john updike

Semana sete

Os lançamentos desta semana foram:

O castelo nos Pirineus, de Jostein Gaarder (Tradução de Luiz A. de Araújo)
Por cinco anos intensos na década de 1970, Steinn e Solrunn foram felizes. Então tomaram rumos diversos, por razões desconhecidas a ambos. No verão de 2007, depois de trinta anos distantes, eles se encontram por acaso num lugar intimamente relacionado à separação no passado. Mas terá sido esse encontro, em lugar tão significativo, um mero acaso? Buscando respostas a essa pergunta, e para entender como um relacionamento que prometia ser duradouro pôde acabar subitamente, o ex-casal começa uma frenética troca de e-mails — a matéria e a forma deste romance filosófico. O autor, que também escreveu o best-seller O mundo de Sofia, estará na Bienal do Livro de São Paulo, em agosto.

As viúvas de Eastwick, de John Updike (Tradução de Fernanda Abreu)
O livro narra os reencontro das três conhecidas personagens de As bruxas de Eastwick: Alexandra, a encarnação da força natural feminina, afastada da família e perdendo a vontade de viver; Jane, a violoncelista esnobe e sarcástica, que convive com uma sogra aparentemente imortal; e Sukie, a autora de literatura amorosa, que procura sublimar na ficção o furor carnal que resiste com o passar dos anos. Após os acontecimentos do primeiro livro, elas foram viver em cidades diferentes, e agora, viúvas septuagenárias, reatam a amizade e viajam pelo mundo procurando combater a solidão da velhice.

A Costa Oeste, de Paula Fox (Tradução de Sonia Moreira)
Este romance de uma das mais importantes escritoras norte-americanas contemporâneas expõe os dramas de seus personagens contra um cenário social e político marcado pelo fim da Grande Depressão e pela tensa antevéspera da Segunda Guerra Mundial. Apesar disso, a protagonista da história, a jovem e inexperiente Annie Gianfala, vive na mais completa alienação numa Califórnia intoxicada de vaidades. Cabe a outros personagens a tarefa de iniciá-la nas engrenagens do mundo e nas armadilhas da sexualidade e do amor.

Uma casa para o sr. Biswas, de V. S. Naipaul (Tradução de Paulo Henriques Britto)
Uma casa para o sr. Biswas é inspirado na infância e adolescência do autor indiano, e a maior ambição de seu protagonista é ter sua própria casa. A história desse personagem irremediavelmente deslocado é recheada de divertidas peripécias, sempre girando em torno da eterna busca de um lar e de uma ocupação satisfatória. Em suas aventuras, está sempre às voltas com parentes, vizinhos e amigos intrometidos, que ora o atrapalham ora o ajudam em sua cruzada. Com muito humor, o autor faz a mais sutil e abrangente análise da situação colonial já elaborada em literatura de ficção.

O teatro de Sabbath, de Philip Roth (Tradução de Rubens Figueiredo)
Nova edição do romance que apresenta ao leitor o sexagenário Mickey Sabbath, artista de fantoches aposentado. Entre o sexo e a morte, Sabbath vai resistindo a tudo o que no mundo apaga nossa incandescência. E Phillip Roth, no auge de sua carreira, realiza uma façanha de virtuosismo erótico e dramático. Entre as perguntas que o livro sugere está descobrir até que ponto é possível escrever o sexo. O erótico e o humano se confundem, de modo comovente, neste romance que fala ainda mais quando não há o que falar. Comparada a O teatro de Sabbath, a literatura erótica ainda precisa aprender muita coisa.

Que João é esse? Que Maria é essa?, de Lalau (Ilustrações de Laurabeatriz)
João-deitado e Maria-mole, João-teimoso e Maria-fumaça, João-teneném e Maria-faceira… Vixe, Maria! É João e Maria que não acaba mais. Pensando nessa presença constante das duas palavras entre os nomes que damos aos bichos, plantas, bonecos e até penteados de cabelo, a dupla Lalau e Laurabeatriz criou e ilustrou doze poemas, cada um com uma dupla de personagens. O resultado é um livro que não só ensina poesia para as crianças pequenas como apresenta curiosidades da cultura brasileira, pois, ao final do volume, um glossário explica o que é e de onde vem cada expressão que aparece nos poemas.

Às margens do Amazonas, de Laurence Quentin (Ilustrações de Catherine Reisser; Tradução de Rosa Freire d’Aguiar)
Apesar de pouco povoada, a floresta amazônica é tão extensa que abriga as mais diversas etnias. O livro convida as crianças a conhecer a história, a vida, os costumes e o habitat de três povos amazônicos, de países diferentes: no Brasil, os caboclos; entre o Brasil e a Venezuela, os ianomâmis; e no Equador, os otavalos. Textos explicativos são acompanhados de narrativas ficcionais, sugestões de jogos e atividades culinárias, e ilustrados com desenhos, fotos e mapas da região.

A cicatriz, de Ilan Brenman (Ilustrações de Ionit Zilberman)
Conversando com os pais, Silvinha descobre que seu queixo machucado vai ganhar uma cicatriz para a vida inteira. A novidade deixa a menina tão empolgada que ela resolve investigar as cicatrizes de todos os parentes. A partir disso, Silvinha se põe a pensar sobre a passagem do tempo, sobre as marcas dos acontecimentos na vida das pessoas, e vai conhecer histórias interessantíssimas dos avós, tios, primos e primas.

Links da semana

No dia 16 de junho nós organizamos um encontro com blogueiros, para falar um pouco da nossa proposta e ouvir o que vocês tinham a dizer sobre o nosso blog até agora. Anotamos todas as críticas e sugestões (que vocês sempre podem nos mandar por e-mail ou escrever nos comentários). Algumas mudanças já apareceram, como a participação de editores contando sobre os livros em que estão trabalhando, e outras ainda estão planejadas.


Encontro de blogueiros

Todas as quartas-feiras, por exemplo, passaremos a colocar links de posts legais de outros blogs, e algumas notícias que acharmos interessantes.

Para começar, veio à tona a notícia de que John Updike deixou um extenso arquivo sobre seus trabalhos. Este mês a Companhia lançou dois livros do autor: As bruxas de Eastwick (em versão pocket) e sua continuação, As viúvas de Eastwick, e você pode ler sobre os dois no blog Devoradora de livros.

No dia 16 foi comemorado o Bloomsday, em homenagem ao livro Ulysses, de James Joyce. Para comemorar a data, o Daily Beast montou uma lista de livros que são considerados os equivalentes ao Ulysses em suas culturas, e o escolhido do Brasil foi Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa.

Para aqueles que ainda estão se acostumando com as novas tecnologias, duas novidades: o fabricante dos cadernos Moleskine criou uma capa especial para o Kindle, que, além de proteger o e-reader, tem um bloco para aqueles que preferem fazer suas anotações em papel. Já os saudosistas das máquinas de escrever podem adaptar suas máquinas para funcionarem como teclados eletrônicos, que podem ser usados via USB em computadores, laptops e até mesmo no iPad. Mas se você já se adaptou ao mundo da leitura digital, saiba que tanto a Amazon quanto a Barnes & Noble abaixaram o preço de seus e-readers.

Em resposta à lista da New Yorker dos 20 escritores americanos abaixo dos 40 anos que a revista acredita que merecerem atenção, o Telegraph divulgou uma lista semelhante com autores britânicos.

Alguns dias antes da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) anunciar os detalhes da venda de ingressos para o festival, os organizadores da Feira de Frankfurt divulgaram que o Brasil será o país homenageado da feira de 2013. A expectativa é que o foco na literatura brasileira estimule traduções dos autores do país no exterior.

O blog Leia Livros! traz uma resenha legal do infantil O livro da dança, da professora e crítica de dança Inês Bogéa, e o site Publishing Perspectives tem um texto bonito e interessante sobre o trabalho de um tradutor cego, que não abandonou seu trabalho apesar de suas dificuldades.

Para terminar, os leitores de Scott Pilgrim podem criar avatares à sua imagem no Scott Pilgrim Avatar Creator, com direito a status iguais ao usados no quadrinho e trilha sonora de videogame.

Semana seis

Os lançamentos desta semana foram:

Israel em abril, de Erico Verissimo (Posfácio de Bernardo Kuckinski)
No último dos quatro livros de viagem que escreveu, Erico Verissimo se indaga sobre as raízes, a história e o destino dos judeus e do judaísmo. Para ele, a fundação do Estado de Israel teria sido o início de uma era de paz para a humanidade.

O Pavilhão Dourado, de Yukio Mishima (Tradução de Shintaro Hayashi)
Durante a Segunda Guerra, em Quioto, um jovem assistente de sacerdote frequenta o templo do Pavilhão Dourado, ambiente antes cultuado por seu pai como o lugar mais belo do mundo. Ali o adolescente inseguro e introspectivo encontra refúgio para suas aflições, mas acaba por descobrir que a beleza absoluta pode ser tão opressiva e enlouquecedora quanto qualquer imperfeição.

O acidente, de Ismail Kadaré (Tradução de Bernardo Joffily)
Intriga amorosa e intriga política se misturam no novo romance de Ismail Kadaré. Um simples acidente deflagra a trama: um táxi sai da pista que segue para o aeroporto de Viena e cai num barranco. O casal de passageiros morre na hora. Seria um casal comum, não fosse ele um colaborador do Conselho da Europa, especialista em assuntos balcânicos. Isso bastou para que os serviços secretos da Sérvia e da Albânia decidissem investigar o caso.

Alfred e Emily, de Doris Lessing (Tradução de Heloisa Jahn e Beth Vieira)
Neste livro corajoso, a ganhadora do prêmio Nobel explora a vida de seus pais e tenta compreender não somente quem eles foram, mas que influência tiveram na sua formação. Divido em duas partes, ela primeiro imagina a vida que os pais poderiam ter levado caso a Primeira Guerra não os tivesse afetado de forma trágica, para depois revelar como foram suas existências reais numa colônia inglesa no sul da África.

As bruxas de Eastwick, de John Updike (Tradução de Fernanda Abreu)
Publicada em 1984 e adaptada para o cinema em 1987, a obra é uma sátira à bruxaria, que, transplantada do cenário sombrio da Nova Inglaterra do século XVII, ressurge numa ensolarada cidade contemporânea e serve de ponto de partida para tratar de temas como o desespero pela chegada da meia-idade, a atmosfera asfixiante das cidadezinhas provincianas e os costumes da classe média americana.

Ninguém se mexe, de Denis Johnson (Tradução de Alexandre Barbosa de Souza)
Com numerosas referências aos clássicos de Dashiel Hammet, Raymond Chandler e outros mestres do gênero, Ninguém se mexe mostra a fuga de Jimmy Luntz, um jogador inveterado, fumante compulsivo e integrante de um grupo coral que deve dinheiro a um bandido. No caminho ele cruza com Anita Desilvera, uma mulher ardente e alcoólatra, descendente de índios, que acaba de se divorciar do marido que a envolveu em um trambique de US$ 2,3 milhões.

Diplomacia suja, de Craig Murray (Tradução de Berilo Vargas)
Craig Murray foi embaixador britânico no Uzbequistão entre 2002 e 2005. Ao chegar no país, com a missão de fortalecer as relações comerciais entre aquela ex-república soviética e a Grã-Bretanha, depara-se com um regime abusivo responsável por diversos escândalos que seus colegas e chefes teimavam em ignorar. Em meio a perseguição política e muita diplomacia suja, Murray fala também de sua conturbada vida pessoal e da paixão por uma stripper de Tashkent, improvável aliada deste ativista acidental que jogou fora uma carreira brilhante para dedicar-se a uma causa que ninguém ousara defender.

A pré-história passo a passo, de Colette Swinnen (Ilustrações de Loïc Méhée; Tradução de Hildegard Feist)
Neste guia prático e ao mesmo tempo detalhado, as crianças aprendem sobre a história remota da Terra e do homem, e sobre um sem-número de termos e questões como arqueologia, geologia, estratigrafia, paleontologia, etnologia, glaciações, fósseis, darwinismo, a ocupação do planeta pelo Homo sapiens e o domínio do fogo, o homem de Neanderthal, os utensílios de pedra, o desenvolvimento da linguagem, a vida de nômade, a caça, a pesca, as vestimentas, as pinturas rupestres, a morte na pré-história… e, finalmente, sobre o movimento que encerrou esse período da nossa história. Ilustrações divertidas e um teste com respostas de múltipla escolha completam esse passo a passo, uma excelente introdução a um dos temas mais fundamentais da história e da ciência.

Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho
Um astro decadente do cinema chinês incriminado pelo suposto suicídio de um colega, um escultor endurecido pela dedicação à sua arte e um playboy mimado que é expulso de casa procuram encontrar sentido nos acontecimentos drásticos ou misteriosos que abalam o curso de suas vidas. Um vendedor de uma loja de ferragens e uma linda e frágil garota tentam não ser destruídos por aquilo que os une, enquanto um escritor deprimido e sua ex-mulher mantêm-se unidos por aquilo que os separou. Um dos quadrinhos mais aguardados do ano, Cachalote é lançado após quase dois anos de trabalho, e terá eventos de lançamento em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Você também pode ver seis páginas da história aqui.

John e Susan

Em duas ocasiões eu aguardei, do lado de dentro da alfândega do aeroporto de Cumbica, a chegada de um escritor estrangeiro. O apoio do serviço cultural da embaixada americana às viagens dos autores convidados pela editora me conferia esse privilégio.

Na primeira vez, eu esperava por John Updike, que desembarcou de tênis e sobretudo longo, preparado para chuvas tropicais.  Com um sorriso maroto, foi logo dizendo, “vocês não deveriam ter feito isso comigo, eu não estou acostumado com tratamento first class”. Ele se referia ao upgrade de sua passagem que havíamos conseguido. Pouco depois, a reclamação, em tom de gozação, quase virou tragédia. No almoço, Updike passou mal, pediu para ir ao banheiro, de onde não saía. Fernando, meu sócio, era a favor de que fôssemos ao seu encalço. Eu fui contra. Ele estava certo. Lá, encontramos John Updike quase desfalecido, verde, dizendo “I said, first class!”. Queríamos chamar um médico, mas Updike recusou, alegando que acabara de escrever sobre um ataque cardíaco, e por isso sabia que não estava tendo um. Levei-o ao hotel e pedi para que me permitisse aguardar no seu quarto. Updike saiu-se com mais uma frase de humor negro: “não, obrigado, estou melhor e, afinal, se acontecer algo comigo, a camareira saberá o que fazer”. Desci e pedi ao concièrge que não deixasse ninguém subir. Deixei, de qualquer forma, a agenda de entrevistas com o nome dos jornais que viriam mais tarde. Mesmo assim, como o trabalho só começava em duas horas, assegurei que até lá eu estaria de volta para cuidar de tudo.

Ao voltar, menos de uma hora depois, fiz um sinal de positivo para o concièrge, só para confirmar que nada acontecera e ninguém incomodara o nosso autor. Para minha surpresa, a alegria do concièrge era prenúncio de tragédia: “positivo doutor, a TV Manchete já chegou e subiu”. Não havia nenhuma entrevista agendada com emissoras de TV. A Manchete furara o bloqueio, que no início da editora eu controlava pessoalmente, graças a um concièrge que talvez almejasse o posto de divulgador da Companhia das Letras. Por uns segundos, pensei em reclamar, mostrar a lista que ele tinha em mãos, mas naquela altura de nada adiantaria esbravejar. Subi correndo, cheio de culpa por ter deixado o hotel, e, ao entrar correndo no quarto, encontrei John Updike sorrindo, todo corado, erguendo dois coelhos pelas orelhas, holofotes na sua direção, a me perguntar “don’t I look better now?”. Lançávamos na ocasião, de uma tacada só, os quatro romances protagonizados por Rabbit (Coelho) Angston.

Um ano e poucos meses depois, eu, novamente do lado de dentro da alfândega, aguardava desta vez por Susan Sontag. Nervoso, só pensava numa coisa: como eu explicaria a ela que havíamos editado o livro do seu maior desafeto, Camille Paglia, a franco-atiradora que não perdia oportunidade de se promover falando mal de Susan. Ao publicar Persona sexual eu sabia do seu potencial polêmico, mas talvez não me desse ainda conta que Camille Paglia fazia dos ataques a terceiros algo mais importante do que o próprio livro, combinação que em geral leva a obras pouco duradouras. Esperando por Susan eu pensava na primeira entrevista de Paglia a um jornal brasileiro, e começava a perceber que eu caíra na tentação errada, editando um livro pelo seu potencial explosivo, sem pensar que a munição em questão era de festim. Com o tempo essa lição tornou-se ainda mais clara, mas, naquele momento, se Susan me perguntasse algo, de nada adiantaria eu confessar que estava arrependido.

Fiquei mais calmo ao me lembrar que os autores tardam um pouco para entrar em assuntos delicados, e, muitas vezes, acabam sem fazer a pergunta que não quer calar.

O meu consolo durou pouco. Susan chegou, muito simpática, roupa roxa de cetim contrastando com sua inconfundível mecha branca. Era uma presença bonita, que chamava a atenção de todos, até dos que nem desconfiavam de que se tratava de uma das mais importantes intelectuais norte-americanas. Conversamos por cerca de dois ou três minutos, ao lado da esteira, e, antes mesmo das suas malas chegarem, Susan perguntou: “quem é o editor de Miss Paglia no Brasil?”. Abaixei a cabeça e disse: “está falando com ele”.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Minha vida de goleiro, entre outros. Seu novo livro, Linguagem de sinais, será lançado pela editora ainda este ano. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.