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Pare de sofrer

Por José Luiz Passos

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De minha parte, “Boas Festas” a todos vocês. Já comecei a distribuir os meus votos. Quero que o ano acabe logo. Tenho vontade de lhes desejar isso, independente da sua fé, ou da ausência dela. Aliás, dizendo isto a uma colega, ela me respondeu com um “Pare de sofrer…”, em espanhol, que soa ainda mais forte, ¡Pare de sufrir! E como acontece aos autores bloqueados, a imagem do meu editor me veio à cabeça, ¡Marcelo Ferroni! Um ano atrás estávamos eu e ele em Guadalajara, num bar, debatendo a possibilidade de irmos a outro bar com reputação de ser a melhor mezcalería do México. O mezcal é um destilado de agave que tem uma larva de borboleta dentro da garrafa, o “gusano”, verme de um tipo gastronomicamente correto. Ora, o tal bar, cujo nome é Pare de sufrir, já tinha sido qualificado por dois motoristas de táxi como um lugar inóspito, No creo que sea un buen sitio para ustedes… Convenci Marcelo a ficarmos no hotel, para dividir ali mesmo uma meia de mezcal. Ele ficou com o gusano.

No dia seguinte, fui dar minha palestra sobre a imigração brasileira para a Califórnia, que acabou reunindo longe de mim, longe daqui, as memórias de meu pai, de minha avó americana e de um pastor brasileiro, imigrante em San Francisco, como eu em Los Angeles. Por vários meses cogitei procurar por ele, pensei em escrever a história do pastor Jéferson. Disse a Marcelo que daria um bom romance. Por que não? Um professor de sociologia me falou que o principal produto cultural brasileiro nos Estados Unidos não era a telenovela nem o candomblé, nem Caetano Veloso, mas as seitas evangélicas. Face a isso, numericamente, comercialmente, só mesmo Paulo Coelho. Tomei coragem e viajei de volta ao norte da Califórnia, buscando o contato do pastor.

Voltando ali, logo que entrei no café reconheci a figura de dois anos atrás. Jéferson trajava camisa branca, de gola e mangas compridas, calça social e sapato tênis. Ele disse que era de Goiás. Falei que, embora não fosse casado na igreja, após uma visita ao cartório um pastor tinha nos abençoado na casa dos meus sogros, em Olinda. Porém, o que não lhe contei foi que, nos quase dez anos em que estudei em escola católica, num colégio de jardins e sobrados onde D. Pedro II havia se hospedado, vi tolerarem ali, entre o alunado, judeus, algum negro e os filhos das divorciadas, mas nunca um evangélico. Estes, na pregação com seus folhetos a postos, eram chamados de “os bodes”. E isto, talvez, pelo rumor nas abordagens, em suas visitas, no modo de estarem à vontade em praça pública, soando hinos, lendo versículos em voz alta. Só depois soube por um amigo historiador que a alcunha vinha de longe, possivelmente da Colônia, quando se dizia que bastava levantar a barra da roupa dos crentes para se ver as pernas montadas em pés fendidos, como nas patas de um bode. Mas o bode, a cabra, por exemplo, como nos diz João Cabral, escava as coisas até encontrar dentro do que é familiar um estrangeiro. E entre esses animais de senso impaciente, tais quais foram a minha avó americana e o meu pai estrangeirado, o bode, errado ou ruminante, será sempre um sofredor profissional.

Essa foi justamente a questão que quis puxar na conversa com Jéferson, em San Francisco, sobre estarmos aqui, fora do Brasil, dispersos da onda, por vontade própria, tentando não abraçar nenhuma bandeira rápido demais, nem nos julgarmos indignos dela.

“Ser imigrante, você quer dizer? O mundo é feito praticamente só disso”, Jéferson me falou. Eis o ponto alto de sua filosofia. E, com minha teologia de algibeira, expliquei que, semelhante ao exílio, o sagrado repõe a falta como forma de consciência. Mas, realmente, o que era aquilo? A falta como forma de consciência… nem eu mesmo entendia. Ser professor, às vezes, é jamais poder tirar do rosto aquele duvidoso par de óculos ray-ban. Nosso encontro tinha dado em nada. A conversa esfriou, ele saiu do café antes de mim, pardo, sorrindo, digno na sua dedicação aos outros, no Castro, o bairro gay de San Francisco, onde ele pregava num cinema reformado, nos subúrbios dali e do mundo: um pastor suave em prol de gente humilde, que trabalha por pouco e vive longe de casa.

Desse randevu de almas, um goiano e outro pernambucano na Califórnia, resta hoje algo que para mim conta muito. Eu comecei a imaginar a vida que os primeiros missionários protestantes teriam levado no Brasil, quando, no final da conversa, Jéferson me perguntou, “Mas você sabe da história do começo de nossa igreja na Bahia, não sabe?” Acontece que eu não sabia.

“Isso não daria um bom livro, Marcelo? Os que vão fora de casa, tentando a alma dos outros, como nós tentamos o bolso e a atenção dos outros”, e ele me ouviu calado, acompanhando o brinde. Acho que o gusano, no copo, até se mexeu.

Foi o pastor Jéferson quem me explicou que “Pare de sofrer” era um bordão clássico dos pregadores evangélicos, o mesmo usado por um brasileiro em Guadalajara, com seu tom nasalado e tal, cujos programas de rádio e TV faziam sucesso. Numa tirada genial, o bar adotou o bordão por nome. E, coincidência ou não, aqui fica assinalada a moral da história, atrelando San Francisco a Goiâna e Guadalajara: o que nos representa em massa, aqui fora, é menos Clarice Lispector e as telenovelas da Globo do que as vocações na emenda da vida espiritual, vocações com sotaque, que espalham por cá, ainda hoje, uma imagem do Brasil como fonte de concórdia e fronteira a ser conquistada. E os gusanos do mezcal, rústicos, imóveis e sem sofrer, são brindes de exceção, que observam o revolver das coisas e a conexão entre lugares aparentemente sem laço em comum. Lugares ligados, talvez, por uma certeza que se espalha no mundo, enquanto eu e você celebramos livros e autores raros, sorrindo alto, diante de um verme torpe dormindo no álcool.

 

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José Luiz Passos nasceu em Catende, Pernambuco, em 1971. Formado em sociologia, doutorou-se em letras nos Estados Unidos. É autor dos ensaios Ruínas de linhas puras(1998) — sobre as viagens de Macunaíma — e Romance com pessoas (originalmente publicado em 2007 e reeditado pela Alfaguara em 2014). Também pela Alfaguara, publicou em 2009 seu primeiro romance, Nosso grão mais fino, selecionado para o prêmio Zaffari & Bourbon de literatura, e, em 2012, O sonâmbulo amador, com o qual venceu o Grande Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa em 2013. É autor de uma peça de teatro e de contos publicados no Brasil e no exterior — inclusive na revistaGranta em português. Vive atualmente com a esposa e os dois filhos nos Estados Unidos, onde é professor titular na Universidade da Califórnia em Los Angeles.

O estilo dos cães

Por José Luiz Passos

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Cena do filme Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos.

No capítulo 12 da sexta parte de Anna Kariênina, Liévin acorda antes de amanhecer e segue com a cadela Laska para uma caçada. O foco de Tolstói se transfere do caçador para a perdigueira. Num dos momentos mais expressivos daquilo que poderíamos chamar de isolamento pastoral, Liévin também reitera as suas convicções a sobre a importância do contato com a paisagem, da dignidade do trabalho manual e da complexidade política e afetiva ligada à questão da servidão russa. Não estaria a vigorosa ética de Liévin, o alter de Tolstói, calcada numa utopia de fundo ecológico? É dele, aliás, uma das primeiras reflexões no romance do século XIX sobre a sustentabilidade. A transferência no foco do caçador à perdigueira é gesto de grande humanização do quadro social. É também gesto pastoral na medida em que se materializa a partir de um deslocamento no tema central do romance: o conflito entre o desejo de uma vida mais simples, ou verdadeira, e os valores que cerceiam a satisfação desse mesmo desejo. O retiro de Liévin inverte, reitera e transforma o dilema do exílio moral de Anna Kariênina frente à sociedade da corte russa. No translado do centro para o campo; da capital para a província; dos salões de São Petersburgo para os prados de cultivo, o senhor converte-se em pastor. O servo ou o povo converte-se em rebanho, ou cão de pastoreio.

A redução do complexo ao simples, do cortês ao rústico, do urbano ao rural é instauração de um nexo que expõe o pacto político de reconhecimento e manutenção de papéis numa sociedade tradicional. A chave pastoral é método de crítica dessas dependências, ainda que opere sob a lógica de uma insatisfação ou rebeldia “enquadrada”. Tal deslocamento também se dá no tempo: para trás e profundamente. Para trás é ir profundamente. A viagem aos confins, à província, é um mergulho na lógica circular dessas mesmas relações. A visibilidade disso é uma crítica. Aqui está o tema que me interessa destacar sob a forma daquilo que chamo de “um estilo dos cães”: um modo de dar visibilidade a extremos sociais que se reconhecem como opostos no instante do sacrifício de uma das partes.

Um poema de Machado de Assis é de grande ajuda aqui; ele nos propõe que essa visão é um risco particularmente delicado quando o nosso oposto já se perdeu. Falo do soneto “Suave mari magno”, que descreve o alívio proveniente de não experimentarmos a dor que cavalga o outro:

Lembra-me que, em certo dia,
Na rua, ao sol de verão,
Envenenado morria
Um pobre cão. 

Arfava, espumava e ria,
De um riso espúrio e bufão,
Ventre e pernas sacudia
Na convulsão.

Nenhum, nenhum curioso
Passava, sem se deter,
Silencioso, 

Junto ao cão que ia morrer,
Como se lhe desse gozo
Ver padecer.

A expressão latina mari magno, usada pelo poeta Lucrécio, era empregada para definir o alívio que alguém sente ao perceber-se livre dos perigos a que outros ainda estão expostos. O cão machadiano espuma; é o interesse dos passantes na espuma de sua dor aquilo que revela esses mesmos passantes. E digo que os revela não como desumanos, mas como plenamente humanos, no seu silêncio frente à fragilidade da vida e à possibilidade de uma aflição comum e incontornável. Essa fragilidade funciona como espelho e oráculo de nosso fado. Aliás, nisso, o cão é também espelho e oráculo do próprio autor, no seu imenso e recatado pânico da empulhação em via pública, nos surtos de epilepsia.

É em tal quadro que entendo Baleia, a personagem de Graciliano Ramos, como outra instância radical de um estilo dos cães. Vejamos a cadela na plenitude de seu aprendizado da fragilidade humana:

“Iam-se amodorrando e foram despertados por Baleia, que trazia nos dentes um preá. Levantaram-se todos gritando. […] Sinha Vitória beijava o focinho de Baleia, e como o focinho estava ensanguentado, lambia o sangue e tirava proveito do beijo.” Na caçada, que é prática de imolação e dádiva, a graça está na troca sacrificial, porque o sangue da presa é unção de vida futura.

“O pequeno sentou-se, acomodou nas pernas a cabeça da cachorra, pôs-se a contar-lhe baixinho uma história. Tinha um vocabulário tão minguado como o do papagaio que morrera no tempo da seca. Valia-se, pois, de exclamações e de gestos, Baleia respondia com o rabo, com a língua, com movimentos fáceis de entender. Todos o abandonavam, a cadelinha era o único vivente que lhe mostrava simpatia.” Como companhia, o estilo do cão é o do entendimento. Mas é um entendimento daquilo que falta ao outro. Baleia compreende um modo de exprimir-se — o modo do pequeno — que existe aquém da verbalização; a comunicação se dá utilizando o vazio como meio.

“Sentindo a deslocação do ar e a crepitação dos gravetos, Baleia despertou, retirou-se prudentemente, receosa de sapecar o pelo, e ficou observando maravilhada as estrelinhas vermelhas que se apagavam antes de tocar o chão. Aprovou com um movimento de cauda aquele fenômeno e desejou expressar a sua admiração à dona. Chegou-se a ela em saltos curtos, ofegando, ergueu-se nas pernas traseiras, imitando gente. Mas sinha Vitória não queria saber de elogios. — Arreda! — Deu um pontapé na cachorra, que se afastou humilhada e com sentimentos revolucionários.” A mimese da maravilha, que se quer compartilhada — expressão fundamentalmente humana —, é índice do estilo dos cães. No rechaço dessa magia, Baleia experimenta o caminho do ressentimento. Aqui chegamos ao aspecto relacional do desagravo como forma politicamente plena de semelhança com o humano.

A cadela é o lugar do entendimento desses empenhos na vida lúdica, doméstica e política da família. Os exemplos mostram que o foco na desumanização se agudiza nos instantes em que a consciência do risco na vida humana é tomada na total colaboração com a cadela de pastoreio, passeio e caça. A ideia de sua utilidade é análoga ao sofrimento, também útil, do cão de riso espúrio sacudido pela convulsão. É um método de observação do caráter relacional presente no fenômeno da dor como risco; como visão de um todo que não pode prescindir daquele que está perdido ou será sacrificado. O estilo dos cães — como um ensaio no risco, ou como ensaio do risco — é, em primeiro lugar, o perigo de não vermos o sacrifício desse outro. Em seguida, de desejarmos o sacrifício dele. E, finalmente, de não tomarmos esse sacrifício como sendo sacrifício nosso. Nesta terceira faceta está a força do estilo dos cães, que liga o soneto de Machado a Laska e Baleia. Nos três casos, os laços de interdependência, parecença e identidade entre o dono e o descamisado, ou entre o observador e o imolado, são estreitados radicalmente. O estilo dos cães é um exercício na visibilidade desse estreitamento.

Aqui mesmo, num post anterior, defini estilo como o conjunto das escolhas de um sujeito na sua consideração sobre como se deve exprimir o gosto de uma vida; e como, na consistência desse gosto, encontrar uma direção ou sentido para esta mesma vida. O estilo dos cães é a exposição da interdependência entre o sofredor e o passante; entre o descamisado e o senhor. Não é, porém, a visão complacente desse conflito. É, ao contrário, uma visão relacional. Baleia pensa em morder a mão de Fabiano; o próprio Fabiano alimenta a fantasia da revolta. Ele se reanima com a força proveniente da injúria de ver-se como cão. Afinal, ser bicho é ser forte. Mas permanece o fato de que, em grande parte, a abertura desses mundos relacionais pertence ao foco narrativo posto sobre Baleia e Laska, e no cão convulso, na relação que possuem com o mundo da ordem imposta na vida de seus donos ou observadores. Poderíamos, é claro, calar ou exacerbar essas oposições que tracei, animados por um espírito de congraçamento ou pelos tiros de festim de um populismo já longamente entranhado em nossa cultura política. Mas não é esse o estilo dos cães; seria ganho menor — ou cegueira. A polarização, a pressa, o grito sem propósito não pertencem ao estilo dos cães. Não fazem parte do que em Tolstói e Machado de Assis é permanência e desacordo do sujeito com o seu entorno. Ao contrário, essa pressa, a dor irrefletida, as bandeiras reluzentes de última hora, são, em vez, o estofo de um mundo sem estilo; um mundo real, porém feito à imagem dos inimigos de Graciliano Ramos.

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José Luiz Passos nasceu em Catende, Pernambuco, em 1971. Formado em sociologia, doutorou-se em letras nos Estados Unidos. É autor dos ensaios Ruínas de linhas puras(1998) — sobre as viagens de Macunaíma — e Romance com pessoas (originalmente publicado em 2007 e reeditado pela Alfaguara em 2014). Também pela Alfaguara, publicou em 2009 seu primeiro romance, Nosso grão mais fino, selecionado para o prêmio Zaffari & Bourbon de literatura, e, em 2012, O sonâmbulo amador, com o qual venceu o Grande Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa em 2013. É autor de uma peça de teatro e de contos publicados no Brasil e no exterior — inclusive na revistaGranta em português. Vive atualmente com a esposa e os dois filhos nos Estados Unidos, onde é professor titular na Universidade da Califórnia em Los Angeles.

Senhoras e senhores, Policarpo Quaresma

Por José Luiz Passos

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A coluna deste mês fala sobre um clássico da literatura em comemoração aos 80 anos da Penguin.

No bairro de Salvador onde eu costumava alugar um apartamento há um busto em bronze, de costas para o mar, perto do ponto em que, dizem, nasceu o Brasil. Mas não é o busto de nenhum brasileiro. É Stefan Zweig, sereno, de olhos abertos, com o bigode polido pelo afago dos passantes. Zweig é famoso por ali; muita gente tira foto com ele. De manhãzinha, quando eu passava correndo, tinha sempre alguém dormindo ao pé do escritor. O busto fica ao lado de um banheiro público, de frente para dois bares e um grande centro hospitalar. Também divide a calçada com carrocinhas de água de coco. Então, matando a sede, as pessoas de vez em quando se escoram em Stefan Zweig.

Os “clássicos” ou homenageados têm, em geral, a sorte de uma companhia tão tranquila que se confunde com a insensibilidade. Duvido que Lima Barreto quisesse ter essa sorte. A lógica da vassalagem literária obedece a vários reis. Há a sanção popular, claramente evidente em leitores de ônibus, bancos de praça e fã-clubes; há o juízo da crítica, que se expressa em dissertações, teses e na contagem de artigos; e há o amor carnal de agentes e editores, cuja prova deveria ser a sequência ininterrupta das reedições de um autor. Sob qualquer um desses critérios, alguém ainda duvida que Lima Barreto mereça estar entre os principais da língua?

Bem, Policarpo, eu não quero contrariar você; continue lá com as suas manias. A cara do Brasil tem muitas cores. Seus escritores, muitas manias. A esse respeito, certa vez surgiu num encontro literário um debate curioso: que o Brasil deveria homenagear um escritor com a cara do Brasil; que tudo era político e o escritor que falasse a verdade, falaria politicamente. Não disputo a crença de que um diagnóstico crítico, a respeito das molas do poder de sua época, faça parte da relevância do escritor Lima Barreto. Tampouco ponho em questão a complexidade que a sua escrita deriva de uma trajetória praticamente ignorada pela literatura do período: os riscos de uma vida como autor negro, pobre, enfrentando-se a questões sexuais e problemas psiquiátricos, na pugna com o alcoolismo. Não é que essas variáveis outorguem à escrita mérito automático. É, mais ou menos, o contrário. A urgência de uma escrita que busque o registro de experiências inconformadas é índice da força e da variedade de um autor. E a literatura é o campo em que essas experiências deveriam contar para todos, não apenas para aqueles que passaram por elas. É precisamente aí que falar de uma política dos clássicos, ou da graça da dita literatura “séria”, alcança seu sentido maior.

— Sabes o que estou fazendo, Anastácio?

— Não “sinhô”.

— Estou vendo se choveu muito.

— Para que isso, patrão? A gente sabe logo “de olho” quando chove muito ou pouco…

Policarpo Quaresma precisa medir a chuva; a mesma chuva que seu ajudante Anastácio considera constatada a partir de um mero golpe de vista. O momento verdadeiramente político de um tributo a qualquer escritor é semelhante ao gesto de Policarpo: levar aquilo que parece opaco, pela sua imensa naturalidade, ao reino do visível; tornar a escrita que realiza tal operação nossa bem-vinda vizinha. Escrever bem não é escrever sério, nem tampouco levar-se a sério. Como me disse uma professora querida, literatura é leitura e leitores; os clássicos se fazem a partir do embate — também político — dessas leituras, refeitas a cada geração.

Entre as contribuições de Triste fim de Policarpo Quaresma está sua capacidade de tornar a vida de gente pequena um complexo de tramas desconfiadas; de usar o simplório como pedra no sapato dos grandes ideais; de lançar mão do ridículo na denúncia do nosso proselitismo; de enxergar a majestade do drama em detalhes comuns e, sobretudo, dar ao eu confundido uma dignidade que ele antes carecia, quando era tomado de cima para baixo, sob a ótica de instituições bem-nascidas. Para além do chavão, a leitura que se fizer de Lima Barreto só lhe fará justiça se incluir nossa carência dele: ver-nos na cara do autor é pensar com ele um Brasil que, de certa forma, o negou.

Qualquer homenagem deveria transformar a opacidade do óbvio em algo palpável, que passe a fazer parte da paisagem de todos. E não é óbvio que Lima Barreto é a nossa cara? Ele sabe mais do Brasil do que o Brasil quis saber dele. A pátria que quisera ter era um mito; era um fantasma criado por ele no silêncio do seu gabinete. Nem a física, nem a moral, nem a intelectual, nem a política que julgava existir, havia. A que existia de fato era a do tenente Antonino, a do doutor Campos, a do homem do Itamarati. Até no delírio patriótico, a pátria que lhe surge é inimiga e se denuncia.

Certa vez, a caminho de uma aula, cruzei novamente com o busto de Zweig. Quem olhe dali para longe, talvez buscando no outro lado do Atlântico uma ponta da África, dá de cara com o bronze nos olhando de volta, como quem diz que já sabia que o Brasil seria o país do futuro… Colei por cima da plaqueta, com o nome do escritor, um papelzinho avisando aos passantes: Lima Barreto nos representa. No final da vida, tal qual um Policarpo, Zweig teve a mania de entender o Brasil. Por outro lado, o sublime Lima, na sua singela grandeza, lá de trás, já havia entendido o esforço extravagante do próprio Stefan Zweig. Senhoras e senhores, Policarpo Quaresma ainda nos revela — e muito. Ora, me parece que isto vale bem mais do que um busto.

Texto publicado originalmente no Suplemento Pernambuco.

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José Luiz Passos nasceu em Catende, Pernambuco, em 1971. Formado em sociologia, doutorou-se em letras nos Estados Unidos. É autor dos ensaios Ruínas de linhas puras(1998) — sobre as viagens de Macunaíma — e Romance com pessoas (originalmente publicado em 2007 e reeditado pela Alfaguara em 2014). Também pela Alfaguara, publicou em 2009 seu primeiro romance, Nosso grão mais fino, selecionado para o prêmio Zaffari & Bourbon de literatura, e, em 2012, O sonâmbulo amador, com o qual venceu o Grande Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa em 2013. É autor de uma peça de teatro e de contos publicados no Brasil e no exterior — inclusive na revistaGranta em português. Vive atualmente com a esposa e os dois filhos nos Estados Unidos, onde é professor titular na Universidade da Califórnia em Los Angeles.

O paralelo do visitante perfeito

Por José Luiz Passos

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Ilustração: “A Nondescript”, gravura de I.W. Lowry a partir de um desenho de T.H. Foljambe, publicada emWanderings in South America (Londres, 1825), de Charles Waterton.

1.

Berkeley criou a cátedra de engenharia de viagens faz pouco mais de um ano. “A colheita foi feita, o verão passou e ainda não fomos salvos” (Jeremias, capítulo 8, versículo 20). Essa foi a epígrafe que doutor Kalfayan, pai de Hani, amiga minha, escolheu para a conferência de inauguração.

Ele defendeu a criação da cátedra numa palestra no teatro do campus. Mas na hora de começar não estava presente. Em vez de doutor Kalfayan, baixou uma tela entre a boca de cena e os primeiros assentos. Ele tinha partido às 20h20 da estação El Pueblo de Los Angeles, onde há um mural pintado por Diego Rivera, e, usando um telefone celular, da cabine do trem-bala transmitiu a palestra quase toda, com as vinhetas e suas sensações. Antes de projetar um holograma no vão do teatro, doutor Kalfayan entrou pela porta principal, por trás da plateia, e desceu o corredor entre as fileiras, até o palco. Tinha feito o trajeto de Los Angeles a Berkeley em quarenta minutos, de porta a porta, sem voar, sem filas nem espera, andando, falando, comentando as sensações com centenas de pessoas que esperavam por ele sentadas. A mesma viagem, de carro pela antiga Highway 1, margeando o Pacífico, podia levar nove horas. Kalfayan encerrou sua fala pontualmente às 21h.

A última vinheta que mostrou foi a imagem azul fosforescente de um busto cabeludo, em 3-D, que ora parecia um homem colonial, ora um macaco de olhar tristonho, meio volto, num perfil a três quartos. A legenda embaixo da figura, flutuando acima das nossas cabeças, dizia apenas: A Nondescript. Um indefinível.

2.

Engenharia de viagens é um título que dá a ideia errada da teoria do pai de Hani. Na palestra ele explicou que “Um indefinível” era o busto de um macaco empalhado pelo naturalista Charles Waterton, em 1818, para se parecer a um lorde das primeiras eras ou um cavaleiro arturiano. Na volta da América do Sul, de posse do macaco, Waterton ficou preso na aduana de Liverpool sem conseguir explicar a coleção bizarra dentro dos seus baús.

Doutor Kalfayan falou que numa visita uma coisa tenta se parecer outra, o sucesso está na imitação do conviva. Quem se senta à mesa, usa os talheres como o seu anfitrião. Viaja para fora, quer saber aonde os dali vão. Em Roma como os romanos, doutor Kalfayan disse, a visita é uma arte da cópia. Um brinde deve ser prontamente acompanhado. Apertos de mão, tom de voz e risos pedem reciprocidade. Qualquer um quer ser bem-sucedido no trato e causar boa impressão. Sucesso é controle, e controle é uma boa reprodução, com toda a consciência de ser reprodução. Imitar não seria a forma ideal de se trair?

No começo, o pai de Hani não era considerado um cientista sério. Mas seus algoritmos davam resultados mais próximos à intenção dos usuários. Digite urso de pelúcia e receba de volta links, banners e vídeos com sugestões a seu gosto. Perfil, língua, localização, histórico, quem busca nas redes se torna passível de cópia cada vez mais perfeita. Uma agência do governo contratou Kalfayan para desenvolver um protocolo de contato entre estranhos. Dois diplomatas adversários, soldados inimigos, um homem e um organismo não identificado, o industrial e seu operário rebelde, as diferenças podem ser incomensuráveis, Kalfayan disse. E pensei no velho Brasil, tão longe e sempre aí, tão perto. Se um ladrão viesse me forçar, e eu falasse usando o sotaque dele e mostrasse que gostava do que ele gosta, tudo ficaria bem: A foe at home is no longer a foe. Ele pensaria que, estranhamente, já éramos conhecidos. Nessa igualdade está a força de uma constante. E essa foi a contribuição dele, k, conhecida apenas como a constante Kalfayan. O pai de Hani encerrou a palestra com o tal indefinível: “Attention, ele disse. A maior arma de todas não é um foguete, mas a aparência de uma completa semelhança. Por isso, o verdadeiro amigo deve ser nosso mais perfeito oposto.

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José Luiz Passos nasceu em Catende, Pernambuco, em 1971. Formado em sociologia, doutorou-se em letras nos Estados Unidos. É autor dos ensaios Ruínas de linhas puras(1998) — sobre as viagens de Macunaíma — e Romance com pessoas (originalmente publicado em 2007 e reeditado pela Alfaguara em 2014). Também pela Alfaguara, publicou em 2009 seu primeiro romance, Nosso grão mais fino, selecionado para o prêmio Zaffari & Bourbon de literatura, e, em 2012, O sonâmbulo amador, com o qual venceu o Grande Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa em 2013. É autor de uma peça de teatro e de contos publicados no Brasil e no exterior — inclusive na revistaGranta em português. Vive atualmente com a esposa e os dois filhos nos Estados Unidos, onde é professor titular na Universidade da Califórnia em Los Angeles.

De cheiros e cronologias

Por José Luiz Passos

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Como esta é minha primeira vez, vale a pena começar pelo passado. O próximo homenageado da FLIP, Mário de Andrade, disse mais ou menos isto: tantos andam agora preocupados em definir a autoficção que não sei bem se o livre falar de mim é autoficção ou não, sei que é verdade.

Nasci do açúcar. No mesmo lugar, gente mais rica que eu foi morrer mais pobre do que sou; e quero dizer, inclusive, mais pobre de espírito. O açúcar sufoca por marés de altos e baixos. Aliás, Gilberto Freyre — já que mencionei Mário de Andrade — gostava de repetir um delicioso aforismo do século XVIII: todo doce se converte em cólera. No meu caso, a distância foi sempre um doce de agonias; gosto que trago de volta, bastando para isso fechar os olhos.

De olhos fechados, o que me vem não é um vidro cheio de pitombas, como em Graciliano Ramos; nem a rua da parentela infinita, como em Pedro Nava; nem o gado ruminando um quê de exílio do mundo, à Robinson Crusoé, como em Drummond; mas o cheiro acetinado, espesso, vindo da queima da cana nos partidos e dos armazéns de fabrico e estocagem, postos de frente para a minha casa, na cidade de onde sou.

Aos três anos me mudei de lá. A memória que trago — à exceção do cheiro — é indução dos álbuns de fotografia e das cautelas de pais e avós, que se escondiam do presente soprando mitos. Contar e recontar casos era mais natural do que olhar para a frente. Talvez daí venha minha sensação de que todo livro de história é de um sentimentalismo comovente; supõem que dá gosto buscar a concatenação de situações sucessivas. E hoje me perco imaginando, nessas descrições movimentadas, uma busca não de fatos, mas das vidas que alguém invoca, chamando o passado à ordem do dia.

Noutro lugar já descrevi o sujeito nostálgico como aquele que cede a um puro desejo de simetria: que o de agora seja igual ao de antes. Sou o contrário disso. Quando me volto voluntariamente para o passado, vem de lá sobretudo a companhia de amigos imaginários, que matavam o tempo comigo detrás dum grande tacho de metal, com uma palmeira-leque plantada ali dentro. Essa, para mim, é a companhia do passado. Esses amigos imaginários seguem comigo, aqui, ao lado, como um batalhão de secretas marchando na claridade do dia. Falo com eles; eles me respondem com tiradas pertinentes. Eis a saborosa inconveniência desse cultivo de sombras.

Mas as sombras também podem ser coletivas, mesmo na infância. Por exemplo, o primeiro trabalho de escola do qual me lembro é uma cronologia que fiz na quarta série — salve, tia Lucinha — para uma aula de geografia. Linha do tempo: presença holandesa em Pernambuco. A invenção dum passado compartilhado, vivido na sequência de pilares do tipo ano-a-ano, dá à consciência — digamos, à criança — a sensação dum lastro de fantasmas: antecedentes, heróis, ancestrais, origens; depois, a ligação disso tudo com gente de hoje, aqui no cume, como os brotos duma folhagem sustentada pela raiz do passado em comum.

As três partículas elementares de meu estilo são, portanto, aquele odor de fuligem doce, essa companhia dos imagináveis e a sedução de se imaginar a vida numa sequência que faça sentido para alguém mais, além de mim. E como toquei no assunto meu-estilo, que é como tocar no assunto meu-cabelo, por ora chamemos estilo o conjunto das escolhas de um sujeito na sua consideração sobre como se deve exprimir o gosto de uma vida e como, na consistência desse gosto, encontrar uma linguagem para essa mesma vida.

Um amigo que passou em revista este texto, disse: rapaz, não publique, vão pensar que você ainda está doente, vão ter certeza de que você é um nostálgico. Respondi com um só dedo, no ar. É incrível como o poder dos gestos espanta. Ele falou: bicho, você é o maior ressentido. E senti um cheiro ruim. Eu e esse amigo começamos a nos distanciar. Logo depois, ele sumiu. Já disse que o tema da data de hoje são nossas companhias a distância, não a nostalgia. Mas moro na Califórnia. Abro a porta de casa, vejo uma palmeira, vou ali detrás e imagino outro que me desaprove o passado com mais estilo. Até lá, me ocupo de cheiros e cronologias. E, talvez, de uma próxima, poste aqui alguma coisa mais social e sem sombras, com substância, que exija de mim a presença no tempo presente. Por exemplo, com gente próxima e também estranha, um churrasco.

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José Luiz Passos nasceu em Catende, Pernambuco, em 1971. Formado em sociologia, doutorou-se em letras nos Estados Unidos. É autor dos ensaios Ruínas de linhas puras (1998) — sobre as viagens de Macunaíma — e Romance com pessoas (originalmente publicado em 2007 e reeditado pela Alfaguara em 2014). Também pela Alfaguara, publicou em 2009 seu primeiro romance, Nosso grão mais fino, selecionado para o prêmio Zaffari & Bourbon de literatura, e, em 2012, O sonâmbulo amador, com o qual venceu o Grande Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa em 2013. É autor de uma peça de teatro e de contos publicados no Brasil e no exterior — inclusive na revista Granta em português. Vive atualmente com a esposa e os dois filhos nos Estados Unidos, onde é professor titular na Universidade da Califórnia em Los Angeles.

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