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Eu também sou filho do Jorge Zahar

Por Luiz Schwarcz

Jorge Zahar em 1997. (Foto por Martine Heissat)

Eu já trabalhava na Brasiliense havia cinco anos e, se houvesse placa na minha porta, lá estaria escrito DIRETOR EDITORIAL. Tinha encontrado um bom equilíbrio no trabalho com o Caio Graco, formávamos uma dupla na qual eu me sentia o mais velho dos dois, embora entre nós houvesse 24 anos de diferença, a meu favor. Um belo dia, Caio me chamou em sua sala e disse que eu iria com ele para a Feira de Frankfurt, a Feira-mito, onde se realizavam os grandes negócios, leilões e onde, conforme eu ouvira falar, os editores se estendiam em drinks com os agentes literários nos saguões dos hotéis mais chiques da cidade.

Frankfurt desde então faz parte da minha vida, certamente sem o mesmo glamour daquele primeiro ano. Seriam necessárias algumas crônicas para contar como funciona a feira, seus bastidores e o encanto que — tenho que confessar — pouco durou.

Fiz três feiras pela Brasiliense, e pude conhecer ainda mais o lado brincalhão do Caio, que trocava o formulário com o pedido de café da manhã da porta dos quartos, no hotel Frankfurterhof, fazendo com que alguns hóspedes fossem acordados com café sem pedir, e outros esbravejassem sem seu despertar requisitado. Na feira eu funcionava como a memória da editora. Caio representava muito bem seu papel, mas estava mais voltado para a apresentação institucional da Brasiliense do que para a contratação de novos livros. Nessa primeira feira, eu comecei a conhecer melhor o mundo editorial, inclusive os editores brasileiros, com quem tinha contato apenas nas Bienais do Livro, que, na época, principalmente em São Paulo — ainda no Pavilhão da Bienal no Ibirapuera —, eram eventos disputadíssimos pelo público. Nos corredores, ou no stand coletivo brasileiro, convivi com editores importantes como Alfredo Machado da Record, Sérgio Lacerda  da Nova Fronteira, além de Valdir Martins Fontes, um dos grandes gentlemen que o mercado de livros conheceu.

Foi em Frankfurt também que, logo no primeiro ano, conheci Cristina Zahar, e no seguinte o lendário editor carioca Jorge Zahar.

Jorge tornou-se, com o tempo, um segundo pai, o meu melhor amigo, uma das pessoas mais importantes da minha vida, de quem sinto falta como sinto falta de meu avô e avó maternos, de meu pai — quatro pessoas tão queridas que não posso ver quando quero, e a quem só posso recorrer em conversas imaginárias.

Escrevendo sobre Frankfurt, me parece importante contar sobre o dia em que o Caio me procurou, antes de viajarmos para a segunda feira da minha vida e disse: “Luiz, vou te apresentar o Jorge Zahar este ano, ele quer te conhecer e propõe um jantar num pequeno bistrô, onde ouviu dizer que servem cépes — o cogumelo selvagem, da estação. Ele, como você, gosta de comer e beber coisas boas, e sei que vão se dar muito bem”.

Foi assim: uma frase tão simples do Caio, que não me sai da cabeça até hoje, e logo mais o primeiro encontro, que se deu antes do tal jantar, nas escadas rolantes da Feira, uma das marcas registradas dos pavilhões de Frankfurt. Jorge estava com a esposa, Any, eu com o Caio, e a apresentação foi feita entre degraus. Naquele momento virei “meu filho”, como todos a quem Jorge  dirigia sua palavra, sempre paternal. Ele costumava chamar de “meu filho” o ascensorista, o taxista e os amigos. Era sua forma de inserção no mundo, como um grande pai, de braços abertos para todos. Com o tempo, depois do jantar à base de cépes, e principalmente após sair da Brasiliense, passei a ser de fato um filho para o Jorge; ganhei irmãos, como o Jorginho e a Crica, que nunca tive por força da biologia, ou do destino, tanto faz.

Foram 13 anos de conversas diárias com o Jorge, mais de uma vez por dia, desde o momento em que deixei a Brasiliense até sua morte. Jorge queria ser meu sócio na editora que eu montaria, mas acabou tranformando-se em muito mais que isso. Participou de todos os detalhes importantes da minha vida profissional e pessoal. Aconselhava-me a escrever minhas cartas furibundas, quando eu era atacado por algum crítico ou colega, no começo da vida da Companhia das Letras, e ligava depois para que eu as lesse para ele, dizendo em seguida: “está ótima, meu filho, agora jogue fora, ou guarde bem guardada na gaveta, sem nunca endereçá-la a quem quer que seja. Pronto. Você já desabafou. Estou feliz”. Desligava o telefone me enviando um beijo, com um sorriso maroto nos lábios, que eu tinha certeza que acontecia do outro lado da linha.

Mas entre nós havia uma grave diferença. Jorge não se conformava que eu não gostasse de tomar porres. Meu gosto etílico se restringe a vinho e a outros poucos aguardentes, mas não sou do whisky. Ele não. Gostava de se embebedar nas festas, ficava puto comigo nessas horas, e borracho da silva me dizia: “cara chato que não fica bêbado, você nunca vai ser um grande editor”. Em certa ocasião, na casa de Alfredo Machado, em um jantar em homenagem à poderosa agente literária espanhola Carmen Ballcels, completamente ébrio, às 3 da manhã, na frente dos anfitriões constrangidos, Jorge sentou, puxando Enio Silveira consigo. Esbarraram na mesa de vidro, que desabou tão solenemente quanto a gargalhada desses dois editores lendários, envoltos por cacos de vidro, brindando com os copos no ar.

A cada livro da minha editora que recebia, e ele recebia todos, Jorge ligava para comentar. As publicações mais ambiciosas, e que lhe pareciam arriscadas no aspecto comercial, causavam-lhe verdadeira emoção. “Meu filho, acabo de receber o livro do Delumeau que você publicou. Que beleza. Estou muito orgulhoso de você. Mas fala para mim. Você enlouqueceu? Não vai vender nada, cacete!”

Na vida de um editor brasileiro, é fundamental  possuir uma boa dose de otimismo. Trabalhamos a muito longo prazo, em um país de ainda poucos leitores. Jorge, no entanto, era um editor pessimista. Ou falsamente pessimista. Formou gerações de leitores e intelectuais brasileiros com sua editora, ou suas editoras, pois recomeçou no mínimo duas vezes sua trajetória, sempre quase do zero. Abriu portas, e principalmente criou filhos por todos os lados. Entre eles aqui está um que entoa, saudosamente, agora o canto típico das arquibancadas de futebol: “sou também um dos filhos do Jorge Zahar, com muito orgulhoooo, com muito amoooor”.

Logos das três editoras fundadas por Jorge Zahar: Zahar Editores (criada em 1956), Jorge Zahar Editor (1985-2008), Zahar (atual).

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Minha vida de goleiro e Discurso sobre o capim, entre outros. Seu novo livro, Linguagem de sinais, será lançado pela editora ainda este ano. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.