josé francisco botelho

Semana trezentos e dezoito

Companhia das Letras

Rio acima, de Pedro Cesarino
Um antropólogo desembarca na Amazônia para estudar os mitos de um povo indígena e a misteriosa história do “apanhador de pássaros”. Aos poucos, o pesquisador vai se aproximando da descoberta — mas ela pode ter consequências desastrosas. Narrado com precisão e agilidade, Rio acima é um misto de Nove noites, o romance de Bernardo Carvalho em que um pesquisador mergulha na vida dos índios do Xingu, e de Coração das trevas, o clássico de Joseph Conrad em que o lento avançar por um rio selvagem revela um universo sombrio. Pedro Cesarino é um dos pesquisadores mais brilhantes de sua geração e mostra que é também um grande ficcionista, capaz de ombrear com os melhores da nova literatura brasileira.

Enclausurado, de Ian McEwan (tradução de Jorio Dauster)
O narrador deste livro é nada menos do que um feto. Enclausurado na barriga da mãe, ele escuta os planos da progenitora para, em conluio com seu amante — que é também tio do bebê -, assassinar o marido. Apesar do eco evidente nas tragédias de Shakespeare, este livro de McEwan é uma joia do humor e da narrativa fantástica. Em sua aparente simplicidade, Enclausurado é uma amostra sintética e divertida do impressionante domínio narrativo de McEwan, um dos maiores escritores da atualidade.

O voyeur, de Gay Talese (tradução de Pedro Maia Soares)
“Conheço um homem casado, com dois filhos, que comprou um motel de 21 quartos perto de Denver, há muitos anos, a fim de se tornar um voyeur residente.” Assim começa a espantosa história que Gay Talese, um dos maiores nomes do jornalismo literário, narra em O voyeur. O homem é Gerald Foos, que construiu uma “plataforma de observação” para bisbilhotar a vida de seus hóspedes. Intrigado, Talese investiga os diários do proprietário, um complexo registro de suas obsessões e das transformações da sociedade americana, mas só após trinta e cinco anos o jornalista pode divulgar a história. Um trabalho extraordinário e polêmico do repórter que mudou para sempre a face do jornalismo.

Como ser as duas coisas, de Ali Smith (tradução de Caetano W. Galindo)
Escritas com paixão, as obras de Ali Smith são únicas. Aclamadas, discutidas e premiadas, renderam um séquito de leitores à escocesa, sensação literária da contemporaneidade. Como ser as duas coisas não é diferente. Na Inglaterra, o livro vendeu 150 mil exemplares no primeiro ano — feito raro para um romance literário. A versatilidade da arte é o tema por trás das trajetórias de amor e injustiça que aqui se espelham dissolvendo gêneros, formas, tempos, realidades e ficções. Com técnica análoga à pintura de afrescos, Smith cria uma original história de duplos, protagonizada por um pintor renascentista dos anos 1460 e uma neta dos anos 1960.

Paraíso & inferno, de Jón Kalman Stefánsson (tradução de João Reis)
Numa parte remota da Islândia do século XIX, um pequeno barco de pesca é apanhado no meio de um violento temporal e a tragédia abate-se sobre os homens. Entre os tripulantes, um jovem pescador fica surpreso pela aparente indiferença dos companheiros à morte por hipotermia do seu único amigo. Desiludido e confuso ao retornar, ele decide abandonar sua aldeia, arriscando atravessar a pé as montanhas em pleno inverno, com uma ideia fixa: chegar à cidade mais próxima para devolver o livro Paraíso perdido, de John Milton, a um velho capitão cego, que o emprestara a seu amigo. Uma história vívida e lírica, com a intensidade da paisagem natural islandesa.

Penguin-Companhia

Romeu e Julieta, de William Shakespeare (tradução de José Francisco Botelho)
Há muito tempo duas famílias banham em sangue as ruas de Verona. Enquanto isso, na penumbra das madrugadas, ardem as brasas de um amor secreto. Romeu, filho dos Montéquio, e Julieta, herdeira dos Capuleto, desafiam a rixa familiar e sonham com um impossível futuro, longe da violência e da loucura. Romeu e Julieta é a primeira das grandes tragédias de William Shakespeare, e esta nova tradução de José Francisco Botelho recria com maestria o ritmo ao mesmo tempo frenético e melancólico do texto shakespeariano. Contando também com um excelente ensaio introdutório do especialista Adrian Poole, esta edição traz nova vida a uma das mais emocionantes histórias de amor já contadas.

Objetiva

Verissimas, de Luis Fernando Verissimo
Antologia reúne, em pílulas de sabedoria e humor, o suprassumo da obra do escritor e cronista, que completa 80 anos. O publicitário e jornalista Marcelo Dunlop tinha apenas dez anos quando descobriu, lendo um texto de Luis Fernando Verissimo, que até a morte podia ser engraçada. Deslumbrado com o achado e às gargalhadas, o menino recortou a crônica do jornal e passou a fazer o mesmo com várias outras. Duas décadas depois, eis aqui o resultado da empreitada: uma seleção de pérolas garimpadas em toda a obra do escritor. Salpicada de cartuns raros recolhidos no baú do autor, esta coletânea traz cerca de oitocentos verbetes — ou Verissimas — em ordem alfabética. Conduzido e instigado por esse alfabeto particular, o leitor seguirá se divertindo de A a Z com as comparações, máximas, mínimas e metáforas do mestre do humor sintético.

Como ter um dia ideal, de Caroline Webb (tradução de André Fontenelle)
Através de técnicas simples baseadas em pesquisas científicas de economia, psicologia e neurociência, Caroline Webb ajuda você a melhorar seu dia a dia. Em Como ter um dia ideal, Caroline Webb mostra que é possível usar as recentes descobertas da economia comportamental, da psicologia e da neurociência para transformar nossa relação com o cotidiano profissional. Avanços nessas ciências nos oferecem um melhor entendimento de como nosso cérebro funciona, por que fazemos as escolhas que fazemos e o que é necessário para conseguirmos dar o melhor de nós. Webb explica como aplicar essas descobertas em nossas tarefas e rotinas diárias e, assim, lidar melhor com os desafios do ambiente de trabalho moderno — dos conflitos com colegas a reuniões tediosas e caixas de entrada lotadas — com destreza e facilidade.

Reimpressões

Alta fidelidade, de Nick Hornby
Brasil: Uma biografia, de Lilia M. Schwarcz e Heloísa Starling
Budapeste, de Chico Buarque
Marighella, de Mário Magalhães
Mulheres de cinzas, de Mia Couto
O anjo pornográfico, de Ruy Castro
A corrida para o século XXI, de Nicolau Sevcenko
Pippi nos mares do sul, de Astrid Lindgren
O mundo assombrado pelos demônios (Edição de bolso), de Carl Sagan
Obra completa (Edição de bolso), de Murilo Rubião
Rumo à estação Finlândia (Edição de bolso), de Edmund Wilson
Anticâncer, de David Servan-Schreiber
Fora da curva, de Pierre Moreau

A maldição de Mercúcio

Por José Francisco Botelho

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Minha iniciação ao universo shakespeariano ocorreu em um rancho profundo em Hulha Negra, no interior do Rio Grande do Sul, em certo entardecer de outono; enquanto a ventania fazia estremecer as venezianas verdes do quarto, Macbeth murmurava em uma charneca escocesa: Dia tão belo e tão feio eu nunca vi. À medida que a leitura avançava e o sol decaía, fui invadido por um misto de estranheza e entusiasmo, que apenas anos mais tarde pude elaborar, nomear e descrever: a sensação de que as criaturas vivas nas páginas eram metafisicamente mais reais que eu, meu quarto, o crepúsculo outonal e o vento que desgrenhava os campos lá fora. O tempo passou, mas o sortilégio não se dissolveu; pelo contrário, expandiu-se. Ainda hoje, basta abrir um tomo de Shakespeare e ler algumas linhas para sentir que minha própria existência mergulha em um torpor fantasmagórico, enquanto as sucessões de prosa e verso redirecionam o fluxo da realidade: as imaginações do poeta são tão poderosas que fazem com que eu me sinta vago, abstrato, inverossímil. É meramente natural, portanto, que os personagens do Bardo também nos pareçam mais reais que seu inventor. “Fala-se sobre o grande coração de Beethoven, mas quem poderia falar sobre o grande coração de Shakespeare?”, protestou Wittgenstein em uma página de diário, em 1950. De fato, pouco ou nada sabemos sobre o coração de Shakespeare; e esse nada é o bastante. Conhecemos Macbeth, Hamlet, Otelo, mas o homem que os criou permanece uma imagem apenas vagamente acessível; a ausência do Criador na Criação é o que lhe garante, por contraste, uma eterna presença entre nós. Eis aí um paradoxo que nenhum amante da literatura desejará resolver.

Antes de criar o Rei da Escócia, o Príncipe da Dinamarca e o Mouro de Veneza, Shakespeare havia inventado Mercúcio. O mais fascinante dos coadjuvantes surgiu nas páginas de Romeu e Julieta, peça escrita por volta de 1595 (e recentemente traduzida por mim). A história, todos a conhecem — afinal de contas, essa foi e continua sendo a mais popular de todas as peças do Bardo. Em algum momento no outono da Idade Média, os clãs de Capuleto e de Montéquio se digladiam pelas ruas da “bela Verona”, enquanto dois jovens e desditosos amantes tentam eludir o conflito familiar e as manhas do destino — inutilmente, é claro, pois esta história tem um desfecho necessariamente catastrófico. Melhor amigo de Romeu, Mercúcio é o responsável pela toada cômica que embala boa parte dessa tragédia. Seu humor é cínico, carnudo, hormonal; e às vezes sombrio, ominoso, onírico. Às elucubrações maneiristas de Romeu e aos sublimes, quase terríveis discursos eróticos de Julieta, Mercúcio contrapõe algumas das mais convincentes tiradas antirromânticas da literatura. Quando vê seu dileto amigo afundado nos suplícios de Eros, Mercúcio trata de curá-lo com saraivadas de trocadilhos e obscenidades, para então disparar: Ora, ora! Vais me dizer agora que esta ronda de escárnios não é melhor do que andar choramingando por amor? … Pois esse amor babão é como um grande palerma que corre para cima e para baixo, com a língua de fora — um rei dos bobos tentando tolamente enfiar o cetro em algum buraco.

Mas Mercúcio não seria Mercúcio se Shakespeare não houvesse lhe dado uma morte memorável. Embora não seja Montéquio nem Capuleto, ele acaba envolvido na luta entre as duas famílias — e recebe um golpe fatal pelas mãos de Teobaldo, inimigo de Romeu. Apalpando a ferida, Mercúcio percebe que vai morrer pela briga dos outros; e, compreendendo que seu destino era ser coadjuvante em drama alheio, lança estas que talvez sejam as mais veementes palavras finais da literatura: Malditas sejam vossas duas casas! A maldição há de cumprir-se: até o fim da peça, ambas as famílias serão dizimadas por sua própria intransigência.

A praga de Mercúcio representa uma epifania recorrente na acidentada história da prudência humana: o momento em que, no calor de um conflito ou no estrépito de uma discussão, advém um súbito clarão de ceticismo, revelando que todos os lados estão igualmente errados, ou que são identicamente daninhos. À alma solitária e raivosamente lúcida, resta apenas praguejar contra Montéquios e Capuletos. “Malditas sejam vossas duas casas!” — quantas vezes, em nossa vida, não nos seria útil recorrer à maldição de Mercúcio? É pena que, no mais das vezes, esse píncaro de clarividência só se alcance quando já é tarde demais: lançada a imprecação imortal, o grande coração de Mercúcio logo se calou, para sempre, em alguma rua anônima da bela Verona.

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José Francisco Botelho é escritor, tradutor e jornalista. Para a Penguin-Companhia, traduziu Contos da Cantuária (2013) e Drácula (2014). Sua tradução de Romeu e Julieta será lançada em setembro. É autor da coletânea de contos A árvore que falava aramaico (Zouk, 2011).

Chaucer, Chico, Ivan

Olha que beleza de carta (carta mesmo: em nobre papel e com o timbre “Ad Imortalitatem”) recebeu José Francisco Botelho, o tradutor de Contos da Cantuária (dos livros mais divertidos que publicamos em 2013). O remetente é nada menos que Ivan Junqueira, poeta, grande tradutor — responsável por verter para a última flor do Lácio as obras de, entre outros, Baudelaire, T.S. Eliot e Leopardi  — e imortal da Academia Brasileira de Letras:

“Meu estimado José Francisco:

Li, maravilhado e quase incrédulo, a sua excepcional tradução de The Canterbury Tales. Jamais passou por minha cabeça que se pudesse verter Chaucer para nosso idioma com tamanha fluência, elegância, concisão e inteligência métrico-rítmica. Vou mais longe: não se percebe que se trata de uma tradução, e apraz-me às vezes dizer, calcado naquele conceito coleridgiano da suspension of disbelief, que gosto mais de certas traduções do que dos originais, exatamente porque se trata de uma tradução, ou seja, a poesia ‘alheia’ que nos serve o ‘homo ludens’ a partir do que escreveu o ‘homo faber’. Pode estar certo de que você realizou um milagre… Abraço afetuoso do seu

Ivan Junqueira”.

O indiscreto charme da bruxaria

Por José Francisco Botelho

Richard Doyle (British, 1824-1883) - "In fairy land"
“A Inglaterra é um país que ama a magia e as tempestades”. Não lembro em qual ensaio de Borges li essa frase; mas sempre me identifiquei com os gostos atribuídos por ele à pátria de sua avó, Frances Anne. Me agradam tanto as tempestades que, de fato, tenho certa tendência a assisti-las como se fossem um espetáculo: um hobby eventualmente perigoso e pouco recomendável, confesso. Certa vez, observando uma dessas performances meteorológicas no interior do Rio Grande do Sul, quase fui estupidamente trespassado por um relâmpago. Mas, bem, isso não vem ao caso: as tempestades, neste texto, são circunstanciais. Meu assunto aqui é a fantasia em Chaucer – a começar por suas fantasias sombrias e perturbadoras. Ontem pela manhã, vi pela primeira vez a capa de minha tradução dos Contos da Cantuária: o desenho foi feito pelo espanhol Joan Cornellà, artista que tem a capacidade de sugerir profundezas perturbadoras sob a aparência dos mais coloridos sorrisos. Escolha perfeita para ilustrar essa obra em que se misturam o quotidiano e o prodigioso, o sublime e o perverso, a santidade e a barbárie.

Alguns afirmam que, ao compor o Paraíso Perdido, John Milton pretendia escrever um libelo a favor da obediência cristã; mas ao relê-lo, em uma noite de mau tempo no século XX, Harold Bloom se deparou com uma aventura fantástica cujo herói era o Diabo. A literatura de Rudyard Kipling talvez fosse originalmente uma defesa do Império; mas seu romance Kim sempre me pareceu cheio de desavisados colonialistas levando excelentes rasteiras. Não tentarei falar das intenções de Geoffrey Chaucer ao escrever seus contos, mas uma de minhas leituras (por enviesada que seja) é esta: o implacável realismo da obra-prima medieval parece um núcleo ameaçado pelas marés do horror e da fábula.

O livro que tive o prazer de traduzir começa com um tour de force de minúcia social: o Prólogo Geral, em que os contadores de contos são apresentados com um poder de observação que devassa até o tecido de suas vestes. As roupas, por sinal, estão entre os grupos de palavras mais divertidas e difíceis de traduzir na obra de Chaucer (as roupas, e os palavrões). Sabemos que o Cavaleiro usa uma bata de fustão manchada pelos elos da cota de malha – sinal de suas incansáveis andanças em prol do heroísmo e da cortesia; o Mercador tem a barba bifurcada e um chapéu extravagante, feito com pele de castor; a Mulher de Bath exibe meias vermelhas, usa um toucado de tamanho descomunal, e tem um pequeno espaço entre os dentes da frente (nas ciências fisionômicas da época, isso era sinal de um temperamento lascivo). A sensação de realidade gerada por essas páginas efetua de forma magistral a suspensão da descrença exigida por Coleridge: perdão pelo clichê, mas o fato é que a Inglaterra da época de Chaucer se transforma em nosso próprio mundo, na duração mágica da leitura.

E é graças a esse realismo quase epidérmico que o maravilhoso e o fantástico, quando surgem, nos acertam em cheio e nos deixam com a sensação de que universos incongruentes se aproximam e se subvertem. Existe um veio de perturbação cósmica percorrendo secretamente a obra de Chaucer. No relato do Cavaleiro, em que os temperamentais deuses pagãos decidem o destino dos mortais, um satânico Saturno domina o clímax da narrativa com estas palavras inesquecivelmente sinistras: “O meu olhar é o pai da pestilência”. (Sempre me pareceu que, nesse trecho, Saturno estava olhando para mim). No Conto do Vendedor de Indulgências, um homem decrépito, sofrendo de uma incômoda espécie de imortalidade, vaga pelo mundo sem conseguir dar fim à própria vida; ele bate com o cajado no solo e implora que a Terra o engula, mas é tudo em vão. (Por que o pobre sujeito não consegue morrer? Chaucer, sabiamente, não explica).  Nos bosques dessa Inglaterra tão verossímil, um demônio epigramático anda disfarçado em trajes que lembram os de um casual Robin Hood, e arcanjos cruéis ciceroneiam pecadores ainda vivos em um passeio obsceno nos porões do universo. Aliás, a sensação de horror é acentuada nos relatos mais próximos à esfera do cristianismo. Quanto mais pia a moral da história, mais escabrosas são suas circunstâncias: no Conto da Prioresa, por exemplo, um menino-mártir, após ser degolado e jogado em uma cloaca, passa dias entoando hosanas, apesar do buraco em sua garganta. Um milagre certamente edificante em sua época, mas que me rendeu pesadelos muito interessantes nos últimos meses.

Em outros momentos, contudo, a fantasia dos Contos da Cantuária torna-se límpida e hilariante. Uma das habilidades características de Chaucer é fazer com que seus personagens caiam no ridículo de forma milimetricamente orquestrada: Moira, a deusa do destino, tem um queda por trotes maneiristas. Meus contos favoritos são precisamente aqueles em que a farsa virulenta se mistura ao sabor feérico – é o caso do maravilhoso Conto do Mercador, em que deuses e duendes interferem em uma comédia de patetices e percalços demasiado humanos. A história fala sobre Januário, um cavaleiro velho, rico e cego, que se casa – insensatamente – com a jovem, bonita e hormonal Maia. Um silogismo cuja conclusão lógica é o adultério (a infidelidade conjugal, aliás, é tema que o humor desbragado de Chaucer leva a proporções épicas).  O local escolhido para os encontros entre Maia e seu amante, o escudeiro Damião, é um jardim no centro do castelo. A providencial cegueira de Januário permite que a necessária traição ocorra bem diante de seus olhos. No entanto, existem criaturas invisíveis naquele jardim, observando a cena patética. Lá está a rainha Perséfone ao lado de Plutão – fantasmas do paganismo que, nesse conto, são soberanos das fadas e dos gnomos medievais. Querendo defender a honra universal dos maridos, Plutão resolve curar a cegueira de Januário no momento exato em que a transação ilícita é consumada. Traduzi assim o momento-chave da narrativa:

Não sei ornamentar, sou grosseirão:
Num instante, esse afoito Damião
Levanta a saia dela – e mete o pau.
Plutão, vendo esse crime capital,
Devolve a vista ao velho num instante
– Januário enxerga até melhor que dantes.
Jamais homem algum foi tão contente
De tão mágico e súbito presente;
Ver sua esposa é tudo o que ele quer;
Mas quando os olhos ergue à sua mulher,
Vê que outro está engatando-a de tal jeito
Que, por pudor, nas regras do respeito,
Não posso descrever em termos finos.
Januário solta um retumbante grito
Qual mãe que vê seu filho massacrado.
“Por Deus! Que horror! Socorro!” – foi seu brado…

E, bem, o resto da história estará nas estantes na próxima semana – e assim encerro minha parceria com o velho Chaucer e sua barulhenta obra-prima. Da euforia ao horror, da divina sisudez à mais obscena felicidade, poucas criações humanas captaram de forma tão pungente a caótica coerência da vida.

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José Francisco Botelho é escritor, tradutor e jornalista. Seu livro de contos A árvore que falava aramaico foi finalista do prêmio Açorianos de 2012. É editor da República – Agência de Conteúdo.

 

Chaucer e as metáforas da bebedeira

Por José Francisco Botelho

Drinking

A bebedeira é um dos temas nobres das letras universais. O vexante pileque de Noé em frente aos seus filhos, no Gênesis, inaugura a vasta antologia da ressaca literária. Foi graças a um odre de vinho especialmente forte que Odisseu conseguiu enganar Polifemo, o Ciclope — sempre achei comovente a cena em que o monstro, bêbado e subitamente amigável, tem a cortesia de postergar o esquartejamento de seu hóspede-prisioneiro: “Vou devorar você por último”. No mundo islâmico, existe uma rica tradição de poemas em louvor da intoxicação etílica — vista como uma metáfora do êxtase místico. O sufi persa Rumi, do século XIII, compara o coração de Deus a um recipiente cheio de algum licor delicioso e devastador: “No cântaro do Teu amor, o meu espírito flutua — e arruinada é a pobre Casa de meu corpo”.

Poderíamos falar sobre Falstaff, sobre Hemingway, sobre Malcolm Lowry — mas vamos nos ater ao Chaucer. A bebedeira é um dos temas favoritos e recorrentes nos Contos da Cantuária. Alguns peregrinos de Chaucer falam (e agem e bebem) como autênticos especialistas no assunto. Os efeitos do álcool sobre a fisiologia e o temperamento humano são descritos com verve e detalhismo. Há reflexões sobre a intensidade relativa dos vinhos franceses e espanhóis; onomatopeias naturalistas do ronco dos bêbados; tocantes elegias às bebedeiras da juventude; descrições minuciosas da expressão facial, entonação da voz e coloração da pele em indivíduos alcoolizados. (Vale lembrar que Chaucer nasceu em uma família de comerciantes de vinho e, portanto, tinha um conhecimento mais ou menos profissional sobre o assunto).

As metáforas da bebedeira também são responsáveis por um dos dilemas mais interessantes que encontrei na tradução dos Contos. O enigma surgiu no “Prólogo do Provedor”. Certa manhã, o Cozinheiro aparece tão bêbado que mal consegue se manter no lombo do cavalo. O Provedor, em tom de zombaria, comenta:

“Therto me thynketh ye been wel yshape.
I trowe that ye drunken han wyn ape,
And that is, whan men pleyen with a straw”.
And with this speche the Cook wax wroth and wraw.

Uma tradução circunspecta, palavra por palavra, daria algo como:  “Acho que você está em forma para esse tipo de exercício. Tenho a impressão de que andou bebendo o vinho do macaco, quando os homens brincam com uma palha.” Ouvindo isso, o Cozinheiro ficou furioso.

O que é o tal vinho do macaco? E o que significa “brincar com uma palha”? A misteriosa passagem só começou a fazer sentido quando mergulhei a cabeça nas rigorosas categorias da embriaguez medieval. A tradição judaica da época tinha uma deliciosa teoria zoológica quanto aos efeitos do álcool. Noé, ao plantar o primeiro vinhedo da história, regou o solo com o sangue de quatro animais, abatidos nesta ordem: uma ovelha, um leão, um macaco e um porco. Por isso — continua a tese, com humor rabínico — os quatro estágios da bebedeira humana equivalem até hoje ao temperamento daquelas quatro vítimas. O primeiro patamar da embriaguez é o “estágio da ovelha”, quando nos tornamos afáveis ou ingênuos em demasia (a bebedeira gentil de Polifemo na Odisseia é um excelente exemplo). Em seguida, o vinho transforma o ser humano em um leão — é o momento da fanfarronice, das mentiras mirabolantes, das confidências agressivas e das eventuais brigas de boteco. O terceiro estágio é o do macaco – mais desastroso que a alegria ovina inicial, ele nos leva à pantomima e a pronunciamentos saltitantes e sem fundamento. Por fim, o rabino nos ensina que o vinho acaba transformando o ser humano em um suíno — e sobre esse ponto em particular não é preciso explicar mais nada.

O “vinho do macaco”, portanto, simboliza o penúltimo estágio da bebedeira, quando o bêbado está prestes a chafurdar na lama — seja a lama real ou a metafórica. (Aqui, sempre me recordo dos macacos de Rudyard Kipling — notoriamente, os animais mais irritantes do Livro da Selva). Mas faltava ainda explicar a outra observação: quando os homens brincam com uma palha. A opinião tradicional é a seguinte: quando chega ao estágio do macaco, o bêbado fica como uma criança, brincando com palhas, ou gravetos, ou outras coisas sem importância. Sempre achei essa interpretação pouco convincente: brincar com uma palha não parece coisa de quem já passou pelo estágio do leão, e está prestes a cair no abismo do porco. Encontrei a solução em uma nota de rodapé de Nevil Coghill, autor da mais respeitada tradução de Chaucer para o inglês moderno. Coghill relata que alguns trabalhadores dos portos de Londres tinham o mau hábito de entrar nos depósitos de vinho, à noite, fazer buracos nos barris com a ajuda de uma verruma, e chupar o conteúdo por meio de um canudo. A gíria para essa prática antiga e engenhosa era to suck the monkey — “chupar o macaco”.

Não pretendo experimentar isso na prática, mas suponho que chupar vinho por um canudo, direto do barril, seja uma forma mais extrema de alcançar o êxtase sufi do que por meio de um copo ou taça. Portanto, aquela passagem no “Prólogo do Provedor” ficou assim:

“Te juro, estás prontinho e preparado,
Pois já chupaste o vinho do macaco
Por um canudo; a pipa está vazia!”
E o Cozinheiro, ouvindo, refervia.

Levei exatamente duas semanas e três dias para decidir que um canudo, nesse caso, valia bem mais do que uma palha.

[A tradução de The Canterbury Tales será lançada pela Penguin-Companhia em outubro deste ano. Leia o post anterior, “Da Lancheria do Parque aos maçaricos de Bagé, a epopeia da tradução”.]

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José Francisco Botelho é escritor, tradutor e jornalista. Seu livro de contos A árvore que falava aramaico foi finalista do prêmio Açorianos de 2012. É editor da República – Agência de Conteúdo.

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