jorge luis borges

Semana cento e cinquenta e três

Os lançamentos desta semana são:

O diabo no corpo, de Raymond Radiguet (Trad. Paulo César de Souza)
Em meio ao sofrimento das trincheiras da Primeira Guerra Mundial, a jovem esposa de um soldado em batalha inicia um caso com um adolescente de dezesseis anos, o narrador deste O diabo no corpo. O envolvimento entre os dois vai se tornando mais sério. Ela engravida. O falatório começa a se espalhar pela vizinhança. O cerco se fecha sobre os amantes. Um final trágico se anuncia. Quando publicado pela primeira vez, em 1923, o livro de estreia de Raymond Radiguet causou sensação nos círculos letrados de Paris — em parte por se tratar da produção de um prodígio, escrita quando seu autor tinha dezessete anos, em parte porque foi considerado uma obra-prima por autores como Jean Cocteau. Com tradução e posfácio de Paulo César de Souza, esta novela foi o único sucesso que Radiguet conheceu em vida. O autor faleceu poucos meses depois, de febre tifoide, aos vinte anos de idade.

Dix & Bisteca, de Rita Vidal e Alexandre Barbosa de Souza
Bisteca tem cor de caramelo, é vegetariano e passa horas a fio contemplando o vazio. Dix é preto, carnívoro e adora comer a ponta emborrachada dos grampos de cabelo. Do convívio apaixonado com os dois gatos e da observação fina de tantas manias curiosas nasceu este livro, que nos apresenta os dois felinos a partir de poemas inesperados e lindas ilustrações feitas com antigos papéis de parede.

Nova antologia pessoal, de Jorge Luis Borges (Trad. Davi Arrigucci Jr, Heloisa Jahn, Josely Vianna Baptista)
Nova antologia pessoal foi organizada pelo próprio Borges e publicada pela primeira vez em 1968. Em sua vasta atividade crítica, a organização de inúmeras antologias teve papel decisivo. Por meio delas, com os achados e a seleção de sua alta inteligência, fecundou seu ambiente literário, abrindo-o para traduções inéditas. Suscitou o diálogo com textos raros, desconhecidos ou reinventados; renovou o repertório dos autores considerados clássicos. Como antologista da própria obra, Borges não foi menos rigoroso. Tinha autocrítica severa com relação aos poemas da primeira juventude e vivia a reescrever os próprios textos. Esse trabalho pode ser visto na Antologia pessoal, originalmente de 1961, publicada pela Companhia das Letras na coleção Biblioteca Borges em 2008, e agora na Nova antologia pessoal. Mais generosa que a primeira, a Nova antologia traz um volume maior de textos e assuntos. A perplexidade metafísica, a memória dos mortos que se perpetua nos poemas, as imagens cifradas de uma língua pretérita, a linguagem, a pátria, o destino paradoxal dos poetas — esses e vários outros temas são nela recorrentes. A exemplo da anterior, esta antologia forma um caleidoscópio, em que pedacinhos de vidro recombináveis fantasiam as múltiplas faces da totalidade.

Os mortos, de James Joyce (Trad. Caetano W. Galindo)
Para um explorador da alma humana como James Joyce, o amor jamais poderia deixar de ser um tema de interesse. E, como não poderia deixar de ser no caso de um autor capaz de esmiuçar como ninguém a vida interior de seus personagens, suas visões sobre a experiência amorosa se descortinam por meio de reflexões reveladoras, suas tão comentadas epifanias. Como a de Gabriel Conroy — de “Os mortos”, conto que encerra a coletânea Dublinenses —, que numa festa descobre fatos novos sobre a vida afetiva pregressa da esposa e a partir de então começa a repensar sua relação conjugal e até mesmo seu próprio conceito de amor. Ou a epifania do protagonista de “Arábias”, outro conto do mesmo volume, um garoto que, incapaz de encontrar num bazar um presente para a menina por quem é apaixonado, descobre a falsidade por trás da ideia da idealização do amor romântico. Ou ainda a do célebre “sim” de Molly Bloom ao final de seu monólogo no último capítulo de Ulysses — um dos solilóquios mais lidos e admirados de todos os tempos —, aceitando Leopold Bloom em sua cama assim como a mítica Penélope acolheu de volta o herói da Guerra de Troia. Os mortos compreende três grandes momentos do amor na literatura, na prosa de um dos maiores escritores do século XX.

Lolô, de Grégoire Solotareff (Trad. Michaela Nanni)
O coelho Tom nunca tinha visto um lobo, e também não sabia que devia ter medo desse bicho que nós conhecemos tão bem e que aparece nas histórias como o senhor da braveza. Lolô, o lobo deste livro, também não tinha encontrado nenhum coelho na vida, tampouco sabia que deveria caçar esse animal tão bonzinho e saboroso. Assim, os dois se tornam melhores amigos e passam o dia se divertindo juntos. Mas, como sempre, uma coisa triste acontece e atrapalha tudo: Lolô inventa uma brincadeira chamada “medo-de-lobo” e assusta Tom além da conta. E agora?

Portfolio-Penguin:

Supertimes, de Khoi Tu (Trad. Peterso Rissatti)
O que a Pixar, os Rolling Stones, a Ferrari e a Cruz Vermelha têm em comum? Seu sucesso se deve a muito mais que o simples brilhantismo individual. Toda organização, seja uma empresa ou uma ONG, sobrevive ou desaparece pela qualidade de seu trabalho em equipe. A maioria dos desafios importantes exige uma reação coletiva e, embora a excelência individual seja essencial e necessária, a capacidade e a vontade de construir, liderar e trabalhar em equipe não raro representam a diferença entre sucesso e fracasso. Em Supertimes, Khoi Tu analisa os sete fatores que levam equipes a obter resultados sistematicamente extraordinários, emergindo ainda mais fortes das inevitáveis crises.

Semana noventa e nove

Os lançamentos da semana são:

Editora Paralela:
  • Scarpetta, Patricia Cornwell (Tradução de Julia Romeu)
    Uma anã chamada Terri Bridges é estrangulada em seu apartamento em Manhattan e a polícia, após descobrir duas outras vítimas que morreram em circunstâncias parecidas, acredita estar lidando com um assassino em série. Oscar Bane, o namorado de Terri, é o principal suspeito, mas para cooperar ele faz uma exigência: ser examinado pela famosa médica-legista Kay Scarpetta. Após decidir se envolver no caso, Scarpetta deixa temporariamente seu laboratório de patologia forense e, quando finalmente chega a Nova York, Bane conta uma das histórias mais bizarras que ela já ouviu. Para piorar as coisas, detalhes da vida pessoal de Scarpetta vão parar na internet, graças a um site de fofocas escrito por um colunista perverso e misterioso. Scarpetta e sua velha equipe vão ter que deixar as mágoas para trás e decifrar dois enigmas: quem é o assassino de Terri Bridges e como um colunista virtual pode saber tanto sobre suas vidas.
Companhia das Letras:
  • História universal da infâmia, Jorge Luis Borges (Tradução de Davi Arrigucci Jr.)
    Divertido e inteligente, o novo volume da Biblioteca Borges traz contos do começo da década de 1930 em que o autor de O Aleph coloca-se no lugar do leitor, criando contos inspirados por releituras de Stevenson, pela prosa de Marcel Schwob, pelos filmes iniciais de Josef von Sternberg, além da pintura, estimulado, quem sabe, por sua amizade com os pintores Xul Solar e Pedro Figari. Embora as histórias que compõem o volume tenham sido tiradas, em grande parte, de livros de outros autores, o trabalho abissal de reescrita é a novidade, complexa e de grande força expressiva. São obra de um leitor mais tenebroso e singular que os bons autores, como se anuncia num de seus dois prólogos notáveis.
  • Anatomia de um julgamento: Ifigênia em Forest Hills, Janet Malcolm (Tradução de Pedro Maia Soares)
    O caso em julgamento parece ser muito simples: tudo leva a crer que a médica Mazoltuv Borukhova, judia ortodoxa da seita bucarana, mandou matar o marido porque perdeu a guarda da filha na separação do casal. É o que pensam a família da vítima, os jornalistas, a promotoria e a opinião pública. E até mesmo o juiz, que espera uma solução rápida do caso para passar as férias no Caribe. Mas para o olhar agudo e perscrutador de Janet Malcolm nada é muito simples, nem exatamente o que parece. Aos poucos, ela desvela a complexidade dos fatos e das pessoas, aponta para fios que permanecem soltos, sugere motivações obscuras e põe em dúvida o sistema judiciário dos Estados Unidos. E a palavra final fica com o leitor perplexo.
  • Atlântico, Simon Winchester (Tradução de Donaldson M. Garschagen)
    O Atlântico não é só o mar que deslumbra a perder de vista e cujas águas refrescam e restauram quem vai às praias brasileiras. Não é  só o berço da maior parte dos peixes e frutos do mar que fazem a alegria gastronômica de tanta gente. É também muito mais do que o gigante desconhecido que europeus enfrentaram  no século XV, quando encontraram o Novo Mundo com sua população tão múltipla e diversa. Escrever uma biografia não é tarefa trivial. Que dizer, então, da biografia de um oceano que cobre um quinto da superfície da Terra, tem 6400 quilômetros de largura máxima e uma profundidade média de quase quatro quilômetros, e cuja história percorre 190 milhões de anos? É uma missão para um jornalista com formação de geólogo, autor de mais de vinte livros e especialista em construir narrativas vibrantes, capazes de orquestrar uma infinidade de informações e histórias.
Companhia das Letrinhas:
  • Uma chapeuzinho vermelho, Marjolaine Leray (Tradução de Júlia Moritz Schwarcz)
    A reinvenção de uma história clássica aguça a percepção das crianças de que o mundo é feito de múltiplos pontos de vista. No caso deste livro, a Chapeuzinho ingênua e inocente do conto tradicional se transforma numa garota corajosa e perspicaz, que engana um Lobo Mau incapaz de causar medo na menina. Tendo início na parte do conto em que o lobo está prestes a papar a garotinha, que então faz as clássicas perguntas a respeito daqueles olhos, orelhas e dentes tão grandes, esta versão da história tem um final inesperado, muito divertido. A inversão de papéis traz ao livro uma graça única, ao passo que o traço infantil das ilustrações materializam o tom sintético da narrativa.
  • As invenções de Ivo, Rogério Trentini (Ilustrações de Daniel Almeida)
    Uma das características mais marcantes entre as crianças é a imaginação. Seja para brincar ou entender o mundo, elas inventam seres e situações os mais inusitados. Ivo, o narrador deste livro, é o exemplo perfeito, passa o dia fantasiando. Como ele diz: “Às vezes estou sozinho/ e me ponho a imaginar./ Invento um mundo novo,/ é nele que vou brincar.”. Ele cria monstros horríveis e prédios enormes, máquinas de fazer planetas e palavras cabeludas, um amigo divertido e bichos comportados, e assim constrói este poema rimado, cheio de surpresas divertidas. As ilustrações coloridas e originais de Daniel Almeida dão forma às ideias malucas de Ivo, e convidam o leitor a fazer a sua parte: dar asas à imaginação, como o nosso Ivo.
  • Pequenos contos para sonhar, Mario Urbanet (Tradução de Eduardo Brandão)
    Quem não gosta de deitar a cabeça no travesseiro e viver as aventuras mais incríveis? Entre os contos deste livro, surgidos nos quatro cantos do mundo, há a história da mãe que, desesperada para recuperar o seu filho do ninho de uma ave, demora a perceber que pássaros e pessoas falam línguas diferentes; de Dalila que, fugindo do seu destino pressagiado pelo galo, acaba descobrindo o seu verdadeiro amor; de um ferreiro que atravessa o oceano em busca de um tesouro que aparecia em seus sonhos e depois vem a descobrir que a fortuna estava desde o início embaixo de seu nariz; do rapaz que, obstinado a ajudar as pessoas, não percebe que está diante da própria morte, entre tantas outras. Cada narrativa traz, ao seu final, uma lição em versos que, muitas vezes, vai de encontro às morais e ensinamentos difundidos na nossa cultura.

Semana oitenta e três

Os lançamentos da semana são:

Nove ensaios dantescos & A memória de Shakespare, de Jorge Luis Borges (Tradução de Heloisa Jahn)
Ainda muito moço, Borges começou a percorrer a árdua topografia do mundo dantesco ao longo das viagens de bonde que o levavam ao trabalho cotidiano na biblioteca municipal de Buenos Aires. Os ensaios deste livro são como relatos que refazem, numa tela fragmentária, os sugestivos pormenores simbólicos da história dessa viagem, ao mesmo tempo comum e insólita. Depois vêm “A memória de Shakespeare” e mais 3 contos fantásticos, em que o tranquilo domínio do estilo e as pulsantes obsessões se casam a motivos recorrentes da obra de Borges.

O fim da Terra e do Céu, de Marcelo Gleiser
Ao tratar das relações entre religião e ciência diante da questão do “fim de tudo”, Marcelo Gleiser homenageia a imaginação e a criatividade do homem. Seu enfoque é multidisciplinar, mostrando de que maneira ideias sobre o “fim” inspiram não só as religiões e a pesquisa científica, mas também a literatura, a arte e o cinema.

Crônica de um vendedor de sangue, de Yu Hua (Tradução de Donaldson M. Garschagen)
Na China recém-convertida ao comunismo, um operário se vê obrigado a vender o próprio sangue para sustentar a família. Quando desconfia que o seu primogênito é fruto de uma relação clandestina de sua mulher, ele tem de empreender uma batalha contra seus próprios valores para provar que os vínculos afetivos que o unem ao garoto podem ser mais fortes que os laços consanguíneos.

Ho-ba-la-lá: à procura de João Gilberto, de Marc Fischer (Tradução de Sergio Tellaroli)
Um detetive alemão improvisado e sua assistente brasileira vasculham a cidade do Rio de Janeiro em busca de alguma pista que conduza ao misterioso… João Gilberto. A missão é quase impossível; o tempo para cumpri-la, curtíssimo. Menescal, Miéle, João Donato, Marcos Valle, Miúcha, o cozinheiro, o duplo, o Copacabana Palace, Diamantina — em tom de uma divertida história detetivesca, o jornalista Marc Fischer faz uma bela declaração de amor à bossa nova.

A vida de Joana d’Arc, de Erico Verissimo (Ilustrações de Rafael Anton)
Erico Verissimo constrói com delicadeza exemplar a personalidade de Joana, a menina francesa do século XV que ouvia vozes de santos e que transgrediu as convenções de seu tempo e de seu gênero vestindo-se de homem, lutando entre os soldados e defendendo seu rei.

A luz no túnel (Os subterrâneos da liberdade, vol 3), de Jorge Amado
O volume que fecha a épica trilogia apresenta o painel ficcional de um momento muito sombrio, quando republicanos espanhóis perdem a Guerra Civil para Franco, os alemães começam a Segunda Guerra e Getúlio Vargas mostra simpatia por Hitler e Mussolini.

O livro selvagem, de Juan Villoro (Tradução de Antônio Xerxenesky)
Juan precisa ler um livro completamente selvagem, que não se deixa ler. Mas por que o livro resiste à leitura? E por que Juan é o único capaz de desvendar seus mistérios? Com ele, os leitores vão descobrir não só a companhia que os livros podem nos fazer nos bons e maus momentos, como também a importância de se compartilhar o prazer e o conhecimento que as leituras nos proporcionam.

Assim falou Zaratustra, de Friedrich Niestzsche (Tradução de Paulo César de Souza)
Escrito e publicado progressivamente, entre 1883 e 1885, este veio a se tornar o mais famoso livro de Nietzsche. Nele se acha o relato das andanças, dos discursos e encontros inusitados do profeta Zaratustra, que deixa seu esconderijo nas montanhas para pregar aos homens um novo evangelho. Muitas das concepções apresentadas em outras obras do autor (como a morte de Deus, o super-homem, a vontade de poder e o eterno retorno) reaparecem aqui em nova linguagem, numa singular mistura de ficção poética, indagação filosófica e reflexão religiosa.

Olavo Holofote, de Leigh Hodgkinson (Tradução de Érico Assis)
Este livro é fantástico porque ele é totalmente dedicado ao Olavo Holofote. Aliás, é tão fantástico que o Olavo acha que não sobra epaço para mais ninguém além dele… Mas, quando todo mundo cai fora, Olavo começa a pensar: para que serve se exibir para si mesmo? Com certeza, isso não é muito divertido…

Fotobiografia de Fernando Pessoa, de Richard Zenith & Joaquim Vieira
Concebido por um editor experiente e por um dos grandes especialistas em Fernando Pessoa, o livro apresenta centenas de imagens inéditas e conhecidas do poeta e sua família, desde os primeiros anos de vida do autor até os principais acontecimentos de sua vida — incluindo fotos, desenhos, caricaturas, cartas, diários, rascunhos, manuscritos e datiloscritos, reproduções de jornais e revistas em que publicou, além de obras de arte feitas em homenagem a Pessoa.

Ismael e Chopin, de Miguel Sousa Tavares (Ilustrações de Fernanda Fragateiro)
Entre seus 52 irmãos coelhos, Ismael foi o escolhido pelo pai para aprender tudo o que ele tinha para ensinar. Juntos, os dois passam os dias a se aventurar pelos cantos da floresta, observando animais e plantas, e aprendendo segredos sobre um outro mundo. É que o pai de Ismael conhece a língua dos homens e a ensina ao filho — sem nem imaginar que isso levaria ao início de uma amizade muito especial, entre um coelho e um dos maiores compositores da música ocidental.

O segredo do rio, de Miguel Sousa Tavares (Ilustrações de Fernanda Fragateiro)
Era uma vez um rio que passava bem em frente à casa de um menino. Ali, ele formava um lago, onde esse pequeno camponês passava grande parte de seu tempo, nadando de olhos abertos em suas águas cristalinas ou se aquecendo em um banco de areia que se formava nas laterais. Neste rio, se escondia um segredo surpreendente.

Garrafinha, de Mariana Caltabiano (Ilustrações de Rodrigo Leão)
Com seus óculos fundo de garrafa e altura de tampinha, Garrafinha se sente rejeitada por sua aparência e, como acontece a partir de certa idade, quer mais é ter amigos e ser popular. Mas seu grande motivo de sofrimento acabou se tornando a sua solução: como ela estava sempre sozinha, passava boa parte do tempo observando os outros — e também desenhando o que via. Esses desenhos fizeram sucesso entre as crianças, e Garrafinha achou o seu jeito de se expressar. Acesse o hotsite da Garrafinha para conhecer mais da personagem.

Semana sessenta e um

Os lançamentos da semana são:

Os fatos são subversivos, de Timothy Garton Ash (Tradução de Pedro Maia Soares)
Timothy Garton Ash dedica-se há décadas a uma atividade híbrida entre jornalismo e historiografia: escrever a “história do presente”. Ele vai ao lugar onde as coisas estão acontecendo, entrevista pessoas nas ruas, discute com políticos, intelectuais e militantes. E essas reportagens são complementadas com a pesquisa e a reflexão que faz nas universidades de Oxford e Stanford, onde leciona. Neste livro estão reunidos artigos sobre a primeira década do século XXI, que tratam, por exemplo, das relações entre islamismo e terror, temática que o autor aborda com uma visão liberal equilibrada, sempre preocupada com a tolerância e o respeito pela diversidade. Com esse mesmo olhar, ele acompanha de perto a situação em países como Ucrânia, Belarus, Sérvia e Macedônia, bem como Birmânia, Brasil, Egito e Irã.

O cavaleiro da esperança, de Jorge Amado (Posfácio de Anita Leocadia Prestes)
Jorge Amado decidiu escrever a biografia de Prestes em 1941, como forma de pressionar pela libertação do líder revolucionário, preso desde 1936. Viajou então ao Uruguai e à Argentina, onde Prestes havia se exilado anos antes. O autor narra os momentos mais dramáticos da trajetória de Prestes: a épica coluna que atravessou o Brasil entre 1924-27, o exílio, a tentativa frustrada de levante contra Getúlio Vargas em 1935, a prisão na solitária, a entrega de Olga Benário — grávida de Anita Leocadia, que escreve o posfácio desta edição — ao governo nazista, a campanha internacional de Leocadia, mãe de Prestes, pela libertação do filho e de Olga, e pela guarda da filhinha do casal.

Monsieur Pain, de Roberto Bolaño (Tradução de Eduardo Brandão)
Paris, 1938. Enquanto a maioria dos franceses ainda lutava com os fantasmas da Primeira Guerra, pairava no ar uma tensão causada pela ascensão de regimes fascistas na Europa. Neste peculiar período, a capital francesa era habitada por poetas e romancistas vanguardistas, artistas selvagens e curandeiros nada convencionais: os mesmeristas. Discípulo dessa terapia heterodoxa, o obscuro protagonista do livro tem a missão ingrata de curar um poeta com ataques crônicos de soluço. Monsieur Pain, um dos primeiros romances escritos por Bolaño, é uma peça rara em sua obra: um livro atmosférico, repleto de temas caros à literatura de gênero, como o ocultismo, a busca detetivesca e a confusão entre sonho e realidade. Enquanto Pain se deixa levar pelo mistério, as fronteiras entre o que é real e o que é imaginação se dissolvem.

Borges oral & Sete noites, de Jorge Luis Borges (Tradução de Heloisa Jahn)
Em Borges oral (1979) e Sete noites (1980) se acham escritas palavras que brotaram da boca de um narrador cego, que falava como um sábio sibilino e irônico a auditórios do mundo todo. Sempre modesto, mas sem deixar de aludir a modelos gloriosos — Sócrates, Pitágoras, Cristo, Buda — e a outros mais próximos, como Macedonio Fernández, Borges (1899-1986) apresentava-se, na última etapa de sua vida, como um grande mestre da oralidade. A princípio tímido e reservado, a ponto de se ocultar em meio à plateia e pedir a um amigo para ler a conferência que redigira, com os anos e a progressiva cegueira, o escritor argentino tornou-se um narrador oral, como se quisesse dissolver-se na tradição épica dos narradores anônimos. Embora aparentemente abstratos e intelectuais, os temas de suas conferências são tratados num recorte concreto, a que servem exemplos precisos, sempre manipulados com perfeição pelo refinado contador de casos, que não perde uma deixa para uma frase de humor e se orienta em meio às dificuldades do assunto pela força da memória e da imaginação.

O anexo: a incrível história do garoto que amava Anne Frank, de Sharon Dogar (Tradução de Luiz A. de Araújo)
O diário de Anne Frank, um dos textos mais célebres do século XX, lido por jovens e adultos do mundo inteiro, só foi publicado graças ao pai da menina, o único sobrevivente dentre as 8 pessoas que passaram 2 anos escondidas no anexo de uma casa em Amsterdam, durante a perseguição aos judeus organizada pelos nazistas. Neste romance, a inglesa Sharon Dogar se baseia no diário mundialmente conhecido para imaginar como teria sido conviver de perto com Anne Frank e até se apaixonar por ela. É através dos outros de outro adolescente que acompanhamos a sensação clautrofóbica de morar no esconderijo, a revolta por não poder lutar contra o inimigo e as aflições de se viver numa época tão sombria.

Macbeth, de Andrew Matthews (Ilustrações de Tony Ross; Tradução de Érico Assis)
Macbeth, general do exército escocês, é um defensor leal do rei e de sua pátria. Mas, ao voltar de uma batalha, depara com três bruxas que lançam uma profecia: ele se tornará rei. A previsão desperta as ambições mais secretas de Macbeth: impelido pela esposa, ele assassina o rei e é proclamado o novo regente. E este é só o primeiro de uma série de crimes que irá cometer. Bruxas, um fantasma e um punhal espectral… prepare-se para muita aventura, nesta que se tornou uma das mais famosas peças de Shakespeare. Além da adaptação em prosa da peça, o livro traz um prefácio da autora e pesquisadora brasileira Marta de Senna e dois posfácios: um sobre a questão do mal em Macbeth e outro sobre a dificuldade enfrentada pelos escritores da época de Shakespeare em encontrar papel para escrever.

As leituras inconfessáveis

Por Joca Reiners Terron


Borges e sua irmã Norah, em 1908. (Colección Jorge Luis Borges; Fundação San Telmo)

A origem do gosto pela leitura é um grande mistério, principalmente se depender da sinceridade do leitor que a confesse. Depois de adquirir certo status, tornando-se o leitor profissional que todo escritor é obrigado a ser em temporadas de dureza (que podem levar a vida toda), raramente alguém confessa o endereço da nascente, preferindo mascará-la ao citar autores que não comprometam a qualidade desse “prestígio” tão frágil.

Por isso é bastante comum encontrar poetas que se apaixonaram pela poesia ao ler Baudelaire aos sete anos de idade, além de romancistas mirins que espoucaram a cilibrina enquanto gargarejavam o monólogo de Molly Bloom no original etc. É verdade tida como biográfica em casos como os de Jorge Luis Borges ou Fernando Pessoa, privilegiados por sua condição familiar (estrangeira e anglófona em ambos, além de burguesa). Mas na maior parte não passa de deslavada mentira, equivalente a comer o Frangolino dos desenhos da Warner e arrotar o Peru, de Gordon Lish — um peru bastante literário, portanto.

O caso de Borges é sintomático de certa assunção aristocrática do leitor. Bilíngue de berço devido à ascendência da família paterna (sua avó, Fanny, era natural de Staffordshire), o grande argentino temperou contos, poemas e ensaios com a influência recebida da literatura clássica de língua inglesa. No final da vida, quando já estava cego, os espetáculos de Borges pelas academias do mundo incluíam o momento apoteótico no qual recitava poemas em inglês arcaico memorizados na juventude ao ouvir seu pai, um erudito advogado e professor de psicologia, recitá-los.

Borges e sua literatura, apesar de pertencerem cronologicamente ao século 20, são frutos do 19 (e, em alguma medida, do 18, graças às imitações juvenis de Wordsworth). Em Ensaio autobiográfico, ditado em inglês a seu tradutor Norman Thomas di Giovanni (publicado pela New Yorker em 1970 e depois utilizado como prefácio à edição americana de O Aleph), Borges enumera suas primeiras leituras: Twain, H.G. Wells, Poe, Longfellow, Dickens e Dom Quixote — todos em inglês, incluindo este último. “Quando mais tarde li Dom Quixote na versão original, pareceu-me uma má tradução”, afirma.

É curioso que Roberto Arlt, considerado o introdutor da literatura argentina ao século 20 (ou vice-versa, do século 20 à literatura argentina), igualmente descendente de imigrantes e bilíngue, tenha construído sua ficção a partir de leituras diametralmente opostas às de Borges. Não à toa os dois são colocados nas antípodas um do outro: Borges, cerebral e literário, quando não demasiado bem escrito; Arlt, direto e rueiro, em geral de escrita apressada e malfeita.

A origem dessa imperfeição literária de Arlt estaria nas suas leituras de formação — de deformação —: filho de alemães pobres e insatisfeitos com a vida de imigrantes em Buenos Aires, conviveu com os pais monoglotas e instruiu-se de maneira autodidata. Estavam entre suas leituras prediletas os manuais de mecânica e de informações técnicas variadas (Arlt ambicionava ser inventor) e traduções ruins de Dostoiévski e de outros russos. A má influência dessas leituras ecoaria nas crônicas do submundo portenho que ele publicaria desde cedo na imprensa argentina. Ricardo Piglia, seu maior leão-de-chácara crítico, subvertendo a afirmação pejorativa feita por alguém de que Arlt falaria “lunfardo com sotaque estrangeiro”, concluiu que esta era uma excelente definição do efeito de seu estilo.

Em Roberto Arlt, novamente de acordo com Piglia, “há uma crítica frontal ao que poderíamos chamar de produção imaginária de massas”. Ou seja, ao cinema, ao folhetim e sobretudo ao jornalismo. Apesar de retratar a Buenos Aires dos anos 20, conclui-se que o argentino visionário desde então lamentava a perda do poder libertário (no sentido de perdição) da literatura, em substituição às ilusões sociais promovidas pelas novas máquinas de imaginar.

Assim, ainda estavam por nascer autores que confessassem entre suas principais influências a leitura pé-de-chinelo de histórias em quadrinhos, para ficar num só exemplo de gênero bastardo (e poderiam ser tantos: fotonovelas, policiais, ficção científica, romances açucarados de bancas de jornal etc). O poeta norte-americano e. e. cummings foi pioneiro, encarnando o leitor do século 20 ao prefaciar a primeira edição em livro da despirocada Krazy Kat, o cartum surrealista de George Herriman que também tinha entre seus fãs H.L. Mencken e Jack Kerouac. Depois destes e de alguns outros, John Updike (que sonhou ser cartunista antes de ser escritor) escreveu um ótimo ensaio sobre a magia dos quadrinhos (publicado no Brasil na segunda edição da revista Serrote). E daí, mais recentemente, veio a torrencial homenagem de Umberto Eco ao gênero, com o romance A misteriosa chama da Rainha Loana.

Resta saber se existe alguma verdade na influência desses tantos meios mestiços no modo que compreendemos a formação da leitura nos apocalípticos dias atuais. Mas, para chegarmos a tal ponto, é necessário que nasça aquele escritor-leitor que, ao ser perguntado sobre sua principal influência e suas primeiras leituras, responda: “A internet”.

PS. Para saber mais sobre dois livros fundamentais de Borges e Arlt, assista ao divertido Impreso en Argentina, programa — em espanhol — estrelado pelo escritor Pedro Mairal e pelo quadrinhista Juan Sáenz Valiente.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Seu último livro é o romance Do fundo do poço se vê a lua, publicado pela Companhia das Letras. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.

12