jô soares

Jô e Jobs

Por Luiz Schwarcz


(Fotos por Norman Seeff e Marcio Scavone)

Fazia muito tempo que a Companhia das Letras não tinha dois livros com vendagem tão rápida e significativa como aconteceu agora, com a biografia de Steve Jobs e o romance de Jô Soares, As esganadas. Na verdade, os últimos três anos foram aqueles em que, provavelmente, tivemos menos livros na lista de mais vendidos — curiosamente foram também os anos em que o faturamento da editora mais cresceu. Por sorte, dependemos mais do catálogo do que de livros de alta tiragem, mas quando eles surgem são mais que bem vindos.

Sinto que o leitor do blog muitas vezes divide os livros em categorias, às vezes torcendo o nariz para a literatura de entretenimento ou para outros gêneros menos frequentes na nossa lista editorial. Tenho puxado o assunto para tentar rever com os leitores, e até com muitos funcionários da editora, ideias arraigadas que acabam por hierarquizar livros injustamente.

Por isso, saudar livros de alta vendagem neste blog, como os do Jô e a biografia de Steve Jobs, que muito me orgulham no momento, acaba tendo certo conteúdo provocador. Cada livro tem sua história, sua proposta, e deve ser entendido a partir daí. A boa literatura de entretenimento é melhor que a má literatura cheia de pretensão.

Com provocação ou não, queria contar como esses dois livros nasceram, ao menos como foram os primeiros momentos em que nós, parteiros/editores, fomos chamados a participar de uma maneira ou de outra.

Soube do livro de Walter Isaacson por meio de nossa scout, Maria Campbell. Para os que não sabem, um scout é um profissional que busca informar as editoras para as quais trabalha sobre novos e promissores livros, antes que suas concorrentes o façam. Eles representam um elo cada vez mais importante num mundo que se tornou essencialmente concorrencial. Ao saber do livro, ainda confidencialmente, tentei encontrar-me com a agente durante meses, ameaçando inúmeras vezes viajar especialmente para esse fim; sempre sem sucesso. Apesar de termos sido os editores da biografia de Einstein — o livro de Isaacson que precedeu a biografia de Jobs e que chegou ao topo das listas no Brasil —, eu temia que o novo livro fosse a leilão, o que levaria o preço dos seus direitos às alturas.

Pois Maria Campbell agiu com presteza e, amiga da agente Amanda Urban, assegurou que a Companhia tivesse uma primeira conversa exclusiva, podendo ofertar com preferência. Por coincidência, estava em Nova York logo que os agentes tomaram a decisão de começar a discutir com os editores estrangeiros, e devo ter sido o primeiro a poder ofertar, depois dos meus colegas de língua inglesa.

Assim, num dia especialmente frio, em pleno inverno nova iorquino, fui à ICM, e saí de lá com os direitos comprados. A oferta foi alta, altíssima, mas acabamos pagando menos do que a maioria dos outros países, que compraram a obra três meses depois, em plena feira de Londres, num ambiente competitivo mais acirrado. O adiantamento já deve estar se pagando, no segundo mês de venda do livro, cuja edição também teve momentos emocionantes.

Sabendo do estado de saúde do biografado, combinei com Marta Garcia, a editora do livro na Companhia, que deveríamos trabalhar em tempo real com a edição americana — apesar de termos contra nós o difícil encargo da tradução. Marta conseguiu montar uma equipe ágil de tradutores e, dito e feito: começamos a receber o material em julho, e um mês antes da data prevista para a publicação do livro, com a triste notícia da morte de Jobs, a edição americana foi antecipada, e nós tivemos que correr para conseguir manter a simultaneidade.

O livro, que estava previsto para o dia 22 de novembro, teve que sair no dia 24 de outubro, dois dias depois da data prevista para o livro do Jô. Steve Jobs e As esganadas de Jô Soares, livros que de alguma forma traziam as mesmas inicias invertidas, acabaram indo para as livrarias na mesma semana. (Poucas semanas depois, um inédito de José Saramago, Claraboia, saía da gráfica. Estamos no mês dos Js e Ss!).

A história das Esganadas, como fiquei sabendo do livro  e o do que antecedeu o nascimento dele, conto na próxima semana. Isso se nenhum assunto extraordinário se apresentar. De qualquer forma até lá e: saudades, meus jovens!

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

Semana setenta e seis

Os lançamentos da semana são:

Seu genoma por mil dólares, de Kevin Davies (Tradução de Ivo Korytowski)
Câncer, diabetes, mal de Alzheimer, esclerosa múltipla, problemas cardíacos diversos: algumas das doenças mais mortíferas podem estar com os dias contados. O vertiginoso desenvolvimento das técnicas de decodificação do DNA já permite que muitas pessoas conheçam sua predisposição a vários males evitáveis. Ao mesmo tempo, pesquisas farmacêuticas imbricadas com o progresso da genética têm originado medicamentos altamente específicos e eficientes, que tornam a cura dessas doenças algo real. Da bilionária decodificação do primeiro genoma humano até os atuais serviços de análise cromossômica por correspondência, Seu genoma por mil dólares discute as principais questões tecnológicas e culturais ocasionadas pela revolução genética.

Omeros, de Derek Walcott (Tradução de Paulo Vizioli)
Poeta mulato das Antilhas, prêmio Nobel de literatura de 1992, Derek Walcott escreveu um poema destinado a permanecer entre os mais belos e instigantes do século XX. Com um desenho circular, que enfeixa tanto o mundo atemporal dos heróis gregos como o dia a dia de uma aldeia de pescadores do Caribe, Omeros (grego moderno para Homero) é, antes de tudo, uma história viva do oceano, dos povos e idiomas que por ele ressoam. Das raízes mediterrâneas aos grandes autores da língua inglesa, passando pelo patois crioulo das Antilhas e os sons africanos que pulsam até hoje nas margens do Caribe, este é um canto universal, que funde de modo magnífico o encontro de raças, línguas e culturas que se deu nas praias americanas.

Steve Jobs, de Walter Isaacson (Tradução de Berilo Vargas, Denise Bottmann e Pedro Maia Soares)
A vida de Steve Jobs tem o fascínio dos grandes folhetins: entregue para adoção ao nascer, imerso na contracultura dos anos 70 – com direito à maconha, LSD, vegetarianismo radical e peregrinação à Índia em busca de iluminação – milionário aos 25 anos, expulso de sua própria empresa aos 30 anos, retorna triunfalmente 12 anos depois. Essa biografia escrita a seu pedido, no momento em que lutava contra o câncer, é mais um exemplo dos paradoxos de Steve Jobs, conhecido por sua obsessão pelo controle de tudo: ele deixou claro que em nenhum momento interferiria em sua execução, nem exigiria ler o manuscrito antes da publicação. Como resume o próprio autor, “este é um livro sobre a vida de altos e baixos e a personalidade intensa e abrasadora de um empreendedor criativo, cuja paixão pela perfeição e cujo ímpeto feroz revolucionaram 6 indústrias: computadores pessoais, filmes de animação, música, telefones, tablets e publicação digital. É uma história tão instrutiva quanto admonitória, cheia de lições sobre inovação, caráter, liderança e valores”.

Travessias difíceis, de Simon Schama (Tradução de Denise Bottmann)
A travessia do oceano Atlântico nos porões dos navios negreiros foi uma das mais sombrias experiências de migração na história humana. Neste livro, Simon Schama trata da luta dos abolicionistas para encerrar o infame tráfico negreiro transatlântico e de suas relações com a história da colonização de Serra Leoa — a terra prometida dos ex-cativos, onde não havia escravidão. Articulando episódios fundadores do movimento antiescravista inglês ao papel desempenhado pela escravidão negra na Guerra de Independência dos EUA, Schama oferece uma envolvente narrativa sobre a luta dos africanos e de seus descendentes pela liberdade nos dois lados do Atlântico.

As esganadas, de Jô Soares
Rio, 1938. Um perigoso assassino está à solta nas ruas. Seu alvo: mulheres jovens, bonitas e… gordas. Sua arma: irresistíveis doces portugueses. Com requintes de crueldade gastronômica, ele mata sem piedade suas vítimas, e depois expõe seus cadáveres acintosamente, escarnecendo das autoridades. Com o hilariante e engenhoso As esganadas, Jô Soares está de volta ao seu gênero de predileção: o romance histórico policial. Veja um vídeo com Jô lendo um trecho do livro.

Antônio Vieira, jesuíta do rei, de Ronaldo Vainfas
Educado no colégio jesuítico de Salvador, fluente em tupi ainda na juventude e testemunha da invasão holandesa da Bahia, na maturidade Vieira foi um missionário incansável entre as tribos bravias do Maranhã e do Pará; já septuagenário, após uma longa temporada na Europa, recolheu-se a uma modesta casa religiosa na capital baiana, onde organizou a maior parte de seus escritos para publicação. Tais fatos já seriam mais que suficientes, segundo o historiador Ronaldo Vainfas, para justificar a inclusão de Vieira na coleção Perfis Brasileiros. Contudo, mesmo quando ausente do Brasil, o religioso exerceu vasta influência sobre os destinos da principal colônia portuguesa. Antônio Vieira, jesuíta do rei oferece um abrangente panorama biográfico dessa figura capital da literatura e da história da lusofonia.

Essencial Padre Antônio Vieira (Organização e introdução de Alfredo Bosi)
Embora o mundo monárquico, escravista e radicalmente dogmático de Vieira já tenha há muito desaparecido, sua extensa obra continua a iluminar a história e a literatura da lusofonia. Jesuíta, político e pregador, confessor de reis e profeta do Quinto Império, autor de centenas de sermões e de uma riquíssima correspondência, Vieira foi um homem de múltiplos interesses, unificados por sua fé inquebrantável e pela crença nos altos destinos de Portugal. Essencial Padre Antônio Vieira é uma generosa amostra de sua eloquente produção literária, incluindo alguns de seus melhores sermões, cartas e textos proféticos, além de uma esclarecedora introdução de Alfredo Bosi, membro da Academia Brasileira de Letras, e de excertos de A chave dos profetas.

A paixão de A., de Alessandro Baricco (Tradução de Roberta Barni)
Turim, anos 1970. Quatro adolescentes de 16, 17 anos, levam uma vida de classe média, pacata e sem sobressaltos. Todos são católicos, tocam numa banda de paróquia e fazem trabalho voluntário em um hospital da cidade. É quando aparece Andre, jovem rica, fascinante, desinibida, que reduz a pó a estabilidade do grupo de amigos. Seduzidos pela beleza da garota e pelo mundo completamente diferente no qual ela se move, os quatro amigos aos poucos vão se abrindo para experiências antes impensáveis, o que colocará em xeque suas convicções mais arraigadas, a começar pela fé. Tudo se precipita de modo muito veloz e, a partir de certo ponto, cada um deles seguirá seu rumo — um caminho necessariamente solitário e doloroso, mas também cheio de prazer.

E o cérebro criou o homem, de António R. Damásio (Tradução de Laura Motta)
O que é a consciência? Onde ela fica? Como se desenvolveu ao longo do processo evolutivo e que vantagens traz à sobrevivência? A ciência vem avançando na busca por essas respostas, que este livro apresenta numa discussão rica e instigante. Mas que não se espere uma resposta final. “A tarefa de compreender como o cérebro produz a mente consciente continua incompleta. O mistério da consciência ainda é mistério, apesar de termos conseguido penetrar um pouquinho em seus segredos”, diz o autor. Uma coisa é certa: sem a consciência em seu desenvolvimento máximo, a humana, não haveria ciência nem arte. E não haveria a possibilidade de buscar desvendar essa consciência. Neurocientista português radicado nos EUA, Damásio é um dos pensadores mais influentes do mundo no que diz respeito à investigação da mente.

Budapeste, de Chico Buarque
Nova edição do terceiro romance de Chico Buarque, que ganhou o Prêmio Jabuti de Melhor Livro de 2003. José Costa é um ghostwriter: ele escreve anonimamente, por encomenda, monografias escolares, cartas de amor, autobiografias romanceadas e até best-sellers involuntários. A versátil picaretagem mistura-se, na trama, com o seu enfeitiçamento pela língua húngara, após uma escala forçada de seu avião em Budapeste. A língua ininteligível invade-lhe os sonhos e o toma como uma idéia fixa, levando-o a criar uma tresloucada vida paralela em Budapeste. Casado aqui com uma apresentadora de telejornais, envolve-se lá com uma professora de húngaro. O que o leva, na verdade, a se afundar num estranhamento permanente, entre duas cidades, duas mulheres, dois livros, duas línguas…

A casa dos náufragos, de Guillermo Rosales (Tradução de Eduardo Brandão)
Internado pela família em uma instituição psiquiátrica em Miami, o escritor William Figueras, um cubano exilado, mergulha em um processo de desumanização gradual, apenas adiado pelo amor por uma mulher e o sonho de voltar a escrever. Massacrado pela doença mental e emparedado entre o ressentimento por Cuba e a marginalidade a que é relegado na “América livre”, Figueras naufraga sem esperança de encontrar, seja no passado ou no presente, um porto seguro. Escrito em evidente paralelismo com a experiência vivida no exílio pelo jornalista e escritor cubano Guillermo Rosales, este romance é considerado um marco da literatura hispano-americana do século XX.

Lulu: um livro sobre ser pequenininho, de Camilla Reid (Tradução de Júlia Moritz Schwarcz; Ilustrações de Ailie Busby)
A Lulu tem um gato chamado Aroldo e uma coelha muito bonitinha, a Coelhalda. Vai com a mãe ao supermercado, depois ao parquinho e faz bagunça em casa com seus dois melhores amigos, a Bia e o Teo. Espiando embaixo das abas, as crianças são apresentadas aos pais da Lulu, à sua casa e a seus brinquedos favoritos. Acompanham um dia na vida da personagem, a ajudam a encontrar a Coelhalda, a contar as pombas, e adivinham qual é a janela do quarto da menininha, entre outras brincadeiras. Com linguagem atenta ao universo das crianças pequenas, as histórias da Lulu são sucesso entre o público de um a quatro anos.

Fotografando Verger, de Angela Lühning (Ilustrações de Maria Eugênia)
Pierre Verger nasceu em Paris, em 1902, em uma família com boa situação social e econômica. Contudo, a vida confortável e os costumes da sociedade europeia de seu tempo não lhe satisfaziam. Aos 30 anos, aprendeu a fotografar com um de seus amigos artistas, e fez desse o seu principal ofício. Por meio da fotografia, despediu-se de forma definitiva do mundo que lhe era familiar, e partiu em busca de novas experiências, viajando por quase todo o planeta. Nessas viagens, Verger procurava captar a identidade de cada lugar visitado, registrando em suas fotos sobretudo pessoas, em situações cotidianas e da maneira mais espontânea: em seus afazeres domésticos, no trabalho, nas horas de lazer. Na década de 1940, Pierre chegou a Salvador, cidade que desejava conhecer desde que lera Jubiabá, de Jorge Amado, ainda na França. E foi na capital baiana que ele se estabeleceu até o fim de sua vida, dedicando-se às imagens e aos estudos da cultura africana. Em 1988, na casa onde morava, criou uma fundação destinada a preservar e divulgar sua obra, bem como destacar a importância das culturas africanas e afro-brasileiras.

“As esganadas”, novo livro de Jô Soares

No dia 22 de outubro chega às livrarias As esganadas, novo romance policial de Jô Soares. A história se passa no Rio de Janeiro, na década de 30, e acompanha os crimes um serial killer de gordinhas.

Noite de autógrafos com Jô Soares
Quarta-feira, 26 de outubro, às 18h
Livraria Cultura – Conjunto Nacional
Loja Companhia das Letras por Livraria Cultura
Av. Paulista, 2073
São Paulo / SP

Veja abaixo a capa (feita por Victor Burton e Angelo Allevato Bottino) e um texto de Luís Fernando Verissimo sobre o livro, que já está em pré-venda.

Como ator e comediante, o Jô é um grande fazedor de tipos. Sabe como poucos construir um personagem, defini-lo com um detalhe e dar-lhe vida com graça e inteligência. Como autor, essa sua maestria se expande: os tipos são postos no mundo e, mais do que no mundo, numa trama — e o seu criador (eu quase escrevi Criador, pois não deixa de ser um trabalho de deus) se solta. Toda a ficção do Jô é feita de grandes personagens envolvidos em grandes tramas.

Os tipos e a trama deste livro são especialmente engenhosos e através deles o autor nos dá um retrato saboroso do Rio de Janeiro no fim dos anos 1930 e começo do Estado Novo — o Rio das vedetes que davam e dos políticos que tomavam, das estrelas do rádio e das corridas de “baratinhas”. E nesse mundo em ebulição chega uma figura portuguesa, saída de um poema do Fernando Pessoa, para elucidar o estranho e terrível caso das gordas desaparecidas que…

Mas não vou revelar mais nada. Um dos prazeres da literatura policial é ir acompanhando o desvendar de uma trama, levados de revelação a revelação por alguém com a fórmula exata para nos enlevar — e enredar. No caso do Jô, quem nos guia é um autor que já provou seu domínio do gênero, e que aqui se supera na perfeita dosagem de invenção, humor e erudição que nos prende desde a primeira página, desde a epígrafe.

Prepare-se para ser enlevado e enredado, portanto. E prepare-se para outras sensações. Só posso dizer que a trama deixará você, ao mesmo tempo, horrorizado e com fome. E que depois da sua leitura os Pastéis de Santa Clara jamais significarão o mesmo.

Luís Fernando Verissimo

Originais aos pedaços

Por Luiz Schwarcz

Mudei de ideia. Espero que não se importem em ler as outras histórias com Oliver Sacks um pouco mais para frente. Embora os episódios que ia relatar, ocorridos durante suas viagens ao Brasil, sejam dos meus favoritos, acho que podem esperar.

É que com a publicação do livro de Ingrid Betancourt, peguei-me lembrando de quando seu livro ia chegando, aos pedaços, e de todo o trabalho de edição que culminou na distribuição de Não há silêncio que não termine, esse fim de semana, às livrarias. Ingrid dedicou-se muito à confecção de seu livro de memórias do cativeiro. Deixou sua vida de lado por um ano e meio e se pôs a recordar, a lidar com lembranças difíceis, das quais quis distância, compreensivelmente, por um bom tempo.

Susanna Lea dedicou-se ao projeto como eu nunca vi um agente literário fazer, nos meus mais de trinta anos de editor. Praticamente parou de trabalhar pessoalmente para seus outros representados e montou um esquema de tradução do texto, que era escrito em francês por Ingrid e imediatamente vertido para o inglês por um tradutor contratado por seu escritório. Ainda abrigou Ingrid em seu apartamento em Nova York, para se afastarem, as duas, dos afazeres cotidianos de suas casas em Paris, e assim viabilizou a edição simultânea do livro em vários países — França, Espanha, Colômbia, Estados Unidos, Brasil, Inglaterra, Alemanha e Holanda. Todo dia Ingrid escrevia seus textos a mão, os escaneava e enviava para Susanna, que lia e comentava. Uma assistente da agência datilografava o texto e encomendava a tradução para o inglês. Enquanto isto o manuscrito era enviado para quatro editoras no mundo: a Gallimard na França, a Penguin Press nos Estados Unidos, a Virago na Inglaterra e a Companhia das Letras no Brasil.

Tive a sorte de ganhar a confiança da autora e da agente, e por isso fui um dos editores que trabalhou simultaneamente lendo e fazendo sugestões. Assim, acompanhamos capítulo a capítulo, recebendo os originais aos pedaços. Ao mesmo tempo, uma operação de guerra era montada pela Marta e pela Lucila para a preparação da edição brasileira em tempo recorde.

Olhando agora para o livro publicado, sinto a mesma sensação que tive muitas vezes: a necessidade de lê-lo novamente pronto para reconhecê-lo como unidade, para recuperar o que perdi por ter conhecido um livro em gestação, sem a fluência da leitura contínua, sem minha dedicação de editor, mas como leitor — deixando de lado a  infidelidade típica da minha profissão. Um editor está sempre “de caso” com vários autores ao mesmo tempo!

Foi assim com outros livros da editora, em especial com dois muito importantes na história da Companhia das Letras: Chatô, o rei do Brasil e O Xangô de Baker Street. O primeiro eu recebia por capítulos e conversava com Fernando Morais imediatamente. Discutíamos a sequência da redação e possíveis lacunas a serem preenchidas. Pensávamos o livro enquanto ele ia sendo escrito. Esse foi também o primeiro grande contrato da Companhia das Letras. Quando meu pai soube do adiantamento pago a Fernando Morais — nessa época a editora ainda existia nos fundos da gráfica da minha família —, quase tive que pedir auxílio a uma equipe de paramédicos. O livro foi entregue com enorme atraso, mas eu soube demonstrar ao autor, ao longo de muitos anos, toda a minha paciência e a importância que dava ao livro na minha carreira de editor. Ler os originais do Chatô aos pedaços foi um prazer imenso.

O mesmo ocorreu com o livro de Jô Soares. No entanto, neste caso, eu e a Lili recebíamos os originais quase página a página, por fax (quando ainda não havia e-mail), a qualquer hora do dia, sabendo que em Higienópolis um autor ansioso aguardava os comentários da historiadora e do editor, próximo ao telefone. Acompanhar livros desta maneira, como um longo parto compartilhado, analisando não só a narrativa, mas também discutindo caminhos e opções de trama e organização das informações, cria laços ainda maiores com os autores e com seus livros. O carinho que desenvolvi com Jô Soares e  Fernando Morais, e em certo sentido com Ingrid Betancourt agora, é memória que fica para sempre, cicatriz das boas, feita de orgulho e emoção.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor do recém-lançado Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.