jane austen

Semana duzentos e dezenove

Mansfield park, de Jane Austen (Trad. Hildegard Feist)
Na literatura, esperamos que o herói seja vigoroso, tenha um espírito aventureiro, audácia, bravura, capacidade de superação e uma pitada de imprudência. Ele deve ser ativo, enfrentar obstáculos e afirmar a própria energia. Fanny Price, a heroína de Mansfield Park, é o oposto de tudo isso.
Frágil, tímida, insegura e excessivamente vulnerável, a pequena Fanny deixa a casa dos pais pobres para morar com os tios mais afortunados em Mansfield Park. Lá, convive com diversos familiares, mas se aproxima apenas do primo Edmund, seu companheiro inseparável. A tranquilidade de casa, no entanto, é abalada com a chegada dos irmãos Mary e Henry Crawford em uma propriedade vizinha. Edmund se apaixona por ela, enquanto Henry flerta com todas as moças. Mansfield Park é o romance que marca a maturidade de Jane Austen. Apresenta um tom mais contido, sardônico, em comparação com obras idealizadas antes, como Orgulho e preconceitoRazão e sensibilidade. Aqui, mais consciente dos verdadeiros males e sofrimentos inerentes à vida em sociedade, uma das maiores autoras da língua inglesa enaltece, na figura de Fanny, a imobilidade, a solidez, a permanência e a resignação.

O pirata e o farmacêutico, de Robert Louis Stevenson (Trad. Eduardo Brandão)
Neste poema inédito de Robert Louis Stevenson, o autor de A ilha do tesouro, as crianças conhecerão Robin e Ben: amigos que cresceram juntos mas, como muitas vezes acontece, acabaram tomando caminhos opostos. Com toda a aventura, ação e fantasia desta história, não vai ser difícil mergulhar na vida desses dois simpáticos – apesar de um pouco violentos – personagens e se deleitar com as ilustrações incríveis do artista alemão Henning Wagenbreth.

O livro do contra, de Atak
Este livro é meio do contra – até lembra certas crianças que todos conhecemos. Gosta de contar histórias sobre um mundo de pernas para o ar. Em suas ilustrações, o rato caça o gato; o urso polar vive no mato; o trem voa nos ares e o avião desliza nos mares. O bombeiro apaga a água com fogo e a Chapeuzinho caça o pobre do lobo. Que bagunça! O leitor vai dizer: quanta barbaridade! Mas, cada vez que descobrir uma mentira da boa, vai aprender um pouco sobre o mundo de verdade.O autor deste livro é um renomado artista alemão, e para a edição brasileira ele fez uma ilustração especial inspirada no nosso país.

Editora Seguinte

Coração ardente, de Richelle Mead (Trad. Guilherme Miranda)A alquimista Sydney Sage não é mais a mesma. Criada desde criança para desprezar os vampiros, ela acabou vencendo seus preconceitos em sua última missão, durante a qual foi obriada a conviver diariamente com essas criaturas. Aos poucos, ela não só criou laços de amizade com vampiros como acabou se apaixonando por um deles e, surpreendendo até a si mesma, decidiu levar o relacionamento adiante, em segredo.  Tudo se complica quando Zoe, sua irmã, se junta à missão. Apesar de querer resgatar a amizade entre elas, Sydney conseguirá manter essa vida oculta por muito tempo? A ameaça de ser descoberta – e mandada para a terrível reeducação – é maior do que nunca.

O impassível Sr. Darcy

O protagonista esnobe e rabugento de Orgulho e preconceito está fazendo duzentos anos — e nunca esteve tão bem. Qual o seu segredo? A jornalista e romancista Allison Person ensaia uma resposta. Veja ao final do post como concorrer a 2 exemplares deste clássico.

Numa noite invernal de 1995, jantei com o sr. Darcy num acolhedor restaurante italiano em Covent Garden. Mal toquei na comida, tão absorta em devorar o homem a meu lado. Seu porte era elegante, os gestos, a um só tempo, contidos e envolventes, os olhos, duas lagoas profundas nas quais seria um prazer afundar. Do que me lembro, apaixonei-me por Darcy pela primeira vez há uns vinte anos, e agradeci aos céus por ainda conseguir lembrar o que ele apreciava em uma mulher. “Seja jovial e interessante”, recomendei a mim mesma. Jovial e interessante. Como Elizabeth Bennet.

No restaurante, as mulheres faziam intricados desvios para chegarem ao lavabo, a fim de poderem passar rente à nossa mesa e olhá-lo de frente. Ele admitiu seu desconforto por ser o objeto desse tipo de fascínio vulgar.

“Não se preocupe”, eu disse, citando (e torcendo para soar jovial e interessante) o início da devastadora carta de Darcy a Lizzy após ela ter recusado seu pedido de casamento. “É melhor ir se acostumando a todo esse assédio.”

A bem da verdade, minha companhia naquela noite não era de fato o sr. Darcy, e sim Colin Firth, ator que recentemente irrompera para a fama — ou, mais apropriadamente, emergira direto para ela ao sair de um lago em uma camiseta justa e molhada — ao interpretar Darcy na adaptação de Orgulho e preconceito dirigida por Andrew Davies para a BBC. Finda a filmagem, Firth se ausentou do país para um trabalho no exterior. Ao retornar, a Inglaterra já estava rendida à Darcymania. Ao pedir a ele que comentasse sobre o assédio, Firth assumiu a expressão levemente cordial de um simples mortal que sabe estar levando o crédito pela força de um personagem ficcional (a mesma expressão apresentada atualmente por Robert Pattinson, o astro dos filmes da série Crepúsculo). Sujeito modesto, Firth contou o que aconteceu ao dizer a sua velha tia, uma devota de Jane Austen, ter sido escolhido para o papel de Darcy. “Não seja tolo, Colin”, a tia respondeu, ferina. “O sr. Darcy é bonito e atraente de doer.”

Faz duzentos anos que “o mais orgulhoso e antipático homem do mundo” adentrou os salões de Hertfordshire e recusou a dança com a srta. Bennet por ela ser “razoável; mas não […] bonita o bastante para me tentar”. A idade não tirou o vigor do sr. Darcy, nem a inflação reduziu o poder de suas 10 mil libras anuais — meio milhão em valores atualizados. Desde então, o romance de Darcy e Elizabeth estabeleceu o padrão para as histórias de amor com percalços: pavimentar o caminho para o encontro de duas mentes afins com um bocado de obstáculos, removendo-os a seguir um por um. Em Orgulho e preconceito, a posição social inferior de Lizzy (e alguns parentes desagradáveis) e a soberba de Darcy são o que os mantêm separados por alguns dos mais inebriantes capítulos da língua inglesa.

Fui apresentada a Fitzwilliam Darcy aos dezesseis anos. Não foi amor à primeira vista; e nem era pra ser. O gênio de Austen em Orgulho e preconceito consiste em ela nos apresentar Darcy do ponto de vista ultrajado de Elizabeth. Enquanto Lizzy vai confirmando sua convicção de que esse arrogante dono de uma vasta propriedade em Derbyshire não passa de um mau partido, um mortificado Darcy vai percebendo estar cada vez mais atraído por aquela jovem vivaz. “Mas, assim que admitiu claramente para si e seus amigos que ela não tinha um traço de beleza no rosto, começou a perceber que se tornava um rosto extraordinariamente inteligente, pela bela expressão de seus olhos escuros.”

Nenhum autor conseguira até então fazer o público sentir como a química da atração amorosa começa a se insinuar e crepitar, não importando a resistência oferecida por seus elementos. Darcy e Elizabeth não foram concebidos apenas para os anos 1800, mas para todo o sempre. Eis-los aqui, em 1954, apanhados pelo grande letrista Johnny Mercer: “When an irresistible force such as you/ Meets an old immovable object like me/ You can bet as sure as you live./ Something’s gotta give/ Something’s gotta give.” [Quando essa força irresístivel que é você/ Encontra este velho impassível que sou eu/ Pode apostar que enquanto você viver./ Alguém terá que ceder/ Alguém terá que ceder.]

Lizzy Bennet é a força irresistível que toda garota secretamente quer ser. Da perspectiva da meia idade, creio ser esta a mais perene de todas as fantasias femininas: achar um cara orgulhoso e durão e fazer com que ele ame a nós, e somente a nós. Afinal, quem é Christian, o bilionário distante de Cinquenta tons de cinza, senão um Darcy que tem um quarto vermelho da dor no lugar de um jardim guarnecido?

Pelo menos foi essa a minha reação adolescente ao sr. Darcy. Coisa séria para uma garota devoradora de livros angustiadamente cheia de si nos anos 1970. Antes de ler Orgulho e preconceito, minhas noções de romance vinham das fotonovelas da revista Jackie e de encontros promovidos por amigos do candidato a pretendente na lanchonete do bairro. “O Dave tá a fim de você. Tá a fim de uns amassos com ele, hein?”

O coração não palpitava à abordagem de Dave e seu bafo de salgadinhos. Todas as garotas são romancistas românticas, a imaginar febrilmente seus próprios futuros. Decepcionada com Dave e seu eu cheio de espinhas, comecei a elaborar intricadas fantasias de sedução dirigidas ao rosto de David Cassidy — bonito, rico, maravilhosamente inacessível. Implausíveis como fossem, esses roteiros transbordavam de desejo ardente. Assim, ao ler a obra-prima de Austen pela primeira vez, deparei-me ali com algo que já sabia, mas não conseguira ainda expressar tão bem.

Não creio ter sido uma coincidência que Jane Austen tivesse a mesma idade de Elizabeth Bennet, vinte anos, ao escrever a primeira versão de Orgulho e preconceito. Quando o romance foi revisado e publicado, em 1813, ela já contava 37 anos, uma velha solteirona. Austen tivera seus dias no mercado do casamento, aquele circo de carne jovem, ganhos e conexões. Dotes como os dela não possuíam valor de troca naquele tempo e lugar históricos. O proprietário de uma Pemberley real jamais se dignaria a notar uma mulher brilhantemente inteligente, de origem humilde, que fora obrigada a se mudar de sua terra natal em razão das brutais regras de herança masculina. Em sua ficção, Austen podia não só denunciar a situação, como também mostrar o caminho certo.

Sempre me dá vontade de chorar quando leio a parte em que Elizabeth diz a Darcy que sua ideia de uma mulher talentosa é de tal forma elevada: “Sim, abarca muita coisa. […] Deve possuir tudo isso, e a tudo isso deve acrescentar algo mais substancial, o aperfeiçoamento de suas qualidades intelectuais por meio de muita leitura.”

Muita leitura? Oh, Jane, bendita seja. Obrigada, autora querida, por dar seu recado a todas as garotas loucas por livros, por gerações, à espera de multimilionários bonitões prontos a serem postos de joelhos por nosso conhecimento profundo da literatura do século XVIII.

Fantasia? Claro que sim. Ninguém mais do que a tia Jane, ao editar seu texto num quarto gélido, sabia que Fitzwilliam Darcy não viria em seu socorro. Dá até para ver o sorriso irônico da romancista no momento em que perguntam a Lizzy em que momento ela soube que estava apaixonada pelo sr. Darcy. “Creio que a data precisa foi a primeira vez em que vi a sua bela propriedade em Pemberley”, responde nossa jovial e esperta heroína. Garota de sorte.

Austen morreu quatro anos após a publicação de Orgulho e preconceito. Mas o amor de Darcy por Elizabeth é imortal. Por quê? Porque sua criadora escolheu acreditar que um homem podia amar uma mulher por aquilo que ela era, e, ao acreditar nisso, e escrever isso com talento transcendental, ela fez disso a realidade. Foi assim há duzentos anos e é assim que sempre será. Enquanto houver impassíveis objetos masculinos e irresistíveis forças femininas, pode apostar sua vida, alguém terá que ceder.

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Allison Pearson é colunista do Daily Telegraph e autora de dois romances, Não sei como ela consegue e I think I love you. Texto publicado originalmente na revista Inteligent Life, edição de janeiro/fevereiro 2013. Tradução de Carlos Alberto Bárbaro.

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Concorra a 2 exemplares de Orgulho e preconceito na edição da Penguin-Companhia. Deixe um comentário até a meia-noite de hoje (28 de janeiro) respondendo a seguinte pergunta: por que o encanto pelo sr. Darcy continua até hoje, 200 anos após a publicação do livro? Escolheremos as 2 melhores respostas e anunciaremos os vencedores amanhã, neste mesmo post.

[Editado dia 29 de janeiro, às 17h10]

Obrigado a todos que participaram! As respostas escolhidas foram:

“Justamente por Darcy provar que é possível um homem gostar de uma mulher pelo que ela é, por provar que o orgulho não é tudo e que muitas vezes uma primeira impressão pode estar errada. Todos gostamos de imaginar um homem que seja mais do que aparenta, que nos ame pelo que somos, que queira descobrir o que somos de verdade. E Darcy ultrapassa os preconceitos de Lizzie Bennet para isso.” — Camila Loricchio

“Porque o Sr Darcy supera atitudes orgulhosas e preconceituosas com uma postura inteligente e verdadeira. Inteligência e sinceridade nunca saem de moda. Pelo contrário, são qualidades cada vez mais valorizadas, porque são cada vez mais raras. Para os mais otimistas, o Sr Darcy não perde o encanto, porque é inspirador. Já os mais pessimistas buscam no herói de Jane Austen um alento de algo que lhes parece existir apenas no mundo da ficção. Inspiração ou nostalgia, o fato é que o Sr Darcy resistiu a dois séculos de mudanças e, ao que tudo indica, resistirá a pelo menos mais dois.” — Gabi

Parabéns! Entraremos em contato por email.

Bate-papo: Jane Austen e tradução

Assista ao bate-papo sobre Jane Austen e tradução, com a editora Vanessa Ferrari e o tradutor Alexandre Barbosa de Souza.

Semana cento e onze

Os lançamentos desta semana são:

O convidado de Raposela, de Alex T. Smith (Trad.  Érico Assis)
Quando Raposela DaMatta convida O Ovo para um lanchinho, na verdade ela está bolando um saboroso plano para transformá-lo em café da manhã! Mas Raposela não sabe o que a aguarda quando, na manhã seguinte, O Ovo começa a rachar… Uma história de eriçar as penas!!

Os cristãos e a queda de Roma, de Edward Gibbon (Trad. José Paulo Paes e Donaldson M. Garschagen)
Entre as causas da decadência irreversíveldas instituições imperiais romana, a partir do século III d.C., o historiador inglês Edward Gibbon (1737-94) destaca a rápida expansão da religião cristã. O cristianismo, poucas décadas depois da morte dos apóstolos, não passava de uma pequena seita judaica. perseguida pelas autoridades e radicada sobretudo nas regiões periféricas do Império. Gradativamente, o grande crescimento do número de crentes ocasionou a formação de uma verdadeira confederação de repúblicas episcopais, que acabaria por conquistar o poder secular de Roma e proscrever o culto de deuses como Apolo e Saturno. Neste esclarecedor capítulo de sua obra capital, Declínio e queda do Império Romano, Gibbon apresenta uma visão pioneira sobre o cristianismo primitivo e sua disseminação do Oriente para o Ocidente. Empregando com habilidade os escassos dados históricos disponíveis em sua época, o autor elucida os fatores que conduziram ao avanlo decisivo da Igreja cristã no território imperial.

Razão e sensibilidade, de Jane Austen (Trad. Alexandre Barbosa de Souza)
Razão e sensibilidade é o primeiro dos quatro livros publicados em vida por Jane Austen (1775-1817). Concebida em 1795 como romance epistolar, mas amplamente reformulada até 1811, quando foi editada na versão final, a história das venturas e desenganos amorosos das jovens irmãs Elinor e Marianne Dashwood já inspirou inúmeras adaptações teatrais e cinematográficas. Duzentos anos após sua primeira publicação, este clássico da ficção em língua inglesa segue apaixonando leitores com um enredo que explora temas como a virtude, o sofrimento e a redenção. Esta nova edição traz alentados textos introdutórios dos críticos e professores britânicos Tony Tanner e Ros Ballaster, especialistas em ficção inglesa dos séculos XVIII e XIX, além de notas explicativas sobre o texto, a autora e o contexto histórico.

Evolução política do Brasil e outros estudos, de Caio Prado Jr.
Em Evolução política do Brasil, Caio Prado Jr. estuda os acontecimentos cruciais do nosso processo de Independência. Ao investigar as potencialidades e os limites da ação política, o ensaio articula de modo fino as relações de poder e os constrangimentos estruturais à democratização do Estado nascente. Uma dialética entre conjuntura e processos de média e longa duração está em jogo, na qual os embates políticos do passado sempre têm consequências na definição do presente. O interesse de Evolução política do Brasil – livro de estreia de Prado Jr. e abordagem marxista pioneira em nossa historiografia – reside portanto não apenas no exame do contexto de fundação do Estado brasileiro, mas também no modo original de interpretação e análise. Esta edição baseia-se na terceira do clássico de Prado Jr., que em 1953 foi acrescida de nove escritos, como “A cidade de São Paulo” e “Roteiro para a historiografia do Segundo Reinado (1840-89)”.

Sorteio “Orgulho e preconceito” – vencedores


Ilustração de Hugh Thomson para a edição de 1894 de Orgulho e preconceito.

Mais de 200 pessoas leram o texto do tradutor Alexandre Barbosa de Souza e resolveram que estava na hora de ler Orgulho e preconceito. E os vencedores são:

Teresa Schembri e Carlos Alexandre Cavarzan Camêlo, parabéns! Cada um receberá um exemplar de Orgulho e preconceito editado pela Penguin-Companhia.

Obrigado a todos que participaram!

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