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10 livros estrangeiros lançados (até agora) em 2016

Já chegamos na metade de 2016, e são tantos livros lançados a cada mês que fica até difícil lembrar de tudo o que você quer ler, certo? Se você deixou alguma novidade escapar, não se preocupe: selecionamos dez livros lançados até agora que merecem entrar na sua lista de futuras leituras. Nesta primeira lista, vamos falar dos lançamentos estrangeiros. Confira! :)

1) Isso também vai passarde Milena Busquets (tradução de Joana Angélica d’Avila Melo)

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O romance da espanhola Milena Busquets se transformou num sucesso internacional, chegando aqui no Brasil em fevereiro. Neste livro, o leitor acompanha uma narradora que vive o luto pela morte da mãe durante um verão em Cadaqués. Diante da ausência da mãe, restam as memórias de tudo o que a narradora viveu ao lado de quem a trouxe à vida, e o desejo de reafirmar a existência por meio do sexo, do convívio com as amigas, dos filhos e dos homens do passado. Milena Busquets combina profundidade e leveza para falar de temas universais como a dor, o amor, o medo, o desejo, a tristeza, o riso, a desolação e a beleza.

2) Romances de Patrick Melrosede Edward St. Aubyn (tradução de Sara Grünhagen)

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Edward St. Aubyn vem de uma família inglesa de “pedigree”, cujas origens nobres remontam ao século XVII. Ele cresceu em Londres e viveu a separação dos pais quando ainda era criança, e logo foi mandado para um colégio interno de elite. Seu vício em heroína desde muito jovem, assim como a conturbada história familiar, inspiraram em grande medida a vida do protagonista de seu ciclo de romances, Patrick Melrose. Lançado no Brasil em fevereiro, o primeiro volume de Romances de Patrick Melrose reúne três dos cinco livros deste ciclo: Não importaMás notíciasAlguma esperança. Alternando cenas de profunda angústia e tragédia com momentos hilários, os livros dissecam a classe alta inglesa ao narrar a história de Patrick, dos abusos na infância ao vício e, por fim, à reabilitação.

3) As meninas ocultas de Cabul, de Jenny Nordberg (tradução de Denise Bottmann)

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Durante cinco anos de pesquisas no Afeganistão, a repórter Jenny Nordberg descobriu que algumas famílias criam suas filhas como se fossem meninos, tentando fazer com que a comunidade acredite que as crianças são de fato do sexo masculino. A prática, conhecida como “bacha posh”, foi revelada por Jenny em reportagem de grande repercussão no New York Times. Neste livro, lançado em março, ela mostra em detalhe os horrores de um ambiente machista, e faz um alerta para a comunidade internacional sobre um crime que nenhum relativismo cultural é capaz de atenuar.

4) Dois anos, oito meses e 28 noites, de Salman Rushdie (tradução de Donaldson M. Garschagen)

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Em março lançamos mais um livro de Salman Rushdie, autor de Os versos satânicos. Dois anos, oito meses e 28 noites — que, para quem fizer as contas, corresponde a mil e uma noites — é um romance de tirar o fôlego e um testamento duradouro sobre o poder da ficção, as relações humanas e a nossa ancestralidade. Depois de uma tempestade em Nova York, fatos estranhos começam a ocorrer. Um jardineiro percebe que seus pés não tocam mais o chão. Um quadrinista acorda ao lado de um personagem que parece um de seus desenhos. Ambos são descendentes dos djins, figuras mágicas que vivem num mundo apartado do nosso por um véu invisível. Séculos atrás, Bunia, princesa dos djins, apaixonou-se por um filósofo. Juntos, tiveram filhos que se espalharam pelo mundo humano. Quando o véu é rompido, tem início uma guerra que se estende por mil e uma noites.

5) Uma história de solidão, de John Boyne (tradução de Henrique de Breia e Szolnoky)

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O mais recente romance adulto de John Boyne, lançado em janeiro, aborda com extrema delicadeza o tema dos abusos sexuais na Igreja católica. Uma história de solidão acompanha a vida de Odran Yates, um garoto irlandês nascido nos anos 1950 que cresce em uma família disfuncional e entra para a vida eclesiástica. Da ingenuidade dos primeiros anos de colégio à descoberta dos segredos mais bem guardados da Igreja, o padre Odran Yates descreve uma Irlanda repleta de contradições e ódio por trás de um projeto social baseado nos bons costumes e vive a decadência de seu ofício, que, diante de tantas denúncias de abuso sexual, passa a ser visto com desconfiança. O padre tenta fazer um acerto de contas com a própria consciência, depois de ter sido convencido de que era inocente demais para entender o que ocorria ao seu redor.

6) Campos de sangue, de Karen Armstrong (tradução de Rogério W. Galindo)

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A ideia de que a fé pode ser fonte de violência e intolerância vem crescendo nas últimas décadas, especialmente após o Onze de Setembro. Mas seria uma visão precisa da realidade? Neste estudo, Karen Armstrong investiga as grandes tradições religiosas em busca de respostas, e nos conduz a uma viagem pela história das maiores religiões do mundo. Amparado na vasta erudição da autora e no seu compromisso em promover a empatia entre os povos, Campos de sangue mostra que a religião não é a causa de nossos problemas.

7) Pureza, de Jonathan Franzen (tradução de Jorio Dauster)

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Em 2016 também lançamos o novo livro de Jonathan Franzen, um dos maiores autores norte-americanos da atualidade. Em Pureza, acompanhamos a história da jovem Pip Tyler. Ela sabe que seu nome verdadeiro é Purity, que está atolada em dívidas, que está dividindo um apartamento com anarquistas e que a sua relação com a mãe vai de mal a pior. Coisas que ela não sabe: quem é seu pai, por que a mãe a força a uma vida reclusa, por que tem um nome inventado e como ela vai fazer para levar uma vida normal. Um breve encontro com um ativista alemão leva Pip à América do Sul para um estágio numa organização que contrabandeia segredos do mundo inteiro — inclusive sobre sua misteriosa origem. Pureza é uma história sobre idealismo juvenil, lealdade e assassinato.

8) Meu nome é Lucy Barton, de Elizabeth Strout (tradução de Sara Grünhagen)

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Lançado agora em junho, Meu nome é Lucy Barton acaba de ser selecionado para concorrer ao Man Booker Prize 2016. O romance é narrado por Lucy Barton, uma escritora bem-sucedida que está há três semanas num hospital se recuperando das complicações de uma simples operação para extrair o apêndice. Sofrendo de saudade das filhas e do marido, ela recebe uma visita inesperada da mãe, com quem não falava havia anos. Nas cinco noites que passa com a mãe, a narradora convalescente lança um olhar aguçado e humano, sem sentimentalismos, para os acontecimentos centrais de sua vida: o isolamento e a pobreza dos anos da infância, o distanciamento de um núcleo afetivo desestruturado, a luta para se tornar escritora, o casamento e a maternidade.

9) Voltar para casa, de Toni Morrison (tradução de José Rubens Siqueira)

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Uma das mais celebradas romancistas dos Estados Unidos, a Nobel de Literatura Toni Morrison expande seu olhar sobre a história norte-americana do século XX em Voltar para casa, uma narrativa de violência, amor e redenção. Frank Money volta da Guerra da Coreia vivendo em profundo conflito com seus fantasmas, perturbado pela enorme culpa de ser um sobrevivente e pelas atrocidades que cometeu. Ao se deparar com um país racista e segregado, ele reluta em voltar à sua cidade natal na Geórgia, onde deixou dolorosas memórias de infância e a pessoa que lhe é mais querida, a irmã Ycidra. Ci sobreviveu como pôde aos anos de ausência do irmão, numa sociedade machista e opressiva em que as mulheres não têm vez, são sistematicamente abandonadas pelos maridos e muitas vezes mutiladas sem piedade. Nesse mundo desfigurado, ao se reencontrarem no caminho de volta para casa, os irmãos poderão enfim ressignificar seu passado e voltar a ver com esperança o futuro.

10) Atlas de nuvens, de David Mitchell (tradução de Paulo Henriques Britto)

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E encerramos com um lançamento deste mês: Atlas de nuvens! Neste que é um dos romances mais cultuados do nosso tempo, David Mitchell combina o gosto pela aventura, o amor por quebra-cabeças e o talento para a especulação científica conduzindo o leitor por seis histórias que se encontram no tempo e no espaço, criando um jogo de bonecas russas que explora com maestria questões fundamentais de realidade e identidade. O livro, adaptado para os cinemas em 2012 e protagonizado por Tom Hanks, finalmente está nas livrarias brasileiras!

 

Duas ou três coisas sobre Jonathan Franzen

Por Martha Batalha

Jonathan Franzen, DeLand, Fla. Nov. 22, 2010.

Franzen escreveu três grandes romances — As correções, Liberdade e Pureza. As correções é sobre a desintegração de uma família americana, a partir da doença do patriarca. Liberdade é sobre os altos e baixos de um casamento. Pureza, que sai agora no Brasil, é sobre uma jovem criada por mãe solteira, que busca a identidade do pai (e sobre muitas outras coisas — integridade, privacidade, traição). Tramas à parte, os três livros são, na verdade, sobre a mesma coisa: as dificuldades de relacionamento, as influências do meio, as mudanças que os anos trazem. As metamorfoses do amor e os erros inevitáveis de cada pessoa.

O autor escreveu outros dois romances, The 27th City e Tremor (o primeiro ainda não foi publicado no Brasil). São seus trabalhos de estreia, esteticamente perfeitos e sucessos de crítica. Mas falta algo — falta molho, falta Franzen. Ele só se tornou Franzen com As correções. Neste livro os parágrafos continuam impecáveis, mas há um jogo de cintura e um senso de humor que não vêm apenas do domínio da escrita, mas do fato de ele estar se expondo no livro, e se divertindo durante o processo. Tem muito amor em As correções. O livro foi escrito enquanto Franzen via a desintegração da própria família. O pai apagava aos poucos, vítima de Alzheimer.

Tremor e The 27th City não são irresistíveis como os últimos romances de Franzen, mas ajudam a entender o processo de formação de um escritor. O estilo de Franzen chega aos poucos — aparece em nuances de The 27th City, está mais presente em Tremor e se consolida com As Correções.

A má notícia: Ele escreveu um famoso ensaio para a revista Harper´s chamado “Why Bother” [Para que se preocupar?], que deixa qualquer escritor preocupado. Convence o leitor de que a literatura está acabando, que a cultura de massa, a necessidade constante de estímulo e o tempo fragmentado impedem a produção e a leitura de grandes romances. E isso foi antes da contaminação do mundo por Google e Facebook.

A boa notícia: O ensaio foi publicado depois de Franzen escrever os dois primeiros romances (aqueles que foram sucesso apenas de crítica). Ele ainda não tinha formado uma conexão com seus leitores, não tinha entendido que literatura é também exposição pessoal, que era preciso “abandonar o senso de responsabilidade e aprender a escrever por diversão, e para entreter”.

Seu livro de ensaios Como ficar sozinho é uma declaração de amor aos livros e à leitura. É bom voltar a ele de tempos em tempos — principalmente quando esta nossa cultura fragmentada — tema recorrente no livro — nos corta as horas fundamentais de silêncio dedicadas a um livro (qualquer livro, e apenas um livro). Como ficar sozinho confirma o que nós, leitores, sempre soubemos. Que a leitura é o segredo para nunca estar sozinho. Qualquer pessoa que lê (muitos livros, durante muitas horas) cria um mundo à parte, formado apenas pelo leitor e os autores.

Três iniciativas de Franzen que todo o escritor gostaria de ter feito e / ou deveria fazer:

  • Depois de se formar ele alugou um apartamento com a mulher, comprou quilos de arroz e de frango e se desligou do mundo. Escrevia oito horas por dia, lia cinco horas por noite.
  • Num momento de crise de escrita (forçando a barra para produzir um roteiro que sabia não ser bom), ele deixou seu estúdio na Filadélfia, pegou dinheiro emprestado e sublocou um loft em Nova York. No loft também não conseguiu escrever. Mas deu-se o direito de ler oito horas por dia, sem interrupções.
  • Franzen escreve de um quarto semiescuro, com protetores de ouvido e num computador sem conexão com a internet.

Em outro ensaio do livro Como ficar sozinho ele divide os escritores em dois grupos, Status e Contrato. No grupo de Status ficam os escritores que acreditam apenas no valor estético da obra. O livro se basta como obra de arte, independente de ter ou não leitores. No grupo de Contrato ficam os escritores que acreditam na conexão entre o livro e os leitores. Segundo ele, a ficção deve ser feita levando em conta estes leitores, já que o principal objetivo da literatura é formar uma comunidade entre escritores e leitores para combater a solidão. Leitura é prazer, e conectividade.

O autor empacou no meio de Liberdade. Achava que o livro era para ser uma coisa e estava se tornando outra, passou cinco anos tentando replicar no romance o modelo de As correções. Tinha também uma culpa imensa, por estar trancado em um quartinho fazendo ficção, com tanta coisa errada acontecendo no mundo. Decidiu abandonar o manuscrito e escrever uma reportagem para a New Yorker sobre questões ambientais na China. O artigo saiu, e não obteve o retorno de público ou a mudança do mundo desejados. Entendeu ali que era melhor ficar trancado em seu quartinho fazendo ficção. Era o que sabia fazer de melhor. Depois de mais quatro anos publicou Liberdade, um livro com uma trama forte o suficiente para fazer o leitor se afundar no texto, sem se importar com as distrações do mundo.

Pureza é como Liberdade, e As correções. Um livro típico do modelo Contrato, capaz de gerar uma forte conexão entre autor e leitor. Franzen construiu uma comunidade sólida, com leitores dispostos a doar muitas horas de seus dias em troca das quinhentas (ou setecentas) páginas de seus romances. Talvez o Franzen daquele ensaio da Harper [Para que se preocupar?] tenha razão. Talvez a literatura esteja se esvaindo do mundo. Talvez exista cada vez menos espaço para a leitura, porque os livros e a leitura são anticapitalistas em si — demandam tempo e solidão, em vez de estímulos e consumo. Mas, se for verdade, Franzen é um excelente jogador neste time de escritores perdedores: seus romances são grandes armas de resistência.

* * * * *

Martha Batalha nasceu em Recife em 1973, e cresceu no Rio de Janeiro. Jornalista com mestrado em literatura pela PUC-Rio e em Publishing pela NYU, trabalhou em jornais como O Globo e criou o selo Desiderata, hoje da Ediouro. Vive na Califórnia. Em abril, lançou pela Companhia das Letras seu primeiro livro, A vida invisível de Eurídice Gusmão.

Semana cento e nove

Os lançamentos desta semana são:

Poemas, Adonis (Trad. Michel Sleiman)
Há muito tempo Adonis é considerado o maior poeta árabe vivo. Não apenas foi o principal renovador daquela poesia, ao introduzir algumas das mais importantes conquistas formais do modernismo ocidental, como continua a ser uma das vozes fundamentais e mais ativas da cultura árabe. Embora consciente de viver em tempos de corrosão, ele não teme exercitar uma poesia de sabedoria, na fronteira da filosofia ou mesmo da religião, chegando a cristalizar novas máximas, nunca dogmáticas, em seus textos. “A poesia”, disse recentemente Adonis, “não pode ser feita para se adequar a uma religião ou a uma ideologia. Ela oferece aquele conhecimento que é explosivo e surpreendente.” Em tradução inédita do árabe, este livro é a primeira seleta de poemas de Adonis publicada no Brasil.

As impurezas do branco, Carlos Drummond de Andrade
As impurezas do branco é um livro que aponta novos e múltiplos caminhos na lírica de Carlos Drummond de Andrade. Publicados em 1973 (década em que a vida política estava sufocada pela Ditadura ao mesmo tempo em que se assistia à explosão da cultura jovem em todos os cantos do mundo), os poemas tratam sem cerimônia alguma de temas maiúsculos como amor e metafísica, e abordam – com agudeza – aspectos da vida cotidiana, como o noticiário e a publicidade. Sem esquecer, é claro, daqueles motivos que consagraram o poeta mineiro como um dos pontos altos do tempo e a brevidade da vida.

Novos poemas e 5 elegias, Vinicius de Moraes
Os dois livros aqui alinhados formam um conjunto de grande força e beleza. Mas não é apenas isso: ambos se animam por um espírito comum. O abrir de olhos para o mundo alcança um momento excepcional em Cinco elegias, de 1943. Se os poemas que compõem o livro são, como os de Novos poemas, representativos de um período de transição, há também um salto: estamos diante de uma experimentação poética e humana que é um marco na poesia brasileira do século XX. O leitor tem em mãos dois livros que, além de vizinhos no tempo, definem uma mudança de rumo e um ponto alto na obra de Vinicius de Moraes.

Antologia poética, Carlos Drummond de Andrade
Com poemas selecionados e arranjados com inaudita perspicácia pelo prórpio autor há 50 anos, esta Antologia poética é ainda hoje a melhor e mais eloquente introdução panorâmica à obra de Carlos Drummond de Andrade. Dividido em nove seções – que dão conta com maestria do vasto escopo dessa lírica fundamental -, este volume traz diversos clássicos drummondianos e outros poemas que, lidos em conjunto, poderão ganhar uma nova luz.

Sentimento do mundo, Carlos Drummond de Andrade
Sentimento do mundo, publicado em 1940, é a obra em que o poeta mineiro traz um olhar cuidadoso para as temáticas políticas e sociais de seu tempo. Afinal, durante sua elaboração o Brasil vivia o Estado Novo de Getúlio Vargas e a Europa observava a assustadora ascensão nazifascista. Esse senso crítico apurado é perceptível em poemas como “Congresso Internacional do Medo” e “O operário no mar”, além do texto que dá título ao livro. O tom desesperançado não impede que Drummond revele também uma faceta delicada e intimista, seja lembrando-se de sua Itabira natal (“apenas uma fotografia na parede”), seja ao homenagear Manuel Bandeira em “Ode no cinquentenário do poeta brasileiro”.

Como ficar sozinho, Jonathan Franzen (Trad. Oscar Pilagallo)
Considerado um dos mais importantes ficionistas norte-americanos de sua geração, Jonathan Franzen retoma, em Como ficar sozinho, o ensaísmo em que também se destacara com A zona do desconforto (2008). O autor desfaz a fronteira entre ficção e não ficção nesta obra permeada pelo universo ficcional de grandes escritores como Kafka, Proust, Goethe, Daniel Defoe e Alice Munro. Uma verdadeira aula de literatura.

José, Carlos Drummond de Andrade
No ensaio de “José e algumas de suas histórias”, escrito especialmente para este volume, o crítico e poeta Júlio Castañon Guimarães analisa a fortuna do livro e do poema que lhe empresta o título. E revela que o próprio Drummond muitas vezes retomou o mote em algumas de suas crônicas publicadas em jornal. O poeta, aliás, reuniu numa pasta os mais diversos recortes em que o verso “E agora, José?” retornava, de forma paródica ou mesmo celebratória. Mais uma demonstração do enorme poder de penetração de um autor que marcaria para sempre o cenário da poesia do século XX.

Toda Rê Bordosa, Angeli
Dotada de um humor ácido e de um cinismo incontornável, Rê Bordosa viveu porres homéricos, ressacas épicas e amores tão duradouros quanto uma tira de jornal. Outros personagens de Angeli, como Bibelô, Meia Oito, Wood & Stock, passaram por sua vida (e sua cama). E ela acompanhou, alheia, as mudanças sociais e políticas dos anos 80 e 90. Reunidas pela primeira vez num álbum de luxo, e restauradas digitalmente a partir dos originais do autor, as tiras desse Toda Rê Bordosa trazem de volta à vida a musa do quadrinho brasileiro. Quem conhece apenas o mito terá acesso a todas as tiras, histórias longas, rabiscos e ameaças tramadas por Angeli contra sua criatura. E quem nunca se esqueceu dela pode ir encostando no balcão. A casa é sua, como ela disse tantas vezes.

Mesa 9: Encontro com Jonathan Franzen

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Convidado: Jonathan Franzen
Mediação: Ángel Gurría-Quintana

Uma conversa com o escritor norte-americano que tem sido reconhecido como um dos mais incisivos intérpretes dos dilemas da sociedade atual. Autor de ensaios e ficções que colocam com insistência a questão da relevância da escrita e da criação literária no mundo de hoje, Franzen discute sua obra e a repercussão singular de seus livros e ideias no panorama da cultura contemporânea.

Horário de início: 19h30

Antes da mesa, Dulce Maria Cardoso lê o poema “Para sempre” de Drummond.

Mediador: Philip Roth escreveu que há uns 20 grandes escritores americanos na geração seguinte à dele, e o melhor deles é Jonathan Franzen. Ele vai ler um trecho de seu romance mais recente, Liberdade.

Mediador: Sei que você é fã de romances russos, e a famosa frase de Anna Karenina parece ser o lema de seus romances.

Franzen: Eu não era infeliz. Acho que minha família era basicamente infeliz, mas o que é infelicidade? A lista de falhas morais de artistas é longa e uma delas é que tendemos a exagerar nossos problemas, porque obviamente para alguém que escreve uma vida comum não tem graça, precisamos exagerar.

Meu pai tinha um emprego seguro e minha mãe cuidava dos filhos, eram bons pais. Eles não eram tão infelizes, houve anos ruins, e houve anos bons.

Mediador: Seu livro anterior saiu logo antes do 11 de setembro, e seu novo livro acontece nessa época. É sua resposta ao fato?

Franzen: Não, eu esperava que o 11 de setembro sumisse. O 11 de setembro foi um ataque midiático e político baseado no ataque terrorista.

Mediador: O diário de Patty é escrito em 3ª pessoa, mas tudo é visto pelos olhos dela. Você pode falar sobre o processo de montar esse livro?

Franzen: Foi uma bagunça total. Antes eu estava tentando escrever um romance baseado em documentos. Isso não deu certo. Eu tinha encontrado uma voz por acaso em 2003, era uma mãe suburbana bonitinha chamada Patty, e encontrei uma história para ela contar. Ia ser uma história curta de 40 páginas sobre faculdade. Narradoras femininas me parecem estranhas, mas eu mesmo faço isso. Também tentei escrever a partir de emails que a garota indiana mandaria.

Franzen: Todos os personagens acabam sendo um pouco eu, mas se eles de parecem comigo, soam como eu, eu os odeio.

Franzen: Minha ideia de escrever um romance é como o mito da águia e Prometeu, mas não há águia, sou eu comendo meu fígado todo dia. Não acho que escrever seja terapia porque acho que não precisaria de terapia de não escrevesse.

Franzen: Eu gostava muito da mãe de Correções mas ela não de dava muito bem. Fiquei pensando que não tenho problemas maternos, então resolvi escrever um romance que fosse maioritariamente narrado por uma mãe.

Mediador: Como você se sentiu com a capa da Time?

Franzen: Semana passada eu estava jantando com um amigo e outra pessoa me perguntou “você é Stephen King?”.

Mediador: Mas você acha que isso mudou sua visão da cultura americana?

Franzen: O problema é que nos anos 60 havia vários autores medianos, e agora parece que só temos estrelas ou superestrelas. Eles querem John Grisham, dão montanhas de dinheiro, e é como se os outros que têm vendas menos explosivas não importassem.

Franzen: A literatura está de fato com problemas. Quando o romance estava forte, você podia experimentar e falhar, e tudo bem. Mas agora o romance não é mais a força predominante. O romance tem uma função de entretenimento. Nos EUA é ok chamar de entretenimento, mas parece que aqui o termo faz as pessoas pensarem em James Patterson. Não é isso que quero dizer.

Franzen: As narrativas brasileiras que pude ler são maravilhosas, Bernardo Carvalho, Milton Hatoum, Chico Buarque.

Mediador: Você conclui com Foster Wallace que a função do romance seria curar a solidão.

Franzen: Nós discutimos muito sobre isso, e sinto falta de ligar para ele e conversarmos. Éramos como irmãos, nos amávamos mas também brigávamos. Tem coisas que ele faz que eu nunca vou conseguir fazer, e vice-versa. Eu vejo os estudos acadêmicos da obra dele e fico com inveja. E ele ficava com inveja do dinheiro que eu ganhei. Mas no fim a gente sempre ficava bem.

Mediador: Você fala no livro de ensaios sobre como com a morte de Foster Wallace o tornou numa figura mítica.

Franzen: O que me incomodava era que eu vejo o suicídio como uma pequena fraude, e eu odeio fraudes, mas é um assunto complicado e eu não deveria falar sobre isso.

Franzen: Quando você escreve, cria um problema de lealdade com si próprio e com os leitores. O escritor está numa posição horrível de administrar sua própria vida.

Mediador: Seus personagens parecem fugir da liberdade, apesar de todo mundo dizer que quer liberdade. Você acha que todos estamos fugindo da liberdade?

Franzen: Depende do que você quer dizer com liberdade. Uma pessoa de 16 diria “nada de regras, eu decido o que quero fazer, vou pra praia uma semana sozinho.” Mas e aos 45, 75 anos, você diria isso? Eu não acho que estejamos todos fugindo da liberdade. Suspeito que nos venderam a versão da liberdade que é incorreta. Imagine que você está numa loja com várias opções de cortinas de banheiro. Você senta por horas pra tentar escolher. E a loja diria que isso é liberdade de escolha.

Mediador: Você pretende incluir nos seus romances sua experiência vivendo na Alemanha?

Franzen: Com certeza! Eu fico pensando “como posso aproveitar essa experiência? Eu sei algumas coisa sobre o assunto!”

Franzen: Você acha que há uma sensibilidade diferente entre narradores masculinos e femininos? Como o livro seria diferente se fosse narrado por um homem?

Franzen: Mais páginas são narradas por homens, mas Patty tem a maior presença. Foi uma personagem complicada. Eu não gostaria de uma personagem masculina central controladora, é o melhor que posso fazer para explicar.

Mediador: Você e Drummond tiveram seus óculos roubados.

Franzen: Sim, estava em Londres e um cara passou correndo e pegou meus óculos, apareceram helicópteros, e policiais correndo atrás dele. Também aconteceu em Londres que o livro foi impresso a partir de uma versão errada do manuscrito, e tiveram que fazer recall de 60 mil exemplares.

Mediador: Você já teve vontade de parar de escrever?

Franzen: Não nos ultimo 9 dias. Mas 10 dias atrás sim, antes de tomar meu café. Ou talvez sejam só 48 horas… Preciso de um café.

Mediador: Você foi observar pássaros.

Franzen: Sim, muitas espécies só existem aqui. Fui com uma mulher que está tentando conscientizar as pessoas sobre os pássaros da região. Outro dia tiraram foto de um pássaro que não era visto há 100 anos. Todo dia descobrem espécies novas.

Horário de término: 20h52

Semana cinquenta e quatro

Os lançamentos da semana são:

Liberdade, de Jonathan Franzen (Tradução de Sérgio Flaksman)
Um estudante idealista e meio nerd, uma jogadora de basquete com carreira promissora e um roqueiro rebelde metido a poeta se conhecem no fim dos anos 1970, na Universidade de Minnesota. Duas décadas depois, a crise do casamento de Walter e Patty Berglund ameaça estilhaçar sua imagem arquetípica de família liberal de classe média, ao mesmo tempo que Richard Katz se torna um espectro promíscuo e solitário que deseja apenas fugir da própria fama. No despertar do novo milênio, eles têm a impressão de já terem vivido tudo. Mas é somente agora, numa época em que a liberdade lhes parece tão onipresente quanto fugidia, que as coisas começam realmente a se complicar. Poderoso painel da vida contemporânea, povoado por personagens tão reconhecíveis quanto surpreendentes, Liberdade reatesta a posição de Jonathan Franzen como um dos grandes autores americanos da atualidade. Veja o vídeo do editor, André Conti, falando sobre o livro:

As correções, de Jonathan Franzen (Tradução de Sérgio Flaskman; Nova edição econômica)
Alfred Lambert é um engenheiro ferroviário aposentado, teimoso e cheio de manias agravadas pelo mal de Parkinson recentemente diagnosticado. Enid Lambert é uma dona de casa comum, às vezes mesquinha, às vezes frívola. O casal, na faixa dos setenta anos, leva um cotidiano de torturas mútuas numa pequena cidade do Meio-Oeste americano. Gary, Chip e Denise, os três filhos, mudaram-se para metrópoles da costa Leste a fim de tentar a sorte e deixar para trás a mediocridade da vida em família. Jonathan Franzen, uma das principais vozes da ficção americana, conta uma saga contemporânea a um só tempo trágica e cômica, que vai de Nova York até a Lituânia, e expõe dramas pessoais, crises conjugais, a sedução irresistível do dinheiro e os conflitos religiosos e culturais que separam duas gerações.

Estrela amarela, de Jennifer Roy (Tradução de Ernani Ssó)
Em setembro de 1939 os alemães invadiram a Polônia, dando início à Segunda Guerra Mundial. Pouco tempo depois, trataram de isolar os judeus em guetos, como o de Lodz, onde, entre 233 mil pessoas, havia uma menina de quatro anos chamada Sylvia — uma entre as doze crianças desse gueto que sobreviveram ao Holocausto. Em Estrela amarela, a própria Sylvia, tia da autora, fala sobre esses seis anos de luta pela sobrevivência, compartilhando as dúvidas, os medos e as pequenas alegrias de uma criança judia em meio ao nazismo.

Essencial Franz Kafka, tradução e organização de Modesto Carone
Apesar de seu estado fragmentário, o espólio literário de Kafka — publicado na maior parte em edições póstumas, graças à generosa traição de Max Brod, que se recusou a destruí-lo conforme a vontade do amigo — é considerado um dos monumentos artísticos mais importantes do século XX. O Essencial Kafka reúne momentos antológicos do autor de O processo, incluindo contos, fábulas e a novela A metamorfose, na íntegra, além de 109 aforismos. Modesto Carone é responsável pela introdução e pelos comentários, além de assinar a tradução, feita a partir dos originais em alemão, o que permitem que os textos sejam lidos (ou relidos) com fidelidade ao estilo labiríntico da prosa kafkiana.

O livro de Praga, de Sérgio Sant’Anna
Os sete contos de que compõem o sexto volume da coleção Amores Expressos narram a viagem improvável do escritor Antônio Fernandes à capital tcheca. Ele está interessado em arte: sua atenção se volta para a pintura de Andy Warhol, a música da pianista Béatrice Kromnstadt, as esculturas da ponte Carlos, a peça teatral em que a Alice de Carroll contracena com sua sombra, o texto de Kafka tatuado num corpo feminino… Suas aventuras insistem na ideia de que transcendência, arte e sexo convergem em morte.

Chão de meninos, de Zélia Gattai
Entre viagens a países longínquos e sentimentos ambíguos diante da política e da realidade, pequenas histórias do dia a dia e amigos que não param de lhe trazer surpresas, Zélia Gattai continua sua trajetória de narradora sábia e serena neste livro de memórias delicado. Lançado no ano em que Jorge Amado completou oitenta anos de idade, Chão de meninos retoma os temas que guiaram Zélia Gattai em sua travessia do mundo. Em primeiro lugar, a paixão por Jorge. Depois, a fé, às vezes vacilante, mas sempre forte, no socialismo. E, por fim, o amor incondicional pelos amigos, a aposta, sem receio, nos outros.

As variações Bradshaw, de Rachel Cusk (Tradução de Fernanda Abreu)
Com quase quarenta anos e pais de uma filha de oito, Thomas Bradshaw e sua mulher, Tonie, têm uma vida estável nos arredores de Londres. No entanto, quando Tonie é chamada a trocar as aulas de literatura em tempo parcial pelo cargo de chefe do departamento de inglês na universidade, abandona a zona de conforto do trabalho entremeado à vida doméstica e avança com curiosidade por seu novo universo solidamente regulado. Movido por curiosidade simetricamente oposta, Thomas abdica de seu próprio emprego e assume o antigo lugar de Tonie, cuidando dos afazeres domésticos e estudando piano, à procura de resposta para a pergunta: “O que é a arte?”. Composto de cenas fragmentárias, esse romance apresenta um sutil panorama social por meio de consciências singulares.

Vida de um homem: Francisco de Assis, de Chiara Frugoni (Tradução de Federico Carotti)
O grande traço distintivo de Francisco de Assis foi saber responder com uma religiosidade ativa e generosa às trevas terrenas. Ele falava mais de perto a homens e mulheres às voltas com novos problemas e práticas, que não se deixavam guiar apenas pelo temor a um Deus punitivo. De modo simples, preciso e delicado, a historiadora medievalista Chiara Frugoni investiga a vida do homem (e santo) que forjou o conceito de individualidade e, para muitos, antecipou os valores do Renascimento.

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