josé saramago

Semana dezesseis

Os lançamentos desta semana foram:

68 contos de Raymond Carver (Tradução de Rubens Figueiredo)
Esta coletânea reúne grande parte dos contos de Raymond Carver, um dos maiores ficcionistas americanos do século XX. Dispostas em ordem cronológica, as narrativas acompanham a trajetória do escritor, cheia de percalços pessoais, crises familiares e problemas relacionados ao alcoolismo e à falta de dinheiro. Leia aqui no blog um dos contos da coletânea.

Ponto final, de Mikal Gilmore (Tradução de Oscar Pilagallo)
Mikal Gilmore, veterano da revista Rolling Stone, retrata os anos 1960 em perfis reveladores dos grandes criadores do rock e adjacências, como Bob Dylan, John Lennon, George Harrison, Bob Marley, Jim Morrison e Johnny Cash. O autor consegue dizer algo de novo sobre cada um deles, proeza que se deve ao método de investigar a vida à luz da obra, e vice-versa, no melhor estilo do jornalismo cultural americano.

Linguagem de sinais, de Luiz Schwarcz
Luiz Schwarcz realiza sua segunda incursão no mundo da literatura adulta em volume que reúne onze contos (ou seis contos e um quase romance) dedicados à memória e à ancestralidade. A invocação de episódios autobiográficos marcantes — como o estranho caso do idoso desmemoriado num avião para Lisboa, deflagrador do livro — expõe a intimidade inerente ao tratamento ficcional da lembrança.

As palavras de Saramago (Organização e seleção de Fernando Gómez Aguilera)
Seleção de declarações à imprensa que aborda três grandes eixos temáticos: infância, obra e política. As palavras de Saramago revela o grande inovador do romance contemporâneo e sua relação com a literatura, mas também o homem Saramago, que nunca se furtou ao dever de se manifestar sobre as questões políticas de seu tempo, de desconfiar das ideias prontas e convencionais, e de protestar contra as desigualdades e injustiças do mundo.

São Jorge dos Ilhéus, de Jorge Amado
Na década de 1930, Ilhéus vive uma era de ouro sustentada pelas exportações de cacau. Jorge Amado narra com destreza esse momento de efervescência, entrecruzando os destinos trágicos e cômicos de coronéis e prostitutas, exportadores e artistas de cabaré, poetas e vigaristas.

O nascimento do dragão, de Marie Sellier (Ilustrações de Catherine Louis e Wang Fei; Tradução de Fernanda Mendes)
Na China, o dragão não é simplesmente um animal fabuloso. Desde que o primeiro imperador, Qin Shi Huang, associou-se à sua imagem, o dragão foi um símbolo da realeza, do país, de seu povo, de sua força. Hoje ele representa a paz, e por isso é festejado a cada Ano-Novo. A edição, bilíngue, conta a lenda chinesa do nascimento do dragão é acompanhada de belas ilustrações e anexos sobre a importância dos carimbos e da caligrafia na China.

Links da semana

Acima você vê, em primeira mão, uma foto do boneco de Xu, personagem de Cachalote, que está sendo produzido pelo estúdio Factotum para a exposição de originais da graphic novel que ocorrerá em setembro em São Paulo. A Aline, do blog Godot não virá, resenhou a hq de Daniel Galera e Rafael Coutinho.

O Rafael, do blog O Espanador, resenhou O castelo nos Pirineus, de Jostein Gaarder. Ele também falou sobre o encontro que aconteceu segunda-feira entre Mia Couto e Agualusa na Livraria da Vila.

Apesar das constantes manchetes sobre a morte do livro, a Veja on-line fala sobre as tecnologias que estão ajudando a melhorar o livro impresso.

O José Maurício, do blog Kínesis, leu Nove noites, de Bernardo Carvalho. No blog O Café, a Amanda fala de Bordados, de Marjane Satrapi, enquanto Jonas resenhou Uma solidão ruidosa, de Bohumil Hrabal, para o Scream & Yell.

Duas pessoas resenharam A vitória de Orwell, de Christopher Hitchens: o Thiago, do blog Os que cheiraram Cocteau, e a Anica, do Meia Palavra.

Não me abandone jamais, de Kazuo Ishiguro, ganhou adaptação para o cinema com participação de Keira Knightley e Carey Mulligan, e um novo pôster do filme foi divulgado.

jornal argentino Página 12 fala sobre Blanco noturno, primeiro romance de Ricardo Piglia em treze anos, e o site Geekologie mostra o que aconteceria se eventos históricos fossem usuários do Facebook.

No Meia Palavra, a Taize resenhou O único final feliz para uma história de amor é um acidente, de J.P. Cuenca. O lançamento em São Paulo do livro foi marcado para 2 de setembro.

Em entrevista a Mario Gioia, o crítico Lorenzo Mammì analisa os ensaios de Giulio Carlo Argan reunidos no livro A Arte Moderna na Europa.

No portal InfoEscola, a Ana Lucia resenha Invisível, de Paul Auster. A Marina resenhou em seu blog o clássico infantil Píppi Meialonga, de Astrig Lindgren, e Wellington fala sobre a obra de José Saramago no Digestivo Cultural.

Para terminar, o Alessandro, do blog Livros e afins, dá doze dicas para facilitar o hábito de leitura, e o Portal Exame mostra os detalhes de catorze leitores de e-books, para que você possa compará-los.

Clássicos em Paraty

Para celebrar a chegada dos primeiros títulos do selo Penguin-Companhia das Letras às livrarias, a Companhia das Letras criou um espaço de leitura e atividades culturais na 8ª Festa Literária Internacional de Paraty.

Na Casa dos Clássicos Penguin-Companhia das Letras, localizada na Rua do Comércio, nº 8 (próximo à Tenda dos autógrafos), os quatro livros de estreia da Penguin-Companhia estarão disponíveis para consulta, e a leitura deles poderá ser feita em charmosas e confortáveis espreguiçadeiras.

Em diálogo com a programação oficial da FLIP — que nesta edição realizará uma homenagem ao escritor José Saramago com a exibição de trechos e cenas inéditas não incluídas no documentário José & Pilar —, haverá na Casa dos Clássicos um espaço dedicado ao autor, com fotos e um livro de recados que será enviado a Pilar, esposa de Saramago.

Na sexta-feira, dia 6, a partir das 21h, um dos convidados da Festa, o escritor João Paulo Cuenca, irá autografar o seu novo livro: O único final feliz para uma história de amor é um acidente, da coleção Amores Expressos.

A editora também preparou um guia com endereços clássicos de Paraty — bares, restaurantes, ruas e hotéis que fizeram história na cidade. Todos estão sinalizados com placa e numeração indicadas no “Guia Clássicos de Paraty 2010”, que você pode retirar lá na Casa dos Clássicos.

Se você vai para Paraty, nos faça uma visita. O horário de funcionamento é:

4 de agosto — das 12h às 20h
5 de agosto — das 10h às 12h
6 de agosto — das 12h à meia-noite
7 e 8 de agosto — das 10h às 20h

Jornal português homenageia José Saramago

O jornal português Público organizou uma homenagem a José Saramago, com cronologia, entrevistas e depoimentos de diversas pessoas. Entre elas estão Gonçalo M. Tavares, Fernando Meirelles e alguns parentes de Saramago. Abaixo você lê um trecho do texto do escritor moçambicano Mia Couto. Todos os depoimentos podem ser lidos no site do jornal.

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Universidade de Évora, 1999

O abraço estava mal distribuído. Ele abraçou-me. Eu fui abraçado. A razão dessa troca desigual não era apenas de ordem física. Eu estava preso pela timidez, vivendo um momento inusual, num território estranho. A pergunta de Zeferino Coelho, no dia anterior, ainda ecoava confusamente dentro de mim:

– Você importa-se que José Saramago, depois da entrega do seu prémio, faça um debate público consigo?

O editor da Caminho conhecia antecipadamente a minha resposta: ter Saramago na cerimónia de entrega de um prémio era a impossível cereja por cima de um improvável bolo. Embalsamado num fato escuro, fui subindo a escadaria do edifício da universidade. E lá estava ele, no último degrau, com seu porte nobre, abraçando-me logo à chegada como se fosse ele o patrono do prémio. Para mim, aquele abraço era uma recompensa maior.

O programa era breve e, num instante, se iniciou a anunciada conversa entre mim e ele. O anfiteatro estava cheio, no pódio estava o Presidente da República de Portugal. A um certo momento, em tom paternal mas ríspido, Saramago admoestou-me: eu que deixasse essa “coisa” da biologia e me dedicasse apenas à escrita. Lembro-me do seu tom, peremptório: “Já te disse, a escrita pede tudo, não aceita partilhas.”

Mas eu sabia que, também para ele, essa entrega à literatura não o ocupava com exclusividade. Saramago foi um cidadão do mundo, entregue a causas e debates, desdobrando-se em viagens e semeando presenças. Recordo ver uma fotografia sua, já doente e antevendo o fim, acarinhando Aminatou Haidar, activista pela independência do Sara Ocidental. Em greve de fome, Aminatou está frágil, quase desfalecida. Não menos frágil está José Saramago. Mas as mãos de José e de Aminatou amparando-se mutuamente geram a força de um infinito abraço.

Galeria José Saramago

José Saramago e Jorge Amado na casa de Caetano Veloso (ao fundo).

Acima e abaixo: Jorge Amado e José Saramago na Bahia. (Fotos por Zelia Gattai, Acervo de Casa de Jorge Amado)

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