joão ubaldo ribeiro

Semana duzentos e noventa e três

Foe, J.M. Coetzee (Tradução de José Rubens Siqueira)
Neste clássico da literatura contemporânea, publicado originalmente em 1986, o prêmio Nobel J.M. Coetzee reinventa a história de Robinson Crusoé. No início do século XVIII, Susan Barton se vê à deriva após o navio em que viajava ser palco de um motim de marinheiros. Ao desembarcar em uma ilha deserta, encontra abrigo ao lado de seus únicos habitantes: um homem chamado Cruso e seu escravo Sexta-feira. Cruso é um sujeito irascível, preguiçoso e autoritário: perdeu interesse em fugir da ilha ou mesmo em rememorar os eventos que marcaram sua chegada àquele lugar. Sexta-feira, por sua vez, não pode falar: teve a língua cortada, não se sabe se por proprietários de escravos ou pelo próprio Cruso. Depois de um ano, eles são resgatados por um navio que rumava para a Inglaterra, mas apenas Susan e Sexta-feira sobrevivem à viagem a Bristol. Determinada a contar sua história, ela busca um famoso escritor de seu tempo, Daniel Foe, na esperança de que ele escreva um livro sobre sua experiência na ilha. Mas com a morte de Cruso e a incapacidade de articulação de Sexta-feira, a tarefa se mostra mais difícil do que pensava. Vaidoso, Foe insiste em adaptar a narrativa a seus caprichos. Susan, por sua vez, tem de convencê-lo de que sua versão é melhor e luta para manter viva a memória de um passado do qual permanece como única testemunha — ou ao menos a única capaz de transformar aquela experiência em linguagem. Traiçoeiro, elegante e inesperadamente lírico, Foe é uma das obras de construção mais complexa na carreira de um mestre absoluto da literatura.

A vida invisível de Eurídice Gusmão, Martha Batalha
Rio de Janeiro, anos 1940. Guida Gusmão desaparece da casa dos pais sem deixar notícias, enquanto sua irmã Eurídice se torna uma dona de casa exemplar. Mas nenhuma das duas parece feliz em suas escolhas. A trajetória das irmãs Gusmão em muito se assemelha com a de inúmeras mulheres nascidas no Rio de Janeiro no começo do século XX e criadas apenas para serem boas esposas. São as nossas mães, avós e bisavós, invisíveis em maior ou menor grau, que não puderam protagonizar a própria vida, mas que agora são as personagens principais do primeiro romance de Martha Batalha.  Enquanto acompanhamos as desventuras de Guida e Eurídice, somos apresentados a uma gama de figuras fascinantes: Zélia, a vizinha fofoqueira, e seu pai Álvaro, às voltas com o mau-olhado de um poderoso feiticeiro; Filomena, ex-prostituta que cuida de crianças; Luiz, um dos primeiros milionários da República; e o solteirão Antônio, dono da papelaria da esquina e apaixonado por Eurídice.

O livro dos bichos, Roberto Kaz
Um dos grandes nomes do novo jornalismo brasileiro, Roberto Kaz chegou a escrever sobre figuras das artes, do futebol e da política, mas especializou-se em textos sobre animais. Cada bicho serve para conduzir o leitor a um universo desconhecido. Assim, quando fala de um touro reprodutor, Kaz revela todo um mundo de negociações milionárias e intrigas políticas. Quando conta sobre a quase extinta ararinha-azul, dá um panorama rico e informado a respeito do protecionismo ambiental. Quando perfila uma celebridade animal, revela uma guerra de patentes nos bastidores da maior emissora do país. Sempre com empatia, Kaz extrai desses bichos histórias carregadas de tristeza e humor, que revelam tanto sobre o mundo animal quanto sobre nós mesmos.

Alfaguara

Memorial da fraude, Jorge Volpi
No auge da crise imobiliária de 2008, um dos mais respeitados gênios financeiros de Nova York é acusado de desfalcar seus clientes em quinze bilhões de dólares — uma fraude histórica que o alça ao rol dos grandes criminosos financeiros de nossa época. Enquanto narra suas confissões, o protagonista admite: “sou um canalha e um ladrão”. Ao mesmo tempo, faz questão de expor outros criminosos que atuam no mercado financeiro e cometem fraudes ainda piores.

Diário do farol, João Ubaldo Ribeiro
Em Diário do farol, um clérigo amoral e inescrupuloso relata as maldades que perpetrou ao longo da vida. Os maus-tratos que sofreu na infância mudaram profundamente sua forma de ver o mundo: ele constatou que não havia motivos para ser bom, e decidiu que seria para sempre mau. Deixando de lado o filtro de qualquer valor moral, o padre lança mão de astúcia, dissimulação, violência e todo tipo de recurso torpe para atingir seu principal objetivo — tornar-se o pior dos seres humanos.

Um ano sem Ubaldo

Por Rodrigo Lacerda

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Foto: Bruno Veiga

João Ubaldo Ribeiro foi um escritor de inúmeras qualidades. Em primeiro lugar, era ótima pessoa. Erudito e divertido, preciosa combinação. Não tinha falsa modéstia e sabia muito bem o tamanho de seu talento, mas era extremamente humilde perante a arte e o ofício de escritor. Era também um espírito aberto e extremamente respeitoso da opinião alheia. Por isso, creio, evitava falar de arte. Ele sabia que, em noventa e nove por cento dos casos, quando duas pessoas conversam sobre o tema, em meio à troca de pedantismos, uma está na verdade tentando impor suas preferências à outra.

Sargento Getúlio, Vila Real, Livro de Histórias e Viva o povo brasileiro são obras-primas da primeira fase. Diário do farol e O albatroz azul, os livros de que mais gosto da fase final. Mas em todos eles vemos com que habilidade trabalha a língua portuguesa, tornando-a eficiente na construção dos personagens e sonora no ouvido e na cabeça do leitor. O alcance do seu universo vocabular é raríssimo entre os escritores contemporâneos. Em seus livros, o passado e o presente da nossa língua se encontram.

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Rodrigo Lacerda nasceu em 1969, no Rio de Janeiro. É autor de O mistério do leão rampante (novela, 1995, prêmio Jabuti e prêmio Certas Palavras de Melhor Romance), A dinâmica das larvas (novela, 1996), Vista do Rio (romance, 2004), O fazedor de velhos (romance juvenil, 2008, prêmio de Melhor Livro Juvenil da Biblioteca Nacional, prêmio Jabuti, prêmio da FNLIJ), Outra vida (Melhor Romance no prêmio Academia Brasileira de Letras), e A república das abelhas, lançado pela Companhia das Letras em 2013.