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Mate minha mãe

Por Érico Assis

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Jules Feiffer aparece em Mad Men. Ele está no antepenúltimo episódio da quinta temporada, compondo um trio que avalia Megan Draper para o elenco da peça Pequenos Assassinatos. Não é Feiffer em pessoa que aparece no episódio. O ator escolhido tem a cara do Feiffer em 1967, entre os trinta e os quarenta, época em que o episódio se passa. O personagem não é nomeado nem tem falas. Sua aparência entra ali como um detalhe, um easter egg para quem souber quem é o autor de Pequenos Assassinatos.

O Feiffer desta época estava começando a carreira de dramaturgo. Viria a escrever mais umas peças e alguns roteiros de cinema. Já tinha uma vida inteira nos quadrinhos: aos 16 anos, fora ao estúdio de Will Eisner para dizer que não só lia e admirava as HQs do mestre, mas que também as estudava como um nerd. Começou a carreira lá, tendo inclusive escrito alguns Spirit creditados a Eisner. Uma década depois, ele começou uma tira no Village Voice que viria a durar mais de quarenta anos, em meio às peças de teatro, aos filmes, aos livros para crianças e para adultos, a um Oscar aqui, um Pulitzer ali…

Feiffer sempre foi uma figura esquisita nos quadrinhos dos EUA. Seus desenhos rabiscados não tinham o rebuscamento mais claro que se pedia nas revistas, seu humor não era óbvio nem infantil o bastante para as tiras de jornal (embora ele tenha tido uma tira de curta duração, chamada Clifford, nos anos 50). Foi o que o levou a publicações alternativas como o Village e a um público cult. Alguém deve ter dito que ele devia aproveitar o ouvido para diálogos e o talento nos cortes de cena fazendo roteiros. Foi um ótimo conselho: Feiffer ganhou mais reconhecimento em outras áreas, e provavelmente mais dinheiro, do que teria ganho se ficasse só nas HQs.

Talvez se pense que Mate minha mãe, escrita, desenhada e lançada pelo Feiffer octagenário — no momento, ele está com 86 — seja misericórdia dos editores com o velhinho. Hogwash, berraria um de seus rabiscos. Os diálogos afiados continuam à frente dos colegas de profissão. Os desenhos talvez tenham até ficado melhores. Feiffer tem fôlego para inventar algumas coisas: dê uma olhada no design esperto da leitura da página 108.

Mate minha mãe é vendida como primeira “graphic novel” de Feiffer, usando o termo que seu ex-chefe Eisner popularizou. Fãs mais atentos do autor reclamaram que ele já havia feito muita coisa com cara de graphic novel, como Passionella e Tantrum — a primeira, ainda nos anos 50. Em entrevistas, o autor se mostrou mais uma vez afiado: seja ou não sua primeira graphic novel, ele ressalta que é seu primeiro noir.

A tela plana de 65 polegadas, os blu-rays, o canal TCM e o botão de pause aparecem na sessão de agradecimentos de Mate minha mãe. Nomes de personagens e de ruas, cenas e diálogos fazem referências a momentos clássicos de Relíquia Macabra, Pacto de Sangue, a Raymond Chandler, Joan Crawford e Billy Wilder. Assim como nos filmes e livros noir, os personagens mais fortes não falam to os outros, mas at os outros. Não são falas, são disparos.

Embora não se associe o noir tanto às trilhas sonoras, Mate minha mãe tem muita música. Feiffer queria usar as letras de Duke Ellington, mas seu editor disse que ia custar uma fortuna. Então ele criou músicas por conta própria. Como tradutor, defendi que elas ficassem em inglês para reproduzir aquela dissonância dos filmes dos anos 40, quando a música começa e a dublagem é substituída pela voz original. Para a referência ficar mais evidente, pensei em sugerir legendas como as de cinema sob os quadros da HQ, com a tradução literal das músicas. Mas ia atrapalhar o desenho e podia causar mal entendidos. (As traduções literais de todas as músicas estão no final.)

Feiffer já disse que quer fazer dois outros álbuns com personagens de Mate minha mãe. O primeiro será um prelúdio, nos anos 30, com policiais e investigadores particulares; o segundo se passa depois de Mate, e trata da época da lista negra em Hollywood. Provavelmente vai terminar os dois perto dos 90. No ano passado, ele disse à Mother Jones: “Artista não costuma se aposentar. O grande Al Hirschfeld morreu aos 99 com as mãos tremendo porque queria desenhar. Eu fui quem fiquei mais surpreso com a diversão que tive trabalhando em Mate minha mãe. E é nisso que eu vou me concentrar daqui em diante, dependendo do quanto tempo me resta até eu começar a babar e cair na escada.”

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Semana duzento e sessenta e três

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O livro das semelhanças, Ana Martins Marques
Esta nova reunião dos poemas de Ana Martins Marques parece ser a culminação de um dos caminhos mais relevantes da lírica brasileira dos últimos anos. Estão aqui, com uma força que já podia ser antecipada em seus livros anteriores, peças que versam, sobretudo, a respeito da tentativa — sempre temerária, mas também desafiadora — de recuperar o mundo e as coisas por meio da palavra. Porém a autora sabe que vivemos tempos fraturados, em que experimentamos aquilo que poderia ser nomeado como uma certa falência da mimese, pois traduzir o real literariamente é deparar com o abismo que se interpõe entre o mundo sensível e a folha em branco. E Ana desconfia do quanto isso tem de frágil, de problemático — e de igualmente fascinante. Dividido em quatro seções (“Livro”, “Cartografias”, “Visitas ao lugar-comum” e “O livro das semelhanças”), esta obra desperta o leitor para o prazer sempre iluminador e sensível de uma das vozes mais originais da poesia brasileira.

Quadrinhos na Cia.

Mate minha mãe, Jules Feiffer (tradução de Érico Assis)
Somando-se a uma carreira lendária que inclui um Pulitzer, um Oscar, um Obie e outras homenagens da National Cartoonist Society e do Writers Guild of America, Jules Feiffer apresenta agora sua primeira graphic novelMate minha mãe é uma vibrante celebração do cinema noir e dos quadrinhos que embalaram sua juventude. Bebendo de Spirit — HQ em que Will Eisner trabalhou nos anos 1940 —, nas obras de Hammett, Chandler, Cain, John Huston e Billy Wilder, e ainda repleto do humor rápido de Feiffer, o livro conta a história de cinco mulheres formidáveis ligadas fatalmente por um detetive decadente e beberrão. Nesta graphic novel, Feiffer injeta energia e vitalidade no gênero.