ki Moon, acompanhou refugiados no Iraque, Somália, Darfur e Libéria, e centenas de outras histórias. Suas reportagens sobre os bastidores do esporte mundial renderam ao repórter diversos prêmios, além de participações na CNN, BBC, canais espanhóis, canadenses, suíços e de diversos países. Atualmente, faz um amplo trabalho de cobertura do escândalo Panama Papers e suas múltiplas implicações diretamente da Europa. Chade também indica cinco títulos indispensáveis no segmento de jornalismo publicados pelo Grupo Companhia das Letras. Vale conferir.

Qual a importância do jornalismo investigativo nas revelações da corrupção na Fifa? E quais os principais resultados alcançados até aqui?

Quando, em maio de 2015, a Justiça americana revelou seu caso contra os dirigentes da Fifa e de várias federações, os poucos jornalistas que passaram anos cobrindo a administração do esporte e denunciando a corrupção tiveram um amplo sentimento de alívio. Por fim, a polícia agia sobre temas que nós já tínhamos denunciado e que, por isso, tínhamos sido alvos de pressão, de campanhas sujas e de ameaças.

Uma parte substancial das denúncias do FBI já era conhecida da imprensa e publicamos várias das histórias que, de repente, o mundo passava a descobrir com as revelações da Justiça americana.

A operação nos deu muita força e, desde então, mais de uma dezena de dirigentes foram derrubados, estão foragidos ou presos. O impacto foi profundo e, acima de tudo, legitimou o trabalho que estávamos fazendo. A limpeza no futebol não acabou. No fundo, ele está apenas começando e ainda não está garantido que grupos criminosos sejam de fato retirados do controle do esporte.

Ao jornalismo investigativo, não caberá outra função senão a de continuar buscando a verdade. Seu papel no esporte continua sendo o de informar ao torcedor e aos cidadãos o que de fato aquela partida representa. Em muitos casos, o que está em jogo não é um troféu. Mas recursos públicos e até o sequestro da emoção legítima do torcedor.

O jornalismo vive uma crise e há os que profetizam o fim dos jornais. O caso recente do Panama Papers é um exemplo da contribuição da imprensa no mundo. Quais as perspectivas para o futuro do jornalismo?

Não existe a mais remota possibilidade de o jornalismo acabar. Sim, ele passa por uma revolução. Sim, a avalanche de informações é inédita. Mas, por isso mesmo, nunca foi tão necessária a presença de um profissional para apurar o que é falso ou verdadeiro, o que é manipulação e o que é a história por trás de um gesto.

O Panama Papers, o Wikileaks, o Swissleaks, Edward Snowden, o Luxleaks e outros fazem parte de um mesmo movimento: o reforço da missão jornalística de consolidar a cidadania. Sempre digo que temos o dever — e o privilégio — de defender a liberdade de expressão, de servir ao interesse público, de incentivar o debate público, sempre agindo com responsabilidade. O oxigênio da democracia, como diria Rui Barbosa, sempre será necessário.

Para aqueles que profetizam o fim dos jornais, dos jornalistas, peço apenas que perguntem ao ex-primeiro ministro da Islândia o que ele acha. Foram revelações da imprensa que levaram à sua queda. No dia seguinte às revelações na imprensa sobre o novo presidente da Fifa, Gianni Infantino, a polícia suíça fez uma operação na sede da Uefa e um membro da entidade renunciou.

Neste ano, tivemos duas grandes vitórias. A primeira foi com o Oscar para o filme Spotlight, que mostrou as entranhas, os medos, a apuração, a seriedade, as frustrações e o suor de um grupo de jornalistas que apenas queria revelar a verdade.

A segunda vitória foi mais simbólica para o futuro: a capacidade de colocar mais de 300 jornalistas para agir ao mesmo tempo nos quatro cantos do mundo e, graças àquela mesma tecnologia que em teoria mataria os jornais, produzir um material — o Panama Papers — capaz de estremecer governos e corporações.

Com a adaptação necessária diante das novas tecnologias, o jornalismo não apenas não desaparecerá, mas será fortalecido. E agora com um impacto global.

Como é a rotina de um jornalista investigativo brasileiro na Europa? E como você vê a imprensa hoje no Brasil?

Paciência, precisão e insistência, além de um fígado resistente. Essa é a real rotina de um jornalista investigativo. Nenhuma dessas grandes reportagens nascem da noite para o dia. Lembro-me sempre de uma informação que recebi em 2008 sobre um esquema de corrupção envolvendo o futebol e contas em Andorra. Passei a buscar isso de forma constante, por vários canais e fontes. Tive de esperar até 2014 para ter as provas e publicar o material. O resultado foi que o principado de Andorra foi obrigado a retirar o visto de residência da pessoa implicada por conta da história. Assim como na Europa, a imprensa escrita no Brasil também mergulhou na direção de que, para sobreviver, terá de trazer conteúdo, profundidade e revelações exclusivas. Com responsabilidade e senso de cidadania, esse jornalismo não corre qualquer tipo de risco de desaparecer.

* * *

Leituras recomendadas por Jamil Chade:

A sangue frio, de Truman Capote

Vida de escritor, de Gay Talese

A milésima segunda noite da Avenida Paulista, de Joel Silveira

A face da guerra, de Martha Gellhorn

O xá dos xás, de Ryszard Kapuscinski

Semana duzentos e setenta e oito

Gratidão, Oliver Sacks (Tradução de Laura Teixeira Motta)
Durante os últimos meses de sua vida, Oliver Sacks escreveu uma série de ensaios nos quais explorou de maneira comovente seu percurso pessoal para concluir a vida e enfrentar a própria morte da melhor forma. Este livro traz quatro textos publicados no New York Times entre julho de 2013 e agosto de 2015, pouco antes de ele morrer. Juntos, formam uma ode à singularidade de cada ser humano e de gratidão pelo dom da vida. Sacks reflete sobre o significado de levar uma existência que valha a pena.

Objetiva

Entre o mundo e eu, Ta-Nehisi Coates (Tradução de Paulo Geiger)
Ta-Nehisi Coates é um jornalista americano que trabalha com a questão racial em seu país desde que escolheu sua profissão. Filho de militantes do movimento negro, Coates sempre se questionou sobre o lugar que é relegado ao negro na sociedade. Em 2014, quando o racismo voltou a ser debatido com força nos Estados Unidos, Coates escreveu uma carta ao filho adolescente e compartilha, por meio de uma série de experiências reveladoras, seu despertar para a verdade em relação a seu lugar no mundo e uma série de questionamentos sobre o que é ser negro na América. O que é habitar um corpo negro e encontrar uma maneira de viver dentro dele? Como podemos avaliar de forma honesta a história e, ao mesmo tempo, nos libertar do fardo que ela representa? Em um trabalho profundo que articula grandes questões da história com as preocupações mais íntimas de um pai por um filho, Entre o mundo e eu apresenta uma nova e poderosa forma de compreender o racismo. Um livro universal sobre como a mácula da escravidão ainda está presente nas sociedades em diferentes roupagens e modos de segregação.

Política, propina e futebol, Jamil Chade
Em maio de 2015, a maior organização esportiva do planeta era alvo de uma ação da polícia suíça. Segundo investigações americanas, a Fifa havia montado uma “Copa do Mundo da fraude”, movimentando durante 24 anos pelo menos 150 milhões de dólares em propinas e subornos. As prisões e acusações levaram à renúncia do presidente da entidade, Joseph Blatter. Com base em quinze anos de cobertura jornalística da Fifa e a partir de documentos exclusivos, Jamil Chade desvenda como funcionava o pagamento de propinas, revela de que forma.

Seguinte

Nova ordem – Mundo Novo Vol.2, Chris Weitz (Tradução de Álvaro Hattnher)
Jeff e Donna são resgatados por sobreviventes da Doença e descobrem que o mundo além dos Estados Unidos está bem diferente do que imaginavam: por lá são muitos os que conseguiram escapar do vírus. Algumas pessoas se unem para derrubar os governos vigentes, causando uma onda de tumultos ao redor do planeta. Para piorar, em meio ao caos do resgate da Marinha, eles se separam.
Jefferson volta para Nova York e tenta levar a Cura para a tribo da Washington Square, sonhando em reunir todas as tribos e criar uma nova nação. Donna, por sua vez, é levada para a Inglaterra pelo governo inglês, que oferece uma vida normal em Cambridge em troca de informações. Mas um desastre ainda maior que a Doença está prestes a acontecer, e Donna e Jefferson só poderão evitá-lo se acharem o caminho de volta um para o outro.