jorge mautner

Semana duzentos e oitenta e um

 

Kaos Total, de Jorge Mautner
Para celebrar os 75 anos de Jorge Mautner, João Paulo Reys e Maria Borba selecionaram uma amostra de seu acervo inédito e uniram ao material à totalidade de suas letras, parte mais cultuada de sua obra. O volume abre com um explosivo caderno de imagens: as pinturas de Mautner, nunca publicadas em livro, de estética aparentemente naïf, mas que quando apreciadas com cuidado comprovam rigor na combinação das cores e formas. Em seguida, a compilação de letras. Pérolas como “Maracatu atômico”, “Lágrimas negras” e “Vampiro”, dispostas em ordem cronológica e por álbum, revelam a fecundidade do cancioneiro de Mautner, que desde os anos 1960 enriquece nossa cultura com sua inventividade. Algumas músicas, como “O rouxinol”, flertam com o universo infantil, enquanto outras exigem alto grau de abstração, como “Tempo sem tempo”. Encerram o bloco canções inéditas. Os poemas trazem mais uma face pouco familiar do artista múltiplo. O que vemos é um jorro aparentemente incontido de sentimentos e palavras, orientado por rimas e ritmo. Ou então a concisão de um poema de um só verso: “E agora sobrou o nada”. Na seção de prosa poética, deparamos com alguma ficção, poemas narrativos e em verso livre, reflexões que passeiam com naturalidade por objetos tão variados quanto Freud, Bob Dylan e Schöenberg, além do programa do Partido Revolucionário do Kaos. Como diriam os curadores, “sua obra é sua vida. O Kaos total, Jorge Mautner, nunca se encerra, está sempre vivo e em movimento”.

Alô, alô, Mautner e outros marcianos!

Por Sofia Mariutti

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Pintura de Jorge Mautner que integra o livro Kaos total, que chega às livrarias em janeiro. Reprodução de Fernando Laszlo.

Essa semana foi o David Bowie. Será que todo mundo mesmo vai ter que morrer um dia?

Não sou grande conhecedora da obra desse herói de tanta gente. Mas o que sei me basta para admitir o óbvio: ele era um extraterrestre. As evidências são várias, como os olhos, um de cada cor, os movimentos que nenhum outro ser humano conseguiria fazer, as músicas falando de Marte, e este último clipe, “Lazarus”, que demonstra essa capacidade que só mesmo os marcianos teriam de transformar tudo em arte, até a própria morte.

Afinal, todo mundo vive dizendo que sabe que vai morrer e tal, e isso tem o maior charme, mas são poucos os que chegam ao final com essa consciência tão aguçada, como se soubessem o que se aproxima. Esses extraterrestres são raros. Agora me veio à cabeça Michael Jackson  o pai do Moon Walking deve ter sido um refugiado da Lua. Bobby McFerrin. Oliver Sacks. Tudo ET. E também há e houve alguns extraterrestres em nossa música e poesia. Um deles com certeza foi o Itamar Assumpção, que tinha um suingue único, um jeito de cantar insólito, e quando estava à beira da morte fez o “Melô da UTI”:

Hoje eu estou aqui

Por sorte não por ser forte

Porque que sobrevivi, não sei

Sei que não foi blefe ou trote

 

Anteontem na UTI

Foi me visitar a morte

Mesmo sedado senti

Seu bafo no meu cangote

(…)

Essa música é assombrosa de tão leve e pesada, bem-humorada e desesperada ao mesmo tempo. A morte confronta o poeta na UTI. E é aí então que ele, que suportou todos os seus dias como “nego dito”, marginal e underground (o show que vi dele foi literalmente underground, no palco subterrâneo do falecido bar Supremo, na rua Oscar Freire) é confrontado também com uma das grandes questões de sua vida:

Quando resolveu partir

Entregou-me um passaporte

Gritou antes de sumir

“Além de servir de mote

 

Vim ajudá-lo a assumir de vez

O seu lado pop

Então é só decidir se morte é mote

Pra funk ou xote.”

Meu pai me contou uma vez, não sei se é verdade, que o Itamar não queria mesmo se tornar pop  a Zélia Duncan teria pedido para gravar um CD só com faixas dele, o que o tiraria de vez do anonimato, mas ele nunca teria aceitado. A morte o projetou de fato, com o lançamento da Caixa preta, uma reunião de todos os seus CDs remasterizados e uma produção mais palatável do que ele tinha deixado de inédito, como o “Melô da UTI”. E foi assim que Itamar alcançou um número bem maior de ouvintes quando partiu dessa pra melhor.

O mesmo aconteceu com o Leminski, parceiro do Itamar. Já são pra lá de 120 mil exemplares vendidos de Toda poesia, sucesso que ele não viu em vida. E ele também tinha isso de saber falar muito bem da morte, inclusive no poema musicado pelo Itamar:

(…)

ópios édens analgésicos

      não me toquem nessa dor

ela é tudo que me sobra

      sofrer vai ser minha última obra

Este texto foi escrito no fim da vida e publicado postumamente em La vie en close (1991). Há outros textos no livro que também falam da Indesejada e trazem um raro equilíbrio entre humor e agonia:

Fiz um trato com meu corpo.

      Nunca fique doente.

Quando você quiser morrer,

      eu deixo.

 

ou ainda:

vida e morte

      amor e dúvida

dor e sorte

 

quem for louco

      que volte

Lembro de querer usar na quarta capa de Toda poesia o poema “Lápide 1  epitáfio para o corpo”, mas a sábia (e lindamente mística) Alice não me deixou, por ser demasiado sombrio:

Aqui jaz um grande poeta.

      Nada deixou escrito.

Este silêncio, acredito,

      são suas obras completas.

Quem viu o show do Caetano e Gil e, como eu, não conhecia a música “Não tenho medo da morte”, gravada no álbum Banda larga cordel, de Gil, de 2008, deve ter se assombrado, como eu, e como só se fica diante de um fantasma ou de um extraterrestre. Não tenho dúvida: Gil não é da Terra.

Mas todo este texto é pra falar de um dos maiores extraterrestres que o Brasil já viu, que antes de ser parceiro de Gil foi o duplo de Nelson Jacobina, outro alien, e que faz 75 anos neste domingo: Jorge Mautner.

Só um marciano é capaz de olhar o planeta assim de longe a ponto de enxergar e reunir em sua obra tudo o que mais importa à vida na Terra: sapos baratas serpentes crocodilos macacos rouxinóis feras vampiros anjos infernais heróis palhaços cartomantes supermulher circo candomblé índios do Xingu Jesus estrela de davi Tupã tupy-guarany Zeus Stanley Kubrick Stefan Zweig a bandeira vermelha a bandeira verde amarela Stevie Wonder Ray Charles negros blues som do violino maracatu atômico sol estrelas mar planetas disco voador bomba atômica vingança amor olhar bestial ódio liberdade socialismo astrofísica, lua, azul!!!! Múltiplas exclamações! Disso tudo se faz seu Kaos total, que a Companhia das Letras publica neste mês.

Kaos total

E, retomando o lance: Jorge sabe muito bem falar da morte. Até mesmo numa história infantil que ele fez pra filha Amora, num determinado momento um jabuti de mãos dadas com uma tartaruga-do-mar mostra que manja de ressurreição (olha aí o Lazarus de novo):

(…)

Nós somos o par ideal

caminhamos bem devagar

eu sou o jabuti do mato ela a tartaruga-do-mar

sabemos que a sabedoria ensina

que não adianta correr

devagar se vai ao longe para além e aquém daquela bela

                                                                                 [colina

e o coração tem razão e só quem canta seus males espanta

e a vida é um eterno nascer e morrer e renascer!

(…)

Na música “Árvore da vida”, em parceria com Nelson Jacobina e gravada no álbum homônimo de 1988, ele pontua:

(…)

Se aqui se nasce, se aqui se morre

então me abrace, mesmo no porre.

 

E no passe do impasse,

quem sabe nada passe

nem se acabe mas renasce,

como se a vida gritasse, ah!

(…)

Em álbum mais recente, com Caetano, Eu não peço desculpa, de 2002, mais uma vez Mautner demonstra isso, com a letra de “Morre-se assim”, também musicada por Nelson Jacobina:

No meio das névoas e mergulhado na melancolia,

ao lado de tristes ciprestes, ajoelhado

derramando quentes lágrimas de saudade

perante o túmulo da minha amada.

 

Morre-se assim

como se faz um atchim

e de supetão

lá vem o rabecão.

 

Não não não não não não não

Sim sim sim sim sim sim sim

mas porém contudo todavia

no entanto outrossim.

(…)

Bem, além de saber da morte ele sabe muito bem que é marciano, como mostra neste poema inédito que entrou no livro:

Uma coisa, você aí

não me explicou por que eu me

tornei energia pura!!!! Saí

de dentro da matéria mantendo

a minha energia compacta sem

dispersar uma fagulha vivendo

sem as limitações do corpo!!!!

Eu viagem-viajante aeronave!!!!

Eu Marte, eu marciano.

 

Eu parti no oceano da arte no engano.

 

Ainda bem que foi na Terra que o ET Mautner veio parar. E por aqui, disso tenho certeza, ele já é imortal.

* * * * *

Sofia Mariutti é editora da Companhia das Letras.