john cheever

Semana cento e setenta e oito

Os lançamentos desta semana são:

Ligue os pontos, de Gregorio Duvivier
Um dos maiores responsáveis pelo sucesso do canal Porta dos Fundos, o ator e roteirista Gregorio Duvivier tem revelado grande habilidade em transformar a tragicomédia da vida contemporânea numa provocativa salada de gags que misturam absurdo e realidade. Ligue os pontos mostra que, para além da prosa humorística, o tratamento lúdico das palavras pode render poesia de qualidade. Refinada no curso de Letras da PUC-Rio – e elogiada por autoridades como Millôr Fernandes, Paulo Henriques Britto e Ferreira Gullar -, a escrita poética de Duvivier tem foco na importância descomunal dos momentos insignificantes do cotidiano. Flashes pungentes e irônicos da adolescência – o autor é um expoente da “geração do bug do milênio” -, o mistério da criação, as palavras e suas relações inusitadas, a experiência do amor vivido enfim como gente grande, a transitoriedade de tudo: tendo a geografia sentimental do Rio de Janeiro como pano de fundo, a constelação de poemas de Ligue os pontos revela uma dicção marcadamente individual, que flerta, contudo, com o melhor da tradição carioca nonchalante, e extrai do dia a dia compartilhado imagens de desconcertante beleza.

Bullet Park, de John Cheever (Tradução de Pedro Sette-Câmara)
Bem-vindo a Bullet Park, uma cidade em que até os burgueses mais engomadinhos conseguem se assustar com a sua própria imagem no espelho. Nesse ambiente exemplar, John Cheever retrata o fatídico encontro de dois homens: Eliot Nailles, um bom sujeito que ama sua esposa e seu filho de forma contente e um tanto alheia, e Paul Hammer, um bastardo cujo nome veio de um simples instrumento caseiro e que, após passar metade da vida a esmo, vai morar em Bullet Park com um objetivo – assassinar o filho de Nailles. Uma homenagem lírica, divertida e mordaz ao subúrbio americano – e a toda a (duvidosa) normalidade que ele representa – pelas mãos de um dos grandes nomes da literatura dos Estados Unidos.

Portfolio-Penguin

O mapa e o território, de Alan Greenspan (Tradução de André Fontenelle e Otacílio Nunes Jr.)
O mapa e o território é um tratado minucioso sobre como atualizar a grade conceitual de que dispomos para fazer previsões. Integrando o mais recente trabalho de economistas comportamentais, a história das previsões econômicas e suas próprias memórias, Greenspan oferece ao leitor uma visão lúcida e fundamentada sobre o que podemos ou não prever acerca do futuro. O mapa e o território explora o modo como a cultura determina o destino dos países, além de apontar possíveis caminhos diante de alguns dos maiores desafios que se apresentam para a humanidade, da reforma do Estado do bem-estar social aos desastres naturais em uma era de aquecimento global. Nenhum mapa é o território, mas a abordagem de Alan Greenspan, amparada pelo rigor e perspicácia que lhe são peculiares, assegura que este mapa será de grande valia para traçar jornadas mais seguras em diferentes estradas, transitadas por indivíduos, empresas e pelo Estado.

Semana sessenta e oito

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Os lançamentos da semana são:

A ideia de justiça, de Amartya Sen (Tradução de Denise Bottman e Ricardo Doninelli Mendes)
O que precisa ser feito para que as injustiças mais evidentes do mundo contemporâneo sejam eliminadas ou, ao menos, atenuadas? Nas sociedades democráticas, as instituições do Estado trabalham pela aplicação equânime das leis ou são meros instrumentos de uma burocracia autorreferente? Partindo do ordenamento jurídico em vigor — que negligencia a realidade concreta dos cidadãos para privilegiar a formulação de arranjos institucionais —, que caminhos podem levar à construção de um planeta mais inclusivo e menos iníquo? Neste livro ao mesmo tempo rigoroso e inovador, Amartya Sen, prêmio Nobel de economia em 1998, retira o foco das utopias conceituais do direito para tentar responder as questões mais urgentes da cidadania, desviando-se das elucubrações sobre a essência da justiça ideal que, desde o Iluminismo, vêm balizando a ciência do direito. Sen traz as esperanças e necessidades das pessoas reais para o centro da discussão, sugerindo uma radical reavaliação das prioridades da justiça e da política.

Como vou?, de Mariana Zanetti, Renata Bueno e Fernando de Almeida
Podemos ir de um canto a outro das mais diversas formas, dependendo de onde moramos, de quanto tempo temos e, às vezes, de algumas das nossas preferências também. Quando vamos a um lugar do ladinho de casa é bom ir a pé; se moramos em uma cidade grande, tem até metrô; se é preciso atravessar o oceano, só mesmo de avião ou navio; e quem não gosta de ir até a casa do amigo de bicicleta? Nas brincadeiras infantis, os meios de transporte estão sempre presentes e levam as crianças até onde a imaginação mandar. Neste livro, três artistas arquitetos se uniram para falar sobre a nossa movimentação no espaço, seja embaixo da terra, na água ou no ar — para cada situação, um jeito diferente de se deslocar —, e usaram um pouco de tudo de que gostam na hora de ilustrar: colagem, lápis e tinta.

Denúncias, de Ian Rankin (Tradução de Álvaro Hattnher)
Malcolm Fox tem que ser exemplar. Como inspetor da Divisão de Denúncias da Polícia de Edimburgo, na Escócia, ele precisa manter a linha para não dar munição aos policiais corruptos que investiga. Mas o passado de alcoolismo e a tendência a passar por cima de autoridades fazem de Fox uma presa fácil para seus inimigos. Especialmente quando ocorre um assassinato em sua família. Suspeito do crime, Fox tenta encontrar o verdadeiro assassino, e descobre que o encarregado da investigação é seu próximo alvo na Divisão de Denúncias: o sargento-detetive Jamie Breck, acusado de fazer parte de uma rede de pedofilia na internet. Na busca pela verdade, Fox e Breck topam com outra morte e uma intrincada trama de interesses que envolve pessoas importantes da sociedade escocesa. Para conseguir resolver o crime, o inspetor precisa decidir em quem confiar — quando todos parecem estar contra ele.

A especulação imobiliária, de Italo Calvino (Tradução de Mauricio Santana Dias)
O protagonista de A especulação imobiliária, o sr. Anfossi, espécie de alter ego do autor, é um intelectual em crise com suas ideias, que volta à sua cidade natal, na Riviera da Ligúria, para incorporar um imóvel — o que, por motivos óbvios, acaba complicando ainda mais sua vida. Incapaz de lidar com os problemas da vida prática, Anfossi acaba envolvido numa série interminável de problemas causados por seu antagonista, o sr. Caisotti, construtor trambiqueiro e inescrupuloso. Em meio a uma legião de advogados, engenheiros, funcionários públicos e operários, Anfossi e sua família assistem impotentes ao desenrolar dos fatos. O fracasso da empreitada, porém, convive com o sucesso dos agentes que contribuíram para transformar a nova Itália num paraíso de arrivistas, negociatas e do turismo de massa. Sem conseguir realizar-se nem no campo das ideias, ao anti-herói deste romance ao mesmo tempo cômico e amargo resta a alternativa improvável de reinventar para si um novo modo de sobrevivência neste mundo que muda vertiginosamente.

A crônica dos Wapshot, de John Cheever (Tradução de Alexandre Barbosa de Souza)
Primeiro romance de John Cheever, A crônica dos Wapshot é o retrato de uma família tradicional e decadente da Nova Inglaterra, cenário dileto das narrativas ácidas e minimalistas do autor. Na pequena e depauperada cidade de St. Botholphs, o patriarca da família é operador de balsa, o que não é um grande emprego para quem descende de lendários comandantes de navio, mas ele vai levando a vida com a esposa e os filhos. Os filhos crescem, deixam a casa dos pais para começar vida própria em Washington e Nova York, e a narrativa passa a girar em torno deles. Os dois parecem reconquistar o lugar “de direito” da família, mas o individualismo exacerbado e a vacuidade de suas existências são a tônica desta que é uma das grandes narrativas familiares do século XX.

O bigode de Philip Roth e outras coisas imaginadas

Por Joca Reiners Terron

O lugar onde o escritor comete seus crimes costuma despertar fascínio nos leitores. A frase anterior poderia ser mera generalização, caso não existissem colunas dedicadas ao assunto nos principais suplementos literários do mundo. O Babelia, do El País, por exemplo, veicula a coluna El rincón, que também tem explorado locais de trabalho de artistas plásticos, atores etc. O suplemento Review do britânico Guardian igualmente dedicava atenção exclusiva a escrivaninhas, mesas de bares e (sim, por que não?) bidês na seção Writer’s Rooms, mas é evidente que não há tantos escritores excêntricos assim, e os editores agora têm apelado aos músicos, o que só faz sentido se o sujeito for um tecladista caidinho por pianos de cauda. No Brasil, há o conhecido ensaio do fotógrafo Eder Chiodetto reunido no livro O lugar do escritor.

O melhor exemplo que conheço do gênero, porém, é The writer’s desk, de Jill Krementz. A fotógrafa norte-americana teve a vantagem enorme de ter sido casada a vida toda com um escritor (dupla vantagem, pois era casada com o invencível Kurt Vonnegut Jr), o que lhe permitiu registrar cerca de 1.500 escritórios de amigos escribas. Outros aspectos positivos do livro de Krementz são o prefácio de John Updike, além da excelente ideia de acompanhar cada foto com pequenos depoimentos dos fotografados acerca de seus hábitos de ofício. Apenas essa medida já justificaria o livro, mas ainda podemos praticar o voyeurismo pleno ao observar a antológica mania de organização de Georges Simenon somente dando uma olhadela no enfileiramento metódico dos cachimbos em sua escrivaninha. O T.O.C. de Simenon também parece colocar sua ficção em movimento: “O início é sempre o mesmo; é quase um problema geométrico: eu tenho esse homem, essa mulher, em tais circunstâncias. O que pode acontecer que os obrigue a ir ao seu limite?”

Desse modo, Jill Krementz expõe o material (às vezes viscoso) de que é feito o caráter de seus personagens. Pablo Neruda, por exemplo, em sua ampla mesa cercada de bandeiras do Chile e de objetos étnicos adquiridos em viagens ao redor do planeta, é o mais perfeito retrato do escritor de gabinete. A semelhança com um político flagrado em pleno ato de despachar é amplificada pela cadeira vazia diante de si, aparentemente à espera de um assistente parlamentar que nunca chegou. Há outras amostras mais simpáticas de bicho escritor, como o vovô George Plimpton metralhando sua máquina datilográfica tendo às costas dois bebês (parecem gêmeos) estirados sobre o tapete em pleno esvaziar das mamadeiras; ou um esvaziar distinto (desta vez alcoólico): pelo menos três dos retratados têm copos de uísque ao alcance do bico: Tennessee Williams, Terry Southern e John Cheever, que também exibe em primeiro plano um enorme cinzeiro com ao menos mil bitucas. Mais do que o furor tabagístico, o que impressiona na foto de Cheever é o despojamento de seu quarto.

O caráter imaterial dessas oficinas onde a imaginação opera talvez possa ser pressentido pelos objetos que as preenchem (ou que evidenciam o seu vazio, no caso franciscano de Cheever), como se observando-as pudéssemos atinar com aquilo que move cada escritor. Joan Didion, por exemplo, guarda uma cama ao fundo, bastante próxima à escrivaninha. “Uma coisa que preciso fazer, quando estou próxima do final do livro, é dormir no mesmo cômodo que ele… De algum modo o livro não te abandona quando você dorme ao seu lado.” Já Philip Roth, numa rara exibição de um bigode que abandonou (pois certamente era obrigado a se lembrar de Groucho Marx a cada escovada nos dentes), como de seu feitio, opta pela desmistificação: “Não questiono escritores sobre seus hábitos de trabalho. Não estou nem aí. Joyce Carol Oates disse em algum lugar que os escritores, quando perguntam uns aos outros a que horas começam a trabalhar e que horas terminam e quanto tempo levam pra almoçar, estão na verdade tentando descobrir, ‘Será que ele é tão louco quanto eu?’ Eu não preciso de resposta pra essa questão.”

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Seu último livro é o romance Do fundo do poço se vê a lua, publicado pela Companhia das Letras. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.

Semana trinta

Os lançamentos desta semana foram:

Telefone sem fio, de Ilan Brenman e Renato Moriconi
Uma borboleta que é um planeta? Acho que ouvi maçaneta… É uma caminhoneta. O quê, uma costeleta? Entendi, você quis dizer muleta. Quem é que estava na gaveta? Ah, uma luneta! Ela é violeta? Você ganhou uma gorjeta? Estão me deixando zureta!!
Quem já brincou de telefone sem fio, entendeu essa conversa de maluco. É disso que brincam também os personagens desse livro sem palavras. O que será que eles estão cochichando?

Dez dias que abalaram o mundo, de John Reed (Tradução de Bernardo Ajzenberg)
Dez dias que abalaram o mundo é não só um testemunho vivo, narrado no calor dos acontecimentos, da Petrogrado nos dias da Revolução Russa de 1917, como também a obra que inaugura a grande reportagem no jornalismo moderno. A Universidade de Nova York elegeu este livro como um dos dez melhores trabalhos jornalísticos do século XX. Reed conviveu e conversou com os grandes líderes Lênin e Trotski, e acompanhou assembleias e manifestações de rua que marcariam a história da humanidade. Leia o post do editor Matinas Suzuki Jr. sobre este livro.

28 contos de John Cheever (Tradução de Jorio Dauster e Daniel Galera)
Reunião de contos de John Cheever — considerado um dos maiores contistas americanos do século XX e aquele que obteve o maior sucesso comercial com o gênero em todos os tempos — revela momentos de epifania e transcendênciano ambiente aparentemente anódino do subúrbio americano.

Ao coração da tempestade, de Will Eisner (Tradução de Augusto Pacheco Calil)
Nesta obra autobiográfica, um dos maiores gênios das histórias em quadrinhos apresenta um panorama do preconceito e da situação dos judeus na Europa e nos Estados Unidos, dos momentos que antecedem a Primeira Guerra Mundial ao início da Segunda, através da história de sua família.

Enquanto eles dormiam, de Donna Leon (Tradução de Carlos Alberto Bárbaro)
Em mais um volume da bem-sucedida série protagonizada por Guido Brunetti, o inspetor de polícia veneziano terá de enfrentar os interesses de uma obscura organização religiosa — protegida pelos poderosos da cidade —
para defender a frágil testemunha de uma possível rede de crimes.

Joana d’Arc e suas batalhas, de Phil Robins (Tradução de Marcelo Andreani; Ilustrações de Philip Reeve)
Joana d’Arc é praticamente sinônimo de fogueira, mas ela foi muito mais que isso. Liderou um exército, colocou um rei em seu trono e foi condenada à morte — tudo em apenas dezenove anos. Conheça mais sobre a aventura que foi a vida de Joana em mais uma biografia bem-humorada da coleção Mortos de Fama.

O ratinho se veste, de Jeff Smith (Tradução de Érico Assis)
O ratinho quer muito ir ao celeiro com a mãe e os irmãos. Mas, antes, precisa fazer um monte de coisas: colocar a cueca prestando atenção na etiqueta e no buraco para a cauda; vestir as calças, o que só dá para fazer sentado; acertar todos os botões da camisa… Será que ele vai conseguir ficar pronto a tempo?