jeffrey eugenides

Minha Luta 4, de Karl Ove Knausgård

Por Jeffrey Eugenides

Corbis

Karl Ove ­Knausgård

Texto originalmente publicado em 2015 no The New York Times. Tradução de Carlos Alberto Bárbaro.

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Em artigo recente para a revista do New York Times, Karl Ove ­Knausgård escreveu: “Da última vez que estive em Nova York, um famoso escritor americano me convidou para almoçar. […] Tentei desesperadamente pensar no que dizer. Tínhamos que ter algo em comum, sendo quase da mesma idade, ganhando a vida do mesmo modo, escrevendo romances, embora os dele fossem consideravelmente de melhor qualidade que os meus. Mas, não, eu não conseguia puxar conversa sobre nada. […] Ao voltarmos para a Suécia, recebi um e-mail dele. Ele se desculpava por haver me convidado para almoçar, tendo percebido que não devia ter feito aquilo e pedia que eu não respondesse ao seu e-mail. A princípio, não entendi o que ele estava querendo dizer. […] Então percebi que ele tinha ficado ofendido com o meu silêncio. Ele deve ter pensado que eu achava que era um desperdício de tempo conversar com ele.”

Knausgård não revela a identidade do escritor americano com quem almoçou, mas eu revelarei: foi comigo. Devo ser o primeiro resenhista da obra autobiográfica de Knausgård a aparecer em um dos seus livros, estando portanto em uma posição privilegiada para julgar como ele faz uso do que acontece em sua vida para construir suas histórias. A partir do momento em que ele me transformou em um personagem secundário, eu ganhei uma visão privilegiada sobre o que ele está fazendo.

A série Minha Luta mostra o autor assolado por uma série de problemas. Ele tem que lidar com o pai autoritário e alcoólatra, seus desejos sexuais, os requisitos castradores para ser pai na contemporaneidade, o tédio e a fúria que são parte até mesmo de um casamento amoroso, a certeza da morte e, sempre e em toda parte, sua própria e sofrida autoconsciência. Mas o romance, em seus seis volumes e mais de 3500 páginas, é também um esforço literário para alcançar o sonho de Knausgård de algum dia escrever “algo excepcional”. O que atualmente é difícil de conseguir, porque o mundo está inundado de histórias. “Havia uma crise”, Knausgård escreve perto do fim do volume 2, “eu sentia em cada parte do meu corpo, algo saturado, como banha de porco, se espalhava em nossa consciência, porque o cerne de toda essa ficção, verdadeiro ou não, era a semelhança, e o fato de que a distância mantida em relação à realidade era constante. Ou seja, a consciência via sempre o mesmo.” Para reagir a isso, Knausgård busca alterar essa distância da realidade, o que faz observando sua vida em extremo close-up e concedendo importância equivalente tanto ao que acontece de fato consigo como ao que se passa em sua mente. O projeto pode ser comparado, na pintura, ao fotorrealismo e sua ênfase na hiper-claridade e detalhamento; ou, na direção oposta, ao impressionismo. Nos dois casos é a alteração da percepção que produz a diferença, simples o bastante na execução, mas com resultados inovadores.

Aqueles que foram enfeitiçados por Knausgård e compraram o projeto todo estão agora recompensados com o volume 4 [Uma temporada no escuro], o mais ágil, engraçado e, por ter lugar durante a adolescência de seu protagonista, o mais bombástico de seus volumes traduzidos até agora. Nele, se conta a história do ano em que o autor foi professor no norte da Noruega. Já na página 116, o livro volta ao passado para descrever os últimos anos de Knausgård no colégio, seu amor pela bebida, o divórcio de seus pais e suas paixões românticas, antes de retomar sua narrativa, na página 329. Dessa vez não há divisão em capítulos para assinalar essas viradas temporais, um recurso adequado à reprodução romanesca do fluxo da memória. Há, porém, uma trama. O livro 4 é um romance de busca. “Nessa época, o verão dos meus dezesseis anos, eu só queria três coisas. A primeira era arranjar uma namorada. A segunda era ir para a cama com uma garota. E a terceira era encher a cara. […]Não. No fundo era apenas uma coisa. Eu queria ir para a cama com uma garota. Essa era a única coisa que eu queria.”

E não era por falta de oportunidade. As garotas se ofereciam ao jovem e bonito Karl Ove, mas, devido a um caso extremo de ejaculação precoce, ele não conseguia cumprir sua parte. Seus fracassos tornam-se um recurso cômico no romance, embora nunca provoquem aquele tipo de riso barato, porque cada abordagem é impregnada de sentimentos intensos e uma desarmante e altamente cúmplice honestidade.

O ponto luminoso na vida de Knausgård, em meio à longa escuridão invernal, é sua escrita. Além de sua coleção de discos, o jovem Karl Ove trouxe consigo para o topo do mundo uma máquina de escrever, na qual ejacula seus primeiros contos. Ao contrário da maioria dos escritores que recordam seus primeiros escritos, Knausgård não faz pouco dos dele. Eles lhe parecem de fato bem bons para um rapaz de dezoito anos, indicativos, em sua franqueza e ausência de pretensão, da direção que sua obra futura tomaria.

O livro 4 é também o mais leve da série. São raros os textos mais densos em suas páginas. Os trechos ensaísticos que elevavam os volumes anteriores, admiráveis em sua antiquada profundidade europeia e repletos de um pensamento associativo agudo, original e brilhante não dão sua graça em lugar algum. Tudo aqui é dramatizado, cena após cena, de modo irresistível, mas sem a gravidade dos volumes anteriores e indicativo de um período mais leve e despreocupado na vida de Knausgård.

A razão desses livros se assemelharem tanto à vida é que há neles um único protagonista. A despeito de todos os seus talentos, Knausgård nunca produz uma impressão indelével das outras pessoas. Apesar de ter lido centenas de páginas sobre eles, tenho apenas uma impressão limitada de seu pai e de sua mãe; e os tipos que ele encontra em Hajford, seus colegas professores, as garotas por quem ele se apaixona e seus alunos, todos tendem a se fundir. Não se entra jamais no âmago dessas pessoas. Seria impossível estar dentro deles sem alterar o foco do solipsismo knausgaardiano. Para muitos escritores isso não funcionaria. Eles não seriam interessantes o suficiente, atormentados o bastante, espertos, nobres, dignos de pena ou autocríticos a esse ponto. Com Knausgård, porém, a troca mais do que vale a pena. O cérebro dele é um lugar tão interessante para se morar que o leitor não quer jamais abandonar essa perspectiva, não mais do que, em sua própria vida, o leitor quer deixar de ser ele próprio. Um dos paradoxos da obra de Knausgård é que ao habitar tão intensamente em suas próprias memórias ele consiga restaurar — e eu chego mesmo a dizer, abençoar — as do leitor.

Por mais mágico que seja o efeito, o método para criá-lo não o é tanto. O que me leva de volta ao meu almoço com o na maior parte do tempo calado autor desses livros. Não há nada factualmente incorreto na narrativa de Knausgård sobre o evento. Ao ler sua descrição, porém, eu entendi o que ele está fazendo. Knausgård queria estabelecer uma distinção entre os escandinavos e os americanos no que diz respeito a jogar conversa fora. Na verdade, a razão de não termos conseguido conversar um com o outro teve menos a ver com diferenças culturais que com o fato de sermos duas pessoas nervosas com problemas de baixa autoestima e que ficaram sem jeito na presença um do outro. Isto não se encaixa, contudo, no argumento de Knausgård sobre o ocorrido naquele ponto do artigo; então, como todo escritor profissional, ele aproveitou a parte da estória que atendia suas necessidades.

O que é exatamente o que ele faz em Minha Luta. A vida de Knausgård é uma caixa de surpresas de eventos e recordações, e ele apela ao que estiver à mão. Ele não mente ou inventa as coisas (até onde sei). Mas o processo de seleção a que submete suas recordações de modo a preencher a narrativa exige que sua escrita se eleve a um nível considerável de artifício. Outros escritores inventam; Knausgård recorda. Sua matéria bruta é mais autêntica (talvez), mas os produtos que ela gera não são menos artísticos.

Knausgård descobriu um jeito de suspender a descrença do leitor em uma época em que essa suspensão é cada vez mais difícil de alcançar. Sua técnica é tão hábil que o leitor nem percebe.

Na verdade, o domínio da técnica dos procedimentos tradicionais do romance é a razão pela qual esses livros não são nem um pouquinho tediosos, quando tinham tudo para ser. Knausgård está sempre contando uma história, sempre envolvendo o leitor em alguma ligação amorosa, um desastre sexual ou uma crise emocional. E a atmosfera que ele acrescenta vem na dose certa; seu ritmo é impecável. Que maravilha ler um romance experimental que inflama todos os nervos do corpo ao mesmo tempo em que desperta no leitor o sentimento profundo do quão incrível é estar vivo, neste planeta e em nenhum outro.

“Rock ’n’ roll!”, escreve o Knausgård de dezoito anos em seu diário, exortando a si próprio a atender sua vocação literária. E é esse o espírito do Livro 4: o desabafo de um garoto com uma incrível coleção de discos que sonha ser um escritor escrito pelo grande escritor que ele finalmente se tornou.

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Jeffrey Eugenides nasceu em Detroit, nos Estados Unidos, em 1960. É autor de As virgens suicidasMiddlexex A trama do casamento, todos publicados no Brasil pela Companhia das Letras.

Semana cento e quarenta e um

Os lançamentos desta semana são:

As virgens suicidas, de Jeffrey Eugenides (Trad. Daniel Pellizzari)
Num típico subúrbio dos Estados Unidos nos anos 1970, cinco irmãs adolescentes se matam em sequência e sem motivo plausível. A tragédia, ocorrida no seio de uma família que, em oposição aos efeitos já perceptíveis da revolução sexual, vive sob severas restrições morais e religiosas, é narrada pela voz coletiva e fascinada de um grupo de garotos da vizinhança. O coro lírico que então se forma ajuda a dar um tom sui generis a esta fábula da inocência perdida. Adaptado ao cinema por Sofia Coppola, publicado em 34 idiomas e agora em nova tradução, o livro de estreia de Jeffrey Eugenides logo se tornou um cult da literatura norte-americana contemporânea. Não por acaso: essa obra de beleza estranha e arrebatadora, definida pela crítica Michiko Kakutani como “pequena e poderosa ópera no formato inesperado de romance”, revela-se ainda hoje em toda a sua atualidade.

Editora Paralela

Os cães sonham?, de Stanley Coren (Trad. Elvira Serapicos)
Os cães sonham? Eles conseguem se reconhecer no espelho ou entender o que veem na televisão? Eles são mais inteligentes que os gatos? As pessoas têm muita curiosidade – e pouca informação correta – sobre como os cachorros pensam, agem e compreendem o mundo. Stanley Coren resgata décadas de pesquisa científica sobre cachorros para fazer uma incursão inédita à vida social e emocional de nossos companheiros caninos, desmentindo vários mitos pelo caminho. Coren responde as perguntas mais frequentes que recebeu de donos de cachorro, aliando a autoridade de um expert ao estilo informal de alguém que, como todos nós, adora cães.

Editora Seguinte

Destino sombrio, de Luís Dill
No presente, Gildo dirige misteriosamente por uma estrada. No passado, há uma história de amor que não deu certo. No futuro, ele chegará a seu destino e reencontrará o irmão, que acabou de ter um filho e não espera por essa visita. Mas por que tanta agonia? O que ele esconde? De que ou de quem ele foge? Por quê? Uma história contada em três tempos, cheia de mistério e tensão.

Escrevendo “A trama do casamento”

Por Jeffrey Eugenides (tradução de Carlos Alberto Bárbaro)

A trama do casamento se origina, apropriadamente, de um adultério literário. No final dos anos 1990, sofrendo de um bloqueio na redação de Middlesex, deixei o manuscrito de lado. (Não era exatamente que eu ainda não estivesse apaixonado, era só que eu não conseguia mais saber o que esperar da relação.) Nas semanas seguintes, passei a flertar com outro romance, não um épico cômico ao modo de Middlesex, mas uma história mais tradicional, sobre uma festa de debutante promovida por uma família de posses. Aparentemente, o novo romance oferecia tudo o que eu precisava. Não exigia muito, era fácil de conviver e tinha até mesmo medidas mais atraentes. Quando dei por mim, já tinha umas cem páginas — e foi então que o encanto se desfez. Percebi que as demandas desse novo caso seriam exatamente as mesmas daquele do qual eu estava tentando escapar. O fato é que eu sentia saudades de Middlesex. E passei a achar que descobrira por que nossa relação não ia pra frente. E foi assim, com um renovado senso de comprometimento, próximo do delírio, que reatei o relacionamento.

Com a publicação de Middlesex, retornei para o romance da debutante. Lá estavam suas cem páginas, exatamente onde as deixei. Elas pareciam legais. Contudo, ao voltar a trabalhar nele, algo me incomodava. O romance parecia um tanto démodê. O texto estava bem razoável, bom mesmo em algumas partes, mas em outras era insípido, não dizendo ao que viera. A história era narrada de múltiplas perspectivas, em pequenas partes de poucas páginas cada. Uma das personagens se chamava Madeleine. Ao compor a sua parte, novamente comecei a perder o rumo. Em vez de colocá-la na trama da festa de debutante, comecei a conjurar seus problemas com o namorado e os livros que ela lia então; não demorou muito e lá estava eu, deixando-me possuir pelas memórias dos meus tempos de faculdade, quando a obsessão semiótica sinalizava o caminho nas universidades americanas. E algo também mudou na forma como eu vinha escrevendo até ali. E eu posso identificar o momento exato dessa virada. Foi nessa linha: “Os problemas amorosos de Madeleine tinham começado numa época em que a Teoria Francesa que ela estava lendo desconstruía a própria noção de amor.” O tom dessa sentença diferia daquele do resto da obra. Era um tom mais íntimo, mais coloquial e mais revelador. Na mesma hora, aquele passadismo do livro que tanto vinha me desagradando deixou de ser um problema. O romance da debutante se desenvolvia mesmo como um romance do século XIX. Dele emanava o odor de um coche antigo vindo direto do mercado de pulgas. A parte de Madeleine, em contraste, evoluía com mais frescor, energia e vivacidade. Ela brotava diretamente dos interesses e das peculiaridades de minha própria vida. Ao deixar de ser a pálida contrafação de um romance do século XIX para se tornar um romance sobre uma jovem obcecada com o romance do século XIX e os efeitos dessa obsessão em particular sobre seus próprios anseios românticos, o livro evoluiu um século. Tornou-se contemporâneo, passou a soar contemporâneo, permitindo-me escrever sobre todas aquelas coisas que até então eu não tinha como poder escrever: religião e Madre Teresa, depressão maníaca, o sistema de classes vigente nas universidades ocidentais nos anos 1980, Roland Barthes, J. D. Salinger, a “Oração de Jesus” e o Talking Heads. Não demorou muito e eu já tinha umas cem páginas dessa nova parte.

A ironia era cristalina: lá estava eu, corneando um romance que fora minha amante! A parte de Madeleine não parava de aumentar. E quanto mais aumentava, mais eu gostava dela. No período de duas semanas difíceis, com precisão cirúrgica, separei os dois manuscritos, pegando três dos personagens — Madeleine, Mitchell e Leonard — e dando a cada um deles o seu próprio livro.

Eu não sabia àquela altura que o livro iria se chamar A trama do casamento, nem que giraria em torno do casamento. Mas pouco a pouco, enquanto ia tocando o livro, outras coisas sobre as quais eu vinha refletindo começaram a ser aproveitadas. Em 2004, na revista eletrônica Slate, passei a trocar impressões sobre o legado de Joyce com o romancista Jim Lewis. No curso de nossa correspondência, lamentei o fato de o romancista moderno não poder mais se servir da trama do casamento, a responsável pelo apogeu do romance. Em A trama do casamento fiz com que esse pensamento discretamente reacionário fosse verbalizado pelo velho orientador da tese de Madeleine, o professor Saunders:

“Na opinião de Saunders, o romance tinha atingido o seu apogeu com o romance de casamento e nunca tinha se recuperado do seu desaparecimento. Nos dias em que o sucesso na vida dependia do casamento, e o casamento dependia de dinheiro, os romancistas tinham um tema para escrever. Os grandes épicos cantavam a guerra, o romance cantava o casamento. A igualdade entre os sexos, boa para as mulheres, tinha sido ruim para o romance. E o divórcio tinha acabado com ele de uma vez. Qual era a importância da escolha de Emma se depois ela podia entrar com um pedido de divórcio? Em que medida o casamento de Isabel Archer e Gilbert Osmond teria sido afetado pela existência de um acordo pré-nupcial? Na opinião de Saunders, o casamento não tinha mais muita relevância, nem o romance.”

Demorei a perceber. Mas enquanto ia escrevendo sobre meus três graduandos, relatando seus últimos dias na universidade e o início de suas vidas adultas, reflexões acadêmicas desse tipo grudaram na minha história, acabando por fornecer uma sólida estrutura para o livro. Em vez de escrever uma trama do casamento, eu poderia desconstrui-la e, na sequência, reorganizá-la, adequando-a então às convenções religiosas, sociais e sexuais vigentes nos dias de hoje. Eu poderia escrever um romance que não era uma trama do casamento, mas que, de certo modo, acabava sendo; um romance fortemente tributário daquela tradição sem ao mesmo tempo rejeitar a modernidade.

É esse o pano de fundo intelectual de A trama do casamento. Mas não se escreve um romance a partir de uma ideia, ou pelo menos eu não consigo. Um romance se escreve a partir daquele substrato emocional e psicológico do qual não conseguimos, ou do qual não queremos, nos libertar. No meu caso, isso está relacionado às recordações de ser jovem, letrado, libidinoso e confuso. Com a estabilidade dos meus quarenta anos, casado e pai, posso revisitar o aterrorizante êxtase do amor dos tempos da universidade, e tentar revivê-lo a uma distância segura. Estávamos no ápice do inverno em Chicago quando tudo isso aconteceu. Dia após dia eu observava a neve caindo no lago Michigan da janela do meu escritório. Depois de separar os dois livros, coloquei um na gaveta e deixei o outro sobre a minha mesa. Fui em frente com A trama do casamento sem nem olhar para trás. E com isso mudei completamente: tornei-me uma pessoa diferente, um escritor diferente, e comecei uma nova vida com um novo amor, tudo isso sem nem ao menos sair de casa.

[Texto escrito originalmente para o site The Millions e reproduzido aqui com autorização. Leia um trecho de A trama do casamento.]

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Jeffrey Eugenides nasceu em Detroit, nos Estados Unidos, em 1960. Desde 1993, com o lançamento de As virgens suicidas — posteriormente adaptado ao cinema por Sofia Coppola —, é um dos escritores mais aclamados de sua geração. Muito aguardado, seu segundo livro, Middlesex, foi lançado em 2002 e recebeu o prêmio Pulitzer de melhor romance do ano. A trama do casamento é seu terceiro romance.

Semana cento e um

Os lançamentos da semana são:

A trama do casamento, de Jeffrey Eugenides (Tradução de Caetano W. Galindo)
Madeleine Hanna tem dois pretendentes. Um gênio com sérios problemas e um gênio com dúvidas sérias. Enquanto um deles lida com todos os tipos de fantasma e o outro sofre toda espécie de angústia, ela ainda precisa se formar em Letras e defender uma monografia que trata, entre todos os assuntos possíveis, justamente de romances em que a protagonista tem dois pretendentes; romances que se resumem à pergunta “quem ela vai escolher?”. Com esses elementos, Jeffrey Eugenides poderia escrever uma metaficção, ou ainda realizar uma releitura das tramas de Jane Austen. O que ele fez em A trama do casamento, no entanto, foi juntar essas duas possibilidades a um detalhado retrato dos Estados Unidos no começo dos anos 80, quando a metaliteratura estava no auge e o feminismo penetrava na academia, de maneira que nunca mais poderíamos ler do mesmo modo os romances do século XIX. Madeleine, agora, precisa escolher inclusive se quer escolher. Se quer ou não ser uma mulher do século XX. Ela precisa saber, afinal, em que tipo de livro sua vida pode se transformar. Leia aqui as primeiras páginas do livro.

A realidade oculta, de Brian Greene (Tradução de José Viegas Jr.)
Desde a publicação da Teoria da Relatividade Geral, em 1915, a natureza da realidade – dos seus componentes microscópicos às estrelas e galáxias mais longínquas – tornou-se o principal objeto de investigação da física. A mecânica newtoniana, base do conhecimento até então acumulado sobre o universo, revelou-se subitamente impotente para descrever os fenômenos assinalados pelo gênio de Albert Einstein nas entranhas do espaço e do tempo. Na década seguinte, as bizarras formulações da mecânica quântica ocasionaram outra revolução científica sem precedentes. Brian Greene elucida as hipóteses teóricas e experimentais que, baseadas nessas descobertas pioneiras, apontam para a fascinante possibilidade de existirem múltiplos universos além – e até mesmo aquém – deste que habitamos.

Por isso a gente acabou, de Daniel Handler e Maira Kalman (Tradução de Érico Assis)
Min Green e Ed Slaterton estudam no mesmo colégio, se encontram em uma festa, vão ao cinema, seguem uma senhora na rua, dividem um quarto de hotel e, após algumas semanas de convívio intenso e apaixonado, terminam o namoro. O livro é uma longa carta de Min explicando a Ed por que o relacionamento não deu certo. Do autor das Desventuras em Série, a história de uma menina que está sofrendo com o fim de um relacionamento e resolve devolver ao ex-namorado todos os objetos que lembram momentos que viveram juntos. Veja um vídeo com o autor do livro.

O que deu para fazer em matéria de história da amor, de Elvira Vigna
Os mesmos fatos. Que mudam, dependendo de como são contados. Pode ser que façam uma história de amor. Do tipo amor total, desses que só se ouve falar. Pode ser que façam a história de um crime. No fim, uma questão de escolha. A narradora deste livro se vê debruçada sobre a vida de duas pessoas. Já mortas. São lembranças sem importância. Vestígios concretos de uma vida. Ilações a partir de quase nada. Ela arruma um apartamento para venda. Precisa jogar coisas fora. Precisa também resolver o que fará quando acabar a tarefa. Faz um jogo consigo mesma. Se conseguir entender a vida daquelas duas pessoas como sendo uma história de amor, poderá fazer a mesma coisa com sua própria vida. Seu caso com Roger dura há décadas. Ao reviver ou inventar o que aconteceu com Rose e Arno, a narradora procura entender o que aconteceu com ela própria. Veja um vídeo em que Elvira Vigna conta um pouco sobre o livro.

Poemas, de Rainer Maria Rilke (Tradução de José Paulo Paes)
Rainer Maria Rilke costuma ser considerado o maior poeta de língua alemã desde Goethe. Sua influência sobre a poesia moderna foi e continua sendo enorme. No Brasil, pode-se encontrá-lo em Cecília Meireles, no Vinicius de Moraes da juventude, mas sobretudo nos poetas da chamada Geração de 45.
Como todo objeto de culto, esse Rilke aculturado provocou simpatias e antipatias exacerbadas, assim como se abastardou nas mãos de seguidores infinitamente menos hábeis. Talvez por isso ele tenha, em seguida, conhecido entre nós uma espécie de ostracismo, se comparado ao fervor quase religioso que despertava nos anos 1940 e 50. Nesta reedição do livro publicado em 1993 e que integra a coleção de poesia traduzida da Companhia das Letras – pela qual já foram lançados Derek Walcott (reedição) e Wislawa Szymborska -, relemos Rilke com os olhos de um de nossos melhores poetas, que busca reproduzir aqui aspectos formais do original, dando-lhe nova roupagem.

Sonhos de trem, de Denis Johnson (Tradução de Alexandre Barbosa de Souza)
Esta é a história do calado e misantrópico Robert Grainier. Acompanhamos seu trabalho na construção de ferrovias em alguns dos rincões mais longínquos dos Estados Unidos, mas também o duro processo de expiação espiritual vivenciado por ele para superar uma perda familiar traumática. A esse abalo emocional, segue-se um longo período de reflexão e devaneio, explorado no relato através de idas e vindas no tempo, durante o qual Grainier troca de empregos, lida com remorsos e tem cisões oníricas, na maior parte das vezes envolvendo trens. Um dos autores mais celebrados de sua geração, vencedor do National Book Award e finalista do prêmio Pulitzer com o épico romance Árvore de fumaça, Denis Johnson lança mão de uma linguagem concisa e contemplativa para investigar a vida de um dos milhões de anônimos que colaboraram para a construção do mito da América da forma como a conhecemos hoje.

Tutancâmon e sua tumba cheia de tesouros, de Michael Cox (Tradução de André Czarnobai)
Ao longo de 3 mil anos de supremacia, o Antigo Egito foi governado por centenas de faraós. Mas entre todos esses reis poderosos, o mais lembrado é Tutancâmon. Não porque temos acesso aos fascinantes e detalhados registros de sua vida e conquistas. Nem tampouco porque sabemos se tornou líder da maior superpotência do mundo quando tinha apenas nove anos e que com essa mesma idade se casou com sua irmã de quinze anos. Também não é porque ele comandou exércitos que aterrorizavam os países vizinhos até que eles entregassem suas riquezas e escravos ao Egito, e teve pirâmides e templos enormes construídos com o propósito de guardar seus restos mortais e de toda sua família. Tutancâmon é o mais famoso dos faraós porque estava no centro da maior descoberta arqueológica de todos os tempos. Desde o dia 23 de novembro de 1922, quando o arqueólogo britânico Howard Carter adentrou a tumba do “Faraó Perdido”, praticamente intocada até então, milhões de pessoas de todo o mundo puderam ver de perto a sua múmia e todos os seus tesouros. Neste livro, você vai conhecer toda a história dessa descoberta incrível, assim como a história de vida de Tutancâmon e da vida no Egito Antigo, por meio de textos engraçados e tiras de histórias em quadrinhos.

Mar morto, Jorge Amado
Nenhum outro livro sintetizou tão bem o mundo pulsante do cais de Salvador como Mar morto, com sua rica mitologia em torno de Iemanjá, a rainha do mar. Personagens como o jovem mestre de saveiro Guma parecem prisioneiros de um destino traçado há muitas gerações: o dos homens que saem para o mar e que um dia serão levados por Iemanjá, deixando mulher e filhos a esperar, resignados. Mas nesse mundo aparentemente parado no tempo há forças transformadoras em gestação. O médico Rodrigo e a professora Dulce, não por acaso dois forasteiros, procuram despertar a consciência da gente do cais contra o marasmo e a opressão. É esse contraste entre o tempo do mito e o da história que move este romance, envolvendo-nos desde a primeira página na escrita calorosa de Jorge Amado.

“A trama do casamento”, novo livro de Jeffrey Eugenides

Foram nove anos entre o estrondoso sucesso de As virgens suicidas e o lançamento de Middlesex, livro que rendeu o Pulitzer de melhor romance a Jeffrey Eugenides e provou que ele não só tinha se inscrito entre os grandes nomes de sua geração como parecia determinado a não se prender aos estilos e assuntos que tinham feito sua fama.

Depois de outros nove anos de espera, a chegada de A trama do casamento confirma essa flexibilidade formal e temática e sacramenta sua posição como um dos mais respeitados autores americanos contemporâneos.

Acompanhando um trio de alunos da universidade de Brown entre o ano da sua formatura (1982) e o seguinte, Eugenides fornece um acurado retrato da desilusão de uma geração que viu o otimismo revolucionário dos anos 60 se consumir em cinismo e vazio, ocasionando dúvidas e instabilidades de todo tipo.

Depois de ler críticos como Jacques Derrida, Roland Barthes e Michel Foucault, a estudante Madeleine Hanna percebe que gostar de romances já não é o bastante para justificar sua vontade de se graduar em letras. O autor está morto, os livros viraram textos, a semiótica está desconstruindo a linguagem. E já não há romantismo.

O que ela não sabe é se deve mesmo se adequar a esse mundo pouco sentimental, em que a devoção por escritoras vitorianas parece um crime. E ainda maior é sua dúvida entre os dois homens que a disputam.

Afinal, Eugenides nos apresenta, ao mesmo tempo, uma inquestionável história de amor, ou duas, ao acompanhar a devoção de Mitchell Grammaticus por Madeleine e a complicada relação dela com o gênio problemático Leonard Bankhead.

Ao final do romance, resta uma dúvida: Eugenides escreveu uma paródia, um comentário, ou produziu um dos grandes romances-de-casamento da tradição literária de língua inglesa?

A trama do casamento chega às livrarias dia 7 de maio, com tradução de Caetano W. Galindo. Leia abaixo as primeiras páginas do livro:

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As pessoas jamais se apaixonariam se não tivessem ouvido falar do amor.
François de La Rochefoucauld
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E você pode se perguntar, bom, como foi que eu vim parar aqui?
E você pode se dizer,
Essa não é a minha linda casa.
E você pode se dizer,
Essa não é a minha linda esposa.

Talking Heads

Para começar, olha quanto livro. Lá estavam os seus romances de Edith Wharton, organizados não por título mas por data de publicação; lá estava o conjunto completo de Henry James da Modern Library, presente do pai dela no seu aniversário de vinte e um anos; lá estavam os de capa mole e com orelhas de burro que ela teve que ler em disciplinas da faculdade, um monte de Dickens, uma pitada de Trollope, além de boas doses de Austen, George Eliot, e das temíveis irmãs Brontë. Lá estava uma montanha de volumes pretos e brancos da New Directions, quase tudo poesia de gente como H. D. ou Denise Levertov. Lá estavam os romances de Colette que ela lia às escondidas. Lá estava a primeira edição de Couples, que era da mãe dela, que Madeleine tinha sondado sub‑repticiamente na sexta série e que agora estava usando para dar apoio textual à sua monografia de conclusão de curso sobre o romance e o casamento. Lá estava, em resumo, uma biblioteca de tamanho médio, mas ainda portátil, que representava basicamente tudo que Madeleine tinha lido na universidade, uma coleção de textos, aparentemente escolhidos de maneira aleatória, cujo foco lentamente se fechava, como um teste de personalidade, um teste sofisticado em que você não conseguisse trapacear ao perceber as implicações das questões e em que finalmente você ficava tão perdida que o seu único recurso fosse responder a verdade pura e simples. E aí você ficava esperando o resultado, torcendo por “Artística”, ou “Passional”, pensando que podia aceitar “Sensível”, temendo secretamente “Narcisista” e “Caseira”, mas recebendo finalmente um veredito de dois gumes que lhe causava sensações diferentes dependendo do dia, da hora, ou do cara que por acaso você estivesse namorando: “Romântica Incurável”.

Eram esses os livros no quarto em que Madeleine estava deitada, com um travesseiro em cima da cabeça, na manhã da sua formatura na universidade. Ela tinha lido cada um deles, muitas vezes relido, não raro sublinhando trechos, mas isso não lhe servia de nada agora. Madeleine estava tentando ignorar o quarto e tudo que estava nele. Estava torcendo para se deixar cair de novo no oblívio em que tinha ficado bem aconchegada pelas últimas três horas. Qualquer nível mais alto de consciência a forçaria a encarar certos fatos desagradáveis: por exemplo, a quantidade e a variedade de álcool que tinha ingerido na noite anterior e o fato de que tinha ido dormir sem tirar as lentes. Pensar nesse tipo de detalhe evocaria, por sua vez, os motivos de ela ter bebido tanto assim para começo de conversa, o que ela definitivamente não queria fazer. Então Madeleine ajeitou o travesseiro, bloqueando a luz do começo da manhã, e tentou pegar no sono de novo.

Mas não adiantou. Porque bem naquela hora, na outra ponta do apartamento, a campainha começou a tocar.

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