jorge amado

Semana oitenta

Os lançamentos da semana são:

Agonia da noite (Os subterrâneos da liberdade, vol. 2), de Jorge Amado
No segundo volume da trilogia, Jorge Amado retrata ficcionalmente um momento sombrio da história brasileira: o endurecimento do Estado Novo, quando havia um temor real de que o país se alinhasse com as potências fascistas europeias e se tornasse uma ditadura totalitária.

Vento sul, de Vilma Arêas
Vento sul reúne vinte contos de leitura fácil, sentido cristalino e efeito impactante. Eles estão organizados em quatro blocos: “Matrizes”, “Contracanto”, “Planos paralelos” e “Garoa, sai dos meus olhos”. Neles se articulam histórias fundadoras, lembranças de personagens e vivências, vinhetas poéticas, aqui e ali uma quase parábola. Em todas as histórias: a perda — e sua outra face: a persistência da memória.

Dia de pinguim, de Valeri Gorbachev (Tradução de Érico Assis)
Tartaruguinha gostou tanto da história que o pai leu sobre pinguins que acaba sonhando naquela noite que é um pinguim. Quando acorda, decide tornar o sonho realidade. Veste o paletó do avô e faz tudo que um pinguim faz: anda bamboleando e desliza de barriga no chão, brinca de passar o ovo e come bolachas em forma de peixe. É um verdadeiro dia de pinguim!

O segredo do licorne & O tesouro de Rackham, o terrível, de Hergé (Tradução de Eduardo Brandão)
Enquanto aguardam a chegada do filme As aventuras de Tintim, os fãs do herói dos quadrinhos já podem se deliciar com a edição especial dupla dos episódios que inspiraram a trama. Na história, levada ao cinema pelo diretor Steven Spielberg e pelo produtor Peter Jackson, não faltam piratas, navios, tesouros e grandes emoções. Sempre com o cachorro Milu ao seu lado e a ajuda dos detetives Dupond e Dupont, Tintim vai tentar descobrir o mistério que envolve as réplicas em miniatura do Licorne, o misterioso navio do cavaleiro de Hadoque.

Alegria em dobro

Por Luiz Schwarcz

Jorge Amado e José Saramago na Bahia. (Fotos por Zelia Gattai, Acervo de Casa de Jorge Amado)

Blog tem destas coisas. Eu terminei de postar o texto anterior e me lembrei que esqueci de alguns detalhes. O mais importante deles é o traje do José que aparece na foto em questão. Saramago foi despreparado para uma celebração baiana, em pleno mês de fevereiro. O calor era tremendo e o nosso futuro Nobel só tinha calças compridas na mala, acompanhadas de camisas sociais. Quando chegamos de Brasília, onde José recebera das mãos de Fernando Henrique Cardoso o Prêmio Camões, e descarregamos nossas malas no pequeno hotel, que ficava no Morro da Paciência, atual casa de Gal Costa, vi Saramago se preparar para a tal feijoada, com belos sapatos, camisa e calça sociais, e tudo pelo social, dali para cima.

Demos boas risadas, Lili e eu, ao vê-lo, suando em bicas, já antes da festa começar. Fui para o quarto, catei meu calção e uma camiseta branca e ofereci ao nosso escritor. E também um par de havaianas, as primeiras a calçar um Nobel, talvez. Na casa de Caetano chegavam os futuros anfitriões, escolhidos por Jorge Amado, para os próximos almoços, além de personagens da vida cultural/pop baiana, como Gilberto Gil, muito calado na festa (andava muito interessado em conversar sobre ciência, seu xodó na época), Carlinhos Brown e muitos outros. Se não me engano Arnaldo Antunes esteve lá também.

Calazans Neto, o grande gravurista baiano, membro honorário do clã de artistas que produzia maravilhosas xilos, muitas delas inspiradas na obra amadiana, estava presente, e encabeçava a lista de anfitriões das casas que visitaríamos nos dias que se seguiram. Sua cozinheira era também uma artista, e nunca vou me esquecer da cara de José lambendo os beiços com os quitutes baianos da casa de Calazans. Carybé, outro dos artistas do tal clã, foi presença constante em todas as festividades. Sua simpatia era contagiante. Afro-argentino-baiano, também filho de Oxossi, inspirava em Jorge piadas carinhosas, e vice-versa. Era comovente a amizade dos dois, escritor e artista, que iluminaram-se mutuamente durante tantos anos.

No dia que Dadá foi escalada por Jorge e Zélia para cozinhar para todo o grupo — e fez deliciosas moquecas cheias de frutas e peixes —, fomos ao ateliê de Carybé e, num determinado momento, resolvemos presentear José e Pilar com uma aquarela. Surpreendemo-nos ao notar que José e Pilar haviam feito o mesmo, comprando outra como presente para nós. A esposa de Carybé perguntou gentilmente se permitiríamos que as tais aquarelas fossem exibidas numa exposição que se daria em Sevilha ou Córdoba, com o que concordamos imediatamente, ainda mais devido às origens andaluzes de Pilar. As pinturas nos seriam enviadas logo após. Nunca as recebemos, e José perguntou por elas para mim, sempre que esteve no Brasil.

O almoço no Tempero de Dadá, então no Pelourinho, foi tão tipicamente baiano que até o escritor local se irritou com a demora. Depois de horas a comida chegou deliciosa, mas antes disso Jorge Amado já havia dito a Dadá:

— Menina, eu sou baiano, mas a demora está demais até para mim. Até para os padrões do Caymmi essa espera está longa demais.

Foi curiosa a conversa de José e Jorge sobre o Prêmio Nobel, até então nunca concedido a um escritor de língua portuguesa, enquanto esperavam uma das refeições, nos banquetes daquela semana. Jorge se declarou eleitor de Saramago, se fosse da Academia Sueca. Saramago retrucou dizendo que fazia questão de ser o primeiro convidado à festa quando o prêmio fosse concedido ao amigo brasileiro. Falou que receberia Jorge Amado em Lanzarote para uma semana de festividades, com comida Ibérica de primeira qualidade. Acho que disse que seria difícil superar Jorge Amado como anfitrião, o que atesto e assino embaixo. Mesmo assim, divirto-me imaginando os festejos ainda mais fartos, do Prêmio concedido à Saramago, na Bahia com Jorge vivo – o que, todos sabemos, infelizmente não aconteceu. E o troco, alguns anos depois, Amado Nobel, e nós nos empanturrando com bacalhaus, paellas, cabritos, acordas…

A alegria em dobro, ou muito mais.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

Centenário de Jorge Amado


Site oficial do Centenário de Jorge Amado: http://www.centenariojorgeamado.com.br/

Nesta terça-feira, 9 de agosto, véspera do dia em que Jorge Amado completaria 99 anos de idade, uma coletiva de imprensa em Salvador, na Fundaçāo Casa de Jorge Amado, deu início às comemoraçōes do centenário do escritor baiano. Na ocasiāo, foi apresentada uma comissāo para organizar diversas atividades que começam amanhã em Salvador e em todo o Brasil e que terāo um selo exclusivo deste centenário criado por Máquina Estúdio.

“A ideia é que este ano nāo acabe nunca” brincou Cecilia Amado, neta do escritor, durante a coletiva.

A comissāo do centenário é formada por:

  • Cecilia Amado e João Jorge Amado Filho, representantes da família de Jorge Amado
  • Myriam Fraga, da Fundação Casa de Jorge Amado
  • Alberto da Costa e Silva, Academia Brasileira de Letras
  • Lilia Schwarcz e Thyago Nogueira, Companhia das Letras
  • Adriana Vendramini, Grapiúna Produções/Copyrights

Os eventos acontecerāo de agosto de 2011 até agosto de 2012. Veja a programaçāo divulgada na coletiva aqui.

Para festejar aqui no Blog da Companhia, resolvemos divulgar esta carta inédita que Jorge escreveu para Zélia Gattai em 1948, enquanto estava em exílio. Esta carta fará parte do livro Jorge & Zélia, programado para agosto de 2012.

Leia na íntegra a carta, e comemore também o centenário deste importante escritor brasileiro que a Companhia das Letras tem o privilégio e o prazer de publicar desde 2008.

* * * * *

De: Jorge Amado

Para: Zélia Gattai

Paris, 13 de março de 1948.

Minha negra querida: toda a saudade do mundo. Há uma semana que não tenho cartas tuas. Recebi recortes de S. Paulo, pela letra conheci terem sido enviadas por ti, donde depreendi que já estavas em S. Paulo. Mas depois da carta começada no sítio e terminada no Rio, não recebi nenhuma outra e estou preocupado. Imagino que devas estar abafada do que fazer mas sei que não haveria falta de tempo que te fizesse deixar de me escrever e temo que tenha havido extravio de cartas. Daí recebi uma breve carta da Lila e uma do Graciliano e só. E os recortes são “divertidos” pelo menos os que se referem a mim.

Aqui vou, saudoso de ti cada vez mais, cheio de que fazer, de visitas, recepções, editores, artistas, um inferno, com minha máquina no conserto pois começou a rebentar na semana passada, deixou de escrever e a casa consertadora pediu-me 8 dias e só na próxima terça-feira me entrega. Ontem tive duas recepções: uma às 4 ½ da tarde (terminou às 8 da noite) oferecida pelo editor Nagel que publicou aqui o “Terre Violante”. Estavam todos os escritores franceses não de esquerda: Mauriac1, Sartre2, Maurois3, Duhamel4, etc. Grã-fina a recepção e, por consequência, formal, com champagne e conversas sobre existencialismo. Mas dela saiu um protesto, firmado pelos tais, sobre o caso de Pablo. E logo, às 8,30  uma outra numa livraria, onde Pierre Daix5 falou sobre minha obra e eu falei sobre o Brasil. O contrário exatamente da primeira, durou até meia noite, quando vim com o Scliar e o casal Arnaldo Estrela jantar no quarto de Scliar (que atualmente é um grande cozinheiro).

Há poucos dias fui a uma festa na Embaixada da Polônia, muito simpática (concerto de câmara e após, salgadinhos, champagne e vodka) envergando um smoking emprestado por um brasileiro, Coitinho, advogado e funcionário da prefeitura, amigo de Joelson. Ontem a Embaixada mandou-me fotografias minhas tiradas na festa e eu te envio uma, noutro envelope, para que me vejas de smoking em Paris. Fui ao teatro ver “Bas Fond” de Gorki, muito bom. No entanto minha vida tem sido cheia de trabalho.

Deixo de te dizer muita coisa, quando chegares, verás. Mas mando-te um recorte e o que posso te dizer é que só viajo para a Itália no fim do mês devido a várias coisas a fazer ainda. Não tenho tido tempo para ver Paris, passear, etc. Mas não me importo muito porque eu o farei contigo quando tiveres chegado.

Já estou com todos os meus livros (exceto os 3 primeiros, o ABC e o Bahia que não me interessa vender) negociados com editores daqui e o “Terras” foi vendido para o eslovaco, o holandês, o finlandês, e o polonês. O representante literário meu, na Holanda, é um braço. Creio que colocarei todos os meus livros em toda Europa.

E João? Os dois Joões, o avô e o neto? E mamãe? James e Jacinta? Joelson e Fany? Tua mãe, tuas irmãs? E teu filho Luiz6, tiveste ele contigo ou não? Conta-me as coisas, manda-me dizer quando estarás no Rio, se Fernando vem de avião, escreve-me, morro de saudades tuas e de João. Comprei um chapéu para ti, não sei se gostarás, mas achei engraçado.

Chegou da Itália o Justino Martins7, da Revista do Globo. Apaixonado pela Itália. Scliar está fazendo uma relação das coisas que deves trazer. Estou cansado e saudoso. Falo de ti a toda a gente e a toda gente mostro o teu retrato e o do João. Chego a ser chato, creio. Abraça, querida minha, a todo mundo, beija João e beija o teu filho que te ama,

Jorge

[1] François Charles Mauriac (*1885 +1970) foi um escritor francês, Nobel de Literatura de 1952.
[2] Jean-Paul Charles Aymard Sartre (*1905 +1980) foi um filósofo, escritor e crítico francês, representante do existencialismo. Intelectual militante, e apoiou causas políticas de esquerda. Amigo de Jorge Amado, visitou o Brasil a seu convite em 1960.
[3] André Maurois, pseudônimo de  Emile Salomon Wilhelm Herzog (*1885 +1967) foi um romancista eensaísta francês.
[4] Georges Duhamel (*1884  +1966) foi um autor francês, membro da Academia Francesa e presidente da Aliança Francesa.
[5] Pierre Daix (*1922) é um jornalista e escritor comunista francês. Participou da resistência. Foi preso pelo governo colaboracionista de Vichi e mandado para o campo de concentração de Mauthausen onde trabalhou com a resistência clandestina do campo ajudando a salvar resistentes franceses.
[6] Luiz Carlos Veiga (*1942  +2008) filho de Zélia Gattai em seu primeiro casamento com o dirigente comunista Aldo Veiga.
[7] Justino Martins (*1917 +1983) foi um jornalista brasileiro, cunhado de Érico Veríssimo, com quem trabalhou na Revista do Globo. Foi, posteriormente, diretor da revista Manchette.

Semana sessenta e um

Os lançamentos da semana são:

Os fatos são subversivos, de Timothy Garton Ash (Tradução de Pedro Maia Soares)
Timothy Garton Ash dedica-se há décadas a uma atividade híbrida entre jornalismo e historiografia: escrever a “história do presente”. Ele vai ao lugar onde as coisas estão acontecendo, entrevista pessoas nas ruas, discute com políticos, intelectuais e militantes. E essas reportagens são complementadas com a pesquisa e a reflexão que faz nas universidades de Oxford e Stanford, onde leciona. Neste livro estão reunidos artigos sobre a primeira década do século XXI, que tratam, por exemplo, das relações entre islamismo e terror, temática que o autor aborda com uma visão liberal equilibrada, sempre preocupada com a tolerância e o respeito pela diversidade. Com esse mesmo olhar, ele acompanha de perto a situação em países como Ucrânia, Belarus, Sérvia e Macedônia, bem como Birmânia, Brasil, Egito e Irã.

O cavaleiro da esperança, de Jorge Amado (Posfácio de Anita Leocadia Prestes)
Jorge Amado decidiu escrever a biografia de Prestes em 1941, como forma de pressionar pela libertação do líder revolucionário, preso desde 1936. Viajou então ao Uruguai e à Argentina, onde Prestes havia se exilado anos antes. O autor narra os momentos mais dramáticos da trajetória de Prestes: a épica coluna que atravessou o Brasil entre 1924-27, o exílio, a tentativa frustrada de levante contra Getúlio Vargas em 1935, a prisão na solitária, a entrega de Olga Benário — grávida de Anita Leocadia, que escreve o posfácio desta edição — ao governo nazista, a campanha internacional de Leocadia, mãe de Prestes, pela libertação do filho e de Olga, e pela guarda da filhinha do casal.

Monsieur Pain, de Roberto Bolaño (Tradução de Eduardo Brandão)
Paris, 1938. Enquanto a maioria dos franceses ainda lutava com os fantasmas da Primeira Guerra, pairava no ar uma tensão causada pela ascensão de regimes fascistas na Europa. Neste peculiar período, a capital francesa era habitada por poetas e romancistas vanguardistas, artistas selvagens e curandeiros nada convencionais: os mesmeristas. Discípulo dessa terapia heterodoxa, o obscuro protagonista do livro tem a missão ingrata de curar um poeta com ataques crônicos de soluço. Monsieur Pain, um dos primeiros romances escritos por Bolaño, é uma peça rara em sua obra: um livro atmosférico, repleto de temas caros à literatura de gênero, como o ocultismo, a busca detetivesca e a confusão entre sonho e realidade. Enquanto Pain se deixa levar pelo mistério, as fronteiras entre o que é real e o que é imaginação se dissolvem.

Borges oral & Sete noites, de Jorge Luis Borges (Tradução de Heloisa Jahn)
Em Borges oral (1979) e Sete noites (1980) se acham escritas palavras que brotaram da boca de um narrador cego, que falava como um sábio sibilino e irônico a auditórios do mundo todo. Sempre modesto, mas sem deixar de aludir a modelos gloriosos — Sócrates, Pitágoras, Cristo, Buda — e a outros mais próximos, como Macedonio Fernández, Borges (1899-1986) apresentava-se, na última etapa de sua vida, como um grande mestre da oralidade. A princípio tímido e reservado, a ponto de se ocultar em meio à plateia e pedir a um amigo para ler a conferência que redigira, com os anos e a progressiva cegueira, o escritor argentino tornou-se um narrador oral, como se quisesse dissolver-se na tradição épica dos narradores anônimos. Embora aparentemente abstratos e intelectuais, os temas de suas conferências são tratados num recorte concreto, a que servem exemplos precisos, sempre manipulados com perfeição pelo refinado contador de casos, que não perde uma deixa para uma frase de humor e se orienta em meio às dificuldades do assunto pela força da memória e da imaginação.

O anexo: a incrível história do garoto que amava Anne Frank, de Sharon Dogar (Tradução de Luiz A. de Araújo)
O diário de Anne Frank, um dos textos mais célebres do século XX, lido por jovens e adultos do mundo inteiro, só foi publicado graças ao pai da menina, o único sobrevivente dentre as 8 pessoas que passaram 2 anos escondidas no anexo de uma casa em Amsterdam, durante a perseguição aos judeus organizada pelos nazistas. Neste romance, a inglesa Sharon Dogar se baseia no diário mundialmente conhecido para imaginar como teria sido conviver de perto com Anne Frank e até se apaixonar por ela. É através dos outros de outro adolescente que acompanhamos a sensação clautrofóbica de morar no esconderijo, a revolta por não poder lutar contra o inimigo e as aflições de se viver numa época tão sombria.

Macbeth, de Andrew Matthews (Ilustrações de Tony Ross; Tradução de Érico Assis)
Macbeth, general do exército escocês, é um defensor leal do rei e de sua pátria. Mas, ao voltar de uma batalha, depara com três bruxas que lançam uma profecia: ele se tornará rei. A previsão desperta as ambições mais secretas de Macbeth: impelido pela esposa, ele assassina o rei e é proclamado o novo regente. E este é só o primeiro de uma série de crimes que irá cometer. Bruxas, um fantasma e um punhal espectral… prepare-se para muita aventura, nesta que se tornou uma das mais famosas peças de Shakespeare. Além da adaptação em prosa da peça, o livro traz um prefácio da autora e pesquisadora brasileira Marta de Senna e dois posfácios: um sobre a questão do mal em Macbeth e outro sobre a dificuldade enfrentada pelos escritores da época de Shakespeare em encontrar papel para escrever.

Semana cinquenta e seis

Os lançamentos da semana são:

O amor do soldado, de Jorge Amado
Escrita em 1944 por encomenda de Bibi Ferreira, o atormentado e trágico romance entre Castro Alves e a atriz portuguesa Eugênia Câmara é o tema desta única obra de teatro de Jorge Amado. A ação se concentra na última parte da breve vida de Castro Alves (1847-71), entre 1866 e 1870, em Recife, São Paulo e Rio de Janeiro. Em cenas rápidas e diálogos inflamados, alternados com versos célebres de combate, vemos um poeta que divide sua energia e sua inspiração entre duas paixões exigentes: Eugênia Câmara e a luta pela libertação dos escravos e pela instauração da república. A edição inclui posfácio de Aderbal Freire-Filho.

Bafinhaca de volta aos trilhos, de Kaye Umansky (Ilustrações de Nick Price; Tradução de Ricardo Gouveia)
Nem tudo vai bem com Bafinhaca: ela percebeu que uma bruxa não pode viver só de doces e um mínimo de atividade física. É que a Floresta do Bruxedo acabou de ganhar uma confeitaria e os doces de lá são tão incríveis — verdes feito sapo, pretos em forma de morcego e com asas batendo na sua boca — que as filas na porta são sempre enormes. Mas essa nova mania está com os dias contados: Bafi está determinada a fazer alguma coisa não só pelas bruxas, mas por todos os habitantes da floresta. Junto com Tubararaca, sua melhor amiga, e Tukai, seu fiel companheiro, ela vai elaborar um saudável plano de ação que inclui muitos legumes e um dia inteiro dedicado aos esportes.

Obras completas, vol 15: Psicologia das massas e análise do eu e outros textos, de Sigmund Freud (Tradução de Paulo César de Souza)
Este volume aborda o comportamento de grupos, partindo do fato de que as relações que moldam o indivíduo, desde a infância, são também fenômenos sociais. Assim, o irracionalismo dos movimentos políticos de massa — recorde-se que o fascismo e o comunismo estavam em ascensão na época — é explicado por conceitos psicanalíticos como libido e regressão. O ensaio “Sobre a psicogênese de um caso de homossexualidade feminina” traz formulações sobre a sexualidade feminina e a homossexualidade em geral. Ainda, dois textos sobre a telepatia são testemunho do interesse de Freud pelo tema. Por sua vez, “Uma neurose do século XVIII envolvendo o Demônio” analisa o peculiar documento deixado por um pintor alemão, a história do pacto que ele fez com o Diabo a fim de livrar-se de sua neurose.

O silêncio da água, de José Saramago (Ilustrações de Manuel Estrada)
Em uma tarde silenciosa, um garoto vai pescar à beira do Tejo e é surpreendido por um peixe enorme que lhe puxa o anzol. Infelizmente, a linha arrebenta, deixando-o escapar. Ele corre até a casa dos avós, com a esperança de voltar, rearmar a vara e “ajustar as contas com o monstro”. Claro que, ao alcançar o mesmo ponto do rio, o menino não encontra mais nada, apenas o silêncio da água. Sua tristeza só não é completa pois o peixe, como ele diz, “com o meu anzol enganchado nas guelras, tinha a minha marca, era meu”. Esse menino foi José Saramago, que narra neste livro uma aventura de infância que, para ele, culmina em um despertar da lucidez. Ilustrado pelo espanhol Manuel Estrada, este pequeno conto autobiográfico se torna uma fábula de extraordinária beleza e sabedoria.

Bombaim: cidade máxima, de Suketu Mehta (Tradução de Berilo Vargas)
Uma das cidades mais populosas do mundo, Bombaim permanece neste início de século XXI a principal porta de entrada do complexo multiculturalismo da Índia. Com uma mistura de memórias, reportagem e relato de viagem, Suketu Mehta investiga como as numerosas castas, etnias e religiões do gigante asiático coexistem no espetáculo de miséria e luxo da capital econômica do país. Educado nos Estados Unidos, o autor retorna à cidade da infância com um olhar ao mesmo tempo distanciado e afetivo, fascinado pela tragédia de suas favelas gigantescas e pela rotina sanguinária de pistoleiros, prostitutas e policiais. As produções milionárias de Bollywood, bem como os meandros do conflito entre indianos e paquistaneses, fornecem um agitado pano de fundo aos dramas dos protagonistas desse relato, que nos joga num vertiginoso labirinto de violência, sexo, religião, poder e dinheiro.