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Claraboia: o livro perdido de José Saramago

Este mês nós lançamos Claraboia, romance de José Saramago que narra o dia a dia dos moradores de um modesto prédio de apartamentos em Lisboa. Apesar de ter sido escrito em 1953, o livro permaneceu inédito até este ano. Veja algumas fotos de Saramago na época em que escreveu o livro, junto com amigos e família:

Abaixo, um trecho do depoimento de Zeferino Coelho, amigo e editor de Saramago:

“Toda a gente sabe o que é uma claraboia, não é? Existe em muitos prédios que têm uma escada interior de acesso aos andares, está no cimo da escada, no telhado, para iluminar essa escada. O José Saramago imagina um prédio que tem rés-do-chão [térreo] e dois andares ou três, cada andar está ocupado por uma família, as famílias são todas completamente diferentes e ele conta-nos a história de cada uma delas.”

“Tem até um personagem que, de alguma maneira, é o Saramago debatendo-se com os seus próprios problemas e, nomeadamente, com um problema que ele nunca resolveu, que é o do optimismo e do pessimismo: se a humanidade é recuperável ou não e que atitude deve cada um de nós tomar, sentirmo-nos responsáveis por aquilo que se passa à nossa volta e intervir, ou acharmos que não temos nada a ver com isso e afastarmo-nos de qualquer intervenção na sociedade.” (SIC Notícias)

Semana setenta e oito

Os lançamentos da semana são:

Claraboia, de José Saramago
Terminado em 1953 e até agora inédito, Claraboia narra com aguda percepção psicológica o dia a dia dos moradores de um modesto prédio de apartamentos em Lisboa, e revela um Saramago em pleno domínio da narrativa.

Clara dos anjos, de Wander Antunes (Ilustrações de Lelis)
Esta adaptação em quadrinhos do célebre romance de Lima Barreto recria com fidelidade o Rio de Janeiro do início do século XX e traça um panorama das tensões entre as classes sociais e o preconceito vigente na época. Introdução de Lilia Moritz Schwarcz.

Os filhos da viúva, de Paula Fox (Tradução de José Geraldo Couto)
Na véspera de uma viagem à África, Laura recebe em seu apartamento um pequeno grupo: Clara, a tímida filha de seu primeiro casamento; Carlos, seu irmão gay, crítico de música fracassado; e Peter, um editor amigo da família. No bota-fora, à medida que o álcool vai fazendo efeito, emergem podres e interditos da família. Antes do fim dessa longa noite, porém, Laura faz uma revelação, e que lança novas luzes a tudo o que aconteceu até então.

A consciência das palavras, de Elias Canetti (Tradução de Herbert Caro e Marcio Suzuki)
Para Elias Canetti, prêmio Nobel de Literatura de 1981, escrever é um ato de enorme responsabilidade, como ele mesmo afirma com todas as letras no ensaio que fecha este livro. Daí o seu título, A consciência das palavras, sob o qual se acham reunidos ensaios sobre Confúcio, Georg Büchner, Tolstói, Kafka, Hermann Broch, Karl Kraus e Hitler, além de uma evocação da tragédia de Hiroshima por intermédio do diário de um de seus sobreviventes.

Um bom punhado de coincidências

Por Luiz Schwarcz

Lilia Moritz Schwarcz, José Saramago e Amós Oz.

Era a primeira vez que Amós Oz vinha ao Brasil. Eu já o encontrara em Frankfurt e o conhecera muito superficialmente. Mas tê-lo entre nós era uma grande emoção para mim. E emoção não faltou durante aqueles poucos dias que passamos juntos, entre Rio e São Paulo.

No Rio, teríamos pouquíssimo tempo. Mencionei alguns passeios que ele poderia fazer. Amós escolheu ir ao Museu do Pontal, para conhecer a coleção de arte popular montada por Jacques Van de Beuque. Não visitou nenhum ponto turístico. Encantou-se com o lugar que depois viria a encantar também Saramago, e influenciar o final de A caverna.

Em São Paulo, Oz deu uma palestra emocionante, num lugar estranhíssimo. Não sei por que cargas d’água resolvemos fazer seu evento num cinema, justamente na rua Augusta, no então, e já meio abandonado, Shopping Vitrine. Amós falou de improviso, em pé, em frente à tela apagada, ou à cortina que a cobria — não me lembro mais. Num certo momento refletiu sobre o silêncio e sobre o tempo, temas sempre presentes em suas obras.

No dia seguinte, José Saramago chegaria em São Paulo, com Pilar. Os dois escritores se admiravam muito. Saramago já era muito popular naquela ocasião em Israel. E Oz, bastante reconhecido em Portugal. A única chance de promover um encontro entre os dois seria na hora do almoço, no dia da partida de Amós. Organizamos um almoço em casa, só os dois casais de escritores, a Lili e eu. Não havia língua comum entre eles: Saramago não falava inglês; Oz não entendia francês. O jeito foi contratar dois intérpretes: Lili e este que vos fala.

No meio da conversa Saramago começou a refletir sobre o tempo. Era a minha vez de traduzir. No meio da tarefa, olhei para a Lili e, boquiabertos, notamos que o escritor português repetia exatamente, quase que com as mesmas palavras, a reflexão que seu colega israelense desenvolvera na noite anterior. Não preciso ressaltar que um não tinha como saber o que o outro dissera. No final do almoço, Nilly Oz tirou fotos dos dois escritores e de todo o grupo.

Essa coincidência se repete de certa maneira esta semana com a comemoração dos 25 anos da Companhia. Saramago, infelizmente, não está mais entre nós para poder participar pessoalmente das festividades. Era um bom amigo pessoal meu, com quem eu não concordava em muitas ocasiões, mas boas amizades podem se alimentar até de discordâncias. Ao decidir fazer algumas palestras para celebrar o aniversário da editora, quis escolher algum escritor que fosse, como o Saramago, também um amigo especial. O nome de Amós foi o primeiro da lista. E sua resposta não podia ser mais positiva. Pediu uma semana para pensar, e em uma semana recebemos o seu sim.

Ao lerem esta crônica a festa dos 25 anos da editora já terá ocorrido. Agora me preparo para a emoção que está por chegar, quando vou ouvir Amós Oz falar no último palco brasileiro que Saramago visitou em vida. A viagem do elefante foi lançado mundialmente no Brasil, com um evento no teatro do SESC Pinheiros, que José converteu em um ato de homenagem a seus leitores brasileiros, e talvez também para nós, seus editores. É lá também que Amós Oz falará, nesta quarta — ou melhor, a esta altura, onde Amós Oz já terá falado para um público de aproximadamente mil pessoas.

Para quem acha que as boas coisas da vida surgem, em grande parte, por meio de coincidências, não há do que se queixar.

P.S.: Para coroar a série de coincidências, cito mais duas: esta semana lançamos O monte do mau conselho, um livro do início da carreira de Oz. Junto com ele foi às livrarias Claraboia, segundo romance de Saramago, cuja publicação o autor pediu que fosse feita apenas depois de sua morte.

P.S. 2: Chegamos à celebração final de nosso aniversário com dois livros no topo das listas de mais vendidos. As esganadas, de Jô Soares, e Steve Jobs, de Walter Isaacson. Mais uma coincidência feliz.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

Semana setenta e sete

Os lançamentos da semana são:

Rock’n’roll e outras peças, de Tom Stoppard (Tradução de Caetano W. Galindo)
Tom Stoppard é uma das vozes mais importantes do teatro europeu pós-Beckett. Longe de ser um total desconhecido por aqui, o autor, responsável pelo roteiro de Shakespeare apaixonado, entre outros, ainda não tinha sido traduzido no Brasil. Com uma seleção de peças que cobre as características mais importantes e mais renovadoras de cada fase da produção de Stoppard, o volume apresenta desde as releituras satíricas dos clássicos e da história (como em Rosencrantz e Guildenstern morreram, que reencena o Hamlet de Shakespeare pelos olhos de dois personagens menores; e em Pastiches, que revê o enredo de A importância de ser prudente, de Oscar Wilde, com um elenco composto por Lênin, Tristan Tzara e James Joyce), passando pela produção mais vanguardística (O verdadeiro inspetor Cão, O Hamlet de Dogg, o Machbeth de Cahoot), chegando aos momentos mais “ortodoxos” da produção dos anos 1980 (aqui representada pela brilhante De verdade) e finalmente à fase lírica e pessoal mais recente do autor (representada por Arcadia e pela própria Rock ‘n’ roll).

Formação do Brasil contemporâneo, de Caio Prado Jr.
Neste livro, Caio Prado Jr. volta ao passado colonial da sociedade brasileira para entender os impasses do presente, e acaba por concluir que aquele permanecia vivo em alguns de seus traços fundamentais. A formação da nação é interpretada como parte do sistema colonial, modo de pertencimento ao capitalismo mercantil que teria conferido unidade, ainda que problemática, à vida social que se veio formando desde a colônia. O autor afirma que o processo de colonização acabou por permitir que se esboçasse no Brasil uma nacionalidade diferente daquela de modelo europeu, e até relativamente nova em termos sociais e culturais, sem que isso significasse autonomia para a sociedade nascente, mesmo depois da independência política. Apresentando nossa formação em longa duração e como parte de um todo maior, a abordagem historiográfica inovadora de Formação do Brasil contemporâneo conferiu ao livro o posto de um dos poucos clássicos incontestes da historiografia brasileira no século XX.

O último da tribo: a epopeia para salvar um índio isolado na Amazônia, de Monte Reel (Tradução de Marcos Bagno)
Um segredo bem guardado da floresta amazônica foi descoberto em 1996: o homem mais solitário do mundo. Avistado em Rondônia — um lugar que carrega a triste fama dos conflitos entre madeireiros e indígenas —, percebeu-se que era preciso conhecer esse homem de perto para criar uma área garantindo a sua proteção. Mas a dificuldade de contato com o índio extremamente arredio não é o maior obstáculo que a expedição composta de sertanistas e pessoas ligadas à Funai precisaria enfrentar. O verdadeiro pesadelo são os fazendeiros e seus advogados pouco idôneos, os deputados ditos desenvolvimentistas e o emaranhado burocrático dos órgãos oficiais de Brasília. Narrada como um thriller que tem como pano de fundo a selva amazônica, esta reportagem remonta os passos incríveis dessa saga para proteger a riqueza da floresta e o que talvez seja o último resquício de uma cultura prestes a ser extinta.

Chatô: o rei do Brasil, de Fernando Morais (Nova edição econômica)
Dono de um império de quase cem jornais, revistas, estações de rádio e televisão — os Diários Associados — e fundados do Masp, Assis Chateaubriand, ou apenas Chatô, sempre atuou na política, nos negócios e nas artes como se fosse um cidadão acima do bem e do mal. Mais temido que amado, sua complexa e muitas vezes divertida trajetória está associada de modo indissolúvel à vida cultural e política do país entre as décadas de 1910 e 1960. Chantagista, crápula, escroque, patife, ladrão tarado — de tudo o que se pode imaginar de ruim ele foi chamado (poucas vezes pela frente, é verdade) por críticos e inimigos. Mas palavras de alta voltagem como empreendedor, pioneiro, visionário, gênio e mecenas também se usaram, torrecialmente, para tentar defini-lo. Como bem mostra Fernando Morais, em nenhum dos dois casos isso se dá sem razão. Chatô, o rei do Brasil, um dos maiores best-sellers dos anos 1990 no Brasil, é obra de grande esforço jornalístico para retratar, como equilíbrio e rigor, um personagem tão complexo quanto fascinante.

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Além destes, também foram lançados mais 4 volumes da Coleção Prêmio Nobel. São títulos de autores que receberam o prêmio Nobel de Literatura, em edição limitada de capa dura e revestida de tecido.

Alegria em dobro

Por Luiz Schwarcz

Jorge Amado e José Saramago na Bahia. (Fotos por Zelia Gattai, Acervo de Casa de Jorge Amado)

Blog tem destas coisas. Eu terminei de postar o texto anterior e me lembrei que esqueci de alguns detalhes. O mais importante deles é o traje do José que aparece na foto em questão. Saramago foi despreparado para uma celebração baiana, em pleno mês de fevereiro. O calor era tremendo e o nosso futuro Nobel só tinha calças compridas na mala, acompanhadas de camisas sociais. Quando chegamos de Brasília, onde José recebera das mãos de Fernando Henrique Cardoso o Prêmio Camões, e descarregamos nossas malas no pequeno hotel, que ficava no Morro da Paciência, atual casa de Gal Costa, vi Saramago se preparar para a tal feijoada, com belos sapatos, camisa e calça sociais, e tudo pelo social, dali para cima.

Demos boas risadas, Lili e eu, ao vê-lo, suando em bicas, já antes da festa começar. Fui para o quarto, catei meu calção e uma camiseta branca e ofereci ao nosso escritor. E também um par de havaianas, as primeiras a calçar um Nobel, talvez. Na casa de Caetano chegavam os futuros anfitriões, escolhidos por Jorge Amado, para os próximos almoços, além de personagens da vida cultural/pop baiana, como Gilberto Gil, muito calado na festa (andava muito interessado em conversar sobre ciência, seu xodó na época), Carlinhos Brown e muitos outros. Se não me engano Arnaldo Antunes esteve lá também.

Calazans Neto, o grande gravurista baiano, membro honorário do clã de artistas que produzia maravilhosas xilos, muitas delas inspiradas na obra amadiana, estava presente, e encabeçava a lista de anfitriões das casas que visitaríamos nos dias que se seguiram. Sua cozinheira era também uma artista, e nunca vou me esquecer da cara de José lambendo os beiços com os quitutes baianos da casa de Calazans. Carybé, outro dos artistas do tal clã, foi presença constante em todas as festividades. Sua simpatia era contagiante. Afro-argentino-baiano, também filho de Oxossi, inspirava em Jorge piadas carinhosas, e vice-versa. Era comovente a amizade dos dois, escritor e artista, que iluminaram-se mutuamente durante tantos anos.

No dia que Dadá foi escalada por Jorge e Zélia para cozinhar para todo o grupo — e fez deliciosas moquecas cheias de frutas e peixes —, fomos ao ateliê de Carybé e, num determinado momento, resolvemos presentear José e Pilar com uma aquarela. Surpreendemo-nos ao notar que José e Pilar haviam feito o mesmo, comprando outra como presente para nós. A esposa de Carybé perguntou gentilmente se permitiríamos que as tais aquarelas fossem exibidas numa exposição que se daria em Sevilha ou Córdoba, com o que concordamos imediatamente, ainda mais devido às origens andaluzes de Pilar. As pinturas nos seriam enviadas logo após. Nunca as recebemos, e José perguntou por elas para mim, sempre que esteve no Brasil.

O almoço no Tempero de Dadá, então no Pelourinho, foi tão tipicamente baiano que até o escritor local se irritou com a demora. Depois de horas a comida chegou deliciosa, mas antes disso Jorge Amado já havia dito a Dadá:

— Menina, eu sou baiano, mas a demora está demais até para mim. Até para os padrões do Caymmi essa espera está longa demais.

Foi curiosa a conversa de José e Jorge sobre o Prêmio Nobel, até então nunca concedido a um escritor de língua portuguesa, enquanto esperavam uma das refeições, nos banquetes daquela semana. Jorge se declarou eleitor de Saramago, se fosse da Academia Sueca. Saramago retrucou dizendo que fazia questão de ser o primeiro convidado à festa quando o prêmio fosse concedido ao amigo brasileiro. Falou que receberia Jorge Amado em Lanzarote para uma semana de festividades, com comida Ibérica de primeira qualidade. Acho que disse que seria difícil superar Jorge Amado como anfitrião, o que atesto e assino embaixo. Mesmo assim, divirto-me imaginando os festejos ainda mais fartos, do Prêmio concedido à Saramago, na Bahia com Jorge vivo – o que, todos sabemos, infelizmente não aconteceu. E o troco, alguns anos depois, Amado Nobel, e nós nos empanturrando com bacalhaus, paellas, cabritos, acordas…

A alegria em dobro, ou muito mais.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.