josé luís peixoto

Semana duzentos e oitenta e nove

Esta terra selvagem, Isabel Moustakas
João é um repórter policial de um grande jornal paulistano. Aos trinta e dois anos, já coleciona um casamento fracassado e ainda não fez nada de muito grandioso na profissão. Mas o envolvimento na investigação de um crime hediondo irá transformar sua vida de modo devastador. Uma jovem que assistiu à tortura e ao assassinato brutal dos pais — um boliviano e uma descendente de italianos —, e que depois fora abusada das piores maneiras, ainda não havia falado com a imprensa. Sete meses após esses crimes, João é o primeiro jornalista a ouvir o relato de cada detalhe perturbador do que ela havia presenciado. Ao final do depoimento, a garota tira a própria vida diante dos olhos dele. A partir deste terrível episódio, o repórter irá seguir pistas que o levarão a um suposto grupo racista que vem cometendo atrocidades contra imigrantes, negros, judeus, nordestinos, gays e quaisquer pessoas que considera impuras. O pouco do que se sabe sobre eles é que usam coturnos pretos com cadarço verde-amarelo. Neste romance de estreia, Isabel Moustakas cria uma trama extremamente ágil e violenta, que mal permite um respiro do leitor.

Alfaguara

Arranjos para assobio, Manoel de Barros
Arranjos para assobio, de 1982, marca o período em que Manoel passou a ser reconhecido pelo grande público, ao redimensionar a relação entre homem e natureza, marcando o território de sua criação como contrário a tudo o que é útil ou racional.

Poemas concebidos sem pecado e Face imóvel, Manoel de Barros
Face imóvel, de 1942, antecipa os ecos de uma poesia meditativa, em que fica evidente a ampliação de sua experiência de mundo, sua releitura do espaço urbano.

Companhia das Letrinhas

A mãe que chovia, José Luís Peixoto
O menino desta história é filho da chuva. E, com uma mãe tão necessária a todos, tem de aprender, a duras penas, a partilhar com o mundo todo o seu cuidado e dedicação. Através do seu percurso, ele dá aos leitores uma lição de generosidade e perseverança — e acaba por descobrir uma das forças mais poderosas da natureza: o amor incondicional das mães.

Semana duzentos e setenta e quatro

 

A realidade devia ser proibida, Maria Clara Drummond
Os dilemas e as pressões sociais de Eva podem se parecer com os de qualquer garota da elite. Para quem vê de fora, sua vida se dá entre o restaurante chique e a festa com DJ francês regada a MDMA.  No entanto, tudo que é óbvio sobre Eva será desconstruído pela autora Maria Clara Drummond. Como o ator consciente da farsa encenada, a jovem colocará em evidência cada parte dessas engrenagens sociais.

Galveias, José Luis Peixoto
Pequena aldeia no Alentejo, interior de Portugal, Galveias é onde nasceu José Luís Peixoto. A partir de suas memórias de infância, o autor constrói neste romance o universo de um lugarejo quase parado no tempo, que subitamente se vê diante de um imenso mistério. Com grandes histórias e um elenco de personagens admiráveis, ele traça um retrato da vida rural portuguesa no início dos anos 1980, que vivia então um embate entre a tradição e a inevitável chegada da modernidade, em um momento economicamente difícil para o país. Um livro essencial para compreender a identidade lusitana no mundo contemporâneo.

Poesia antipoesia antropofagia & cia, de Augusto de Campos
Edição revista e ampliada pelo autor volta às livrarias, com a seção & cia., incluindo textos publicados desde então. Os objetos de análise são Ernani Rosas, Oswald de Andrade (novos textos), Sousândrade, Décio Pignatari, Cyro Pimentel, Erthos Albino de Souza e Waldemar Cordeiro, além de reflexões sobre as perspectivas oferecidas à poesia concreta pelas novas tecnologias.

Comando e controle, Eric Schlosser (Tradução  de Laura Teixeira Motta)
Comando e controle explora um dilema existente desde as origens da era nuclear: como desenvolver armas de destruição em massa sem ser destruído por elas?
Escrita com a agilidade de um thriller, esta reportagem de fôlego traz os detalhes sobre o acidente com um míssil nuclear ocorrido nos Estados Unidos em 1980, abarcando uma perspectiva histórica de mais de cinquenta anos. O livro acompanha a trajetória de pessoas comuns. Pilotos de bombardeiros, engenheiros, tripulações e funcionários do governo que arriscaram a vida para evitar um holocausto nuclear.

Companhia das Letrinhas

Charlie Brown não desiste nunca, Charlie M. Schulz (Tradução de André Conti)
Charlie Brown não é capaz de rebater uma bola de beisebol nem de empinar pipa sem que ela seja engolida pela Árvore Comedora de Pipas. Mas ele também não é capaz de desistir de algo que já começou. Então, quando uma certa Garotinha Ruiva se muda para a sua rua, ele decide conquistá-la de qualquer maneira – mesmo que isso signifique participar do concurso de talentos da escola ou entrar numa competição de dança. Será que dessa vez vai dar certo? Todos estão torcendo por Charlie Brown!

 

Nota sobre o prêmio Portugal Telecom

A Companhia das Letras lamenta informar que, por erro pelo qual assume inteira responsabilidade, deixou de inscrever Livro, de José Luis Peixoto, no prêmio Portugal Telecom 2013. A editora pede desculpas públicas ao autor, que continuará a nos dar a honra de publicar sua obra.

Dia 4: Vi o Ian McEwan

Por José Luís Peixoto

E ele viu-me a mim.

Por email, antes de chegar ao Brasil, aceitei o convite para ler o poema “E agora, José?”, do Drummond, antes de uma das conversas na tenda principal. Quando soube que ia ser antes da conversa entre o Ian McEwan e a Jennifer Egan pareceu-me que esse foi um daqueles momentos em que o cosmos se organizou para fazer sentido. Eu não tinha chegado a este pensamento mas sei que, se tivesse podido escolher, teria sido justamente essa ocasião que teria escolhido para a minha leitura. Isso, claro, porque gostaria de, se possível, olhar para o Ian McEwan. Olhar para ele teria bastado.

A organização da Flip telefonou a perguntar a que horas poderiam ir buscar-me para me acompanharem à tenda. Agradeci, mas dispensei. Fui sozinho, a pé. Cheguei e, já com o livro do Drummond, fui levado por seguranças a falarem através de auriculares. Cheguei, por fim, aos bastidores. Eles já lá estavam, sentados em poltronas, à volta de uma mesa com bolinhos. Fomos todos apresentados, cumprimentámo-nos e fui chamado a uma mesa, onde me esperavam uma meia dúzia de exemplares do meu último romance. Todos os autores que participam na Flip são convidados a dedicar e a autografar um conjunto de livros que se destinam a bibliotecas da cidade, patronos, etc. Escrevi umas palavras também no livro de honra e assinei um papel que dava autorização a fazer qualquer coisa que não sei muito bem o que era porque não li, presumo que tenha sido autorização para captarem imagens e as divulgarem. Só depois voltei para perto deles.

Os livros do Ian McEwan acompanham-me há anos. Alguns fazem parte daquela lista curta que me rasgou horizontes de pensamento, de escrita e de vida, que me apaixonou. Já conheci autores mais do que suficientes para saber que, muitas vezes, o entusiasmo do afecto que se sente por uma obra não é devolvido pela má disposição ou pela antipatia da pessoa que, por acaso, escreveu essa obra. Por isso, sei que se deve ir devagar, como quem avalia a temperatura da água com a ponta do pé antes de entrar na piscina. Foi o que fiz. O sorriso de McEwan foi amplo, abundante, generoso.

Falámos um pouco e tive tempo para o meu momento de admirador. Disse aquilo que achava que devia de dizer tendo em conta aquilo que já tinha recebido através do trabalho daquele homem. A seguir, enquanto eu estava a fazer a leitura, o Ian McEwan e a Jennifer Egan esperavam atrás do cenário para entrarem assim que acabasse.

Isto teria sido suficiente mas, à noite, voltámos a estar juntos com muito mais tempo. Falou-se de política internacional, de futebol, entre outros assuntos menos graves.

A Flip tem muito a ver com estas histórias. Sobre os escritores que participaram noutras edições, é vulgar ouvir: fulano é muito simpático, beltrano andava aí pelas ruas a passear de chapéu de palha, cicrano adorava cachaça. Na Flip, os leitores observam os autores e, mais tarde, quando vier a propósito de qualquer conversa, irão contar aquilo que viram. Sim, eu sei muito bem que a literatura não é isso mas, pessoalmente, sinto muito prazer em coleccionar essas pequenas histórias, são inofensivas e, como se diz aqui no Brasil: por favor, não cortem o meu barato.

Já hoje, domingo, assisti com o Ian McEwan a uma parte da final de Wimbledon, entre Murray e Federer. Saí a meio porque vim aqui escrever estas palavras. Ele continuou lá, a torcer pelo inglês.

Eu sei que não somos amigos, eu sei que ele não reparou tanto neste encontro como eu, mas não me importa. Aquilo que me importa é que esse encontro aconteceu, nada pode mudar isso, ninguém pode fazer com que não tenha acontecido.

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(Foto do instagram de José Luís Peixoto)

* * * * *

José Luís Peixoto nasceu em 1974, em Galveias, Portugal. Jovem revelação literária, recebeu o Prêmio José Saramago com o romance Nenhum olhar em 2001. Livro foi publicado pela Companhia das Letras em fevereiro. O autor participa da programação alternativa da Flip deste ano e escreve um diário para o blog durante o evento.
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Dia 1: Escrevo o seu nome num grão de arroz

Por José Luís Peixoto

Não importam as 9 horas entre Lisboa e São Paulo ao lado de um menino de três ou quatro anos a gritar, não importam as 5 horas entre São Paulo e Paraty, mil curvas lentas atrás de camiões com pára-lamas a dizerem que Deus é fiel. Após uma noite em Paraty, só o som dos passarinhos e do frigorífico do minibar, acordar é muito parecido com ressuscitar. Nas manhãs desta cidade, nada agride um escritor publicado: o sol está à temperatura certa, ouvem-se galos ao longe, o café da manhã está pronto, esperando.

A festa começa mais logo. Nas ruas, há homens a pintarem os últimos detalhes com pincéis pequenos. A cidade está terminando de se preparar. Os carrinhos de pipocas, de churros e de bolos chegam aos seus postos. Toda a gente tem esperança de vender alguma coisa à multidão que aí vem. Num dos carros de bolos está escrito: aqui só tem delícias. Passo por um grupo de crianças pequenas, em fila, agarradas a uma corda. Reencontro-as na Praça da Matriz, entre livros pendurados dos ramos das árvores por fios invisíveis, entre personagens da Alice no País das Maravilhas ou do Sítio do Picapau Amarelo. O Gulliver ainda está levando os retoques finais. Já está estendido no chão, rodeado de liliputianos de cartão, mas um senhor paciente ainda está a desembaraçar os cordéis que não o deixam levantar-se. Para as crianças, a Flip já começou. Na tenda da Flipinha, ouve-se um coro de meninos a responder um sim arrastado. Aproximo-me, no palco, sete crianças vestidas de letra soletram a palavra DESEJOS.

Ao início da tarde, numa pousada do centro, há o almoço de boas-vindas. Chego tarde, mas toda a gente ainda está à espera de qualquer coisa. Afinal, não cheguei tarde. A piscina no centro, as palmeiras a levantarem-se na direcção do céu e os autores convidados na fila para encherem o prato. Amigos que conheci aqui, amigos que conheci noutros pontos do mundo, amigos futuros que acabo de conhecer, caipirinha de maracujá e caipirinha de frutos vermelhos. São as duas muito boas mas a de frutos vermelhos entope o canudinho.

Anoitece cedo. Com este bom tempo, esqueço-me de que é inverno. Saio pela cidade, acompanho as luzes foscas que se vão acendendo. Reparo em dois barcos no rio, um chama-se Amor Eterno I e o outro, mais pequeno, chama-se Sonho de Arte. Os dois estão disponíveis para aluguer.

Às 7 da tarde, começa a mesa de abertura. Luís Fernando Veríssimo, António Cícero e Silviano Santiago falam sobre Drummond. Assisto ao início na tenda do telão, como são grandes os seus rostos a falar, como são altas e correctas as suas vozes. Gosto do que dizem mas, a essa hora, estou já irremediavelmente melancólico e decido voltar às ruas da cidade. No caminho, por cinco reais, compro um pequeno livro de espiritualidade e receitas vegetarianas a um hare krishna que me pergunta se sou argentino. Cruzo-me também com um homem de cara pintada; por um real, declama poemas, que podem ser escolhidos de um cardápio. Compro um pastel de palmito e, na outra margem do rio, escolho um lugar mal iluminado para me sentar a comê-lo. Sem que seja possível distinguir as palavras, as vozes amplificadas que chegam da tenda dos autores têm um ritmo sereno. Em momentos assinalados, ouve-se o público todo a aplaudir. Aqui, mais perto, há uma mistura de vozes que só é perturbada por uma gargalhada ocasional, mais alta e distante. A pouca distância de mim, está outro autor. Trabalha sob um letreiro que diz: escrevo o seu nome num grão de arroz. As pessoas param e assistem ao seu trabalho com admiração.

Mais logo, à hora do jogo entre o Corinthians e o Boca Juniors para a Taça Libertadores, haverá show de abertura pelo Lenine. Continuo olhando a noite. Ainda não sei se vou, ainda não sei se fui.

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(foto do instagram de José Luís Peixoto)

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José Luís Peixoto nasceu em 1974, em Galveias, Portugal. Jovem revelação literária, recebeu o Prêmio José Saramago com o romance Nenhum olhar em 2001. Livro foi publicado pela Companhia das Letras em fevereiro. O autor participa da programação alternativa da Flip deste ano e escreve um diário para o blog durante o evento.
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