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O Guia de Jorge

Por Joselia Aguiar

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Os azulejos, a grande porta aberta sem ninguém à vista para me receber, os móveis de madeira da sala onde me sentei, o barulho de conversa que vinha do jardim: tantas vezes contei o meu único encontro com Jorge Amado, enfatizando esse ou aquele ângulo mais humorado ou plástico, que agora o esforço é o de retroceder a um sóbrio relato inicial para recuperar uma espécie de fundamento amadiano talvez escamoteado por entre as versões.

Uso vestido de flores miúdas e uma sandália que mais parecem chinelos, carrego um gravador grande, bloco e caneta.  Sou repórter C num jornal baiano que estreava para fechar pouco depois e, entre minhas atribuições, escrevo para uma seção chamada Cidade da Bahia. Artistas, escritores e intelectuais revelam aí o lugar de que mais gostam, aquele que lhes traz a mais bonita memória ou lhes despertou uma inspiração particular. São essas as três perguntas, é isso que têm de me responder. Para sair foto sua, ao lado da foto do tal lugar, numa página de domingo.

Por inteiro o nome é Cidade do São Salvador da Bahia de Todos os Santos. Até a virada para o século 20, abreviava-se Cidade da Bahia. Passou a ser Cidade do Salvador e, depois, apenas Salvador. Por que escolheram uma repórter C para ir entrevistar um dos mais importantes autores da língua portuguesa? Menos simples de esclarecer; creio que porque gostava de literatura.

Os minutos se passam, e não há como Jorge Amado me dar objetivamente o que quero. Viera da conversa no jardim com outro jornalista, já despachado. Vendo sua camisa com um alegre estampado e os chinelos, me sinto em casa. Parece contrariado. Parece, não. Está contrariado. “Todos os lugares da Bahia.” “Mas tem de escolher um só, no máximo três…” Explico outra vez a pauta. Dou exemplos. O seu amigo Calasans Neto me contou do Beco do Mingau. De tão maravilhado, jamais conseguiu reproduzi-lo em tela. João Ubaldo, claro, citou a Ilha de Itaparica. É outro município, mas ninguém exige rigor.

Súbito se levanta. “Fique aí”. Segue casa adentro. A uma senhora que surge pelo corredor, diz: “Dá sorvete à menina, Zélia”. Volta com um exemplar de seu Bahia de Todos os Santos – Guia de Ruas e Mistérios. Assina: “Com um beijo de Jorge”. E se livra de mais um jornalista.

O sorvete era de manga.

A Cidade da Bahia, Jorge Amado conheceu como repórter mal saía da adolescência em fins da década de 1920. Das páginas policiais logo chegou às de política. Estabeleceu-se no Rio. Exilou-se em Estância, depois Buenos Aires e Montevidéu. Quando escreveu o seu guia vivia de novo como jornalista na capital baiana. Não era mais um iniciante.  Co-dirigia a redação de um jornal que deixou de existir pouco depois. Autor de sucesso e militante comunista, estava impedido de circular pelo país – ele e sua obra — por determinação da ditadura de Getúlio Vargas. Recomeçava a publicar romances cujos enredos transcorriam na região cacaueira em décadas anteriores, Terras do Sem Fim (1943) e São Jorge dos Ilhéus (1944), ambos fora do contexto da luta política daqueles dias. Para continuar a despistar, preparou um título de aparência turística, gênero que estreava no mercado de livros brasileiros.

“Não tenhas, moça, um minuto de indecisão. Vem, a Bahia te espera”.  Sim, estão lá topografia, personagens e história, o calendário das festas populares, receitas com dendê, leite de coco e pimenta.  Mas a primeira edição (1945) é turística só na aparência. “Junto com a poesia, te direi da dor.” Entre as extravagâncias, o autor endereça a visitante imaginária a bairros proletários, dá números minuciosos da tuberculose e até recomenda que, se tiver coragem, assista a dois ou três enterros de anjos – os defuntos-bebês–, experiência com que conhecerá de fato a cidade, “múltipla e desigual”. Como adverte: “se és apenas uma turista ávida de novas paisagens, de novidades para um coração gasto de emoções, viajante de pobre aventura rica, então não queiras esse guia.” E faz a lista “mais completa que foi possível organizar” de  terreiros de candomblé a conhecer, época em que ainda sofriam a invasão da polícia.

Reescrito pelo autor para atravessar décadas, o guia foi perdendo em denúncias como essas e ganhando em afetos. Na Bahia dos meus dias de repórter C, uma anedota corrente sugeria que, a cada republicação, o autor precisava fazer novos verbetes para acrescentar mais amigos. Um desses incluídos significou um gesto politicamente ousado: Carlos Marighella, guerrilheiro morto pela ditadura civil-militar em curso à época, em fins da década de 1970. “Retiro da maldição e do silêncio e aqui inscrevo seu nome de baiano.” A graça de comparar edições é também encontrar o que nunca mudou. Como a descrição de Salvador que me parece a mais característica sua, presente já na primeira: “escorre o mistério sobre a cidade como um óleo”. As suas percepções sobre o temperamento do habitante: “o baiano faz da amabilidade uma verdadeira arte, é arguto até não mais poder”, “um pouco derramado e um pouco distraído, um pouco poeta mas também astutamente político”. Constato que o guia serve para conduzir-me por sua obra através do tempo. O fundamento amadiano é evidente na justa soma de suas versões.

Passados tantos anos, ainda me espanta pensar como me deu objetivamente o que ele queria.  Na materialidade de um livro, compreendia sua recusa. “Todos os lugares da Bahia.”

* * * * *

 

Joselia Aguiar é jornalista da área de livros, mestre e doutoranda em história (USP).  A convite da editora Três Estrelas, do grupo Folha de S.Paulo, iniciou em 2011 pesquisas e entrevistas para escrever a biografia do escritor Jorge Amado, projeto que se encontra em sua última fase.

 

Livros de Jorge Amado para ler em fevereiro!

Nos 30 anos da Companhia das Letras, homenageamos em fevereiro nosso autor, Jorge Amado. Um dos maiores protagonistas da literatura brasileira, Jorge Amado é um escritor atemporal, ou seja, foi e é lido por diversas pessoas de idades variadas. Sua obra está publicada em mais de cinquenta países e foi adaptada para o rádio, cinema, televisão e teatro, transformando seus personagens em parte indissociável da vida brasileira. Nada melhor que uma lista para passar o mês todo lendo os melhores livros do autor. Boas leituras!

1. Capitães da areia

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Desde o seu lançamento, em 1937, Capitães da Areia causou escândalo: inúmeros exemplares do livro foram queimados em praça pública, por determinação do Estado Novo. Ao longo de sete décadas a narrativa não perdeu viço nem atualidade, pelo contrário: a vida urbana dos meninos pobres e infratores ganhou contornos trágicos e urgentes. Várias gerações de brasileiros sofreram o impacto e a sedução desses meninos que moram num trapiche abandonado no areal do cais de Salvador, vivendo à margem das convenções sociais.

2. Terras do sem-fim

Terras do sem fim BLOG

Publicado em 1943, Terras do sem-fim é narrado durante a guerra pela posse da terra na região cacaueira do sul da Bahia, na qual os irmãos Badaró enfrentam o coronel Horácio da Silveira. A luta pela subsistência se entrelaça com intrigas políticas, relações amorosas, crimes passionais. Dois romances improváveis se destacam em meio aos tiroteios e tocaias: o do jovem advogado Virgílio e Ester, esposa do coronel Horácio, amor condenado a um desfecho sangrento, e o de Don’Ana, a valente filha de Sinhô Badaró, e o “capitão” João Magalhães, um embusteiro que se faz passar por engenheiro militar.

3. Agonia da noite

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O acontecimento crucial do livro é a greve dos estivadores do porto de Santos, que se recusam a embarcar uma carga de café destinada à Espanha num navio alemão, como cortesia de Getúlio Vargas a Franco. Em torno desse evento movem-se os mais diversos personagens, como grevistas, banqueiros, poetas, funcionários públicos corruptos e jovens diplomatas, além de policiais, políticos, jornalistas e militantes comunistas. A ação não se restringe ao palco das docas santistas, deslocando-se às fábricas de São Paulo, aos cassinos do Rio de Janeiro, às selvas do Mato Grosso e aos campos de combate da Espanha – onde se decide o destino da democracia.

4. O amor do soldado

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Escrita em 1944 por encomenda de Bibi Ferreira, o atormentado e trágico romance entre Castro Alves e a atriz portuguesa Eugênia Câmara é o tema desta única obra de teatro de Jorge Amado. O texto não chegou a ser encenado na época, uma vez que a companhia de Bibi Ferreira se dissolveu, mas foi publicado em livro três anos depois, em homenagem ao centenário do nascimento do poeta dos escravos.

5. São Jorge dos Ilhéus

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Continuação natural de Terras do sem-fim, narra a saga dos pioneiros e as guerras sangrentas pela posse da terra onde durante uma alta de preços forçada astuciosamente pelos exportadores. Com o intuito de ludibriar os velhos coronéis e açambarcar suas terras, a cidade de Ilhéus vive uma breve idade do ouro, com uma vida noturna vibrante, e recebe aventureiros de todos os pontos do país e até do exterior.

6. Dona Flor e seus dois maridos

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Um dos romances mais populares de Jorge Amado, levado com êxito ao cinema, ao teatro e à televisão, Dona Flor e seus dois maridos conta a história de Florípedes Paiva, que conhece em seus dois casamentos a dupla face do amor: com o boêmio Vadinho, Flor vive a paixão avassaladora, o erotismo febril, o ciúme que corrói. Com o farmacêutico Teodoro, com quem se casa depois da morte do primeiro marido, encontra a paz doméstica, a segurança material, o amor metódico.

7. Bahia-de-todos-os-santos

Bahia de todos-os-santos

Escrito originalmente em 1944, no auge da luta antifascista, manteve em suas sucessivas atualizações a abordagem visceral que o transformou numa obra ao mesmo tempo de celebração dos esplendores da cidade e de denúncia de suas muitas mazelas.

8. ABC de Castro Alves

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Jorge Amado nos mostra que há uma coerência entre a biografia do poeta e sua poesia. Seus amores intensos, sua ativa militância em prol da Abolição e da República, sua personalidade arrebatadora, tudo isso se traduz na veemência de seus versos.

9. O país do Carnaval

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Romance de estreia, escrito quando Jorge Amado tinha dezoito anos, O país do Carnaval(1931) é, apesar do título irônico, mais sombrio e introspectivo que a maioria dos livros que fizeram dele o ficcionista mais popular da literatura brasileira. A narrativa começa no navio que traz de volta ao Brasil o jovem filho de fazendeiro Paulo Rigger, depois de sete anos em Paris, onde cursara direito e absorvera comportamentos e ideias modernas. Nos primeiros dias que passa no Rio de Janeiro, Rigger tenta compreender um país onde já não se sente em casa, um país que tenta timidamente superar seu atraso oligárquico e ingressar na era industrial e urbana.

10. Essencial Jorge Amado

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Em Essencial Jorge Amado, o historiador Alberto da Costa e Silva realizou uma seleção a fim de oferecer ao leitor um panorama geral desta obra. Como ocorre na coleção Portable, da Penguin, que inspirou a série, Essencial Jorge Amado dá um giro por toda a produção do autor: são trechos de romances, reportagens, contos e uma novela completa, A morte e a morte de Quincas Berro d’Água.

Bônus

A comida baiana de Jorge Amado

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Só de ler Jorge Amado a gente já fica com água na boca cada vez que um personagem resolve comer. Paloma Jorge Amado compilou as receitas de pratos que aparecem na obra de seu pai e o resultado é este livro, que ainda apresenta citações, divertidas crônicas e maravilhosas fotos.

Sangue, suor e páginas

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Em maio de 1945, a Alemanha nazista era derrotada pelas potências aliadas. Encerrava-se assim o capítulo europeu da Segunda Guerra. Em setembro daquele ano, depois do bombardeio atômico (no mês anterior) de Hiroshima e Nagasaki, o Japão iria assinar os termos de sua rendição. Terminava completamente um dos conflitos mais sangrentos da história, com mais de 20 milhões de mortos, cidades e países arrasados, a conformação geopolítica do mundo bastante diferente daquela de 1939, quando Hitler invadiu a Polônia, dando início à refrega.

Nos últimos 70 anos, muito se escreveu sobre a Segunda Guerra. Testemunhos, ensaios pessoais e historiográficos, ficção, biografias, poesia, quadrinhos. Compreensível: alastrando-se a partir do coração da Europa, os conflitos fizeram terra-arrasada das pretensões iluministas que, até então, moldavam o continente. A guerra de 1939-1945 significou uma crise na civilização. A barbárie, o genocídio programado de populações inteiras, a extrema violência contra civis e a tecnologia a serviço do terror desconcertam até os dias de hoje. Daí a copiosa e necessária produção — criativa e intelectual —, que sempre se renova.

Preparamos uma seleção de livros, entre lançamentos e obras fundamentais do nosso catálogo, para você se aprofundar e entender um capítulo da história humana que, ainda hoje, 70 anos depois, reverbera na política, na cultura e na sociedade.

Lançamentos

Ano zero, Ian Buruma
A história do mundo que se formaria a partir dos escombros da Segunda Guerra.

Os compatriotas, Bo Lidegaard
A comovente extraordinária narrativa de como os judeus foram salvos do horror na Dinamarca.

O fim do Terceiro Reich, de Ian Kershaw
Do autor da melhor biografia de Hitler, um relato do crepúsculo do nazismo.

Seis meses em 1945, de Michael Dobbs
Como a Conferência de Ialta moldaria o futuro do Ocidente.

Central Europa, William T. Vollman (previsto para o segundo semestre)
Romance polifônico e fascinante sobre a violência e o autoritarismo da Alemanha nazista e da União Soviética.

Terra negra, Timoty Snyder (previsto para 2016)
Um palpitante ensaio sobre a insanidade que conduziu o mundo ao Holocausto.

Piloto de guerra, Antoine de Saint-Exupéry
A experiência do autor de O pequeno príncipe como aviador na Segunda Guerra.

Obras essenciais

A biblioteca esquecida de Hitler — Os livros que moldaram a vida do Führer, de Timothy W. Ryback

Alemanha, 1945, de Richard Bessel

Engenheiros da vitória — Os responsáveis pela reviravolta na Segunda Guerra Mundial, de Paul Kennedy

Eva Braun — A vida com Hitler, de Heike B. Görtemaker

Guerra aérea e literatura, de W. G. Sebald

Hitler, de Ian Kershaw

A rosa do povo, de Carlos Drummond de Andrade

O imperialismo sedutor — A americanização do Brasil na época da Segunda Guerra, de Antonio Pedro Tota

Maus — A história de um sobrevivente, de Art Spiegelman

Stálin — A corte do czar vermelho, de Simon Sebag Montefiore

Hora da guerra — A segunda Guerra Mundial vista da Bahia, de Jorge Amado

1940 — Do abismo à esperança, de Max Gallo

1941 — O mundo em chamas, de Max Gallo

Os colegas de Anne Frank, de Theo Coster

Fim de jogo, 1945, de David Stafford

Pós-Guerra — Uma história da Europa desde 1945, de Tony Judt

22 Dias — As decisões que mudaram o rumo da Segunda Guerra Mundialde David Downing

Nazismo e guerra, de Richard Bessel

Heinrich Himmler: uma biografiade Peter Longerich

Joseph Goebbels: uma biografia, de Peter Longerich

Caçando Eichmann, de Neal Bascomb

Éramos jovens na guerra, de Sarah Wallis e Svetlana Palmer

Semana cento e dezoito

Os lançamentos desta semana são:

A Odisseia de Homero adaptada para jovens, de Frederico Lourenço
Para o grande herói da guerra de Troia, a aventura estava apenas começando. Depois de combater em sangrentas batalhas e de arquitetar o golpe final que daria a vitória ao povo grego, Ulisses precisa apenas regressar à sua terra natal. Mas não vai ser nada fácil, e ele só chegará a Ítaca após dez longos anos. Perseguido pelo poderoso Posêidon, o deus dos mares, ele enfrenta inimigos ainda mais perigosos que os resistentes troianos: mata o ciclope Polifemo, sobrevive ao ameaçadores canibais, resiste ao encanto das sereias, escapa do cativeiro de Calipso. Nesta adaptação em prosa pensada especialmente para o público jovem, Frederico Lourenço narra essas e outras peripécias do célebre guerreiro atentando para a fluência narrativa do texto. Assim, respeitando a obra-prima de Homero, esta Odisseia traz nova vida à Antiguidade Clássica e à viagem mais famosa de todos os tempos.

Cosmópolis, de Don DeLillo (Trad. Paulo Henriques Britto, Nova edição)
O multimilionário Eric Michael Packer, 28 anos, é dono da Packer Capital e mora num triplex no prédio residencial mais alto de Nova York e do mundo. Certo dia de abril do ano 2000, levanta-se de manhã cedo e resolve cortar o cabelo. O presidente da República está na cidade, os mercados estão nervosos, um protesto antiglobalização toma conta da Times Square e o trânsito está completamente abarrotado. Para chegar ao lado oposto de Manhattan – percorrendo uma distância de pouco mais de dez quarteirões -, Eric é obrigado a passar o dia inteiro dentro de sua limusine, de onde controla os negócios, recebe assessores e tem encontros amorosos. No decorrer do dia, a existência de Eric é gradualmente corroída: suas certezas e seus valores se revelam vazios, ao mesmo tempo que o sistema financeiro global é arrastado para uma crise sem precedentes. Cosmópolis é uma novela em forma de fábula – uma fábula amarga para os tempos pós-modernos, assinada por um dos maiores romancistas norte-americanos contemporâneos. O filme baseado no livro estreia no Brasil esta semana, com direção de David Cronenberg.

Toda a saudade do mundo, org. de João Jorge Amado
Jorge Amado era um homem epistolar: cultivava a arte da correspondência, não deixava leitores sem resposta e mantinha o hábito de enviar cartões-postais aos amigos e parentes. Com Zélia Gattai, sua companheira por 55 anos, o autor manteve a troca de cartas mais frequente – e mais apaixonada. Este livro, organizado pelo filho do casal, reúne cartas de Jorge enviadas a Zélia desde a partida para o exílio na França até o período em que a família se estabeleceu em Salvador, na Casa do Rio Vermelho. A correspondência registra as provações do pós-guerra, a vida cultural e política em Paris, a participação do escritor no Conselho Mundial da Paz e as frequentes viagens por cidades como Berlim, Viena, Praga, Bucareste, Estocolmo, Helsinque e Varsóvia. Além das cartas do próprio escritor, de Zélia e de parentes, há também cartões-postais e bilhetes, alguns deles trocados com os filhos Paloma e João Jorge. O livro fornece dados biográficos relevantes do período em que Jorge Amado escreveu e publicou seus maiores sucessos e permite conhecer um pouco mais do cotidiano do autor, de sua escrita íntima e de seus cuidados para com a família, os amigos e a literatura.

A Idade Média passo a passo, de Vincent Carpentier (Trad. Julia da Rosa Simões)
Quantos anos durou a Idade Média? Como era a vida em uma cidade da época? Qual era a importância da religião? De que maneira se transmitia a peste negra? Muitos se referiam à Idade Média como um tempo  de trevas. Mas, se esse período de mil anos entre a Antiguidade e o Renascimento tem seu lado tenebroso – com muita guerra, pestes e ignorância -, há outro, da cultura, que é repleto de riqueza. Este livro nos permite descobrir a vida cotidiana dos homens e das mulheres daquela época e penetrar em suas aldeias, cidades e mercados, onde monges, senhores e camponeses desenvolvem o ensino, inventam ferramentas agrícolas, constroem catedrais e castelos, traçam rotas e se deslocam pela Europa e pelo Oriente. Seguindo os passos dos arqueólogos, descubra mais um período apaixonante da história!

Editora Paralela

Não há dia fácil, de Mark Owen (Trad. Donaldson M. Garschagen)
Não há dia fácil é um retrato da vida nas equipes do Seal e o único relato interno sobre a Operação Lança de Netuno, realizada em 1º de maio de 2011, que resultou na morte do terrorista Osama bin Laden. Desde a pane no helicóptero Black Hawk – que quase fez com que a missão fosse abortada – até o comunicado pelo rádio via satélite confirmando que o alvo estava morto, a operação dos vinte e quatro homens na propriedade secreta de Bin Laden é recontada em mínimos detalhes. Das ruas de Badgá ao resgate do capitão Richard Phillips no oceano Índico; das montanhas ao leste de Cabul ao terceiro andar do esconderijo de Osama bin Laden em Abbottabad, no Paquistão. Não há dia fácil coloca o leitor dentro de uma das mais surpreendentes tropas de elite do mundo. Mark Owen, ex-membro do Grupo para o Desenvolvimento de Operações Especiais da Marinha dos Estados Unidos, mais conhecido como Equipe Seis do Seal, foi líder de uma das mais memoráveis operações especiais da história recente, assim como de inúmeras outras missões que nunca chegaram às manchetes.

Semana cento e dezesseis

Os lançamentos desta semana são:

Bahia de todos-os-santos, de Jorge Amado
Há poucas cidades no mundo tão fascinantes, complexas e repletas de história quanto Salvador. E que outro guia melhor do que Jorge Amado para desvelar os encantos, mistérios — e mazelas — seculares de suas ruas, ladeiras, terreiros, igrejas, mercados, trapiches e praias? O autor de tantos romances ambientados em Salvador, responsável em grande parte pela difusão de sua mitologia popular pelo mundo afora, abre aqui de modo generoso as portas da cidade para quem quiser conhecê-la, mas sem perder o olhar crítico e transformador. Diferentemente dos guias turísticos e prospectos oficiais, este livro, publicado originalmente em 1944 e alvo de sucessivas atualizações, não esconde o lado obscuro da capital baiana, seus bairros miseráveis e sem higiene, a vida dura e sem perspectivas da população mais pobre, bem como a deterioração paulatina do meio ambiente e da arquitetura. Bahia de todos-os-santos entrega ao leitor a cidade por inteiro, não só na paisagem física mas também em seus ritos tradicionais e em seus costumes cotidianos.

Notícias do planalto, de Mario Sergio Conti (Edição econômica, com novo posfácio)
“Com sua força narrativa concentrada, um amplo panorama de personagens de cima e de baixo, denso nos detalhes, e com um desenlace dramático à altura, lê-se Notícias do Planalto como um trabalho documental de Balzac. Sem poupar ninguém — proprietários, comentaristas ou repórteres —, o livro quebrou o tabu fundamental da imprensa: cachorro não come cachorro.” Foi assim que Perry Anderson, um dos grandes historiadores ingleses, classificou Notícias do Planalto num ensaio na London Review of Books. Lançado em 1999, o livro deflagrou uma imensa controvérsia acerca das relações perigosas entre a imprensa e o poder e entre jornalistas e donos de órgãos de comunicação. Com mais de 70 mil exemplares vendidos, entrou para a bibliografia básica de inúmeras faculdades de jornalismo.

Os inimigos íntimos da democracia, de Tzvetan Todorov (Trad. Joana Angélica d’Ávila Melo)
Em Os inimigos íntimos da democracia, Todorov emite um enfático alerta contra a maior ameaça à sobrevivência dos valores democráticos no século XXI: as estruturas autoritárias gestadas nas entranhas do próprio sistema político ocidental. Para o autor, o risco de uma regressão global a modos de agir e pensar típicos do totalitarismo é o efeito mais alarmante da perversão interna dos valores democráticos nas últimas décadas. Todorov denuncia os descomedimentos da política contemporânea por meio de uma lúcida compreensão dos discursos ideológicos em jogo nos conflitos decisivos da realidade social.

Aninha, a pestinha, de Juliet Mickelbugh (Trad. Eduardo Brandão)
Aninha era sempre uma gracinha — pintava que era uma gracinha, cantava que era uma gracinha, e todo mundo só dizia: “Que gracinha, a Aninha!”. Mas, irritada com a situação, um dia resolveu passar a fazer só abobrinha. Falava de boca cheia, subia na cadeira, rabiscava a mesa inteira, pintava as paredes de casa, respondia para os adultos, só aprontava confusão! Logo, logo, para todos tinha virado “a pestinha”. Foi aí que ela percebeu que não queria ser nem uma coisa nem outra: queria mais ser ela mesma, só a Aninha.

O voo do golfinho, de Ondjaki
E se todos tivéssemos o dom de mudar de corpo ao longo da vida? E se voar fosse mesmo possível para todos os que sempre desejaram ter asas? Esta é a história de um golfinho que queria ser passarinho e que um dia ousou dar um salto a mais…

A força da escravidão, de Sidney Chalhoub
“Esses escravos ilegais estão a todo momento e por toda parte em presença das autoridades brasileiras, mas eles não são vistos.” A irônica observação de um cônsul britânico diante do escândalo dos africanos escravizados sintetiza o descaso criminoso a que a cidadania dos negros foi submetida no Brasil oitocentista. Em aberta afronta ao direito internacional, mais de 750 mil pessoas foram contrabandeadas para o país após a lei de 1831 que proibia o comércio de cativos. por outro lado, a notória tolerância das autoridades em relação aos horrores do tráfico deteriorava a já instável condição social dos ex-escravos e dos nascidos livres, sinalizando-lhes que seus direitos pouco valiam contra a força avassaladora do poder escravista. Apoiado numa abrangente pesquisa em arquivos da época, o historiador Sidney Chalhoub demonstra como a precária experiência da liberdade dos negros esteve à mercê da cumplicidade entre o Estado e as classes proprietárias durante a maior parte do Segundo Reinado.

Fora do tempo, de David Grossman (Trad. Paulo Geiger)
Em 12 de agosto de 2006, o sargento Uri Grossman foi morto no Líbano, a dois dias do cessar-fogo em nome do qual seu pai, o escritor David Grossman, havia se manifestado anteriormente, em público, ao lado de Amós Oz e A. B. Yehoshua. Cinco anos depois, o ficcionista oferece uma investigação das maneiras de dizer o luto, fazendo a poesia e o maravilhoso ressoarem num espaço próprio, embora permeado pela política e pela biografia. Destituídas das virtudes mágicas capazes de dar corpo ao ausente, as palavras ainda assim insuflam vida em quem encontra fôlego para dizê-las. Em algum ponto da jornada inconcebível limite entre “aqui” e “lá”, o enlutado vislumbra uma hipótese de caminho de volta do exílio. Com Fora do tempo, Grossman testemunha, mais uma vez, que a vida não acabou. Confiando nas virtudes da escrita, ele prossegue em busca das imagens “em alta resolução”, pelas quais “vivemos a nossa própria vida, não um clichês que outros formularam para nós”, conforme declarou certa vez em entrevista ao jornal britânico The Guardian.

Uma certa justiça, de P. D. James (Trad. Celso Nogueira)
O crime central deste romance é o assassinato de Venetia Aldridge, uma mulher obsessiva e arrogante que, dedicando-se de corpo e alma à advocacia criminal, conseguiu chegar ao topo da carreira, brilhando no tribunal mais famoso da obsessiva e arrogante que, dedicando-se de corpo e alma à advocacia criminal, conseguiu chegar ao topo da carreira, brilhando no tribunal mais famosos da Inglaterra, o Old Bailey. Foi lá que realizou a defesa de Garry Ashe, um jovem acusado do assassinato brutal de sua tia. Venetia, porém, não poderia prever que um mês depois seria morta com violência em seu próprio escritório — pois, como diz P.D. James no início deste livro, “os assassinos não costumam alertar suas vítimas”. Por mais hábeis que sejam, entretanto, os criminosos sempre deixam pistas, e segui-las é o trabalho do inspetor Adam Dalgliesh e de sua equipe da Scotland Yard. Uma das melhores autoras do romance policial, Phyllis Dorothy James nasceu em 1920 e só estreou na literatura em 1962. Desde então, publicou cerca de duas dezenas de livros.