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O livro que mudou tudo

Por Camila Leme e Julia Bussius


Sheryl Sandberg com participantes da comunidade LeanIn.org

Quando recebemos o manuscrito confidencial do livro de Sheryl Sandberg, diretora de operações do Facebook, não dava para imaginar o efeito que ele teria sobre nós. O material chegou numa sexta-feira e tivemos o fim de semana para a leitura. Na segunda de manhã, concluímos em uníssono: era um livro incrível! Começamos a citar trechos e concordar com tudo que uma dizia para a outra. Fizemos uma reunião para mostrar ao resto da editora como aquela era uma aposta que deveríamos fazer. De início, nem todos partilharam do nosso entusiasmo, mas não tinha jeito: estávamos determinadas a brigar pela Sheryl. Mandamos à agente uma oferta que transmitia nossa enorme empolgação e os planos para divulgar o livro. Deu certo. Sheryl seria publicada pela Companhia das Letras!

Corremos contra o tempo depois disso. Nossa publicação deveria ser quase simultânea à edição americana e mobilizamos um time de profissionais que também se identificou com o livro e trabalhou pesado por ele. No meio-tempo, tivemos inúmeras idas e vindas para decidir o título (Lean in é uma expressão difícil de traduzir, e significa algo como “se atire”, “se debruce”), mas finalmente chegamos ao Faça acontecer.

Mas por que este livro é tão incrível? É incrível porque aponta os problemas e indica as possíveis soluções para uma questão extremamente importante: a posição das mulheres no mundo do trabalho. Ainda que, em teoria, as mulheres possuam os mesmos direitos que os homens, a prática é bem diferente. Em Faça acontecer, partindo de suas próprias experiências, Sheryl realiza um diagnóstico preciso das mulheres no mundo do trabalho e demonstra, com dados concretos (inclusive sobre o Brasil), que elas ainda ocupam uma posição secundária em relação aos homens. Isso se evidencia nas esferas mais altas das empresas, das universidades, dos governos, onde o número de mulheres é bastante inferior ao de homens no alto escalão, impossibilitando uma representatividade mais igualitária. Olhamos ao redor e vemos que os homens ainda ganham mais, são mais reconhecidos, mais apreciados e mais estimulados a crescer em suas profissões.

Sheryl vem despertando uma discussão que parece estar ganhando maior relevância: afinal, como funciona a questão de gênero no mundo do trabalho?

Enquanto aguardamos ansiosamente a chegada do livro por aqui, acompanhamos a grande polêmica na imprensa internacional desde que ela começou a divulgar seu projeto (que, além do livro, envolve a criação de uma comunidade online em que mulheres e homens debatem questões do trabalho). Sheryl vem sendo criticada por não falar a todas as mulheres, por tentar ensinar outras a ser como ela e porque, sendo tão bem-sucedida, estaria numa posição relativamente fácil. Ficamos pensando: um livro de Warren Buffett destinado ao público de negócios, que gostaria de tomar Buffett como exemplo, não se legitimaria justamente pelo sucesso que ele atingiu? Há um argumento de Sheryl que poderia explicar essa diferença no tratamento: mulheres bem-sucedidas costumam, em geral, ser malquistas. Nunca vemos um homem ser desmerecido por seu sucesso na carreira; ao contrário, todos querem ouvir o que ele tem a dizer. Uma mulher não é tratada com a mesma generosidade.

É por isso que apostamos neste livro. Porque essa questão precisa ser debatida. Precisamos entender por que as mulheres ainda são diminuídas e se sentem assim, por que têm menor valor que seus pares do sexo masculino, por que ainda recebem salários mais baixos e têm menos oportunidades de promoção, por que continuam responsáveis por quase tudo que diz respeito à casa e aos filhos.

Durante o processo de edição, vários colegas queridos leram o livro. Aqui estão as vozes que nos ajudaram a fazer acontecer:

“Simplesmente sensacional! Divisor de águas na vida — no trabalho e em casa.”— Lucila Lombardi, departamento editorial

“Pena que Faça acontecer não existia no começo da minha carreira.” — Elisa Braga, diretora de produção

“Esclarecedor e cumpre sua proposta: encorajar as mulheres!” — Cintia Oliveira, departamento comercial

“Sheryl comprova que diferença não tem nada a ver com desigualdade.” — Livia Deorsola, departamento editorial

Faça acontecer reforça a autoconfiança feminina, é possível sim ser mulher e ser bem-sucedida.” — Fabiana Roncoroni, departamento de produção

“Amei ler o livro da Sheryl Sandberg e descobrir que até mesmo ELA, COO do Facebook, enfrentou tantas dificuldades. Embora exista uma série de problemas que as mulheres encaram ao entrar no mercado de trabalho, Sandberg aborda os que, por preconceito, acabam sendo impostos por nós mesmas. Foi uma leitura muito animadora, que aponta mudanças de atitude que podem nos levar muito longe. Apesar dos muitos desafios à frente, esse foi definitivamente um dos livros mais encorajadores que já li.” — Quezia Cleto, departamento de direitos estrangeiros

Faça acontecer teve efeito imediato sobre as mulheres da Companhia das Letras. Foi a primeira vez que vi todas defenderem um livro em que acreditavam com tanta segurança. Sabiam de sua relevância, então fizeram acontecer.” — Ligia Azevedo, preparadora de texto de Faça acontecer

Faça acontecer é leitura indispensável para qualquer pessoa no mundo do trabalho, homens e mulheres. O livro os ajudará a serem profissionais mais justos, com objetivos claros e responsáveis por seus atos. Melhores pessoas, enfim.” — Otávio Marques da Costa, publisher da Companhia das Letras

“Sheryl é uma guerreira: nos lembra que podemos ser mulheres, sim, e perfeitamente profissionais, que nada nos impede de ser femininas (pintar a boca de vermelho se quisermos), e ainda assim recusar com todas as forças o sexismo, ultrajante. Que temos todos de ser feministas, homens e mulheres, um feminismo alheio a todos os estigmas que essa palavra carrega — para acabar de vez com a desigualdade entre os gêneros, que infelizmente ainda é regra no nosso dia-a-dia e no nosso trabalho.” — Sofia Mariutti, departamento editorial

“O livro é muito inspirador. É incrível estar numa posição tão diferente da de Sheryl e ainda assim me identificar tão claramente com as situações que ela descreve. Fiquei realmente impressionada.” — Marina Pastore, departamento de negócios digitais

“Esse livro é para as mulheres que estão assumindo uma nova posição social no mundo. É também para os homens porque eles trabalham com mulheres, são casados com mulheres e terão filhas que terão de lidar com as questões expostas no livro. E, por último, para todos os leitores que têm interesse nessa nova sociedade que está se formando.” — Vanessa Ferrari, departamento editorial

“O texto de Faça acontecer é muito bem embasado em pesquisas. Um livro para ser lido por todas as pessoas que ocupam uma posição de comando à frente de uma empresa.” — Márcia Moura, revisora de Faça acontecer

Faça acontecer me surpreendeu positivamente. Logo que iniciei a leitura pensei ser uma típica autoajuda, mas conforme avançava percebi que se trata de uma obra com muitos dados científicos, que traz informações comprovadas, tornando-a muito mais rica. Impressionante também é a quantidade de dados relacionados ao Brasil. A autora busca, sim, ajudar a profissional, a mulher em geral, porém a obra tem uma preocupação social muito importante — e foi feita por uma das mulheres mais poderosas do mundo!” — Renata Lopes del Nero, revisora de Faça acontecer

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres da Libéria

Por Julia Bussius


Leymah Gbowee comemora o prêmio Nobel junto com as mulheres liberianas.

Sabemos muito pouco ou quase nada sobre a Libéria, o país criado por escravos libertos americanos que retornaram à África. Mas quando o prêmio Nobel da paz do ano passado premiou uma iemenita e duas liberianas, ficamos nos perguntando quem seriam essas mulheres.

Pouco tempo depois do anúncio do prêmio, recebemos o original do livro com as memórias de Leymah Gbowee (Guerreiras da paz), a liberiana que mobilizou uma legião de outras mulheres em seu país na tentativa de acabar com a guerra civil que assombrava o país. E a tentativa deu certo: elas ajudaram a por um fim ao horror que o ditador Charles Taylor perpetuou durante treze anos sangrentos.

Li o relato de Leymah em uma sentada e fiquei  sem respirar. Diferente de muitas mulheres que passaram por guerras parecidas, ela conta que teve a sorte de não ter sido estuprada; e isso de modo algum torna sua história menos surpreendente ou menos trágica. A coragem de Leymah é algo fora de série.

Quando nem havia acabado o colégio, ela viu seus sonhos de estudar irem por água abaixo com a implosão da guerra civil. Sua família precisou se abrigar num campo de refugiados em Serra Leoa e só voltou depois de um bom tempo para uma Libéria totalmente destroçada. Leymah, que aos vinte e poucos anos já tinha quatro filhos, trabalhou primeiro na árdua recuperação dos meninos soldados mutilados. Eram os garotos recrutados pelos rebeldes à base de muito álcool e drogas e que haviam cometido as piores barbaridades imagináveis; mas, uma vez feridos, não serviam pra mais nada e se tornavam a escória da sociedade.

Depois dessa provação, ela trabalhou com as mulheres violentadas e aos poucos foi criando uma rede que uniu cristãs e muçulmanas num movimento em busca da paz. Leymah convenceu as mulheres a fazerem uma greve de sexo — uma das únicas armas femininas numa sociedade tradicional — para pressionar os maridos a também se mobilizarem contra a guerra.

As liberianas do movimento se vestiam de branco e iam todos os dias reivindicar a paz no centro da capital, Monróvia. Seu protesto foi tomando dimensões cada vez maiores e chegou aos ouvidos das Nações Unidas e outros órgãos internacionais, e até o ditador Charles Taylor teve que ouvir as mulheres e incluí-las no processo de negociação pela paz. Hoje, a Libéria é o único país africano a ser presidido por uma mulher, Elle Johnson Sirleaf, também vencedora do Nobel de 2011.

“A dinâmica do mundo mudaria se mais mulheres estivessem no poder”, disse Leymah numa entrevista ao jornal O Globo, “é que a maioria das tragédias ocorre devido a problemas de liderança. E nós mulheres somos mais conscientes das necessidades dos outros.”

No maravilhoso site TED: Ideas worth spreading, que é uma das coisas mais generosas na internet e veicula gratuitamente palestras de pessoas que têm muito a dizer, Leymah conta um pouco de sua história. De fato temos muito a aprender com as mulheres da Libéria.

 

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Julia Bussius é editora-assistente da Companhia das Letras.

Quem é quem na Companhia das Letras

Nome: Julia Bussius

Há quanto tempo trabalha na editora? Quase dois anos.

Função: Sou editora-assistente. Trabalho com o Thyago e cuidamos para que o livro “venha ao mundo”. Boa parte do trabalho consiste em falar com tradutores, preparadores, aparatistas, além de fechar os textos, acompanhar as provas etc.

Um livro: Os emigrantes, de W.G. Sebald

Uma citação ou passagem de livro: “a gente nunca sabe de ciência certa em que momento o caminho dá uma virada e para que estranhos lugares nossos passos nos encaminham.” (Bolaño, 2666)

Sua parte favorita do trabalho: Além de fazer os próprios livros, claro, o clima aqui no editorial é excelente. Trabalhamos muito, mas sempre damos boas risadas.

Por que você decidiu seguir essa carreira? Gosto de trabalhar com texto, e também de pensar a forma que ele ganha quando vira livro.