john gledson

Semana cento e cinquenta e um

Os lançamentos desta semana são:

Memória da pedra, de Mauricio Lyrio
Desde a juventude, Eduardo investiga a fenda que partiu sua vida ao meio” — um acidente no Rio de Janeiro, no fim dos anos 1960, que envolveu seus pais. Suicídio ou fatalidade? A resposta pode estar nos conhecimentos de um médico, ou nas lembranças escondidas da família numa casa em Teresópolis. Ou talvez o caminho seja outro, o da redenção, na possibilidade de reconstituir uma vida fraturada — o amor por Laura, a relação paternal com o menino Romário, o fascínio pela personalidade de Marina, uma mulher no limite. Tudo o que for preciso — e possível — para deixar de ouvir apenas “a mudez na face escura da montanha”. (Leia o post de Luiz Schwarcz sobre o livro)

Tipos de perturbação, de Lydia Davis (Trad. Branca Vianna)
Lydia Davis, uma das ficionistas mais importantes da literatura americana contemporânea, surpreende o leitor com a originalidade vertiginosa das 57 narrativas breves deste volume. Apagando as fronteiras entre ficção, ensaio e poesia, ela se vale das mais variadas formas, abordagens e estilos — do falso diário pessoal à paródia de análise sintática, do inventário ao epigrama — para flagrar seus personagens em momentos de solidão e insegurança. A sociedade norte-americana, com suas insuficiências e contradições, revela-se como que à revelia, nas frestas destes textos muitas vezes serenos na superfície. Aqui, o cotidiano mais convencional deixa à mostra seu substrato absurdo, assim como a linguagem sóbria esconde um humor irônico e matreiro. Não por acaso Franz Kafka é o protagonista de um dos contos. Assim como o escritor tcheco, Lydia Davis expressa com maestria literária o trágico e cômico descompasso entre o homem moderno e o mundo a sua volta.

A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, de Joca Reiners Terron
O misterioso crime do Nocturama ocupa os noticiários. Em torno dele, giram as vidas de um entregador coreano, uma enfermeira especializada em pacientes terminais, um taxista com pendor para música clássica, um escrivão insone às voltas com a doença do pai e uma bióloga com pretensões televisivas. E, ao centro dessa trama cada vez mais macabra, está a criatura. Vestindo galochas e uma capa de chuva vermelha, ela passa os dias num casarão do Bom Retiro, sem jamais sair à rua. Embora pareça uma criança, sua idade é indeterminada, bem como suas intenções. Em A tristeza extraordinádiria do leopardo-das-neves, Joca Reiners Terron traz ao nosso tempo uma história que poderia pertencer à Inglaterra vitoriana. No lugar da neblina e dos lampiões a gás, um efervescente bairro de imigrantes no coração de São Paulo, onde convivem sucessivas gerações de judeus, coreanos e bolivianos. Um ambiente ideal para o embate entre seitas secretas, assassinos em série e antigos mistérios de família.

A mente assombrada, de Oliver Sacks (Trad. Laura Teixeira Motta)
Quem nunca fechou os olhos antes de dormir e se deparou com uma série de luzes e manchas? Ou pensou ter ouvido ruídos e vozes que não estavam lá? Quem nunca, em suma, duvidou da própria mente em alguma situação? Para o neurologista Oliver Sacks, um dos grandes cientistas de nosso tempo, as alucinações são parte fundamental da consciência humana. Elas oferecem um vislumbre da arquitetura do cérebro e uma chave para muitos de seus mistérios. Praticamente todas as culturas buscaram experiências alucinógenas nas drogas, o que nos faz questionar até que ponto elas podem ter inspirado nossa arte, folclore e religião. Combinando erudição médica com relatos pessoais, Sacks investiga as causas e consequências das alucinações, seguindo a trilha de autoanálise e compaixão que marca sua obra.

Crônicas escolhidas, de Machado de Assis (Org. John Gledson)
Um Machado de Assis quase desconhecido se revela em suas centenas de crônicas, publicadas na imprensa do Rio de Janeiro entre 1859 e 1900. Nesta seleção, que abrange o principal período criativo de Machado, “a pena da galhofa e a tinta da melancolia” estão a serviço da atenta observação do cotidiano brasileiro e carioca, bem como do noticiário internacional. Quase sempre sob pseudônimo, Machado se vale do “grande veículo do espírito moderno” — o jornal — para refletir sobre os acontecimentos de sua época. Testemunha privilegiada de marcos históricos como a Abolição, a Proclamação da República, a crise do Encilhamento e a Revolta da Armada, o autor também se debruça sobre questões como o comportamento no interior dos bondes, o casamento sem paixão e a naturalidade dos estrangeirismos na língua portuguesa. Com organização, introdução e notas elucidativas de John Gledson, este livro oferece uma amostra generosa da produção jornalística de nosso grande escritor, que como cronista fez escola, assim como Rubem Braga, Nelson Rodrigues e Paulo Mendes Campos. (Leia o post de John Gledson, organizador do livro)

Editora Seguinte

A elite, de Kiera Cass (Trad. Cristian Clemente)
A Seleção começou com 35 garotas. Agora, restam apenas seis, e a competição para ganhar o coração do prícipe Maxon está acirrada como nunca. Quanto mais America se aproxima da coroa, mais se sente confusa. Os momentos que passa com Maxon parecem um conto de fadas. Mas sempre que vê seu ex-namorado Aspen no palácio, trabalhando como guarda e se esforçando para protegê-la, ela sente que é nele que está o seu conforto. America precisa de mais tempo. Mas, enquanto ela está às voltas com o seu futuro, perdida em sua indecisão, o resto da Elite sabe exatamente o que quer — e ela está prestes a perder sua chance de escolher.

Editora Paralela

Restos mortais, de Patricia Cornwell (Trad. Celso Nogueira)
Fred e Deborah, jovens, lindos e saudáveis, estão desaparecidos. O pânico toma conta da cidade de Richmond, na Virgínia. Será que o casal de namorados teve o mesmo fim que os outros quatro jovens casais desaparecidos anteriormente? A ideia é aterrorizante,  pois nos outros casos as vítimas foram achadas, meses depois, em estado avançado de decomposição. Suspeitos multiplicam-se como cadáveres abandonados, num quebra-cabeça sinistro e labiríntico onde vamos encontrar, mais uma vez, a dra. Kay Scarpetta: a mais intrigante protagonista do gênero policial moderno.

Machado de Assis, o cronista

Por John Gledson

Entrei no mundo de Machado de Assis há mais de trinta anos, e nunca me cansei de explorar seus lugares escondidos. Habituei-me a buscar um Machado diferente, nas obras ditas “menores”, sobretudo nos contos e nas crônicas. Comprava nos sebos do Rio de Janeiro os volumes destas obras meio esquecidas, muitos deles editados por Raymundo Magalhães Júnior. Um destes, com o estranho título Diálogos e reflexões de um relojoeiro, me atraiu. Continha uma série de crônicas, “Bons Dias!”, escritas em 1888 e 1889, às vezes difíceis de entender para quem não conhecia os meandros do processo que levou à Abolição, em 13 de maio de 1888, e, no ano seguinte, à República.

Eram fascinantes, e perigosas: tanto assim que saíram anônimas, assinadas só “Boas Noites”. Machado estava acostumado a usar pseudônimos mais ou menos transparentes, mas só se veio a saber que esta série era dele na década de 1950. Saltavam aos olhos a graça ferina, a visão nada convencional do processo da abolição, o ceticismo profundo que informava estas crônicas. Quanto havia mudado no 13 de maio? Poucos dias depois da abolição, a crônica apresenta ao leitor o (recém) ex-escravo Pancrácio, e seu generoso ex-dono, que o libertou uma semana antes da aprovação da lei, e nos conta o teatro que encenaram no dia mesmo da libertação. Desde então, diz o ex-dono, pouca coisa mudou: “daí para cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo”. Porque, enfim, como diz: “Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos”!

Havia um só jeito de entender bem estas crônicas: lê-las no seu contexto original. Crônica é criatura de jornal, e já me habituara a deliciar-me com elas “na porta do forno”, por assim dizer, no dia em que saíam – as de Drummond, de Clarice e outros –, nos jornais das minhas primeiras viagens ao Brasil, dos anos 70 e 80.

Em 1987 fui convidado a fazer uma edição de “Bons Dias!” e entrei mais a fundo no mundo dos jornais de um século atrás: sobretudo na Gazeta de Notícias, onde foram publicadas estas crônicas. Não foi um jornal qualquer. Criou uma revolução democrática na imprensa brasileira quando saiu primeiro, em 1875. O nascimento da Gazeta acompanhou o começo de um mundo diferente, um mundo, de fato, reconhecivelmente “nosso”. No espaço de vinte ou trinta anos, vieram o telégrafo, o bonde, o telefone, a bicicleta, os raios-x… O jornal e seus jornalistas e escritores (Eça de Queiroz, entre eles) acompanhavam estes “progressos” no mundo cada vez mais complexo e conturbado do “fim de século”.

A nova antologia de crônicas que acabei de selecionar para a Penguin-Companhia (disponível a partir do dia 24 de abril) pretende mostrar a verve deste “outro” Machado, que será uma novidade para quem só conhece os romances e os contos. Incluí uma boa seleção de “Bons Dias!” e alguns textos anteriores a eles, mas, sobretudo, escolhi mais de trinta crônicas de “A Semana”, a última série que publicou, entre 1892 e 1897.

“ A Semana” é de longe a série maior, a mais ambiciosa, a mais próxima ao nosso mundo, e dela vêm praticamente todas as crônicas mais célebres: “O sermão do diabo”, “Conversa de burros”, “O punhal de Martinha”, “O autor de si mesmo” etc. Todo mundo sabia que estas crônicas eram dele – só ele para escrever com aquela graça, muitas vezes com um gostinho amargo. Não assinou, mas agora não era para esconder sua identidade. Pelo contrário, em alguns momentos fala de si mesmo, seja para queixar-se de suas enxaquecas, ou para lembrar a primeira vez que viu sua futura mulher, em 1868, no Cassino Fluminense, ou as suas conversas sobre literatura com José de Alencar na livraria Garnier, ou um encontro com um burro semi-morto na Praça Quinze. A variedade dos assuntos é quase sem limite, tratados sempre com a ironia, o inesperado que fazia com que os leitores esperassem, a cada domingo, a elegância descontraída destas obrinhas de mestre.

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John Gledson nasceu em Beadnell, Northumberland, Inglaterra, em 1945. Doutor pela Universidade de Princeton, é professor aposentado de estudos brasileiros na Universidade de Liverpool. Publicou três livros sobre Machado de Assis no Brasil: Machado de Assis: Ficção e história, (Paz e Terra, 1986), Machado de Assis: Impostura e realismo (Companhia das Letras, 2005) e Por um novo Machado de Assis (Companhia das Letras, 2006).