janet malcolm

14 livros para você ler no Dia do Jornalista

“Apesar de uma baixa difusão, os jornais tiveram e ainda têm uma inegável influência na vida do país. Eles foram, durante um século e meio, os principais meios de comunicação e de formação da opinião pública, e praticamente os únicos.Eram o fórum de debates do país, a ágora onde se discutiam os principais temas. Sua influência ia muito além das magras tiragens. O Brasil é um país de rica tradição oral, e no século xix era comum nas cidades do interior as pessoas se reunirem em lugares públicos para ouvir a leitura das notícias e dos folhetins que chegavam pelo correio, que depois seriam comentados nas praças, na rua e nas tabernas.

Os jornais contribuíram para a proclamação da Independência; para a definição da estrutura política e social; para a abdicação de d. Pedro I e seu retorno a Portugal; para a consolidação da Regência; para minar a Monarquia e instaurar a República; para acelerar a queda da República Velha; para derrubar Getúlio Vargas em 1945 e para seu suicídio em 1954; para o desgaste do governo Goulart e para a implantação de uma ditadura militar — papel de que se arrependeriam tardiamente.”

O trecho acima foi retirado do livro História dos jornais no Brasil, de Matias Molina, obra essencial para o jornalismo que acaba de ser lançada. No Dia do Jornalista, conheça mais livros com grandes histórias escritas pelos principais nomes do jornalismo mundial.

1) História dos jornais no Brasil, de Matias Molina

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Resultado de décadas de pesquisa de Matias Molina, História dos jornais no Brasil é o primeiro volume de uma trilogia que busca abarcar toda a história da imprensa no país, desde suas primeiras manifestações no Brasil colônia até os dias atuais. Este livro aborda a imprensa no período colonial, no tempo em que o Rio de Janeiro era sede da Corte, estende-se até a época da Independência, quando os jornais foram palco de renhidas disputas políticas, e termina com a ascensão de D. Pedro II ao poder, na década de 1840. Como epílogo, traz uma análise dos fatores que condicionaram o desenvolvimento da imprensa no país e ajudam a explicar a baixa penetração dos jornais na sociedade brasileira. Um livro para jornalistas, professores, estudantes e interessados na história da imprensa brasileira.

2) A sangue frio, de Truman Capote

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A grande obra de Truman Capote é um romance-reportagem que conta a história da morte de toda a família Clutter, em Holcomb, Kansas, e dos autores da chacina. Capote decidiu escrever sobre o assunto ao ler no jornal a notícia do assassinato da família, em 1959. Quase seis anos depois, em 1965, a história foi publicada em quatro partes na revista The New Yorker. Além de narrar o extermínio do fazendeiro Herbert Clutter, de sua esposa Bonnie e dos filhos Nancy e Kenyon – uma típica família americana dos anos 50, pacata e integrada à comunidade -, o livro reconstitui a trajetória dos assassinos. Truman Capote passou um ano na região de Holcomb, investigando e conversando com moradores, ele se aproximou dos criminosos e conquistou sua confiança. E assim escreveu A sangue frio, um marco na história do jornalismo e da literatura dos Estados Unidos.

3) Chê – uma biografia, de Jon Lee Anderson

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Aclamada internacionalmente, a biografia definitiva sobre Che Guevara, de Jon Lee Anderson, consegue transcender e retratar em detalhes um ser humano complexo. Em sua busca para descobrir quem era o verdadeiro líder revolucionário, Anderson se mudou para Havana e teve acesso a arquivos pessoais mantidos pela viúva de Che. Passou meses com velhos amigos de Che na Argentina, entrevistou seus companheiros de luta em Cuba, no Congo e na Bolívia, e conversou com personagens dos dois lados da Guerra Fria, em Moscou e na CIA. Publicado originalmente em 1997 e eleito o livro do ano pelo New York Times, a biografia traz informações que durante muito tempo permaneceram em sigilo, como a que revela como o corpo de Che havia sido escondido depois de seu assassinato em 1967.

4) Deu no New York Times, de Larry Rother

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Deu no New York Times é fruto das experiências vividas pelo correspondente norte-americano Larry Rohter durante quase quatro décadas passadas no Brasil. Enviado do New York Times ao país entre 1999 e 2007, o jornalista já havia desempenhado a mesma função no final da década de 70 e no começo dos anos 80 na revista Newsweek e no jornal The Washington Post. Este livro reúne textos inéditos nos quais Rohter analisa o país sob a ótica de um jornalista experiente e profundo conhecedor da nossa nação, escrevendo sobre política, cultura, meio ambiente e raça, entre outros temas. O livro ainda traz algumas das melhores reportagens do correspondente sobre o Brasil e os brasileiros publicadas no jornal americano. Acompanhando os textos, o jornalista acrescenta comentários nos quais aproveita para dizer tudo que tinha vontade mas não podia, devido às restrições impostas por sua posição no NYT.

5) Vida de escritor, de Gay Talese

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Vida de escritor não é uma autobiografia convencional. Gay Talese, um dos maiores jornalistas norte-americanos, fala sobre o ofício da escrita e os reveses que acometem aos que por ele se aventuram. Entre as histórias que vão desde o jornalzinho da faculdade no Alabama às redações de grandes revistas como a New Yorker, Talese conta como passou meses apurando a história de Lorena Bobbit, que, num surto de fúria, cortou com uma faca de cozinha o pênis do marido. Ele se esfalfou para reconstituir a noite da agressão e tentou entrevistar todos os envolvidos no episódio. Enfurnou-se num quarto e escreveu uma longuíssima reportagem, enviou-a à revista e, no dia seguinte, acordou à tarde com um fax na porta: a diretora da revista recusava a reportagem, e sugeria que Talese fizesse um pequeno livro sobre o crime. Talese mostra como o fracasso é inerente à profissão, e como mesmo na autobiografia de um jornalista, o que importa são os outros.

6) Despachos do front, de Michael Herr

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Despachos do front é um visceral relato escrito pelo jornalista norte-americano Michael Herr sobre sua temporada no Vietnã como correspondente da revista Esquire. Considerado o mais brilhante tratamento literário sobre o Vietnã, o livro usa uma linguagem “suja”, repleta de gíria, jargão militar e do linguajar grosseiro e deturpado dos marines, para transmitir o caráter surreal de uma guerra pouco convencional, embalada por drogas e rock’n roll. Pois se o Vietnã foi palco de crueldades desumanas e baixas numerosíssimas, foi também, ironicamente, o lugar onde jovens vindos dos cantos mais remotos dos Estados Unidos escutaram The Doors, fumaram maconha e viveram, de certa forma, a experiência de suas vidas.

7) O jornalista e o assassino, de Janet Malcolm

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Janet Malcolm é uma das mais importantes jornalistas americanas do século XX. Em O jornalista e o assassino, ela narra a história de um médico, Jeffrey MacDonald, que, condenado pelo assassinato da esposa e das duas filhas, moveu um processo contra um jornalista que escrevera um livro sobre ele com base em entrevistas feitas durante o julgamento e na prisão. Colocando em pauta temas tão polêmicos quanto a ética do jornalismo e a liberdade de imprensa, o livro de Malcolm tornou-se um clássico instantâneo sobre a relação entre jornalismo e poder.

8) A milésima segunda noite da Avenida Paulista, de Joel Silveira

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A milésima segunda noite da avenida Paulista é uma coletânea de textos escritos ao longo da década de 40, em que Joel Silveira emprega, de forma inovadora no Brasil, recursos próprios da literatura. Dono de um estilo famoso pela mordacidade, o jornalista cobriu fatos que marcaram a vida política do país e, no Rio de Janeiro, conviveu com artistas e intelectuais como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga. Além de reportagens, o livro traz crônicas curtas e bem-humoradas sobre a vida cultural do Rio e textos situados entre o perfil e a entrevista, retratando escritores e artistas como Monteiro Lobato, Agripino Grieco, Antônio Nássara, Candido Portinari e João Cabral de Melo Neto.

9) O inverno da guerra, de Joel Silveira

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Joel Silveira tinha 26 anos quando foi escalado para cobrir a Segunda Guerra Mundial pelo Diário dos Associados. “Você vá, mas não me morra!”, foi o que ouviu do dono do jornal, Assis Chateaubriand, ao ser enviado para a Itália. Escrito como um diário de bordo, O inverno da guerra reúne as melhores histórias do trabalho de Joel como correspondente do jornal – publicadas originalmente em 1945 no livro Histórias de Pracinhas –, além de um texto inédito do autor preparado especialmente para esta edição. O livro apresenta o cotidiano de uma guerra com seus absurdos e contradições, em momentos de tensão, medo e horror, mas também de heroísmo e solidariedade.

10) Hiroshima, de John Hersey

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A bomba atômica matou 100 mil pessoas na cidade japonesa de Hiroshima, em agosto de 1945. Um ano depois, a reportagem de John Hersey reconstituía o dia da explosão a partir do depoimento de seis sobreviventes. O texto tomava a edição inteira da revista The New Yorker, uma das mais importantes publicações semanais dos Estados Unidos, alcançando repercussão extraordinária. A narrativa de Hersey dava rosto à catástrofe da bomba: o horror tinha nome, idade e sexo. Ao optar por um texto simples, sem enfatizar emoções, o autor deixou fluir o relato oral de quem realmente viveu a história. Quarenta anos mais tarde, Hersey voltou a Hiroshima e escreveu o último capítulo da história dos hibakushas – as pessoas atingidas pelos efeitos da bomba.

11) Paralelo 10, de Eliza Griswold

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Filha de um proeminente bispo da Igreja Episcopal dos Estados Unidos, Eliza Griswold acostumou-se desde criança ao convívio com o sagrado. Entretanto, como demonstram as reportagens reunidas em Paralelo 10, ela procura enxergar os conflitos religiosos que atingem boa parte da humanidade no século XXI com um penetrante viés socioeconômico, amparado por amplas pesquisas históricas – e, sobretudo, por arriscadas viagens às zonas de conflito. Griswold visita seis países situados nas proximidades do paralelo 10 – linha imaginária que atravessa boa parte do continente africano e das ilhas do Sudeste Asiático, delimitando de modo aproximado a fronteira entre o cristianismo e o islamismo – com o intuito de esmiuçar o atual “choque de civilizações” em suas peculiaridades locais.

12) A face da guerra, de Martha Gellhorn

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A face da guerra é uma seleção de reportagens de Martha Gellhorn, uma das maiores correspondentes de guerra do século XX. São relatos enviados diretamente dos campos de batalha, que refletem a forte ligação da autora com as pessoas retratadas no livro, independente das ideologias. Da estréia na Espanha até os conflitos na América Central dos anos 1980, ela cobriu tudo: várias fases da Segunda Guerra Mundial; a resistência da China ao domínio japonês; a Guerra dos Seis Dias, a primeira guerra de alta tecnologia, em que os judeus arrasados pela Alemanha nazista usaram a tática alemã da “guerra relâmpago” para vencer uma coalizão de todos os países árabes; e o Vietnã. A face da guerra é Um clássico da literatura pacifista.

13) O xá dos xás, de Ryszard Kapuscinski

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Para narrar o processo de ascensão e queda do último xá do Irã, Mohammed Reza Pahlevi, Kapuscinski lança mão de uma técnica mista, em que entram narrativa histórica, crônica jornalística e escrita de ficção. Sem entrevistar representantes do novo governo ou adentrar o palácio onde viveu o xá, o autor busca no homem comum o significado profundo da cultura, da religiosidade e da revolução iraniana.

14) Notas sobre Gaza, de Joe Sacco

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Uma década depois de ter surpreendido o mundo com seus relatos em quadrinhos sobre o conflito entre israelenses e palestinos, Joe Sacco volta à Faixa de Gaza para realizar seu projeto mais ambicioso até aqui: resgatar do esquecimento quase completo dois episódios ocorridos quase cinquenta anos antes. O jornalista mergulha nos escombros de um conflito que parece não ter fim para reconstituir alguns dos eventos mais importantes para a escalada de violência em que se transformou a relação entre israelenses e palestinos.

Semana noventa e nove

Os lançamentos da semana são:

Editora Paralela:
  • Scarpetta, Patricia Cornwell (Tradução de Julia Romeu)
    Uma anã chamada Terri Bridges é estrangulada em seu apartamento em Manhattan e a polícia, após descobrir duas outras vítimas que morreram em circunstâncias parecidas, acredita estar lidando com um assassino em série. Oscar Bane, o namorado de Terri, é o principal suspeito, mas para cooperar ele faz uma exigência: ser examinado pela famosa médica-legista Kay Scarpetta. Após decidir se envolver no caso, Scarpetta deixa temporariamente seu laboratório de patologia forense e, quando finalmente chega a Nova York, Bane conta uma das histórias mais bizarras que ela já ouviu. Para piorar as coisas, detalhes da vida pessoal de Scarpetta vão parar na internet, graças a um site de fofocas escrito por um colunista perverso e misterioso. Scarpetta e sua velha equipe vão ter que deixar as mágoas para trás e decifrar dois enigmas: quem é o assassino de Terri Bridges e como um colunista virtual pode saber tanto sobre suas vidas.
Companhia das Letras:
  • História universal da infâmia, Jorge Luis Borges (Tradução de Davi Arrigucci Jr.)
    Divertido e inteligente, o novo volume da Biblioteca Borges traz contos do começo da década de 1930 em que o autor de O Aleph coloca-se no lugar do leitor, criando contos inspirados por releituras de Stevenson, pela prosa de Marcel Schwob, pelos filmes iniciais de Josef von Sternberg, além da pintura, estimulado, quem sabe, por sua amizade com os pintores Xul Solar e Pedro Figari. Embora as histórias que compõem o volume tenham sido tiradas, em grande parte, de livros de outros autores, o trabalho abissal de reescrita é a novidade, complexa e de grande força expressiva. São obra de um leitor mais tenebroso e singular que os bons autores, como se anuncia num de seus dois prólogos notáveis.
  • Anatomia de um julgamento: Ifigênia em Forest Hills, Janet Malcolm (Tradução de Pedro Maia Soares)
    O caso em julgamento parece ser muito simples: tudo leva a crer que a médica Mazoltuv Borukhova, judia ortodoxa da seita bucarana, mandou matar o marido porque perdeu a guarda da filha na separação do casal. É o que pensam a família da vítima, os jornalistas, a promotoria e a opinião pública. E até mesmo o juiz, que espera uma solução rápida do caso para passar as férias no Caribe. Mas para o olhar agudo e perscrutador de Janet Malcolm nada é muito simples, nem exatamente o que parece. Aos poucos, ela desvela a complexidade dos fatos e das pessoas, aponta para fios que permanecem soltos, sugere motivações obscuras e põe em dúvida o sistema judiciário dos Estados Unidos. E a palavra final fica com o leitor perplexo.
  • Atlântico, Simon Winchester (Tradução de Donaldson M. Garschagen)
    O Atlântico não é só o mar que deslumbra a perder de vista e cujas águas refrescam e restauram quem vai às praias brasileiras. Não é  só o berço da maior parte dos peixes e frutos do mar que fazem a alegria gastronômica de tanta gente. É também muito mais do que o gigante desconhecido que europeus enfrentaram  no século XV, quando encontraram o Novo Mundo com sua população tão múltipla e diversa. Escrever uma biografia não é tarefa trivial. Que dizer, então, da biografia de um oceano que cobre um quinto da superfície da Terra, tem 6400 quilômetros de largura máxima e uma profundidade média de quase quatro quilômetros, e cuja história percorre 190 milhões de anos? É uma missão para um jornalista com formação de geólogo, autor de mais de vinte livros e especialista em construir narrativas vibrantes, capazes de orquestrar uma infinidade de informações e histórias.
Companhia das Letrinhas:
  • Uma chapeuzinho vermelho, Marjolaine Leray (Tradução de Júlia Moritz Schwarcz)
    A reinvenção de uma história clássica aguça a percepção das crianças de que o mundo é feito de múltiplos pontos de vista. No caso deste livro, a Chapeuzinho ingênua e inocente do conto tradicional se transforma numa garota corajosa e perspicaz, que engana um Lobo Mau incapaz de causar medo na menina. Tendo início na parte do conto em que o lobo está prestes a papar a garotinha, que então faz as clássicas perguntas a respeito daqueles olhos, orelhas e dentes tão grandes, esta versão da história tem um final inesperado, muito divertido. A inversão de papéis traz ao livro uma graça única, ao passo que o traço infantil das ilustrações materializam o tom sintético da narrativa.
  • As invenções de Ivo, Rogério Trentini (Ilustrações de Daniel Almeida)
    Uma das características mais marcantes entre as crianças é a imaginação. Seja para brincar ou entender o mundo, elas inventam seres e situações os mais inusitados. Ivo, o narrador deste livro, é o exemplo perfeito, passa o dia fantasiando. Como ele diz: “Às vezes estou sozinho/ e me ponho a imaginar./ Invento um mundo novo,/ é nele que vou brincar.”. Ele cria monstros horríveis e prédios enormes, máquinas de fazer planetas e palavras cabeludas, um amigo divertido e bichos comportados, e assim constrói este poema rimado, cheio de surpresas divertidas. As ilustrações coloridas e originais de Daniel Almeida dão forma às ideias malucas de Ivo, e convidam o leitor a fazer a sua parte: dar asas à imaginação, como o nosso Ivo.
  • Pequenos contos para sonhar, Mario Urbanet (Tradução de Eduardo Brandão)
    Quem não gosta de deitar a cabeça no travesseiro e viver as aventuras mais incríveis? Entre os contos deste livro, surgidos nos quatro cantos do mundo, há a história da mãe que, desesperada para recuperar o seu filho do ninho de uma ave, demora a perceber que pássaros e pessoas falam línguas diferentes; de Dalila que, fugindo do seu destino pressagiado pelo galo, acaba descobrindo o seu verdadeiro amor; de um ferreiro que atravessa o oceano em busca de um tesouro que aparecia em seus sonhos e depois vem a descobrir que a fortuna estava desde o início embaixo de seu nariz; do rapaz que, obstinado a ajudar as pessoas, não percebe que está diante da própria morte, entre tantas outras. Cada narrativa traz, ao seu final, uma lição em versos que, muitas vezes, vai de encontro às morais e ensinamentos difundidos na nossa cultura.

Semana noventa e oito

Os lançamentos da semana são:

Uma morte em família, de James Agee (Tradução de Caetano Galindo)
Uma morte. Em pleno vigor, um homem é tirado de sua família. Uma notícia que poderia ser dada em qualquer momento, em qualquer romance. Para James Agee, que já havia demonstrado seu imenso talento e seu amor prodigioso pelo estudo detalhado das personalidades e dos fatos no clássico livro de reportagem Elogiemos os homens ilustres, trata-se da oportunidade de escrever um romance dedicado quase integralmente a investigar o impacto dessa morte nos membros daquele grupo. Da pequena Catherine, que ainda mal consegue compreender a vida, ao agnóstico Joel, passando pelo torturado Andrew e, talvez principalmente, pelo desorientado Rufus, o filho mais velho, Agee se debruça sobre cada um de seus personagens com uma dedicação e um detalhismo plenamente amorosos, empregando os mais sofisticados recursos da prosa de ficção para retratar essas pessoas e revelar a percepção que têm da realidade.

O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde (Tradução de Paulo Schiller)
Publicado em sua versão final em 1891, O retrato de Dorian Gray foi o primeiro sucesso literário de Oscar Wilde e, algo que se tornaria frequente durante a curta carreira do autor, motivo de grande escândalo. Exemplo extremo de um indivíduo que leva uma vida dupla, seu protagonista comete todo tipo de atrocidade enquanto mantém uma aparência  intocada de beleza e virtude. Seu segredo, porém, está materializado em um retrato guardado em uma sala trancada, que reflete fisicamente as deformações de seu caráter. Ao longo da década em que Wilde conviveria com doses idênticas de fama e infâmia, seu único romance foi usado como parâmetro tanto de sua capacidade artística como de sua total inadequação à sociedade em que vivia. E, se mais de cem anos depois ainda consegue fascinar leitores de todo o mundo, é porque revela muito mais sobre a condição humana do que inicialmente se imaginava.

Paris: A festa continuou – A vida cultural durante a ocupação nazista, 1940-4, de Alan Riding (Tradução Celso Nogueira e Rejane Rubino)
Poucos momentos da história foram mais trágicos e complexos do que a ocupação de Paris pelos nazistas, entre 1940 e 44. Mas o que aconteceu nesses anos sombrios com a efervescente vida cultural da Cidade Luz? Como era o dia a dia dos parisienses obrigados a conviver com a caça aos judeus, a presença opressiva da Gestapo e a escassez de víveres? Neste amplo e vívido painel da vida no período, Alan Riding mostra que, surpreendentemente, “a festa continuou”, ou seja, cabarés, teatros e cinemas continuaram lotados, assim como os salões da elite, e o mercado de arte viveu até um aquecimento. Mas revela também uma trama complexa de relações perigosas dos intelectuais com os ocupantes e seus órgãos de propaganda e controle. Entre o heroísmo da resistência, muitas vezes pago com a vida, e a franca adesão ao nazismo, o autor demonstra que foram inúmeras as atitudes intermediárias, não raro ambíguas e até paradoxais, de artistas e escritores como  Sartre, Picasso, Malraux e Colette.

O diabo & Sherlock Holmes – histórias reais de assassinato, loucura e obsessão, de David Grann (Tradução Álvaro Hattnher)
O líder do principal grupo paramilitar de extermínio do Haiti se torna corretor de imóveis numa pacata cidade dos Estados Unidos. O maior especialista mundial em Sherlock Holmes morre em circunstâncias tão misteriosas quanto as de uma aventura do detetive. Um mestre francês do disfarce assume sucessivas identidades de adolescentes órfãos de diferentes países. Um escritor polonês comete um crime quase perfeito para pôr em prática suas mal digeridas leituras de Nietzsche e Foucault e espalha pistas autoincriminadoras num romance. Essas são algumas das dozes histórias extraordinárias narradas neste livro pelo jornalista norte-americano David Grann. Unindo rigor investigativo e talento literário, o autor que escreveu também o elogiado Z, a cidade perdida, explora com maestria os territórios em que a realidade é tão inverossímil que parece ficção.

Navegação de cabotagem – Apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei, de Jorge Amado
Poucos indivíduos viveram com tanta intensidade as turbulências do século XX. Nestas memórias escritas com a verve, o humor e a sensualidade que caracterizam sua melhor ficção, Jorge Amado passa em revista sua trajetória singular. Da convivência com personalidades da cultura mundial – como Pablo Picasso, Oscar Niemeyer, Pablo Neruda, Dorival Caymmi e Glauber Rocha – ao aprendizado em bordéis, botequins e terreiros de candomblé, os episódios se sucedem como cenas de um filme. Os cenários podem ser o Kremlin de Moscou, um palácio na Suíça, uma redação de jornal carioca, as margens do Sena ou uma ladeira de Salvador. Por trás de tudo, dois grandes temas perpassam estas páginas: o amor, de todas as formas, e o trauma da política.

O fardo da nobreza, de Donna Leon (Tradução de Carlos Alberto Bárbaro)
Os jardins de uma casa abandonada em uma pequena vila na Itália permaneceram intocados por cinquenta anos. Quando o novo proprietário assume o imóvel e dá início a uma reforma, um túmulo macabro vem à tona. Animais, fungos e bactérias fizeram seu terrível trabalho e o cadáver encontra-se em estado avançado de decomposição, o que impede o reconhecimento do corpo. Um anel valioso torna-se a principal pista desse mistério que leva o comissário Guido Brunetti ao coração da aristocracia veneziana e a uma família que ainda sobre com o desaparecimento do filho.

A mulher calada, de Janet Malcolm (Tradução de Sergio Flaskman)
Considerada uma das poetas mais originais do século XX, Sylvia Plath se suicidou numa madrugada de inverno, em 1963, poucos meses depois de se separar do marido, o também poeta Ted Hughes. Esse gesto último selou definitivamente, em torno de sua vida e sua obra, um campo de forças tão poderoso que por muito tempo opôs não só os vivos aos mortos, como todos aqueles que sobreviveram à tragédia. Neste livro, Janet Malcolm – um dos maiores nomes do jornalismo americano, autora de O jornalista e o assassino – se debruçou sobre todas as biografias já escritas sobre Sylvia Plath e sobre as entrevistas com os Hughes, além de adentrar um intrincado mundo de cartas, arquivos e delicadas situações familiares. Assim pôde demonstrar, a cada linha, como é tênue o limite que demarca fato e ficção, trafegando o tempo inteiro entre as várias versões do mito. Dotada de elegância e senso narrativo excepcionais, Malcolm mescla psicanálise, poesia, biografia e reportagem, num ensaio de amplitude e profundidade surpreendentes, capaz de envolver o leitor com o magnetismo de uma trama policial.

Martinha versus Lucrécia, de Roberto Schwarz
Internacionalmente reconhecido pelos livros Um mestre na periferia do capitalismo e Ao vencedor as batatas, que revelaram aspectos ocultos – e notáveis – da arte literária de Machado de Assis, Roberto Schwarz reúne em Martinha versus Lucrécia momentos recentes de sua produção crítica. No livro estão algumas das melhores peças da crítica literária do autor, que, além de Machado de Assis, contempla nomes como Caetano Veloso – com um ensaio inédito sobre a autobiografiaVerdade tropical -, Chico Buarque, o poeta Francisco Alvim e o filósofo Theodor Adorno.

Divinas travessuras – Mais histórias da mitologia grega, de Heloisa Prieto
Depois das Divinas aventuras, em que alguns deuses da mitologia grega contam suas histórias, das Divinas desventuras, narradas por Cronos, o deus do tempo, agora é a vez de Hermes, o deus da trapaça, contar as suas preferidas – que são repletas de travessuras, é claro. Muito arteiro, ele fala sobre o dia em que roubou os novilhos de seu irmão Apolo; sobre quando ajudou, com sua tamanha esperteza, seu tataraneto Odisseu a vencer o gigante Polifemo, entre demais peripécias. São histórias que ensinam sobre a mitologia grega e seus deuses – como o poderoso Zeus e a vingativa Hera, entre outros -, em um tom divertido e próximo do leitor, por conta da narrativa do faceiro Hermes. Ao final, um glossário apresenta a vida dos principais personagens do livro.

Semana quarenta e seis

[Novidade: agora é possível acompanhar a lista de livros que a Companhia lançará nos próximos meses]

Os lançamentos da semana são:

Zeitoun, de Dave Eggers (Tradução de Fernanda Abreu)
Abdulrahman Zeitoun decide ficar em Nova Orleans para salvar sua casa durante a passagem do furacão Katrina. A tempestade daquela noite é intensa e a devastação enorme; mas a água escoa rápido. Até que uma torrente invade a cidade. E é então que os efeitos do temporal começam a se tornar mais dramáticos. Neste relato verídico, com cenas tão absurdas que parecem saídas de uma história ficcional, Dave Eggers dá voz a uma família de imigrantes para mostrar como a mistura de desinformação, paranoia e atuação política desastrosa transformaram um cataclismo natural numa injustiça humana de proporções inimagináveis.

O país do Carnaval, de Jorge Amado
A narrativa começa no navio que traz de volta ao Brasil o jovem filho de fazendeiro Paulo Rigger, depois de sete anos em Paris, onde cursara direito e absorvera comportamentos e ideias modernas. Nos primeiros dias que passa no Rio de Janeiro, Rigger tenta compreender um país onde já não se sente em casa, um país que tenta timidamente superar seu atraso oligárquico e ingressar na era industrial e urbana. Sintonizado com os dilemas de seu tempo, o primeiro romance de Jorge Amado já revela uma literatura vívida e calorosa, em que a veia satírica convive com uma profunda compreensão das limitações humanas.

Jakob von Gunten — Um diário, de Robert Walser (Tradução de Sergio Tellaroli)
Composto sob a forma de diário, e publicado em 1909, Jakob von Gunten é o relato da trajetória do jovem de origem supostamente nobre que ingressa no Instituto Benjamenta para aprender a servir. Walser escreveu-o ao longo de 1908, em Berlim, onde, três anos antes, chegara a frequentar ele próprio instituição semelhante. Recheado de elementos autobiográficos, o diário de Jakob von Gunten descreve seu relacionamento conflituoso com o colega Kraus, modelo absoluto de humildade e subserviência, e com os misteriosos proprietários da instituição educacional: o diretor e sua enigmática irmã, mestra adorada. Do conflito do jovem Jakob entre uma suposta grandeza de berço e a certeza de que não será nada na vida, entre o orgulho familiar e o aprendizado da humildade, Walser extrai uma das narrativas mais intrigantes do século. Escritor admirado por Kafka, Thomas Mann, Robert Musil, entre outros, o autor é fonte de inspiração para os maiores nomes da literatura contemporânea.

Ilusões pesadas, de Sacha Sperling (Tradução de Reinaldo Moraes)
Aos dezoito anos, Sacha Sperling causou sensação na exigente cena francesa com este romance de estreia, de forte inspiração autobiográfica. A intensidade dos relatos sobre amor, sexo e drogas na adolescência chegou a lhe render a alcunha de “Rimbaud pop”. No livro, um garoto que mal completou quinze anos já se sente vivido o bastante para contar sua vida, em especial tudo que se passou com ele um ano antes, numa fase de profunda crise existencial. E ele tem mesmo o que contar, começando por suas explorações sexuais com garotas e com um garoto de sua idade, o pasoliniano Augustin, que tem um pé na delinquência e virá a ser seu primeiro grande amor. Não faltam as epifanias nem sempre luminosas, obtidas às custas de muito álcool e drogas, desde maconha até cocaína, passando por anfetaminas e calmantes de farmácia.

O jornalista e o assassino, de Janet Malcolm (Tradução de Tomás Rosa Bueno)
Janet Malcolm, uma das mais importantes jornalistas americanas do século XX, narra a história de um médico, Jeffrey MacDonald, condenado pelo assassinato da esposa e das duas filhas, e que moveu uma ação inaudita contra um jornalista, Joe McGinniss, que escrevera um livro sobre ele, baseado em entrevistas feitas durante o julgamento e na prisão. Colocando em pauta temas tão polêmicos quanto a ética do jornalismo e a liberdade de imprensa, a clássica reportagem de Janet Malcolm sobre a ética jornalística inaugura a série Jornalismo Literário de Bolso, mais econômica. A edição inclui posfácio de Otavio Frias Filho.